A entrevista (e a verdade): Lula entrega-se pela segunda vez. E o Brasil?

Como sabem os medianamente informados, o que está em jogo no Brasil é capital e vai muito além das fronteiras do país. Para citar apenas os dois itens mais importantes: ao menos 10 tri-lhões de dólares (provavelmente o dobro) enterrados embaixo da costa brasileira (as jazidas do Pré-sal);

Foto: Duplo Expresso

 

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

  • Diante da ausência geral de culhões, vamos lá nós do Duplo Expresso ficarmos “mal na foto”. De novo. Verdades inconvenientes. Ainda que impopulares.
  • Sim, este texto é uma porrada. Não só para ler mas também para escrever, acreditem. Serve apenas para quem ousa enfrentar, na medida do possível, os seus vieses cognitivos. Realidade obriga. E o tempo urge.
  • A pergunta – e a resposta – mais relevantes de toda a entrevista, garanto, é aquela em que Lula, feito refém, diz temer pelos seus filhos.
    Pano rápido.

Diante da ausência geral de culhões, vamos lá nós do Duplo Expresso ficarmos “mal na foto”. De novo. Verdades inconvenientes. Ainda que impopulares.

Anotações sobre os (curtos) trechos selecionados para divulgação pelos editores de Folha (de São Paulo!) e El País (da “imprensa OTAN”) até o momento:


(I) O ditame da “união”
(com traidores?!)

Na entrevista, Lula diz que no Sindicato em São Bernardo, diante da disputa entre os que queriam que ele resistisse e os que queriam que se entregasse, “escolheu” (ele, indivíduo, “soberano” e “consciente”) ir preso. “Para ficar perto de Moro” (!), disse ontem o ex-Presidente.

Como um encosto?

Um constrangimento moral?

Um peso na consciência (?) do Juiz para força-lo a dar uma guinada – fantástica – de 180 graus?

Num transatlântico?

Como sabem os medianamente informados, o que está em jogo no Brasil é capital e vai muito além das fronteiras do país. Para citar apenas os dois itens mais importantes: ao menos 10 tri-lhões de dólares (provavelmente o dobro) enterrados embaixo da costa brasileira (as jazidas do Pré-sal); o xadrez global entre o (decadente) Império Anglo-sionista e as (emergentes) potências eurasianas (China e Rússia). Ou seja, vai muito além de “indivíduos”. Quaisquer que sejam eles. Mesmo Lula. E mesmo o próprio Sergio Moro (sabidamente refém do dossiê Banestado, em posse dos gringos).

Relato de que decisão estratégica de tamanha monta – a entrega de Lula aos operadores locais dos EUA no Brasil –, algo cujas consequências vão muito além da pessoa dele, teria sido pautada por “expectativa” tão pueril, tão distante da realidade (“peso na consciência do Moro; tornar-me-ei um encosto”), não faz jus ao gênio político e à célebre intuição de Lula, que – para desespero dos adversários – nunca foi simplório ou ingênuo.

Parece que aqui, talvez com intenções nobres (“unidade”), Lula, pela centésima vez na vida (politicamente) magnânimo , resolve encobrir a pegadinha de que foi alvo naquele dia, no Sindicato, por parte dos agentes duplos no chamado “PT jurídico”. Sabidamente lá chegou José Eduardo Cardozo prometendo-lhe: “entra hoje, sábado, que o Sr. sai já na quarta-feira com habeas corpus do STF. Está tudo combinado”; “Já se não for, será decretada prisão preventiva por Moro (estou com ele na linha), em que não há (sic! Mentira!) possibilidade de habeas corpus por 90 dias”.

Atestaram essa versão no atopublicamente, ao menos:

(1) Gleisi Hoffmann (do alto de um carro de som, diante das câmeras do mundo);

(2) Lindbergh Farias (então em entrevista a Paulo Henrique Amorim e novamente nesta semana, em vídeo no seu canal no YouTube – já devidamente salvo por nós, é claro);

(3) a religiosa budista Monja Coen (em visita a Lula meses depois); e ainda

(4) João Pedro Stédile, do MST (ainda no Sindicato, em entrevista gravada).

A bem da verdade, atesta essa versão até mesmo o próprio Lula, que confirmou os termos da “baganha” apresentada ainda naquele fatídico dia. Isto é, Lula confirmou-a quando era ainda um homem livre. Antes de ser feito refém.


Confira:

a)


b)


c)


Elas por elas, fico com a versão do homem (ainda) livre, no lugar da do feito refém.

*

Sobre esse ponto ainda, o entrevistador escalado do El País, Florestan Fernandes Jr., veio seguir a mim, Romulus Maya, a Wellington Calasans e ao Duplo Expresso no Twitter nas semanas que antecederam a entrevista com Lula.

 


Não o conhecemos, mas supomos ser pessoa séria. Até pela responsabilidade diante do peso do nome que ostenta. Calasans sugeriu ao entrevistador três perguntas. Bastante diretas e reveladoras, na sua simplicidade binária:

 

Bem, para termos certeza ainda resta ver o remanescente da entrevista, quando sair (editada e) publicada…

Mas, a tirar pela divulgação ontem do relato – contrafático – dessa suposta “estratégia do encosto (em Sergio Moro!)”, pueril, as sugestões de Wellington Calasans não devem ter conseguido espaço.

Aliás, eu mesmo, com expectativas já bem reduzidas, alertava no Twitter dias atrás para o significado maior a tirarmos de eventual entrevista, finalmente… autorizada:

 

 

“Leão herbívoro” (apud Perón)…

*


(II) “STF: o último a errar” (errando do mesmo jeito)

Lula, inacreditavelmente, alude a esperanças de reparação no STF. Sim, no STF… o mesmo para onde deve ir, dentro em breve, João Gebran Neto (!). Aquele que no TRF-4, na qualidade de Relator, confirmou (em janeiro de 2018) a condenação imposta por Moro a Lula no caso do triplex, possibilitando a prisão do ex-Presidente. O mesmo Gebran que deve em breve confirmar, ainda no TRF-4, a segunda condenação de Lula, no caso do sítio. Aliás, o mesmo STF para onde se diz que seguirá, no devido tempo, o próprio Sergio Moro.

Ao aludir a tais “esperanças” no STF (mais que improváveis), Lula retoricamente elenca um rol de decisões contra-majoritárias da Suprema Corte brasileira, corajosas, que (à sua época!) contrariaram interesses com grande representatividade e poder de pressão. Citou: a autorização para pesquisas com células-tronco (em oposição a lobby da Igreja Católica); a demarcação da Reserva Indígena de Raposa-Serra do Sol (contra o lobby dos latifundiários); o reconhecimento do “casamento” gay (contra o lobby evangélico).

Bem, assim como a maioria de nós, Lula não esteve em outro planeta de 2016 para cá. Como asseverou, acertadamente, o próprio Lula (em grampo de Moro!), os Ministros do STF encontram-se “acovardados”. Isso, para dizer o mínimo. Prefiro ir ao cerne e falar em dossiês e chantagens.

Além de ir contra a sua própria constatação, passada, quanto ao “acovardamento” do Supremo, Lula não terá assimilado ainda, até aqui, o significado pleno do “entra no sábado e sai na quarta-feira, está tudo combinado no STF”?
(7/abr/2018, São Bernardo do Campo – SP)

Cenoura e porrete.

Good cop, bad cop.

A miragem no horizonte…
– … que nunca chegará.

Se for o caso dessa não assimilação por parte de Lula, um viés cognitivo de confirmação, ainda mais diante da falta de opções, poderia ajudar a explicar.

Mas que viés, hein!

Ainda? Nesta altura do campeonato?

Escalas: aqui, novamente, uma questão (geo!) política capital, com desdobramentos relevantes para o jogo global, fica reduzida a uma “disputa paroquial”.

Aliás, nem isso, não é mesmo?

Ficamos, tão somente, no campo da moral. E individual!

11 “consciências” (!)

– “Os Ministros do STF voltarão ou não a ter brio e dignidade?”

“Brio”…

“Dignidade”…

Parece pergunta retórica, certo?

E é.

Nela, saem da equação os 10 tri-lhões de dólares do pré-sal (provavelmente 20); China e Rússia vs. EUA; e, principalmente neste caso, os dossiês contra tais Ministros nas mãos de interesses estrangeiros.

A conta não fecha. Já é “viés de confirmação” demais. Se, no desespero, é o que restaria a Lula, a nós, mantidos de fora de eventuais (pseudo, meu Deus!) “barganhas” de bastidores, mas igualmente afetados pelas mesmas – enquanto nação! –, impõe-se resistir a tal escala de defeito de cognição.

Lula diz – e essa é a chamada do El País – que “(fica) preso 100 anos, mas não (troca) a (sua) dignidade pela (sua) liberdade”.

Decisão individual. De ordem moral.

(reparem: até na formulação)

Sobre a qual não apenas não nos atreveríamos a fazer juízo como ainda dedicamos empatia. Ninguém que não passou pelo mesmo pode dizer que faria diferente.

Mas, no entanto, decisão essa da qual – se impõe – tirar as consequências políticas:

– O Brasil pode, também ele, “ficar preso 100 anos”?

Os pobres e miseráveis do país – cujo número aumenta a cada nova sondagem – podem esperar… “100 anos”?

Aliás, a seguirem as coisas como estão, restará Brasil, enquanto nação soberana, daqui a… “100 anos”?

*


– O Sr. Já pensou que pode ficar aqui para sempre?

– Não tem problema. Eu tenho certeza que eu durmo todo dia com a minha consciência tranquila, que eu tenho certeza que o Dallagnol não dorme, que o Moro não dorme.

 


 


– Ora, sonífero melhor não há – para ambos, Moro & Dallagnol – do que saber que o dossiê Banestado seguirá enterrado!

Mas Lula profetiza na entrevista: nem que seja no dia da extrema-unção (!) Moro e Dallagnol vão confessar suas mentiras (!)

Essa “estratégia do encosto”, hein…

Sei não…

*


(III) Conto da Disney vs. realpolitik (global!)

Infelizmente – para todos nós – essa (pretensa!) “estratégia de Mandelização” (ou “do encosto”, se preferir) não dá conta do presente ataque transnacional, público-privado, ao Brasil e aos brasileiros.

Aliás, por falar em (pretensa!) “Mandelização”, cumpre lembrar que – para além da versão “Disney” – quem efetivamente tirou Nelson Mandela da cadeia não foram ONGs ou cirandas de condoídos abraçadores de árvore no Ocidente. Mas, sim, o comando de Fidel Castro, por rádio diretamente de Havana, pesado armamento soviético (incluindo os temíveis lançadores múltiplos de mísseis Katyusha, os chamados “órgãos de Stalin”) e muito sangue cubano e angolano derramado na selva, na histórica batalha de Cuito Canevale, em Angola. Da qual saíram irremediavelmente derrotados Estados Unidos, África do Sul (do Apartheid), Israel e UNITA (nessa ordem).

Ou seja: a liberdade de Nelson Mandela foi fruto de uma grande barganha – geo! – política, dos “cachorros grandes”, acertada em conferências internacionais como a do Cairo. A soltura de Mandela não adveio de desdobramentos em uma “disputa paroquial”, ou melhor, moral!, entre, de um lado, Bôeres “malvadões”, constrangidos, e, do outro, um “vovozinho bacana no xadrez”.

Vamos acordar?

Desligar o Netflix?

*

Sobre isso, ver histórico documentário produzido e exibido pelo (insuspeito) canal franco-alemão “Arte”, linkado em artigo nosso de 10/out/2017 (devidamente) intitulado “Angola: o dia em que Fidel Castro tirou Nelson Mandela da cadeia”.

*


 

(IV) “Sei muito bem que lugar me reserva a História” (?) – Lula (26/abr/2019)

 

Vemos que Lula, caso não seja apenas um recurso retórico, até hoje não teria assimilado a lição que – ousou – lhe ensinar o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (em 2010, no Planalto, e novamente em 2012, no Instituto Lula), ao ouvir a mesma colocação, pretensiosa (é preciso dizer):

 A ‘História’ é um livro em aberto, escrito pelos vencedores, Presidente.

Como registramos em artigo de 9/abr/2018, ou seja, há pouco mais de um ano, em se tentando repetir a História – seja como farsa, seja como tragédia (ou ambas) – corre-se o risco de mirar em Napoleão Bonaporte e acertar em…

– … Bokassa, “o breve”, Primeiro – e último – Imperador Centro-Africano (!)

Não sabe quem é?

Pois é:


Para que não restem dúvidas, são casos perdidos os artífices do “Plano B”, que opera pari passu com a (mera) promessa de “Mandelização”/ “Gandhização” – em vida. Notem bem: autoconcedidas tal qual a coroa imperial de Napoleão!

 

Cumpre registrar, contudo, que ao imperador francês – de quente sangue corso… – foi dado não apenas coroar a si mesmo, mas, o que é tão – ou mais – importante quanto, encomendar a tela que imortalizou tal ato ao pintor neoclássico Jacques-Louis David.

Ou seja: Napoleão era, também, o dono da “Globo”!

É preciso manter isso sempre em mente, para não mirar em Napoleão – ou Gandhi ou Mandela ou Martin Luther King ou … – e acertar em Bokassa I – e último! – do “Império (!) Centro-Africano”. Aquele que (também) quis – auto – transplantar titulação honorífica estrangeira. E que acabou, sim, inscrito na História… mas pelo ridículo:

 

Para salvarmos a Lula – e a nós próprios – precisamos gritar mais alto que as vozes dos bajuladores mal e bem-intencionados, que repetem ao Presidente que “ele já é enorme na História”. Gostemos ou não disso, Lula é o líder – incontornável – da resistência anti-imperialista nesta geração. É, portanto, preciso que também ele lute contra a auto-doutrinação e aceite a verdade:

– O único Davi esculpido em mármore de Carrara pelo mestre Michelangelo é aquele 1 em 100 que, contra todos os prognósticos, venceu o gigante!

 

Afinal, a História é escrita – mal ou bem, pouco importa – pelos vencedores.

*

P.S.: não sou revolucionário. Sou social-democrata e patriota, “tão somente”. Assim como Jucá, quero “um grande acordo nacional”. Mas… a minha versão é “com Lula, com PT, com povo, com soberania, com tudo”. E a única chance – já remota – de conseguir tal acordo, como ensinou De Gaulle, é ir pro pau como se não houvesse amanhã.

*


(V) Meta-análise

(a) Não é aleatório faltar, à maioria dos brasileiros, conhecimento para compreender as referências deste texto a “Cuito Canevale”, Bokassa, De Gaulle e geopolítica em geral. Na verdade, isso explica muito por que foi – e segue sendo – tão fácil derrubar no tabuleiro a tal “oitava economia do mundo”….
E ajuda explicar, também, por que Lula se entregou.
Da primeira vez, no Sindicato, e ainda desta segunda, na forma de “entrevista”.

(b) A pergunta – e a resposta – mais relevantes de toda a entrevista, garanto, é aquela em que Lula, feito refém, diz temer pelos seus filhos.
Pano rápido.

(c) Sim, este texto é uma porrada. Não só para ler mas também para escrever, acreditem. Serve apenas para quem ousa enfrentar, na medida do possível, os vieses cognitivos de confirmação, representatividade, retrospectiva (hindsight) e otimismo.
Estamos sós.
O projeto nacional brasileiro, sob forte ataque, encontra-se sem lideranças e desarmado.

E agora?

*

*

*

P.S.: o (inacreditável mas compreensível) elogio à obra do “PT Jurídico” (nominalmente Marcio Thomaz Bastos, Tarso Genro e José Eduardo Cardozo) de empoderamento excessivo de corporações – não eleitas – em prejuízo dos Poderes – políticos – que representam a soberania popular.
Síndrome de Estocolmo?
Ou a máxima “está no inferno? Abraça o capeta”?


 

 

Desafio (agro-)jornalista Monica Bergamo, que vive a (de?) plantar "notinhas" sobre, a fazer entrevista gravada com Eduardo Cunha na cadeia. Rá!

Posted by Romulus Maya on Friday, April 26, 2019

 

*

P.P.P.S.: num país, como vemos, politicamente infantilizado recomenda-se, por oportuno, voltar às fábulas. Especialmente à do “Flautista de Hamelin”. Com especial atenção ao seu final.

 

"Lula será solto em setembro. Aí o jogo vai virar"A nova melodia do Flautista de Hamelin

Posted by Romulus Maya on Wednesday, April 24, 2019

 

 

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