Augusto Nunes, Greenwald e o Brasil degradado que vai às vias de fato

O descontrole do jornalista da Jovem Pan gerou uma cena deprimente, num momento em que o país se repensa para desmontar as bombas de ódio armadas pela polarização desde 2014

Foto: Reprodução

O descontrole do jornalista da Jovem Pan gerou uma cena deprimente, num momento em que o país se repensa para desmontar as bombas de ódio armadas pela polarização desde 2014

CARLA JIMÉNEZ

Seria previsível imaginar que um encontro entre os jornalistas Augusto Nunes e Glenn Greenwald seria elétrico. Mas não que chegaria ao ponto de uma agressão física ao vivo durante o programa Pânico, da rádio Jovem Pan. Sentados lado a lado, Greenwald questionou Nunes sobre um comentário que ele fez no programa Pingos nos is em 1º de setembro, a respeito dos filhos, que vivem no Rio, enquanto seu marido, o deputado David Miranda, trabalhava em Brasília. Greenwald, segundo Nunes, se dedicava a “ter chiliques” no Twitter ou atuando como receptador de “mensagens roubadas”, numa insinuação de que não se dedicava aos filhos devidamente. “Isso aí um juizado de menores deveria investigar.”

Nesta quinta, Greenwald cobrou de Nunes o comentário, afirmando que “ele (Nunes) disse que um juiz deveria investigar nossos filhos e decidir se nós devemos perder nossos filhos. Se eles deveriam voltar para o abrigo, com base nenhuma, acusando que estamos abandonando, fazendo negligência dos (com) nossos filhos”, disse Greenwald. Nunes sustentou que sua fala era uma ironia, um ataque “bem-humorado” que ele não soube interpretar. “Convido ele a provar em que momento eu pedi que algum juizado fizesse isso. Disse apenas que o companheiro passava o tempo todo em Brasília e ele passa o tempo todo lidando com material roubado. Eu perguntei: quem é que vai lidar com os filhos?”. Negou, ainda, que houvesse mencionado um “juizado” para investigar o caso.

Greenwald reagiu chamando Augusto Nunes de “covarde” quatro vezes. Foi coisa de um instante para que Nunes agredisse Greenwald que se levantou para reagir. Tudo ao vivo, numa imagem degradante e deprimente, onde dois jornalistas referência se viram numa briga corporal. Enquanto eram separados por integrantes da equipe do Pânico, o apresentador, Emílio Zurita, pediu para que a entrevista fosse interrompida.

Num país de abraços partidos sob as rinhas políticas inflamadas pelas redes sociais, Nunes, comentarista da Jovem Pan com um currículo respeitável no jornalismo, representa o antipetismo e o lavajatismo do momento. Greenwald, premiado mundialmente, e que já virou tema de filme, é uma veia crítica à narrativa oficial de que o PT é o maior partido corrupto do país e que a Lava Jato é a panaceia da corrupção brasileira. O jornalista e advogado americano é hoje uma das cabeças do The Intercept Brasil, que comanda a investigação conhecida como Vazajato, da qual o EL PAÍS é parceiro, que trouxe à tona os chats dos procuradores da operação Lava Jato, incluindo mensagens trocadas com o então juiz Sergio Moro. A Vazajato abalou a credibilidade dos julgamentos de Moro e a confiança de que se tratava de uma operação isenta.

Os sopapos trocados viraram mais um Fla-Flu das redes. Mas não há como negar que o descontrole de Nunes gerou uma cena deprimente, embora tenha se enfezado por Greenwald ter exagerado nas palavras que não disse, como o vídeo do comentário mostra. Num momento em que o país se repensa para desmontar as bombas de ódio armadas com a polarização desde 2014 – que apartaram famílias, amigos e a sociedade brasileira em geral –, o jornalista da Jovem Pan deixou-se levar “pelo instinto”, como veio a reconhecer no final do dia, e se tornou protagonista de uma cena grotesca, que alimenta o círculo vicioso que está cercando o jornalismo brasileiro. A cena de violência que explodiu no Twitter começou a ser usada de exemplo de como atacar a imprensa, alertou a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Vencedor de dois troféus do prêmio de jornalismo Comunique-se esta semana que reconheciam seu talento, Nunes foi ao palco da casa Tom Brasil duas vezes para agradecer a homenagem. Numa delas, discursou que sempre foi uma pessoa que conviveu com opiniões diferentes, e que nunca havia brigado por isso. Até esta quinta pelo jeito. Ficou cego e surdo para ouvir o que Greenwald lhe cobrava, o fato de ter mencionado seus filhos num comentário desnecessário, muito embora o jornalista americano tenha usado palavras que ele não usou literalmente. Era coisa de Nunes ouvir o oponente, reconhecer o erro e vencê-lo pelo argumento. Mas sucumbiu.

Autor de vários livros referências para jornalistas, Nunes sempre foi reconhecido pela elegância no trato com colegas no ambiente de trabalho, por estimular grandes reportagens, bons textos e encorajar jornalistas em início de carreira. Mas sempre foi mordaz na fala ou escrita para se referir aos que julga estarem do lado errado. No Brasil de 2019, no entanto, já não cabem mais certezas absolutas. Ninguém pode se sentir superior por acreditar em um ou outro ponto de vista, sob o risco de tropeçar e expor a própria arrogância. Deu-se conta de que ultrapassou o limite ao perder o controle e gravou um vídeo para reconhecer. Reclamou ainda de palavras que Greenwald lhe atribuiu indevidamente. Mas, não pode negar que entrou numa seara proibida, ao mencionar a família de seu desafeto. É desse comportamento perverso que a rede social tem se alimentado, e as deputadas Manuela D’Ávila e Joice Hasselmann fizeram alertas nesse sentido esta semana. D’Ávila teve a filha de 45 dias agredida por uma mulher raivosa contaminada por uma fake news. Hasselmann chorou na tribuna da Câmara ao mencionar o filho de 11 anos que lhe perguntou por que a chamavam de porca repetidamente nas redes sociais.

De que lado vamos ficar? Dos que acendem a pólvora irresponsável ou dos que colocam a bola no chão? Há uma necessidade urgente de elevar o nível do debate público. E o jornalismo e os jornalistas estão aqui para se diferenciar nesse sentido.

 

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