Do governo à oposição: a repercussão dos diálogos entre Moro e Dallagnol

Filhos de Bolsonaro e o vice Mourão defendem o ministro e a Lava Jato; oposicionistas pedem anulação de ações contra Lula e falam em CPI e convocar ex-juiz

Foto: Brasil 247

Filhos de Bolsonaro e o vice Mourão defendem o ministro e a Lava Jato; oposicionistas pedem anulação de ações contra Lula e falam em CPI e convocar ex-juiz

Por Emerson Voltare

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) ainda não se pronunciou sobre o caso do vazamento das conversas atribuídas ao seu ministro da Justiça, Sergio Moro – quando ainda era juiz -, com o procurador federal Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba.

Mas outras pessoas ligadas ao governo, a começar pelos filhos do presidente, defenderam o ministro e o procurador. “É impressão minha ou só no Brasil, uma imprensa utiliza uma invasão ilegal de algo privado, ignorando a invalidade judicial e ilegalidade, mas não se importa em divulgar, com o único intuito de queimar o governo Bolsonaro e favorecer o sistema? Acho que já vi isso antes”, escreveu o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ).

O vereador ainda replicou uma mensagem postada pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que fala em “ataque orquestrado à Lava Jato”. “O objetivo claro é tumultuar processos e investigações, barrando o combate à corrupção no Brasil. A utilização organizada e criminosa de táticas hackers é mais uma etapa dessa guerra”, escreveu o senador.

Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) fez uma série de publicações nesta segunda-feira, 10, em suas contas das redes sociais. Em algumas delas usou a hashtag “Eu apoio a Lava Jato”. Também fez críticas ao jornalista Glenn Greenwald, fundador e editor do The Intercept Brasil, site que divulgou parte dos diálogos. “Glenn vendeu no exterior a tese de que o impeachment da Dilma foi golpe”, escreveu o parlamentar.

Filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) divulgou em sua conta do Twitter a nota publicada no domingo por Moro e chamou o vazamento de “criminoso”.

Já o vice-presidente general Hamilton Mourão (PSC) classificou como “conversa privada” e minimizou a troca de mensagens entre Moro e Dallagnol. “Conversa privada é conversa privada, né? E descontextualizada ela traz qualquer número de ilações. Então o ministro Moro é um cara da mais ilibada confiança do presidente, é uma pessoa que, dentro do país, tem um respeito por parte enorme da população, haja vista as pesquisas de opinião que dão a popularidade dele”, afirmou Mourão, ao deixar o Palácio do Planalto na manhã desta segunda.

Questionado sobre o fato de conversas privadas terem sido usadas por investigadores na Lava Jato, Mourão respondeu apenas que “é diferente”. O vice-presidente disse “não ver nada de mais” no caso e descartou a possibilidade de a troca de mensagens entre o então juiz e o procurador interferirem na Lava Jato. “Em relação aos processos ocorridos na Lava Jato, todos eles passaram por primeira, segunda e outros já chegaram na terceira instância. Então, eu não vejo nada demais nisso aí tudo.”

Mourão disse não ter tratado sobre o assunto com o presidente Bolsonaro, com quem se reuniu pela manhã, num encontro que não estava previsto nas agendas públicas. “De vez em quando, o presidente quer ter um tempo só para os dois [presidente e vice] conversarem. Não tocamos nesse assunto, tocamos em outras histórias”, afirmou. O general disse ter “visto por alto” a troca de mensagens atribuídas a Moro em uma emissora de televisão na manhã desta segunda.

A líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), contou que conversou pela manhã com Moro e disse que ele lhe garantiu que não há qualquer desvio de conduta legal ou moral nas mensagens que teria trocado com procuradores da Lava Jato e que foram publicadas no domingo pelo The Intercept Brasil.

“É cedo para tomar qualquer posição em relação a esse assunto, mas conversei com o ministro Sergio Moro, e ele me garantiu que não há qualquer desvio de conduta legal ou moral, e que as mensagens foram colocadas fora de contexto. Temos de esperar para ver o que vai acontecer, mas acredito na palavra de Moro”, disse.

CPI

Parte do Congresso já vislumbra uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso. Na manhã desta segunda, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Acolumbre (DEM-AP). e do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, discutiram o cenário com o que foi publicado até o momento.

A deputada pelo Paraná e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse que o processo contra Lula precisa ser anulado. Seguindo a mesma linha da defesa do ex-presidente, ela defendeu a anulação dos processos envolvendo o líder petista na Lava Jato. E aproveitou para atacar Moro e Dallagnol.

“Moro e Dallagnol atuaram combinados, com parcialidade e motivações políticas, para impedir a vitória eleitoral de Lula e do PT. Forjaram a acusação sem provas e armaram farsa jurídica contra Lula. Esse processo tem de ser anulado.”

O líder do PT na Câmara, deputado Paulo Pimenta (RS), propôs a realização, por parte dos partidos de oposição, de ações conjuntas com objetivo de apurar a interferência de Moro nas investigações da Lava Jato. Segundo ele, entre essas ações está a possibilidade de criação de CPI para apurar a atuação do ex-juiz e dos procuradores da força-tarefa de Curitiba.

A bancada do PSOL na Câmara vai protocolar um pedido de convocação de Moro para se explicar sobre a série de mensagens. O partido também vai abrir representação contra Deltan Dallagnol no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

O líder do Podemos na Câmara, José Nelto (GO), que defende a Lava Jato, disse que irá levar a discussão na terça 11 para a reunião de líderes. “Se comprovarem isso (os diálogos), é inadmissível, usar o cargo e a estrutura de estado para incriminar e prender alguém. Independentemente de quem seja, fazer isso é errado, não podemos pactuar com isso que fere o estado democrático de direito”, afirmou Nelto.

Senado

No Senado, Moro não deve encontrar o mesmo clima de hostilidade. Isso não impedirá, no entanto, que requerimentos sejam apresentados a fim de cobrar esclarecimentos.

O líder da oposição, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), já se manifestou nesse sentido. Segundo o congressista, a ideia é esperar que o ministro da Justiça vá ao Senado de forma voluntária para explicar o teor das conversas. Se não for por vontade própria, Randolfe apresentará um requerimento de convite ou até convocação.

Já Angelo Coronel (PSD-BA) se movimenta nos bastidores para reunir assinaturas em favor da criação de uma CPI com a finalidade de investigar a Lava Jato. Para instalá-la, o senador precisa do apoio de um terço da Casa – 27 dos 81 parlamentares.

Coronel, que é aliado do governador da Bahia, o petista Rui Costa, defendeu no Twitter a soltura imediata do ex-presidente Lula. “Não sou advogado, mas no direito tem que imperar o bom senso. Lula está preso em decorrência do processo do tríplex. Dallagnol diz nos diálogos, com “Moro”, que não tinha segurança das provas contra Lula no processo. Para se corrigir essa injustiça deve-se libertar Lula imediatamente”, postou.

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