Em situações extremas, ação de profissionais da saúde muda vidas

Refugiados saem de onde vivem, têm familiares e amigos, só se faz isso quando se teme a morte, diz Drauzio Varella

Médicos Sem Fronteiras – Foto: www.msf.org.br

Refugiados saem de onde vivem, têm familiares e amigos, só se faz isso quando se teme a morte, diz Drauzio Varella


Por Pedro Teixeira – Editorias: Atualidades, Jornal da USP no Ar, Rádio USP – URL Curta: jornal.usp.br/?p=256240


Conhecido por falar sobre a saúde no Brasil e os impactos na sociedade, o médico Drauzio Varella estreia uma nova série intitulada Drauzio em Campo: Líbano e Jordânia, em que mostra as consequências da guerra para 1,5 milhão de sírios que vivem em campos de refugiados. A convite da organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), Varella conheceu de perto as dificuldades das vítimas da guerra e o trabalho desses profissionais. Em três episódios, a série aborda desde as dificuldades das famílias alocadas na região até situações de vulnerabilidade na saúde e as mutilações causadas pelos conflitos. Ele foi até a região libanesa do vale do Bekaa, no campo de refugiados de Abu Farris, visitou localidades de Majdal Anjar, Arsal e um hospital de MSF em Amã, na Jordânia, especializado em cirurgias reconstrutivas para vítimas de conflitos armados.

A MSF é uma organização humanitária internacional criada por médicos e jornalistas em 1971 e que leva cuidados de saúde para pessoas afetadas por conflitos armados, desastres naturais, epidemias e desnutrição. No Líbano, a MSF mantém 13 clínicas que oferecem atendimento nas áreas de doenças crônicas, obstetrícia, pediatria, planejamento familiar e saúde mental. Varella conta ao Jornal da USP no Ar que, ao chegar a Majdal Anjar, logo se deparou com as várias tendas de refugiados. O Líbano, com seus 4,5 milhões de habitantes, tem a maior taxa per capita de refugiados. “Eles têm a pior situação de vida. São obrigados a saírem do lugar onde moram, vivem, têm amigos e familiares para se abrigarem em barracas. Só se faz isso quando se acha que vai morrer”, declara o médico.

“Enquanto isso, se discutem muros na Europa e nos Estados Unidos. As pessoas vivem a guerra na Síria. E de um lado tem gente que bombardeia aldeia com crianças e mulheres. De outro lado, tem uma organização que vai atender as pessoas. Oferecer cuidados médicos”, critica. Ele conta que não só de médicos vive a MSF, os atendimentos são providos por assistentes sociais, enfermeiros, paramédicos, psicólogos, dentre outras áreas de especialidade. “São equipes médicas”, aponta.

Majdal Anjar, que fica no topo de um monte, é uma cidade na divisa entre os dois países. Entre 2013 e 2017 ficou sob o controle do Estado Islâmico. Nesse período, só a ONG Médicos Sem Fronteiras conseguia prestar serviços de saúde no local. Antes da guerra, a Síria era um país de relativa qualidade de vida. Então, Varella explica que as doenças lá não são malária, tifo, ebola, altamente contagiosas, porém endêmicas, de locais pobres, mas sim doenças degenerativas como diabete, hipertensão arterial, comuns na terceira idade e que começam a apresentar sintomas em virtude da falta de acompanhamento e terapia.

Noutra mão, a cidade abriga crianças que nascem párias. “Lá, as taxas de natalidade são muitos altas por razões religiosas e pela situação da mulher na sociedade. A MSF oferece contracepção. Anticoncepcionais, dispositivo intrauterino, tem de tudo. Mas quem decide se pode usar ou não, qual método será escolhido, é o marido. Sendo assim, o número de crianças é muito grande nesses acampamentos. E a situação delas é terrível. Apesar disso, são crianças como quaisquer outras, correm, dão risada, fazem graça para a câmera. E ficam sem nacionalidade, pois não são libaneses e o consulado sírio é distante”, descreve o médico.

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Médicos Sem Fronteiras – Foto: www.msf.org.br

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Na Jordânia, a organização humanitária oferece intervenções cirúrgicas, da retirada de balas até a reconstituição da face ou de membros. “Recebem gente da Síria, do Iêmen, do Sudão, de todos os lados. Lá são atendidos, ficam em alojamentos e levados de van todos os dias ao hospital. São submetidos a três, quatro, cinco, quantas cirurgias forem necessárias”, esclarece.

Um episódio marcante da série é o sorriso de um garoto ao receber uma prótese confeccionada pela MSF. Drauzio Varella fala que os artigos mais modernos chegam a custar US$ 40, US$ 50 mil. Entretanto, a ONG consegue imprimir próteses acessíveis, com plástico de baixo custo, para quem perdeu um braço num conflito, como aquela criança, um presente único.

Varella enfatiza que a filosofia da Médicos Sem Fronteiras não é fazer caridade. “São profissionais formados e qualificados. Recebem um salário, que não é dos melhores, mas basta. E são pessoas particulares, como eu e você, que mantêm essa ONG, que representam 90% do valor arrecadado; R$ 50 ou R$ 70 por mês pode parecer pouco, mas no Brasil são cerca de 500 mil doadores. Além disso, não aceitam doações de quaisquer empresas. Do mercado bélico, por exemplo, são vetadas. Isso confere uma liberdade única à atuação desses médicos”, afirma.

Experiência única

Jornal da USP no Ar também entrevistou o professor Nelson de Luccia. Ele atendeu as vítimas da maior tragédia já enfrentada pelo ainda pobre Haiti. A missão se deu pela organização não governamental campineira Expedicionários da Saúde, nascida em 2003, e que desde 2010 realiza expedições ao país. O terremoto e a fragilidade socioeconômica provam que não só as guerras devastam países.

“Se você quer realmente tratar da situação das pessoas, são momentos como os da expedição que realmente contam. Mas primeiro, você tem de estar despojado de interesses. Isso é o gratificante da profissão”, defende o médico. Ele conta que revisitou uma foto tirada em meio aos seus atendimentos: um pai que chegou ao hospital com o filho nos braços em busca do socorro.

Luccia ressalta que, apesar das situações precárias, mesmo no nível sanitário, os bons recursos humanos possibilitaram um atendimento eficiente. “Éramos dez pessoas. Três ortopedistas, dois vasculares, dois ou três anestesistas e alguns enfermeiros. O que fazia diferença era o trato no procedimento médico. Na qualidade da anestesia”, declara.

O grupo atendeu, sobretudo, vítimas de severos traumas. Operou e revisou amputações. “Algumas abertas, com osso à mostra”, lembra o médico. Os atendimentos eram realizados no Hospital Municipal Albert Schweitzer, que recebe colaboração dos canadenses.

Além disso, os médicos se reuniram à missão internacional do Exército brasileiro, promovida pelo governo federal, com o intuito de pensar em intervenções para facilitar a distribuição de próteses.

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