Israel e Hamas beiram a guerra em Gaza na maior escalada da violência em cinco anos

Oito palestinos, entre eles uma mulher grávida e sua filha, e três israelenses morreram nas últimas horas em confrontos ocorridos às vésperas do Festival Eurovisão, que será realizado em Tel Aviv

Pai de menina morta por um projétil leva a filha para o funeral, neste domingo, em Gaza. MOHAMMED SALEM REUTERS

Oito palestinos, entre eles uma mulher grávida e sua filha, e três israelenses morreram nas últimas horas em confrontos ocorridos às vésperas do Festival Eurovisão, que será realizado em Tel Aviv

 

JUAN CARLOS SANZ

Os dois milhões de habitantes da Faixa de Gaza e as centenas de milhares de israelenses que moram em torno do território viveram o dia mais violento depois da devastadora guerra de 2014 no enclave palestino. Desde a madrugada de sábado, o Hamas e a Jihad Islâmica dispararam mais de 450 projéteis, entre foguetes e granadas de morteiro, contra Israel, matando três pessoas. As represálias da aviação militar israelense contra 260 objetivos das milícias palestinas em Gaza mataram oito pessoas, entre elas uma mulher grávida de oito meses e seu bebê. Nenhum dos lados em confronto vislumbra um cessar-fogo, apesar da mediação do Egito e da ONU, às vésperas da realização do Festival Eurovisão da Canção, que começa dentro de nove dias em Tel Aviv.

As Forças Armadas israelenses mobilizaram uma brigada de veículos de combate na fronteira. Enquanto isso, mais de 200.000 alunos permanecem em suas casas. As escolas e creches nas áreas próximas ao território palestino foram fechadas. Cidades como Rishon Letzion, oito quilômetros ao sul de Tel Aviv, na superpovoada área metropolitana central de Israel, abriram à população os abrigos contra bombardeios aéreos.

O Exército israelense afirmou que 70% dos projéteis disparados de Gaza caíram em descampados e que mais de cem foguetes foram interceptados e destruídos pelo sistema antimísseis Domo de Ferro. “Vamos continuar com as operações militares”, anunciou o tenente-coronel Jonathan Conricus, porta-voz internacional das Forças Armadas.

A inteligência militar israelense atribuiu a morte da palestina Salah Abu Arar, de 37 anos, e de sua filha Saiba, de 14 meses, à explosão de um foguete do Hamas, “que caiu onde não devia”, disse Conricus. O Ministério da Saúde de Gaza afirmou que as duas morreram em consequência dos ferimentos causados por estilhaços de um míssil israelense. Os hospitais da Faixa de Gaza registraram outros 6 mortos, entre eles 2 milicianos na madrugada de sábado, e 47 feridos.

Com as passagens fronteiriças fechadas e em meio ao habitual cruzamento de comunicados e desmentidos, Israel registrou na madrugada deste domingo, pela primeira vez em cinco anos, a morte de um civil judeu em um ataque com foguetes lançados da Faixa de Gaza. Moshe Agadi, de 58 anos, morreu em consequência dos ferimentos sofridos no peito e no abdômen pelos estilhaços de um projétil em uma casa de Ashkelon, cidade costeira situada três quilômetros ao norte da fronteira com o território palestino. A imprensa israelense informou que outros dois israelenses morreram depois. Pelo menos 83 israelenses foram atendidos em hospitais com ferimentos leves ou crises de ansiedade.

A intensidade dos bombardeios de Israel contra o enclave palestino é a maior desde novembro, quando o Exército e as milícias do Hamas também estiveram à beira da guerra. Dezenas de alvos foram destruídos. Entre eles estão um túnel de ataque da Jihad islâmica escavado sob a fronteira, duas plataformas de lançamento de foguetes e várias bases e fábricas de armas, assim como embarcações usadas pelos milicianos. Em um depósito de armamento bombardeado na manhã deste domingo pela aviação israelense estavam vários membros da Jihad Islâmica.

Um dos alvos destruídos foi um edifício de escritórios em Gaza, onde Israel tinha localizado um centro de inteligência militar do Hamas e outras instalações de segurança palestinas. No mesmo prédio ficava também a sede da Anatólia, a agência estatal de notícias da Turquia. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, condenou o ataque, chamando-o de “desproporcional”, e pediu uma intervenção internacional para reduzir a tensão na região. “A Turquia e a agência Anatólia continuarão informando ao mundo sobre o terrorismo israelense e as atrocidades em Gaza e em outras partes da Palestina, apesar destes ataques”, afirmou o mandatário.

O Exército israelense garantiu que o bombardeio contra o edifício de escritórios foi dirigido contra um “alvo militar legítimo”, porque abrigava instalações das milícias palestinas. O tenente-coronel Conricus afirmou também que várias casas de altos comandantes das milícias palestinas foram atacadas em Gaza − também como “alvo militar legítimo”, segundo o porta-voz −, porque nelas eram coordenadas operações contra Israel.

Interceptação de um foguete lançado de Gaza pelo sistema antimísseis Domo de Ferro sobre Ashkelon, onde morreram três israelenses. AMIR COHEN REUTERS

“Instruí as Forças Armadas a prosseguir com os ataques em massa contra elementos terroristas na Faixa de Gaza, assim como a reforçar as unidades situadas a seus redor com carros de combate, artilharia e infantaria”, anunciou na manhã deste domingo o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, na reunião semanal do Governo em Jerusalém. No início da tarde, ele convocou o Gabinete Segurança, o órgão israelense com autoridade para declarar guerra.

O ministro israelense da Cooperação Regional, Tzachi Hanegbi, disse pouco antes à Rádio do Exército que o Festival Eurovisão da Canção, com início marcado para o dia 14 no palácio de exposições de Tel Aviv, não afetará as decisões militares do Executivo. “Israel não tem interesse em lançar uma campanha bélica em larga escala, mas em nenhum caso será analisado no Gabinete de Segurança um acontecimento musical ou de entretenimento”, afirmou.

O ex-assessor israelense de Segurança Nacional Yacov Amidror acusa o Irã de ter instigado os ataques com foguetes da Jihad Islâmica. “Os iranianos são os principais interessados em que Israel lance uma nova operação militar em Gaza para desviar sua atenção sobre o destacamento militar que eles mantêm na Síria”, disse ele ao centro informativo TPI. “Pensaram que [Israel] não se atreveria a desencadear represálias às vésperas do Dia da Independência [nesta quinta-feira] e da Eurovisão, mas cometeram um erro grave”, acrescentou.

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