O museu que definiu a arte do século XX entra no XXI

O MoMA, em Nova York, abre suas portas ao público em 21 de outubro, com seu espaço ampliado em 30% para poder expor um acervo maior, mais diversificado e global

A ampliação do MoMa, desenhada pelo escritório Diller Scofidio + Renfro em colaboração com Gensler.IWAN BAAN, CORTESÍA DEL MOMA

O MoMA, em Nova York, abre suas portas ao público em 21 de outubro, com seu espaço ampliado em 30% para poder expor um acervo maior, mais diversificado e global

PABLO GUIMÓN

“Isto é produto de ter repensado o museu ao longo das décadas”, afirma Glenn Lowry, diretor desde meados dos anos noventa. “Já desde que Alfred Barr [diretor entre 1929 e 1943] o imaginou nos anos 30, pensou em um laboratório que deveria evoluir com a própria história da arte. Mas o museu não só evolui como também se questiona a si mesmo constantemente. Perguntamo-nos sempre o que fazemos e como fazemos. Assim que cheguei, compreendi que a ideia de contar a história da arte como se se soubesse o final devia ser reconsiderada totalmente. É um debate constante, e tudo bem não ter respostas, porque o importante são as perguntas.”

Quem frequenta museus está acostumado aos saltos temporais e geográficos. Já faz anos que eles deixaram de contar a história da arte moderna como uma sequência linear de palavras terminadas em “ismo”. Hoje é uma narrativa tecida com múltiplas fibras, das quais o visitante pode atirar para o lado que quiser, misturando épocas, geografias, estilos e técnicas, e conectando temáticas, linguagens, experiências e discursos.

A disposição cronológica não foi totalmente eliminada no novo MoMA, mas abundam as quebras sutis. No segundo andar, que acolhe peças dos anos 70, os agrupamentos temáticos são ousados: Construindo Cidadãos, Imagens Públicas, Espaço Interno e Externo. O desafio é adaptar ao século XXI uma instituição que marcou o cânone da arte no século XX. E esta renovação oferece algumas chaves. É mais diversa. Mais global. Mais flexível. Maior.

Quase ao tempo em que se inaugurava sua última grande expansão, a do arquiteto Yoshio Taniguchi em 2004, o MoMA começou a pensar na seguinte. O mercado da arte estava enlouquecendo. As galerias adotavam as dimensões de museus e transformavam o mapa da arte contemporânea nova-iorquino. O museu alcançaria em seguida os dois milhões de visitantes anuais, o dobro que nos anos 70, e chegaria a três milhões em 2010. As queixas sobre a massificação, que a intervenção de Taniguchi não resolveu, eram recorrentes.

Dentro do museu, esses primeiros anos do século coincidiram com uma substituição geracional na equipe de meia dúzia de chefes de departamento. Os novos responsáveis procuravam ampliar o foco, transcender o centro de gravidade europeu e norte-americano e contar uma história mais global, mais desconhecida e mais plural. “São profissionais para os quais a interdisciplinaridade é o natural”, explica Lowry.

Arquitetonicamente, a expansão do MoMA foi constante desde que abriu suas portas em 1939 neste mesmo endereço, 11 West 53 Street, num antigo palacete onde havia nascido o próprio David Rockefeller, filho de Abby Aldrich Rockefeller, cofundadora do museu. Sua expansão in situ conta uma história da febre imobiliária de Manhattan. O MoMA uniu terrenos, ergueu arranha-céus e derrubou edifícios, num desfile de arquitetos que vão de Philip Johnson (nos anos 50 e 60) e Cesar Pelli (nos 80) a Yoshio Taniguchi (2004), Jean Nouvel (2018) e, agora, Diller Scofidio + Renfro (responsáveis nesta mesma cidade pela remodelação do Lincoln Center e colaboradores do celebrado passeio elevado High Line) em colaboração com o escritório Gensler.

“Vivemos em Nova York, somos nós que devemos ver as exposições, conhecemos a estranha lógica destes edifícios. Por isso foi um projeto tão pessoal para nós”, diz a arquiteta Liz Diller. “Queríamos que a conexão com o Midtown de Manhattan fosse vibrante e explícita. Eliminar essa interface de autoridade entre a instituição e a cidade.”

O novo MoMA é, portanto, mais aberto. Também mais transparente, graças a achados como uma belíssima escada que atravessa os andares como um nervo, sem tocar as paredes, ante uma fachada de vidro que dá para uma pequena praça e, ao fundo, para os arranha-céus. “Um bonito ponto para parar e descansar no meio do percurso”, observa Diller.

O museu já é impossível de abarcar em uma só visita. Haverá um circuito fácil para os visitantes que quiserem ver só as grandes obras-primas. Mas talvez não se trate disso, e sim de se perder entre os inesperados vetores que atravessam as salas. Só o labiríntico mapa de bolso, de sete páginas, já intimida. Junto com os rodízios e agrupamentos inesperados, provavelmente serão os millennials, acostumados a navegar por stories do Instagram, e não os visitantes conservadores, os mais capazes de digeri-lo. Mas os museus já não são o que eram. Como tampouco abundam os bordéis na rua Avignon, em Barcelona.

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