Soprano Jessye Norman morre aos 74 anos

Ela foi uma das divas mais renomadas de sua geração e uma das poucas afro-americanas a adentrar o mundo da ópera, após estrear no palco em Berlim. "Seu legado permanecerá para sempre", declarou a Met Opera de Nova York.

Jessye Norman, para os fãs, "L'Imcomparable"

Ela foi uma das divas mais renomadas de sua geração e uma das poucas afro-americanas a adentrar o mundo da ópera, após estrear no palco em Berlim. “Seu legado permanecerá para sempre”, declarou a Met Opera de Nova York.

A cantora lírica Jessye Norman morreu aos 74 anos em Nova York, anunciou sua família em comunicado nesta segunda-feira (30/09). Ela foi uma das divas mais admiradas de sua geração, tendo ganhado quatro Grammys por suas gravações e um pelo conjunto obra de vida, em 2006, o qual também lhe valeu a Medalha Nacional das Artes dos Estados Unidos.

Nascida em Augusta, Geórgia, no sul dos EUA, ela conta entre as poucas afro-americanas a conseguirem adentrar o mundo da ópera, ficando conhecida sobretudo por suas interpretações das heroínas de Richard Wagner.

Em nota sobre sua morte, a Metropolitan Opera de Nova York, onde ela fez mais de 80 apresentações, a lembrou como “uma das grandes sopranos do último meio século”: “Jessye Norman foi uma das maiores artistas que já cantaram em nosso palco”, disse Peter Gelb, diretor-geral da Met. “Seu legado deverá permanecer para sempre.”

Segundo o comunicado da família, Norman morreu num hospital de Nova York, por um choque séptico e falência múltipla de órgãos devido a complicações de uma lesão na medula sofrida em 2015.

Norman cantou na tomada de posse de dois presidentes americanos – Ronald Reagan e Bill Clinton –, nos 60 anos da rainha Elizabeth 2ª, em 1986, na abertura dos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, e nas comemorações dos 200 anos da Revolução Francesa, em 1989.

La Norman estrou na Metropolitan Opera em 1983, como a Cassandra em “Les Troyens” de Berlioz

A soprano dramática nasceu em 15 de setembro de 1945 numa família de artistas amadores que incluíam pianistas e cantores. Já aos quatro anos, começou a cantar música gospel na igreja batista local. Mais tarde passou a ouvir as transmissões de rádio das apresentações na Metropolitan Opera.

“Não me lembro de nenhum momento da minha vida em que não estivesse tentando cantar”, disse à emissora americana NPR em 2014. Como jovem negra pioneira no mundo branco da música clássica, logo passou a ser idolatrada por sua voz, de timbre inconfundível, enorme extensão e capaz das maiores proezas técnicas aparentemente sem esforço, assim como por sua personalidade efervescente.

Ela estudou música com uma bolsa integral na Universidade Howard de Washington, historicamente frequentada por negros, antes de ingressar no Conservatório Peabody e na Universidade de Michigan. Em 1968, venceu a Competição Internacional de Música em Munique, antes de celebrar sua estreia no palco na Deutsche Oper de Berlim, em 1969, cantando a Elisabeth da ópera wagneriana Tannhäuser.

A majestosa diva estabeleceu-se na Europa na década de 1970, mudou-se para Londres e passou anos realizando recitais e trabalhos solos. A estreia na Met foi em 1983, como Cassandra em Les Troyens de Hector Berlioz, durante a temporada comemorativa do centenário da casa. “Sua enorme extensão de voz é uma maravilha aveludada, totalmente perfeita quando ela deseja”, elogiara o crítico Octavio Roca, do Washington Post, numa crítica de 1980.

Artisticamente ousada, seu repertório abarcava quatro séculos, indo do período barroco ao moderno, e suas aventuras musicais incluíram incursões pela música contemporânea, popular e jazz.

Em 1997, aos 52 anos, Norman se tornou a pessoa mais jovem a ganhar o Prêmio Kennedy na história do Centro John F. Kennedy de Artes Performáticas. Ela recebeu a Medalha Nacional das Artes do ex-presidente Barack Obama e foi agraciada com o doutorado honorário de diversas universidades de prestígio, incluindo Juilliard, Harvard e Yale. Norman também era membro da Academia Real Britânica de Música e recebeu a Ordem das Artes e das Letras na França, onde foi homenageada até com uma orquídea que leva seu nome.

Cantando um spiritual, durante cerimônia no Capitólio, em 2013

“La Norman” também retribuiu ao mundo as abundantes honrarias recebidas, ao arrecadar fundos de incentivo para alunos pobres talentosos, promover as artes nas escolas ou defender a diversidade. Em 2003, foi inaugurada em Augusta, sua cidade natal, a Escola de Artes Jessye Norman, para proporcionar educação gratuita em belas-artes para crianças carentes.

“Olho para as orquestras sinfônicas deste país e quero que elas se pareçam mais com o grupo demográfico que se destinam a servir. Eu gostaria de ver mais afro-americanos no palco da Metropolitan Opera aqui em Nova York”, comentou. “Anseio pelo dia em que não pensemos na cor da pele ao procurar alguém para fazer um trabalho, seja ele qual for.”

Sua vida pessoal permanecia envolta em mistério, embora sua biografia de 2014 Stand up straight and sing! (Fique ereta e cante!) mencione que certa vez um aristocrata francês lhe fez uma proposta de casamento. Num almoço em homenagem a ela em 2014, na Metropolitan Opera Guild, organização que apoia a instituição musical, a romancista afro-americana Toni Morrison louvou sua voz como uma maravilha sem igual.

“A beleza e o poder, a singularidade da voz de Jessye Norman. Não me lembro de nada parecido. Tenho que dizer que, às vezes, quando ouço sua voz, ela parte meu coração. Mas todas as vezes que ouço sua voz, ela cura minha alma”, celebrou a Nobel de Literatura, morta em agosto.

CA,AV/ap/afp/dpa/ots

ESCREVA SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui