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	<title>&quot;Almirante Negro&quot; |</title>
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	<title>&quot;Almirante Negro&quot; |</title>
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		<title>A primeira vitória de João Cândido contra a Marinha na Justiça, 115 anos após a Revolta da Chibata</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 May 2026 19:36:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[justiça]]></category>
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		<category><![CDATA[Revolta da Chibata]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou nesta quinta-feira (21/5) a Marinha brasileira por ataques à memória de João Cândido, conhecido como o &#8220;Almirante Negro&#8221; e líder da Revolta da Chibata, em 1910. A liderança de Cândido no motim que combateu as punições físicas como o uso de chibatas contra marinheiros — em sua maioria, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li>Vitor Tavares</li>



<li>Da BBC News Brasil em São Paulo</li>
</ul>



<p>A Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou nesta quinta-feira (21/5) a Marinha brasileira por ataques à memória de João Cândido, conhecido como o &#8220;Almirante Negro&#8221; e líder da Revolta da Chibata, em 1910.</p>



<p>A liderança de Cândido no motim que combateu as punições físicas como o uso de chibatas contra marinheiros — em sua maioria, negros — o fez se tornar um ícone das mobilizações antirracistas no Brasil após a abolição da escravidão.</p>



<p>A Ação Civil Pública foi movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a União após o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, utilizar termos como &#8220;abjetos&#8221; e &#8220;reprovável&#8221; para descrever os líderes da revolta em uma carta à Câmara dos Deputados, em 2024, em um debate sobre a inclusão de Cândido no<em>&nbsp;Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria</em>.</p>



<p>Para o juiz Mario Victor de Souza, o uso das palavras extrapolou o debate técnico para atingir a honra dos anistiados e reproduz um &#8220;racismo institucional&#8221;, já que foi dirigido a um grupo de homens negros que lutavam contra a tortura física nas Forças Armadas.</p>



<p>A decisão estabeleceu uma indenização de R$ 200 mil, a serem destinados a projetos que preservem a memória de Cândido. O valor é bem abaixo dos R$ 5 milhões pedido pelo MPF.</p>



<p>Segundo Julio Araújo, procurador regional dos Direitos do Cidadão, o órgão deve recorrer da sentença em busca de maior indenização.</p>



<p>&#8220;Mas é uma decisão muito importante, porque ela demarca um limite muito claro no respeito à memória desses personagens e na impossibilidade de sua trajetória ser difamada como vem sendo difamada historicamente&#8221;, celebrou Araújo em entrevista à BBC News Brasil.</p>



<p>&#8220;Ainda mais pelo fato de ser um personagem negro que lutou contra uma prática racista que eram as chibatadas.&#8221;</p>



<p>A decisão também marca a primeira vitória de João Cândido contra a Marinha na Justiça, mais de 115 anos após a Revolta da Chibata, segundo o historiador Álvaro Nascimento, especialista na história do marinheiro e professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).</p>



<p>João Cândido morreu em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos.</p>



<p>Segundo Nascimento, o único processo em que João Cândido esteve de frente com a Marinha foi justamente o que o expulsou da Força, em 1912. Após o motim e antes de ser expulso, Cândido foi preso, internado como louco e sofreu tentativa de assassinato.</p>



<p>Após ser absolvido, ele nunca entrou com ação contra a Marinha solicitando algum tipo de reparo moral ou financeiro.</p>



<p>Em 2008, uma lei aprovada no Congresso concedeu anistia<em>&nbsp;post mortem</em>&nbsp;a João Cândido e aos demais marinheiros que participaram da revolta de 1910, reconhecendo a injustiça das punições sofridas na época e a legitimidade da causa.</p>



<p>Paralelo a esse caso, a família de João Cândido entrou em 2026 com uma outra ação na Justiça Federal pedindo R$ 4 milhões de indenização contra a União. O motivo é a permanência de registros e narrativas institucionais que, segundo os familiares, desqualificam a figura histórica de Joçao Cândido. Ainda não houve decisões a respeito desta nova ação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="O-caso-julgado-racismo-institucional">O caso julgado: &#8216;racismo institucional&#8217;</h2>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/677b/live/884d6a30-c591-11f0-9fb5-5f3a3703a365.jpg.webp" alt="João Cândido está em uma mesa. Ele olha para baixo e coloca a mão no rosto."/><figcaption class="wp-element-caption">ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO<br><br></figcaption></figure>



<p>Em abril de 2024, o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, enviou uma carta à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados com críticas ao projeto de lei que incluía João Cândido no&nbsp;<em>Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria</em>. A proposta segue em tramitação.</p>



<p>Na carta, Olsen disse que, para a Marinha, a Revolta da Chibata foi uma &#8220;deplorável página da história nacional&#8221; em que &#8220;abjetos marinheiros&#8221; desrespeitaram a hierarquia e a disciplina e usaram equipamentos militares para &#8220;chantagear a nação&#8221;. A conduta de João Cândido foi chamada de um &#8220;reprovável exemplo&#8221;.</p>



<p>Na ação, o MPF classificou a linguagem como &#8220;estigmatizante e pejorativa&#8221; e argumentou que a Marinha tem emitido manifestações institucionais públicas que atacam diretamente a memória de João Cândido.</p>



<p>O MPF também sustentou que esse tipo de discurso ignora a lei de anistia&nbsp;<em>post mortem</em>&nbsp;de 2008.</p>



<p>Em defesa da Marinha, a Advocacia-Geral da União (AGU) argumentou que o envio da carta à Câmara era um exercício regular do diálogo interinstitucional e que a lei de anistia não impõe ao Estado um &#8220;dever de louvação histórica&#8221;. A Marinha afirmou ter o direito de preservar suas próprias perspectivas sobre a história.</p>



<p>Na decisão, o juiz Mario Victor de Souza considerou que houve abuso no exercício da liberdade de expressão institucional, da violação da lei de anistia e da perpetuação de racismo institucional.</p>



<p>Segundo Souza, a linguagem adotada pela Marinha não constitui exercício historiográfico, mas uma perpetuação de uma narrativa de inferiorização e de negação de humanidade. &#8220;Uma manifestação de racismo institucional em sua dimensão social&#8221;, disse na sentença.</p>



<p>Para o procurador Julio Araújo, fica claro que, apesar de a Marinha poder ter sua posição contra a Revolta da Chibata, &#8220;ela jamais pode atacar a memória desse personagem [João Cândido] e do símbolo que ele representa para a população negra e para a sociedade brasileira como um todo&#8221;.</p>



<p>&#8220;Ele foi um herói, como se reivindica, principalmente pela sua capacidade de mostrar como atos formais de libertação, como foi a abolição da escravatura, são insuficientes diante da perpetuação do racismo e de práticas racistas&#8221;, diz o procurador.</p>



<p>Apesar de condenar a União a pagar R$ 200 mil, o juiz julgou improcedente o pedido do MPF que buscava proibir a Marinha de se manifestar contra a inclusão de João Cândido no&nbsp;<em>Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.</em></p>



<p>Também preservou expressamente o direito da Marinha de manter seu posicionamento crítico sobre a quebra de hierarquia e disciplina.</p>



<p>A BBC News Brasil entrou em contato com a AGU e a Marinha, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-Revolta-da-Chibata-e-a-perseguição-a-João-Cândido">A Revolta da Chibata e a perseguição a João Cândido</h2>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/380d/live/6eede6a0-c591-11f0-9fb5-5f3a3703a365.jpg.webp" alt="Imagem de navios de guerra e vários tripulantes"/><figcaption class="wp-element-caption">ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO<br><br></figcaption></figure>



<p>Em 21 de novembro de 1910, por um motivo até hoje incerto, o marinheiro Marcelino Rodrigues foi punido com 250 chibatadas no Rio de Janeiro.</p>



<p>Naquela época, faltas leves eram punidas pelos&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c1gdqgk9823t">oficiais da Marinha</a>&nbsp;com a&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/cjgn7g848j6t">prisão</a>&nbsp;em solitária, a pão e água, por um período de três a seis dias.</p>



<p>Já as ofensas mais graves, como desrespeito à hierarquia, recebiam como castigo 25 chibatadas na frente de toda a tripulação e ao som do rufar de tambores.</p>



<p>O fato é que a sentença imposta a Marcelino revoltou um grupo de marinheiros negros que, cansado de sofrer castigos físicos de seus oficiais brancos, resolveu organizar um motim.</p>



<p>Sob a liderança de João Cândido, 2.379 marinheiros — em sua maioria, pretos e pardos — assumiram o comando de quatro navios de guerra — Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro —, que estavam ancorados na&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36881050">Baía de Guanabara</a>.</p>



<p>Aos gritos de &#8220;Viva a liberdade!&#8221; e &#8220;Abaixo a chibata!&#8221;, a marujada içou bandeiras vermelhas de insurreição, apontou 80 canhões na direção do&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c06gq6krk66t">Rio de Janeiro</a>&nbsp;e ameaçou bombardear a então capital da República, caso suas exigências não fossem cumpridas: melhores salários, anistia aos revoltosos e, principalmente, o fim dos castigos.</p>



<p>Por essa razão, o motim, que durou apenas cinco dias, de 22 a 27 de novembro, entrou para a História como a Revolta da Chibata.</p>



<p>&#8220;Não podíamos admitir que, na Marinha do Brasil, um homem ainda tirasse a camisa para ser chibatado por outro homem&#8221;, declarou João Cândido, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, em março de 1968.</p>



<p>Um tiro de canhão, de advertência, chegou a ser disparado. Atingiu um cortiço e matou duas crianças. Enquanto parte da população fugia apavorada, a outra parte, curiosa, corria para o cais, para assistir ao vaivém dos navios.</p>



<p>Pressionado por políticos da oposição, o recém-empossado presidente da República, o marechal Hermes da Fonseca, aceitou as condições e pôs fim à rebelião.</p>



<p>A trégua, porém, durou pouco. Já no dia seguinte, logo que os rebelados começaram a desembarcar, Hermes da Fonseca voltou atrás. E, por decreto, começou a perseguir todos os que participaram do levante.</p>



<p>Dos 2.379 marujos revoltosos, 1.216 foram expulsos da Marinha. Outros 600 foram presos e 105 obrigados a embarcar nos porões do navio Satélite, rumo à Amazônia, para trabalhos forçados na produção da borracha. Catorze deles nunca chegaram ao destino. Foram fuzilados durante a viagem e tiveram seus corpos jogados ao mar.</p>



<p>João Cândido foi preso, interrogado e, às vésperas do Natal de 1910, levado para a Fortaleza de São José, na Ilha das Cobras (RJ), onde ficava o Batalhão Naval.</p>



<p>Em um calabouço onde só cabiam seis prisioneiros, dividiu a solitária com 17 companheiros. Ali, os marujos ficaram por três dias, sem ter o que comer ou beber e debaixo de um sol escaldante.</p>



<p>Sob o pretexto de desinfetar a cela, imunda de fezes e urina, os carcereiros jogaram cal lá dentro. Apenas dois dos 18 encarcerados sobreviveram: João Cândido e João Avelino Lira, de 26 anos. Os demais morreram de fome ou de asfixia.</p>



<p>A odisseia de João Cândido não terminou ali. Em abril de 1911, foi mandado para o Hospício Nacional dos Alienados, onde permaneceu por dois meses.</p>



<p>Logo, o diretor da instituição, Juliano Moreira, atestou que, de louco, João não tinha nada. Liberado, voltou à prisão, onde sobreviveu a uma tentativa de assassinato.</p>



<p>Um ano e meio depois, no dia 29 de novembro de 1912, foi levado a julgamento.</p>



<p>Apesar de absolvido das acusações, foi expulso da Marinha.</p>



<p>Ao sair da prisão, em 30 de dezembro de 1912, João Cândido passou a fazer biscates e a vender peixes para sobreviver.</p>



<p>Ele se casou três vezes, com Marieta, Maria Dolores e Ana, e teve 11 filhos. Viveu seus últimos anos de vida em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, numa rua sem asfalto, luz elétrica ou água encanada.</p>



<p><em>Com reportagem de André Bernardo, para a BBC News Brasil no Rio de Janeiro</em></p>



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