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	<title>bukelle |</title>
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	<title>bukelle |</title>
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		<title>&#8216;Cemitério dos homens vivos&#8217;: a brutalidade na megaprisão de Bukele relatada por 8 venezuelanos deportados pelos EUA para El Salvador</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Aug 2025 18:20:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O único pedido que Arturo Suárez fez aos guardas ao chegar ao&#160;Centro de Confinamento do Terrorismo&#160;(Cecot), em&#160;El Salvador, foi que permitissem a ele ficar com seus óculos. Mas ele conta que eles foram quebrados durante uma surra. Ele então desmaiou, e dois guardas o carregaram até o bloco 8, a ala do Cecot que abrigou, [&#8230;]</p>
<p>The post <a href="https://ipiracity.com/cemiterio-dos-homens-vivos-a-brutalidade-na-megaprisao-de-bukele-relatada-por-8-venezuelanos-deportados-pelos-eua-para-el-salvador/">‘Cemitério dos homens vivos’: a brutalidade na megaprisão de Bukele relatada por 8 venezuelanos deportados pelos EUA para El Salvador</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Valentina Oropeza, Cecilia Barría, Nicole Kolster, Gustavo Ocando Alex e Leire Ventas*</strong></li>



<li>Role,<strong>BBC News Mundo</strong></li>



<li>Terça, 19 de agosto de 2025</li>
</ul>



<p>O único pedido que Arturo Suárez fez aos guardas ao chegar ao&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-051ab38e-b7d2-44ce-b40f-80d5b51f7db2">Centro de Confinamento do Terrorismo</a>&nbsp;(Cecot), em&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckg5x48lvr2o">El Salvador</a>, foi que permitissem a ele ficar com seus óculos.</p>



<p>Mas ele conta que eles foram quebrados durante uma surra. Ele então desmaiou, e dois guardas o carregaram até o bloco 8, a ala do Cecot que abrigou, entre março e julho de 2025, 252 migrantes venezuelanos deportados dos&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/cdr56r2r88wt">Estados Unidos</a>&nbsp;pelo governo do presidente&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/cdr56r28jgvt">Donald Trump</a>.</p>



<p>Os venezuelanos foram separados dos membros de gangues salvadorenhas para os quais foi projetada esta prisão de segurança máxima, inaugurada em 2023 pelo presidente&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c62w76g6l68o">Nayib Bukele</a>&nbsp;como símbolo de sua&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3g0335m41no">política de combate às gangues</a>.</p>



<p>Durante anos, as gangues aterrorizaram a população de El Salvador com assassinatos e extorsões, tornando o país um dos mais violentos do mundo.</p>



<p>A política linha-dura de Bukele reduziu drasticamente os homicídios, e serviu de exemplo para outros países, mas também recebeu inúmeras denúncias de violações de <a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/cjgn7g1316pt">direitos humanos</a>.</p>



<p>Quando Suárez abriu os olhos, tudo ao seu redor estava embaçado. No entanto, ele se lembra de ter ouvido as palavras de Belarmino García, o diretor da&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/cjgn7g848j6t">prisão</a>:</p>



<p>&#8220;O famoso&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3g9j0xjggeo">Trem de Aragua</a>&#8230; Bem-vindos ao inferno, bem-vindos ao cemitério dos homens vivos. Daqui vocês só saem mortos. Aqui vocês estão na qualidade de condenados.&#8221;</p>



<p>O Trem de Aragua surgiu na Venezuela em 2014 e expandiu suas operações para diversos países do continente americano. A Casa Branca o considera uma &#8220;organização terrorista estrangeira&#8221;, com &#8220;milhares de membros infiltrados ilegalmente nos EUA&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/f832/live/d054eba0-7956-11f0-aaf6-d3dc859efb2f.jpg.webp" alt="Foto de migrantes deportados pelos EUA para o Cecot. Os migrantes aparecem ajoelhados e com a cabeça raspada; enquanto os guardas, com o rosto coberto por máscara, os imobilizam"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Em março, o governo de El Salvador divulgou imagens dos migrantes deportados dos EUA</figcaption></figure>



<p>Confuso e sem enxergar direito, Suárez não entendia o que estava acontecendo.</p>



<p>O cantor venezuelano conta que havia solicitado nos EUA o Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês), um programa que protegeu da deportação quase 600 mil venezuelanos durante o mandato do ex-presidente Joe Biden.</p>



<p>Mas o governo Trump acabou com essa proteção para os venezuelanos em 5 de fevereiro (e posteriormente a retirou para outras seis nacionalidades que se beneficiavam do programa).</p>



<p>Três dias depois, Suárez foi preso pelas autoridades migratórias na Carolina do Norte, enquanto gravava um videoclipe.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/cd73/live/68c34830-7bde-11f0-ab3e-bd52082cd0ae.jpg.webp" alt="Edwuar Hernández sendo recebido pela família ao retornar à Venezuela"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Edwuar Hernández foi recebido pela família ao retornar à Venezuela</figcaption></figure>



<p>Edwuar Hernández, que morava em Dallas e trabalhava em uma fábrica de tortilhas quando foi detido, também se lembra claramente do discurso de boas-vindas do diretor do Cecot.</p>



<p>&#8220;Ele disse que nunca mais comeríamos frango nem carne. E que éramos do famoso Trem de Aragua. Gritamos que éramos inocentes, e ele disse: &#8216;Não sou ninguém para julgá-los; quem vai julgar vocês é Deus&#8217;.&#8221;</p>



<p>O governo Trump justificou a transferência dos migrantes para El Salvador com base em sua suposta filiação ao grupo criminoso venezuelano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-deportação">A deportação</h2>



<p>Quando Suárez e Hernández embarcaram no voo para serem deportados dos EUA, pensavam que estavam indo para a Venezuela. Foi isso que haviam dito a eles, afirmam. No entanto, desembarcaram em El Salvador algemados pelas mãos e pelas pernas.</p>



<p>Hernández conta que, ao chegarem à capital salvadorenha, os migrantes foram expulsos do avião a pontapés e empurrões. De lá, foram levados para o Cecot.</p>



<p>Ao entrar na prisão, ele diz que foram obrigados a se ajoelhar diante de homens que rasparam suas cabeças. Em seguida, tiveram que se despir para colocar uma calça e suéter brancos e sandálias croc da mesma cor.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/2158/live/b1ace8a0-7957-11f0-aaf6-d3dc859efb2f.jpg.webp" alt="Mervin Yamarte ao chegar em casa na Venezuela"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Mervin Yamarte, quatro meses depois, ao chegar em casa na Venezuela</figcaption></figure>



<p>Eles ficaram no Cecot por cerca de quatro meses.</p>



<p>No dia 18 de julho, os 252 venezuelanos foram&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c17wjp02g92o">enviados de volta ao seu país</a>, após um acordo entre os governos de El Salvador, Venezuela e EUA.</p>



<p>De suas casas, cercados por familiares e amigos, a BBC News Mundo, serviço de notícias da BBC em espanhol, conversou com oito deles para fazer uma reconstituição do dia a dia dentro da famosa megaprisão, um lugar do qual poucos saíram e cuja rotina é pouco conhecida devido ao sigilo que a cerca.</p>



<p>Edwuar Hernández (23 anos), Mervin Yamarte (29), Andy Perozo (30) e Ringo Rincón (39) compartilharam juntos suas experiências, reunidos no bairro Los Pescadores, na província de Zulia, no oeste da Venezuela.</p>



<p>Os quatro emigraram e chegaram juntos aos EUA. E foram detidos juntos no apartamento que dividiam no Texas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/f3f8/live/857c08d0-77c0-11f0-8071-1788c7e8ae0e.jpg.webp" alt="Da esquerda para a direita: Mervin Yamarte, Andy Perozo, Ringo Rincón e Edwuar Hernández sentados um ao lado do outro"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Mervin Yamarte, Andy Perozo, Ringo Rincón e Edwuar Hernández conversaram com a BBC News Mundo no Estado de Zulia, na Venezuela</figcaption></figure>



<p>Também conversamos com Andry Hernández (31), que mora no Estado de Táchira, perto da fronteira com a Colômbia; com Arturo Suárez (34) e Joén Suárez (23), em suas respectivas casas em Caracas; e com Wilken Flores (24) em Guatire, uma cidade próxima à capital venezuelana.</p>



<p>Alguns haviam entrado nos EUA legalmente, e outros de forma irregular, e os oito foram apontados como criminosos no país.</p>



<p>O governo americano reconheceu que muitos dos venezuelanos deportados não têm antecedentes criminais.</p>



<p>A BBC perguntou ao Departamento de Segurança Nacional (DHS, na sigla em inglês) que evidências existem de que eles pertencem ao Trem de Aragua, mas não recebeu resposta.</p>



<p>Tampouco obtivemos acesso a informações que permitissem verificar de forma independente seus antecedentes.</p>



<p>Um deles, Joén Suárez, foi acusado de dirigir sem carteira de motorista, seguro e com placas irregulares no Colorado em 2024, mas registros judiciais mostram que o processo foi posteriormente arquivado.</p>



<p>Eles negam ter qualquer vínculo com a gangue criminosa, e afirmam que não tiveram a oportunidade de responder às acusações.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/0025/live/848f6b40-79f7-11f0-ab3e-bd52082cd0ae.jpg.webp" alt="Mervin Yamarte aparece em uma foto com o cabelo raspado, logo após chegar ao Cecot. Ao fundo, é possível ver funcionários uniformizados"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Mervin Yamarte, um dos migrantes deportados para El Salvador, aparece em uma foto com o cabelo raspado, pouco depois de chegar ao Cecot</figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-chegada">A chegada</h2>



<p>Todos os migrantes com quem a BBC News Mundo conversou dizem que os abusos no Cecot começaram no primeiro dia.</p>



<p>&#8220;Ao chegar, quando tiraram toda minha roupa e fiquei nu, eles me bateram com uma tábua por baixo da bunda, me bateram nas costelas, não me deixaram nem colocar a roupa&#8221;, conta Mervin Yamarte, um trabalhador da construção civil na Venezuela que, assim como Edwuar Hernández, trabalhava em uma fábrica de tortilhas no Texas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/f648/live/64ac01e0-7c44-11f0-a34f-318be3fb0481.png.webp" alt="Foto de Mervin Yamarte com a seguinte aspa: 'Ao chegar, quando tiraram toda minha roupa e fiquei nu, eles me bateram com uma tábua por baixo da bunda, me bateram nas costelas, não me deixaram nem colocar a roupa'"/></figure>



<p>&#8220;&#8216;Anda logo, seu bosta!&#8217; (Merda), eles me diziam. Como posso vestir minhas roupas se estão me batendo?&#8221;</p>



<p>A BBC News Mundo enviou pedidos de comentários sobre as denúncias de abuso à Presidência, ao Ministério da Segurança de El Salvador e à direção do Cecot. Até a publicação desta reportagem, nenhuma das três entidades havia respondido.</p>



<p>No entanto, no passado, o presidente Bukele negou qualquer violação de direitos, tanto na megaprisão quanto nos demais presídios do país.</p>



<p>E o recente relatório anual de direitos humanos do Departamento de Estado dos EUA afirma que em El Salvador &#8220;não há relatos confiáveis de abusos significativos&#8221;, uma mudança radical em relação ao que dizia o relatório anterior à chegada de Trump ao poder.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-prisão">A prisão</h2>



<p>&#8220;É um lugar extremamente frio e imenso, é uma cidade completa&#8221;, diz à BBC News Mundo Andry Hernández, maquiador que pediu asilo nos EUA assim que cruzou a fronteira com o México, mas foi imediatamente detido. Ele não passou um único dia sequer em liberdade.</p>



<p>Sua descrição da prisão coincide com uma&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-051ab38e-b7d2-44ce-b40f-80d5b51f7db2">investigação publicada</a>&nbsp;pela BBC News Mundo em julho de 2023, logo após a abertura do Cecot.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/ae61/live/9a2a01f0-7c44-11f0-a34f-318be3fb0481.png.webp" alt="Mapa de Cecot feito a partir de uma imagem do Google Earth de 3 de março de 2025"/></figure>



<p>Embora os migrantes venezuelanos não tenham interagido com os membros de gangues salvadorenhas, eles relatam que tiveram contato com outros presos comuns. &#8220;Eles nos davam comida, limpavam o bloco, recolhiam o lixo&#8221;.</p>



<p>Como estavam vestidos de amarelo, eram chamados de &#8220;minions&#8221;, como os personagens do filme de animação.</p>



<p>O governo de Bukele tem um programa chamado Zero Ócio, por meio do qual 48 mil presos comuns, que não são membros de gangues, são considerados &#8220;em fase confiável&#8221; e realizam trabalhos em troca de alguns benefícios, como redução de penas.</p>



<p>Em todos os blocos, existem celas solitárias para castigo que os migrantes do bloco 8 chamam de &#8220;a ilha&#8221;.</p>



<p>&#8220;São várias celas escuras para onde levam a pessoa para torturá-la. Eles dizem: &#8216;Cala a boca, merda; cala a boca, seu bosta; cala a boca, filho da puta&#8217;. Te fazem ajoelhar, pisam em você, dão tapas, socos na orelha, te chutam&#8221;, denuncia Joén Suárez, que era barbeiro na Venezuela, e trabalhou como pintor em Denver e entregador em Nova York.</p>



<p>Eles afirmam que há um buraco no teto, a única fonte de luz que entra na solitária.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/aa5c/live/11253a20-7c47-11f0-83cc-c5da98c419b8.png.webp" alt="Reconstrução de 'a ilha' segundo os depoimentos dos detidos"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Reconstrução de &#8216;a ilha&#8217; de acordo com os depoimentos dos detidos</figcaption></figure>



<p>O Cecot abriga muitos dos membros de gangues que durante anos controlaram as ruas de El Salvador. Muitos foram detidos antes de março de 2022, quando foi declarado o atual Estado de exceção que, segundo organizações de direitos humanos, não garante o devido processo legal.</p>



<p>Essa denúncia de falta de garantias é consistente com a feita pelos migrantes venezuelanos que foram deportados pelos EUA e confinados na mesma prisão salvadorenha.</p>



<p>Para realizar as deportações sem esperar decisões administrativas ou judiciais, Trump recorreu à&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5y47z0qrglo">Lei dos Inimigos Estrangeiros</a>&nbsp;de 1798, que concede ao presidente o poder de deter e expulsar cidadãos de países com os quais os EUA estão em guerra.</p>



<p>Mas em 15 de março, mesmo dia em que decolou o primeiro voo de deportação para El Salvador, um juiz ordenou a&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9qwev8x5ydo">suspensão das transferências</a>, determinando que a lei não poderia ser aplicada a essas expulsões.</p>



<p>Os oito estão convencidos de que foram presos por terem tatuagens que as autoridades americanas associam ao Trem de Aragua.</p>



<p>Andry Hernández, por exemplo, foi submetido a um sistema de pontuação pelo qual foi classificado como suspeito de pertencer à gangue devido a duas coroas tatuadas em seus punhos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/6d8b/live/fb9f0a70-77b7-11f0-8071-1788c7e8ae0e.png.webp" alt="Tatuagens de coroa de Andry Hernández em ambos os punhos"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,As tatuagens de Andry Hernández nos punhos</figcaption></figure>



<p>A BBC News Mundo consultou a Casa Branca sobre o polêmico envio de venezuelanos para El Salvador e suas denúncias de abusos no Cecot.</p>



<p>&#8220;O governo de Trump agradece nossa colaboração com o presidente Bukele para ajudar a expulsar os piores imigrantes ilegais, violentos e criminosos das comunidades americanas&#8221;, respondeu a porta-voz Abigail Jackson por meio de um comunicado.</p>



<p>Dos oito que deram depoimento à BBC News Mundo, apenas dois migrantes tinham ordens de deportação para seu país de origem antes de serem enviados para El Salvador.</p>



<p>Outros entraram nos EUA após marcar uma consulta oficialmente ou desfrutavam de ou haviam solicitado mecanismos que os protegiam da deportação, como asilo ou Status de Proteção Temporária.</p>



<p>Os oito denunciam que acabaram atrás das grades do Cecot sem possibilidade de defesa legal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="As-celas">As celas</h2>



<p>Ringo Rincón, trabalhador da construção civil e pai de três filhos, conta que, antes de fechar a porta da cela que foi designada a ele na chegada, o guarda disse: &#8220;Vocês já sabem: Aqui não há advogados, não há telefonemas, não há juízes, aqui não há nada&#8221;.</p>



<p>Ele lembra que o guarda falou que tudo o que eles tinham era o que estavam vestindo, e o que havia dentro da cela. &#8220;&#8216;Vocês não têm mais nada&#8217;, ele nos disse.&#8221;</p>



<p>Desde então, eles afirmam que ficaram sem contato com seus familiares e equipes de defesa jurídica.</p>



<p>&#8220;Ao entrar, há dois tanques de água, um à direita e outro à esquerda&#8221;, explica Andry Hernández, a partir de Capacho, uma cidade nos Andes venezuelanos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/2d82/live/bbc94c60-7958-11f0-ab3e-bd52082cd0ae.jpg.webp" alt="Imagem do interior de uma das celas de Cecot, onde há dois tanques, e dois prisioneiros aparecem curvados sendo levados por guardas"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Imagem do interior de uma das células do Cecot</figcaption></figure>



<p>&#8220;Em cada canto desses tanques havia dois canos de esgoto e, ao lado deles, dois vasos sanitários, um para urinar e outro para fazer as necessidades. Tínhamos um balde vermelho para nos lavarmos, usar nos sanitários e beber.&#8221;</p>



<p>Os detidos bebiam a água dos tanques e afirmam que nunca tinham privacidade, pois os vasos sanitários eram descobertos.</p>



<p>&#8220;O cheiro era horrível, era puro esgoto, porque são fossas sépticas. É muito fedido dentro da cela&#8221;, afirma Wilken Flores, que entrou nos EUA com um agendamento para consulta de acordo com o procedimento oficial, mas foi detido assim que entrou no país.</p>



<p>&#8220;Não havia ventilação, não entrava vento. O calor era sufocante, e as cinco luzes do teto ficavam acesas&#8221;, conta Arturo Suárez, que tentava se acostumar com a visão reduzida devido à perda de seus óculos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/2595/live/41732c20-7c45-11f0-ab3e-bd52082cd0ae.png.webp" alt="Foto de Arturo Suárez com a seguinte aspa: 'Não havia ventilação, não entrava vento. O calor era sufocante, e as cinco luzes do teto ficavam acesas'"/></figure>



<p>Se uma cela tem capacidade para 80 pessoas, no bloco 8 havia entre 10 e 19 detentos por cela, concordam os entrevistados.</p>



<p>&#8220;Na minha cela, havia 19 corpos, 19 odores, 19 níveis de pH. Era difícil viver assim&#8221;, afirma Andry Hernández. &#8220;Mas com o tempo nosso olfato e nosso corpo se adaptaram&#8221;.</p>



<p>Nas alas dos membros de gangues, há mais de&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72gz6k2l54o">100 detentos por cela</a>, segundo constatou uma jornalista da BBC News Mundo que visitou a prisão em fevereiro de 2024, e mostraram os vídeos e fotografias publicados por outros meios de comunicação e pelo próprio governo salvadorenho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Dormir-sobre-metal">Dormir sobre metal</h2>



<p>Os oito homens afirmam que havia quatro fileiras de beliches em cada cela.</p>



<p>&#8220;Na maior parte do tempo, dormíamos em latão, como mesas de lata, sem lençóis, sem nada&#8221;.</p>



<p>&#8220;Na cama que ficava ao nosso lado, escrevíamos: &#8216;Família, saudade, amo vocês'&#8221;, relata Andry Hernández, que além de maquiador era ator de teatro na Venezuela.</p>



<p>&#8220;Escrevíamos palavras de incentivo que nos ajudavam a pegar no sono, entre aspas, porque na verdade ninguém dormia&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/3d3e/live/10598d80-7959-11f0-902c-9f17c2a5b092.jpg.webp" alt="Andy Perozo apontando para a orelha esquerda. Ele afirma que os guardas faziam barulho à noite para impedir que os migrantes dormissem"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Andy Perozo afirma que os guardas faziam barulho à noite para impedir que os migrantes dormissem</figcaption></figure>



<p>Andy Perozo, que trabalhava como padeiro na Venezuela e em uma fábrica de tortilhas nos EUA, afirma que havia um guarda conhecido como o &#8220;líder do bloco&#8221; que fazia barulho à noite.</p>



<p>&#8220;Ele batia nas paredes ou nas portas para não conseguirmos dormir. Cada momento era uma tortura.&#8221;</p>



<p>Todos indicam que não saíam ao ar livre.</p>



<p>&#8220;Permanecíamos 24 horas trancados, sem nos aproximar das grades, na angústia de saber se iriam nos bater, se iriam gritar conosco, quando iríamos sair&#8221;, explica Andry Hernández.</p>



<p>&#8220;Víamos a claridade, mas não sentíamos o Sol&#8221;, acrescenta Arturo Suárez.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Sem-relógios">Sem relógios</h2>



<p>O dia começava às 4h da manhã. Ou pelo menos era o que eles calculavam, já que não havia relógios nas paredes, e os guardas se recusavam a dizer o dia e a hora. Quando diziam, os detentos não acreditavam neles.</p>



<p>&#8220;Primeiro gritavam: &#8216;Hora da contagem!&#8217;. Esse era o nosso despertador&#8221;, lembra Andry Hernández. &#8220;Os guardas iam a cada cela, anotavam em um papel, contavam quantos havia&#8221;.</p>



<p>Depois, eles tinham que tomar banho.</p>



<p>&#8220;Tínhamos que nos levantar e tomar banho. Se não fizéssemos isso, sofríamos represálias. A cela inteira tinha que tomar banho, e não havia mais banho durante o dia, mesmo que estivesse muito calor&#8221;, recorda Joén Suárez de sua casa em San Agustín, um bairro de Caracas.</p>



<p>Todos se despiam e tomavam banho juntos ao lado dos tanques, dentro da mesma cela onde passavam o resto do dia.</p>



<p>&#8220;Havia dois baldes para 19 pessoas: enquanto um se molhava, o outro se ensaboava, porque só nos davam 10 minutos de banho para todos&#8221;, conta Arturo Suárez.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/c2d9/live/8a816d00-7939-11f0-a34f-318be3fb0481.png.webp" alt="Wilken Flores ao lado da mãe"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Wilken Flores com a mãe na casa da família na Venezuela</figcaption></figure>



<p>Nos quatro meses em que esteve detido, Suárez afirma que recebeu pasta de dente em três ocasiões. &#8220;Quando havia visita (da Cruz Vermelha ou de políticos americanos), eles nos davam pasta de dente, a metade de um sabonete e as escovas, que eram cortadas&#8221;.</p>



<p>&#8220;Chegamos a escovar os dentes com sabão Ace&#8221;, afirma Wilken Flores, referindo-se ao detergente que davam a eles para lavar roupa.</p>



<p>Eles precisavam de autorização para fazer qualquer movimento. Do contrário, corriam o risco de serem punidos se os guardas percebessem.</p>



<p>&#8220;Para ir ao banheiro, tínhamos que pedir permissão a eles&#8221;, explica Flores. &#8220;Ou eles nos batiam&#8221;.</p>



<p>Embora quisessem &#8220;respirar ar fresco&#8221;, era proibido se aproximar das grades da cela. &#8220;Se nos descuidássemos e colocássemos as mãos na grade, eles nos batiam, machucavam nossas mãos&#8221;, lembra Flores.</p>



<p>Tomar banho fora do horário exigia uma estratégia. &#8220;Tínhamos que pedir aos (presos) da cela ao lado para vigiarem. Todos nós nos ajudávamos: você olha para lá, o outro para cá e assim, cada um vigiava um certo limite.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Dados-de-tortilla">Dados de tortilla</h2>



<p>Os detidos supõem que por volta das 7h serviam o café da manhã: um prato de arroz, feijão preto e tortilhas, às vezes com creme ou algum biscoito.</p>



<p>Ao meio-dia, serviam o almoço: macarrão, arroz e tortilha. Por volta das 17h, era hora do jantar: arroz, feijão e tortilha.</p>



<p>Eles contam que não tinham talheres. Tinham que comer com as mãos.</p>



<p>&#8220;Às vezes, o feijão do café da manhã cheirava mal. Como não estávamos acostumados a comer tortilhas, jogávamos tudo no ralo nos primeiros dias.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/52ed/live/5cf345c0-7c45-11f0-a34f-318be3fb0481.png.webp" alt="Foto de Edwuar Hernández com a seguinte aspa: 'Às vezes, o feijão do café da manhã cheirava mal. Como não estávamos acostumados a comer tortilhas, jogávamos tudo no ralo nos primeiros dias'"/></figure>



<p>Mas quando os guardas descobriram o que estava acontecendo, ameaçaram puni-los. &#8220;Eles estavam nos supervisionando. Quando os guardas tinham gás lacrimogêneo ou spray de pimenta, diziam que, se não comêssemos, iriam jogar na gente&#8221;, conta Andy Perozo.</p>



<p>Com o tempo, sua engenhosidade os levou a encontrar outros usos para a comida.</p>



<p>Enquanto alguns se exercitavam — mesmo sem poder tomar banho depois —, outros jogavam dominó ou uma espécie de ludo, jogo de tabuleiro com peças e dados feito de massa de tortilha.</p>



<p>&#8220;Apertávamos a massa, fazíamos um quadrado no formato dos dados, subíamos na última cama e passávamos a massa na poeira, o que dava uma textura firme e formava os dados&#8221;, explica Edwuar Hernández, apaixonado por futebol.</p>



<p>&#8220;Depois, fazíamos os pontinhos, e marcávamos o chão ou o metal (da cama) com sabão para criar o tabuleiro, e então jogávamos.&#8221;</p>



<p>Às vezes, os guardas tiravam os dados deles. Ou eram obrigados a falar em um volume muito baixo ou a fazer &#8220;silêncio total&#8221;. Nesses casos, conversar com outros presos poderia resultar em punições adicionais.</p>



<p>&#8220;Se falássemos novamente, nos diziam: &#8216;Todos para o fundo, prontos para a revista'&#8221;, conta Ringo Rincón, que ansiava por voltar à Venezuela para ficar com os três filhos, especialmente o mais novo, que nasceu dias antes de sua partida para os EUA.</p>



<p>&#8220;Eles nos deixavam lá por duas, três, quatro horas.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/3df1/live/03839d20-795a-11f0-a34f-318be3fb0481.jpg.webp" alt="Edwuar Hernández abraçado com a mãe em Los Pescadores, no Estado de Zulia, na Venezuela, após ser liberado de Cecot"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Edwuar Hernández com a mãe, após ser libertado do Cecot, em Los Pescadores, no Estado de Zulia, na Venezuela</figcaption></figure>



<p>&#8220;O abuso psicológico era tão forte que há um detalhe surpreendente: naquele lugar, não era possível falar como estamos falando aqui&#8221;, afirma Mervin Yamarte, cercado por seus companheiros no Estado de Zulia.</p>



<p>&#8220;Eles queriam que falássemos por sinais, porque as gangues faziam isso, as gangues se comunicam por sinais.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Greve-de-sangue">Greve de sangue</h2>



<p>Todos reconhecem que, se se sentissem mal, podiam solicitar uma consulta no serviço médico, mas esclarecem que não recebiam medicamentos, com exceção de nove comprimidos (seis vermelhos e três brancos) que recebiam todas as segundas-feiras para prevenir a tuberculose, segundo diziam as autoridades prisionais.</p>



<p>&#8220;Tínhamos que tomar na frente deles (dos guardas)&#8221;, explica Edwuar Hernández. &#8220;Esses comprimidos faziam você urinar vermelho por uns quatro dias e com um cheiro forte&#8221;.</p>



<p>Hernández e Andy Perozo, amigos do bairro Los Pescadores, em Maracaibo, contam que durante um tempo eles eram espancados todos os dias. Quando os tiravam da cela para maltratá-los, diziam que iam ao serviço médico, eles denunciam.</p>



<p>&#8220;Colocavam a enfermeira em um quartinho, e a gente em outro&#8221;, diz Hernández. &#8220;Depois que nos espancavam, chamavam ela, e ela entrava e nos atendia.&#8221;</p>



<p>Às vezes, as agressões que sofriam provocavam reações de protesto individuais ou coletivas.</p>



<p>Joén Suárez denuncia que, em uma ocasião, os guardas tiraram os detentos de suas celas, os obrigaram a se ajoelhar e os borrifaram com spray de pimenta.</p>



<p>&#8220;Um dos nossos companheiros aparentemente sofria de asma. Ele desmaiou, e bateu a cabeça com força&#8221;, diz ele. &#8220;Três companheiros o levaram para a área médica, e então nos levantamos contra eles&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/5a94/live/7c923280-793c-11f0-ab3e-bd52082cd0ae.jpg.webp" alt="Joén Suárez com a filha no colo"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Joén Suárez segura a filha no colo na casa da família nos arredores de Caracas</figcaption></figure>



<p>Suárez afirma que eles jogaram pedaços de sabão e água nos guardas, que responderam com agressões. &#8220;Diziam que não éramos ninguém.&#8221;</p>



<p>Os detentos decidiram fazer uma greve de fome e uma greve de sangue.</p>



<p>&#8220;Tínhamos um lençol branco. Os companheiros se cortavam e, com o próprio sangue, escreviam: &#8216;O sangue de Cristo tem poder, somos imigrantes, não somos terroristas, socorro, SOS, queremos um advogado'&#8221;.</p>



<p>Wilken Flores conta que foi um dos detentos que cortou as pernas e os braços com a borda afiada da estrutura de metal da cama.</p>



<p>&#8220;Fiz cerca de oito cortes, e havia três feridas em que cabia um dedo. Já fecharam, mas ficaram em carne viva.&#8221;</p>



<p>&#8220;Queríamos um tratamento melhor&#8221;, diz Flores, explicando por que decidiu se cortar. &#8220;Queríamos médicos, queríamos comer bem, tomar banho, fazer nossas necessidades em paz, queríamos um banheiro, queríamos xampu.&#8221;</p>



<p>Joén Suárez lembra que, em uma certa ocasião, os presos quebraram os canos da sua cela, amarraram os lençóis neles, e os passaram pelas grades como uma bandeira.</p>



<p>&#8220;Os oficiais chegaram a ver a mensagem&#8221;, afirma.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/4e0a/live/796a90a0-7c45-11f0-83cc-c5da98c419b8.png.webp" alt="Foto de Wilken Flores com a seguinte aspa: 'Fiz cerca de oito cortes, e havia três feridas em que cabia um dedo. Já fecharam, mas ficaram em carne viva'"/></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="Para-a-ilha">&#8216;Para a ilha!&#8217;</h2>



<p>Esse tipo de rebelião acarretava punição.</p>



<p>Arturo Suárez afirma que esteve mais de dez vezes na &#8220;ilha&#8221; do bloco 8, a maioria delas por quebrar o silêncio e cantar.</p>



<p>&#8220;Encontrei no canto uma distração para mim e meus companheiros. Lá, eles apertavam as algemas, e batiam na gente com as mãos. Quando as agressões eram em massa, nos batiam com cassetetes.&#8221;</p>



<p>&#8220;Tínhamos que fazer silêncio total. Até por respirar eles mandavam você para a ilha&#8221;.</p>



<p>Apesar da intimidação, Suárez compôs sua primeira canção dentro do Cecot:</p>



<p><em>Tres paredes y una reja,</em></p>



<p><em>me roban la libertad.</em></p>



<p><em>La mentira de unos hombres,</em></p>



<p><em>ocultando la verdad.</em></p>



<p><em>Dicen que soy un peligro</em></p>



<p><em>para esta sociedad.</em></p>



<p><em>No he cometido delito,</em></p>



<p><em>solamente emigrar.</em></p>



<p>Em tradução livre, seria:</p>



<p><em>Três paredes e uma grade,</em></p>



<p><em>roubam minha liberdade.</em></p>



<p><em>A mentira de alguns homens,</em></p>



<p><em>ocultando a verdade.</em></p>



<p><em>Dizem que sou um perigo</em></p>



<p><em>para esta sociedade.</em></p>



<p><em>Não cometi nenhum crime,</em></p>



<p><em>apenas emigrar.</em></p>



<p>O cantor afirma que, após as agressões, eles eram levados ao serviço médico. &#8220;Vendo a surra que nos deram, o médico tinha a audácia ou o sarcasmo de perguntar: &#8216;O que está doendo?'&#8221;.</p>



<p>Ele relata que, em uma das muitas vezes em que saiu da &#8220;ilha&#8221;, não conseguia sentar porque sentia dor nas costelas e nos rins. &#8220;Duas vezes cuspi sangue. A minha cabeça parecia um saco de pancada de boxe.&#8221;</p>



<p>Apesar de tudo, ele conseguiu compor uma segunda canção:</p>



<p><em>Desde la celda 31,</em></p>



<p><em>Papá Dios me habló,</em></p>



<p><em>Dijo: &#8220;Hijo, ten paciencia,</em></p>



<p><em>pronto viene tu bendición.</em></p>



<p><em>Solo quiero una cosa,</em></p>



<p><em>nunca te olvides de mí,</em></p>



<p><em>porque ya falta muy poco,</em></p>



<p><em>para que salgas de aquí&#8221;.</em></p>



<p>Em tradução livre, seria:</p>



<p><em>Da cela 31,</em></p>



<p><em>Papai do céu falou comigo,</em></p>



<p><em>Disse: &#8220;Filho, tenha paciência,</em></p>



<p><em>em breve virá sua bênção.</em></p>



<p><em>Só quero uma coisa,</em></p>



<p><em>nunca se esqueça de mim,</em></p>



<p><em>porque falta muito pouco,</em></p>



<p><em>para você sair daqui&#8221;.</em></p>



<p>Durante a conversa em Caracas, Suárez revela que um companheiro foi abusado sexualmente.</p>



<p>Esse companheiro é Andry Hernández.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="O-medo">O medo</h2>



<p>Como os guardas estavam sempre com o rosto coberto, e a &#8220;ilha&#8221; era um espaço totalmente escuro, Hernández não sabe quem são os quatro guardas envolvidos na agressão que ele denuncia ter sofrido dentro da cela para castigo.</p>



<p>&#8220;Tenho muito orgulho de pertencer à comunidade (LGBTQ), mas o preço de tornar isso público naquela prisão foi ser abusado sexualmente pela própria autoridade.&#8221;</p>



<p>Ele afirma que não se atreveu a denunciar o que aconteceu à direção do Cecot.</p>



<p>&#8220;Tive muito medo de que algo muito pior pudesse acontecer comigo e, por isso, todos nós tomamos a decisão de permanecer em silêncio.&#8221;</p>



<p>&#8220;Agradeço a Deus porque isso não se repetiu e, graças aos meus companheiros, consegui superar isso&#8221;.</p>



<p>Além da violência física, Hernández denuncia ter sido assediado por ser homossexual.</p>



<p>&#8220;O que se repetia diariamente, além dos golpes, eram as obscenidades, ver como eles mordiam os lábios e me diziam: &#8216;Olha, casa com um salvadorenho para conseguir a documentação&#8217;; &#8216;olha, ele vai te engravidar&#8217;; &#8216;olha, toma anticoncepcional para não engravidar&#8217;.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/70e2/live/63c8e360-795b-11f0-83cc-c5da98c419b8.jpg.webp" alt="Andry Hernández"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Andry Hernández ao chegar a Capacho, sua cidade nos Andes venezuelanos, após ser libertado</figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="As-visitas">As visitas</h2>



<p>Todos os entrevistados afirmam que as conveniências que obtinham quando recebiam visitas duravam apenas o tempo da visita.</p>



<p>Vários afirmam que chegaram a servir frango e carne ou que receberam lençóis e colchões quando políticos americanos ou funcionários da Cruz Vermelha visitaram a prisão.</p>



<p>&#8220;Sentimos o Sol em nossos corpos apenas duas vezes, nas duas vezes em que a Cruz Vermelha esteve lá&#8221;, diz Arturo Suárez.</p>



<p>&#8220;Se alguém vinha, eles nos levavam para jogar futebol ou para o culto apenas para tirar a foto&#8221;, conta Andy Perozo. &#8220;Paravam de nos agredir, nos tratavam bem, nos davam comida e tiravam fotos apenas naquele momento para fazer a encenação.&#8221;</p>



<p>Mas eles afirmam que, assim que as autoridades da prisão tiravam as fotos, e os visitantes iam embora, eles retiravam a comida e os utensílios de uso pessoal.</p>



<p>Os migrantes do bairro de Los Pescadores, em Maracaibo, agradecem especialmente a visita dos funcionários da Cruz Vermelha.</p>



<p>&#8220;Esse foi o primeiro apoio que sentimos naquele lugar&#8221;, afirma Ringo Rincón. &#8220;Por meio deles, conseguimos deixar uma mensagem, embora conversássemos com eles e sempre houvesse um guarda ao lado.&#8221;</p>



<p>O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) confirmou à BBC News Mundo por e-mail que visitou &#8220;todas as pessoas venezuelanas&#8221; em duas ocasiões.</p>



<p>&#8220;Conseguimos entrar em contato com a maioria das famílias para que soubessem do paradeiro deles&#8221;, afirmou o CICR. Mas esclareceu que a organização &#8220;não divulga publicamente informações sobre o estado ou as condições das pessoas detidas no momento da visita&#8221;.</p>



<p>&#8220;Quaisquer preocupações, observações ou recomendações decorrentes de nossas visitas foram transmitidas às autoridades responsáveis pela detenção&#8221;, acrescentou.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/c64e/live/aa0c8280-77c3-11f0-a975-cb151ca452f4.jpg.webp" alt="Kristi Noem no Cecot"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,A secretária de Segurança Nacional dos EUA, Kristi Noem, durante sua visita ao Cecot</figcaption></figure>



<p>Outra visitante foi a secretária de Segurança Nacional dos EUA, Kristi Noem, que visitou o Cecot em 26 de março, acompanhada do ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro.</p>



<p>O departamento de Noem coordena o Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos EUA (ICE, na sigla em inglês), que realiza batidas para detenção de migrantes e opera voos de deportação.</p>



<p>Todos os migrantes que estiveram no Cecot foram detidos, processados e deportados dos EUA pelo ICE.</p>



<p>Arturo Suárez afirma que Noem não conseguiu gravar um vídeo com os migrantes ao fundo porque todos abriram as palmas das mãos e esconderam os polegares sob os dedos, um gesto que sinaliza pedido de socorro.</p>



<p>&#8220;Não a deixamos fazer a propaganda, porque começamos a pedir socorro por meio das câmeras e a gritar: &#8216;Liberdade&#8217;. É por isso que todos que saem atrás dela são de uma gangue, não venezuelanos.&#8221;</p>



<p>Em um vídeo gravado no Cecot e divulgado pelo Departamento de Segurança Nacional, Noem agradece ao governo de Bukele por manter os &#8220;terroristas&#8221; nessa prisão. Atrás dela, estão prisioneiros com tatuagens no rosto e no pescoço que são típicas de membros de gangues salvadorenhas, e não de migrantes deportados.</p>



<p>Na mensagem, a secretária afirma: &#8220;Se você vier ao nosso país ilegalmente, esta é uma das consequências que poderá enfrentar. Antes de mais nada, não venha ao nosso país ilegalmente. Você será deportado e processado.&#8221;</p>



<p>Em relação à declaração de Arturo Suárez sobre o vídeo de Noem, a subsecretária de Assuntos Públicos do DHS, Tricia McLaughlin, disse à BBC News Mundo por e-mail:</p>



<p>&#8220;O DHS deportou quase 300 terroristas do Trem de Aragua e da MS-13 para o Centro de Confinamento de Terroristas (Cecot) em El Salvador, onde eles não representam mais uma ameaça ao povo americano.&#8221;</p>



<p>&#8220;O vídeo da secretária Noem enviou uma mensagem clara aos imigrantes ilegais criminosos: se não forem embora, os perseguiremos, prenderemos, e poderão acabar nesta prisão salvadorenha&#8221;, destacou McLaughlin.</p>



<p>O DHS encaminhou a BBC News Mundo ao governo de El Salvador para que respondesse às perguntas sobre &#8220;as condições e o tratamento no Cecot&#8221;, uma vez que os migrantes &#8220;não são cidadãos americanos nem estavam sob sua jurisdição&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Ainda-estamos-no-Cecot">&#8216;Ainda estamos no Cecot&#8217;</h2>



<p>Os oito entrevistados para esta reportagem dizem que não acreditavam que seriam enviados de volta à Venezuela até que, no dia 18 de julho, embarcaram no ônibus que os levou até o avião, e ouviram o sotaque venezuelano de autoridades do governo do presidente&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c8y94y3dpdpt">Nicolás Maduro</a>.</p>



<p>&#8220;Foi uma coisa impressionante, todos nós chorávamos, nos olhávamos, nos abraçávamos no ônibus&#8221;, lembra Wilken Flores. &#8220;Uma alegria inexplicável.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/140f/live/93893400-795c-11f0-b879-a7026556735b.jpg.webp" alt="Migrantes deixando o bloco 8 do Cecot em direção a um ônibus, cercados por guardas"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Em 18 de julho, 252 migrantes deixaram o bloco 8 do Cecot com destino a Caracas, após um acordo entre os governos da Venezuela, El Salvador e EUA</figcaption></figure>



<p>Assim que Arturo Suárez desembarcou na Venezuela, seus parentes compraram óculos novos para ele. &#8220;Fiquei quatro meses sem enxergar direito; não conseguia ler.&#8221;</p>



<p>Andry Hernández não só se reencontrou com a família, mas também com todos os vizinhos da cidade de Capacho que se mobilizaram para denunciar sua detenção nos EUA e exigir sua libertação.</p>



<p>Enquanto restabelecem a convivência com seus parentes, os venezuelanos que estiveram no Cecot afirmam que não têm planos de voltar a emigrar. Agora, eles só querem aproveitar a companhia da família.</p>



<p>A partir de agora, Arturo Suárez e Andry Hernández têm um projeto em comum: vão fazer um documentário para recriar o que vivenciaram em El Salvador.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/c18e/live/5314fbb0-793f-11f0-a34f-318be3fb0481.jpg.webp" alt="Andry Hernández e seus pais"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Andry Hernández posa para foto abraçado com os pais na Venezuela</figcaption></figure>



<p>Hernández também planeja abrir uma fundação para ajudar pessoas em situação de rua ou que precisem de algum tipo de assistência médica.</p>



<p>É a sua maneira de superar as sequelas do trauma.</p>



<p>&#8220;Quando ouço chaves, fico em alerta. Será que vêm atrás de mim? Será que vão abrir a cela? Será que vão me punir?&#8221;, conta Hernández.</p>



<p>&#8220;Fisicamente estamos livres, mas mentalmente ainda estamos no Cecot. Nossas cabeças ainda estão dentro daquelas celas&#8221;.</p>



<p><em><strong>* Edição: Daniel García Marco, Tamara Gil e Carolina Robino. Gráficos: Caroline Souza, Daniel Arce López e Carlos Serrano, da Equipe de Jornalismo Visual</strong></em></p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/62c6/live/31da1c20-77bc-11f0-8071-1788c7e8ae0e.png.webp" alt="Separador"/></figure>



<p>Fonte: BBC Brasil / Getty Images e AFPLegenda da foto,Joén Suárez, Arturo Suárez, Wilken Flores e Andry Hernández na fileira de cima. Andy Perozo, Mervin Yamarte, Edwuar Hernández e Ringo Rincón aparecem logo abaixo (da esquerda para a direita)</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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