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	<title>Cora Coralina |</title>
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	<title>Cora Coralina |</title>
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		<title>Aos 75, uma doceira do interior do Brasil publicou seu primeiro livro. Hoje, toda a língua lusófona a reverencia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Aug 2025 14:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Cora Coralina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Manhã de julho, ar seco no Centro-Oeste. Pela Rua do Chafariz, pedras irregulares conduzem o passo até o Rio Vermelho. A cidade respira frio leve: fachadas brancas, telhas de barro, sombra de varandas; o sino marca as horas e o rio corre baixo. Conversa curta na esquina, uma moto, passos no calçamento de pedra irregular. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Manhã de julho, ar seco no Centro-Oeste. Pela Rua do Chafariz, pedras irregulares conduzem o passo até o Rio Vermelho. A cidade respira frio leve: fachadas brancas, telhas de barro, sombra de varandas; o sino marca as horas e o rio corre baixo. Conversa curta na esquina, uma moto, passos no calçamento de pedra irregular. Desse compasso parte a leitura dos cadernos de Anna Lins, anotações que atravessariam sete décadas até ganharem capa em 1965. Antes da assinatura, havia a menina do fim do século 19, aprendendo a ler ruas e mercados para, depois, escrever a cidade.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2025/01/Banner-para-loja-online-frete-gratis-mercado-shops-medio-720-x-90-px-1.gif" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Vila Boa de Goiás, capital do estado até 1937, à beira do Rio Vermelho: uma casa setecentista. Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu em 20 de agosto de 1889 e cresceu num arranjo doméstico regido por mulheres: contas, fogão, cadernos, arquivos de família. A escolaridade termina no terceiro ano do primário; a leitura não. Preferiu a precisão dos cadernos ao ritual das cerimônias públicas e, ainda adolescente, estreou na imprensa local, guardando a maior parte do que escrevia. Partiria depois; retornaria em 1956, com a disciplina de quem conhece o preço do trabalho e do tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1911, seguiu para o interior paulista com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas. O percurso por cidades sucessivas, aluguéis contados e trabalho onde aparecesse trouxe nascimentos e lutos; teve seis filhos, dois morreram logo após nascer. Em 1934, viúva, a necessidade virou ofício: doceira. Dos tachos saíam doces cristalizados, compotas e goiabadas que exigiam pesar o açúcar, vigiar o ponto de calda, esperar; a mesma disciplina silenciosa que, aos poucos, se converteu em método de escrita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto manifestos e revistas do eixo Rio e São Paulo inflamavam o debate literário, ela escrevia fora do circuito, na cadência dos dias úteis. A escrita se adensou na margem: cortes sucessivos, vocabulário concreto, atenção ao gesto. O pseudônimo Cora Coralina, experimentado havia décadas, firmou-se como assinatura nos anos 1950. Não por fuga, mas por precisão; o nome ajustava a obra e permitia que uma voz antiga se organizasse, menos inclinada a pertencer do que a nomear o que via.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.revistabula.com/wp/wp-content/uploads/2025/08/Casa-Cora-Coralina.webp" alt="Casa Cora Coralina" class="wp-image-110245"/><figcaption class="wp-element-caption">Antiga residência de Cora Coralina, hoje Museu Casa Cora Coralina, na Cidade de Goiás, antiga capital do estado, à beira do Rio Vermelho</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1956, depois de quarenta e cinco anos fora, voltou à Cidade de Goiás. Reencontrou a Casa Velha da Ponte, acendeu o fogão, arrastou a mesa para a janela e reabriu os cadernos. Na cozinha, tachos de cobre pendem da trave; na prateleira, a balança de prato e vidros de açúcar. No quarto do fundo, caixas de papéis e recortes, cartas atadas com barbante. A casa passou a sustentar a obra: o Rio Vermelho sob a ponte, os passos dos vizinhos no batente, o sino que marca as horas. Fez do retorno um método de trabalho: ordenar manuscritos, datar páginas, recolher falas da rua, anotar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em junho de 1965, no Rio de Janeiro, a José Olympio publicou “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Nada de golpe de sorte: na mesa da Casa Velha da Ponte, Cora datilografou, revisou à mão, amarrou o original com barbante, meteu-o num envelope pardo com selos de Goiás e confiou ao correio; depois, fez o que cabia a quem mora longe do eixo: enviou exemplares, respondeu cartas, manteve o livro em circulação discreta, sobretudo em Goiás. Em 1978, a Imprensa da Universidade Federal de Goiás reeditou o volume, ampliando o alcance; um ano mais tarde, Carlos Drummond de Andrade lê “Vintém de Cobre”, escreve-lhe, e, no fim de 1980, apresenta-a em crônica no Jornal do Brasil. “Seu ‘Vintém de Cobre’ é, para mim, moeda de ouro”, anota ele; não como uma bênção que fabrica talentos, mas como o reconhecimento público de um trabalho silencioso que vinha de décadas. O circuito nacional se abre por uma sequência muito concreta, correio, universidade, leitor atento, e o que chega ao país não é uma novidade estrondosa: é uma voz que resistiu ao tempo, sem mudar de dicção, até que alguém, do centro, a escutasse direito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os livros que vieram depois deixaram o mapa mais nítido. “Meu Livro de Cordel” (1976) ordena narrativas em versos que parecem conversa de beira de rua, mas avançam com cálculo; “Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha” (1983) desmonta o mito da autora “simples” ao propor um autorretrato que é também radiografia de classe, gênero e lugar; e, em 1985, “Estórias da Casa Velha da Ponte” leva à prosa curta o mesmo rigor dos poemas, com cenas em que a cozinha, o quintal, o beco e a ponte deixam de ser cenário para virar forma de conhecimento. Cada título amplia o mesmo gesto: transformar matéria doméstica e comunitária, tarefas, preços, velórios, repartições, em linguagem com arestas, sem verniz exótico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chamá-la de “simples” é falsear a engenharia: a oralidade resulta de escolhas severas, substantivo que sustenta, verbo que age, adjetivo raro, enumeração que respira, pausa de fala. O interior não é cenário; é método de observação que inventaria preços, repartições, vizinhança. A figura pública, doceira idosa de Goiás, atravessou a leitura; às vezes eclipsou o trabalho, mas também alargou pertencimentos. A recepção registrou ambivalências: publicação tardia e distância do eixo atraíram atenção; críticas apontaram irregularidades entre livros, deriva memorialística e risco de folclorização; outras sublinharam artesania verbal e ética do fazer. O que permanece, lido sem indulgência, é um regime de atenção ao detalhe material que sustenta pensamento e recusa exotismo; o eu se recolhe para que caibam outras vidas. A obra dura não por comover a biografia, mas por organizar experiência comum em linguagem; a personagem ilumina, não basta; cabe ao leitor distinguir uma da outra e, depois, recombiná-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O reconhecimento institucional chegou como costumam chegar as honrarias: tarde. Vieram o Juca Pato (1983) e o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás (1983); depois, o Troféu Jaburu, maior distinção concedida pelo Estado de Goiás a personalidades de relevância pública. No século 21, a consagração atravessou a vitrine nacional em São Paulo, com uma mostra dedicada a Cora no Museu da Língua Portuguesa, gesto raro na programação da instituição, reservado a pouquíssimos autores, que a instala no centro do patrimônio simbólico da língua. Não há contradição entre esses selos e a literatura de quem preferiu becos a tapetes; há a convergência, retardatária, entre uma obra de longa fermentação e a percepção de um país que, enfim, aprendeu a escutá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, a casa baixa à beira do Rio Vermelho é museu. Abriu em 20 de agosto de 1989, no centenário de nascimento da autora, e guarda rascunhos, cartas, fotografias, utensílios; sobretudo, guarda o compasso do lugar. O piso de pedra, o corredor estreito, a luz filtrada pelas janelas antigas instruem o visitante a abrandar o passo. Não é cenário: é método.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do lado de fora, a Cidade de Goiás respira no presente. Fachadas brancas, telhas de barro, pé-de-moleque; ipês amarelos na seca. Na Semana Santa, a Procissão do Fogaréu corta a madrugada com tochas; no resto do ano, a vida ordinária costura a paisagem: feira de sábado, estudantes descendo para o rio, vizinhos que se chamam pelo primeiro nome. Passado e presente convivem sem vitrines; motos passam, vozes se sobrepõem, o sino marca as horas e o Rio Vermelho dita o humor do dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visita, o tempo muda de textura. Crianças leem alto num quarto de piso gasto; o guia interrompe a fala, aponta a ponte e lembra que literatura também é travessia. Uma vitrine abre um caderno com rasuras, datas, contas; outra guarda cartas de caligrafia inclinada, respostas pacientes a leitores distantes. Ali, a presença de Cora não é lembrança embalável; é prática de atenção que se renova: ler devagar, nomear direito, deixar a cidade entrar pela janela antes da primeira linha.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.revistabula.com/wp/wp-content/uploads/2025/08/Cora-300x449.webp" alt="Cora Coralina" class="wp-image-110252"/><figcaption class="wp-element-caption">Cora Coralina, a mulher que transformou vida e memória em poesia</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quando enfim a ouviram, não foi estreia, foi repercussão de um trabalho longo. A figura pública da mulher idosa do interior, doceira e escritora tardia, deu contorno histórico sem encobrir a autora; mostrou que a literatura pode nascer de uma mesa junto à janela, de carimbos postais, de um país fora do eixo. Em escolas, universidades, museus e bibliotecas, esses textos circulam porque reorganizam pertencimentos: mulheres encontram uma ética do fazer; cidades pequenas reconhecem sua matéria; leitores urbanos descobrem outra geografia da língua, sem exotismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há controvérsia, e é bom que haja. A poesia nem sempre sustenta a mesma tensão; a memória às vezes suaviza ângulos; certos poemas se resolvem no testemunho. Ainda assim, o conjunto impõe respeito. O melhor de Cora é método: atenção ao detalhe material que raramente cabe nas histórias maiores; frase de verbo e substantivo; um eu que se recolhe para que caibam outras vidas. Escritora, figura pública, trabalhadora; páginas e ofício compondo uma única arquitetura de travessia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Cidade de Goiás, com ladeiras de pedra, sombras de varanda e o rumor do rio, é mais que cenário; é a cadência que a obra herdou. Dali, de uma casa baixa à margem do Rio Vermelho, uma mulher escreveu até que o país aprendesse a escutá-la sem condescendência. Não pediu milagre nem perdão; pediu páginas e deu-lhes trabalho. Se a novidade faz barulho e passa, ela ficou, linha a linha, até que a língua, em vez de lhe negar endereço, adotasse o ritmo da sua rua.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Bula Conteúdo / Foto: Reprodução</p>



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		<title>40 anos sem Cora Coralina: 5 poemas que provam por que ela nunca foi embora de verdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Apr 2025 14:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Cora Coralina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há exatamente quatro décadas, o Brasil se despedia de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida como Cora Coralina, autora de uma das vozes mais singulares da literatura nacional. A morte da escritora goiana, em 10 de abril de 1985, não encerrou sua presença na cultura brasileira — ao contrário, marcou o início de um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Há exatamente quatro décadas, o Brasil se despedia de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida como Cora Coralina, autora de uma das vozes mais singulares da literatura nacional. A morte da escritora goiana, em 10 de abril de 1985, não encerrou sua presença na cultura brasileira — ao contrário, marcou o início de um processo de permanência simbólica. Desde então, sua figura passou a habitar o imaginário afetivo do país, refletida na linguagem popular das cidades antigas, nas fachadas do interior, nas rotinas de mulheres que mantêm práticas simples e cotidianas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2025/01/Banner-para-loja-online-frete-gratis-mercado-shops-medio-720-x-90-px-1.gif" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Cora Coralina construiu uma obra que se consolidou como parte da memória coletiva brasileira. Seus poemas dialogam com o cotidiano, com o trabalho manual, com a passagem do tempo e com a experiência das pequenas comunidades. Sua escrita, marcada pela simplicidade, propõe uma aproximação direta com o leitor, sem recorrer a ornamentos ou distanciamentos acadêmicos. A autora escreveu a partir da própria vivência, com elementos que remetem ao universo doméstico e rural.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem ocupar espaços institucionais tradicionais, como a Academia Brasileira de Letras, Cora tornou-se uma figura de referência popular. Sua poesia segue sendo lida, adaptada, ensinada e compartilhada. Com o passar dos anos, seus temas mostram continuidade: maternidade, trabalho, desigualdade, religiosidade e resistência — aspectos centrais da vida de muitas pessoas no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para marcar os 40 anos de sua morte, a Revista Bula selecionou cinco poemas que exemplificam a relevância contínua de sua produção literária. São textos que mantêm vitalidade estética e conexão com o Brasil cotidiano — muitas vezes invisível nas grandes narrativas, mas presente no modo de viver de grande parte da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cora permanece onde sempre esteve: nas palavras enraizadas em sua experiência, moldadas por sua trajetória e sustentadas por uma visão de mundo atenta ao essencial. Sua poesia não exige convite — ela já faz parte do ambiente de quem a lê.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-poema-do-milho">POEMA DO MILHO</h1>



<p class="wp-block-paragraph">Milho . . .<br>Punhado plantado<br>nos quintais.<br>Talhões fechados<br>pelas roças.<br>Entremeado nas lavouras,<br>baliza marcante<br>nas divisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Milho verde.<br>Milho seco.<br>Bem granado,<br>cor de ouro.<br>Alvo.<br>Às vezes vareia —<br>espiga roxa,<br>vermelha,<br>salpintada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Milho virado,<br>maduro,<br>onde o feijão enrama.<br>Milho quebrado,<br>debulhado<br>na festa das colheitas anuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bandeira de milho<br>levada para os montes,<br>largada pelas roças.<br>Bandeiras esquecidas<br>na fartura.<br>Respiga descuidada<br>dos pássaros<br>e dos bichos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Milho empaiolado.<br>Abastança tranquila<br>do rato,<br>do caruncho,<br>do cupim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Palha de milho<br>para o colchão.<br>Jogada pelos pastos.<br>Mascada pelo gado.<br>Trançada<br>em fundos de cadeiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Queimada<br>nas coivaras.<br>Leve mortalha<br>de cigarros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Balaio de milho<br>trocado com o vizinho<br>no tempo da planta.<br>Não se planta,<br>nos sítios,<br>semente da mesma terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ventos rondando,<br>redemoinhando.<br>Ventos de outubro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tempo mudado.<br>Revôo de saúva.<br>Trovão surdo,<br>tropeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na vazante do brejo,<br>no lameiro,<br>o sapo-fole,<br>o sapo-ferreiro,<br>o sapo-cachorro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acauã de madrugada<br>marcando o tempo,<br>chamando chuva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Roça nova encoivarada,<br>começo de brotação.<br>Roça velha destocada.<br>Palhada batida,<br>riscada de arado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Barrufo de chuva.<br>Cheiro de terra,<br>cheiro de mato.<br>Terra molhada.<br>Terra saroia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Noite chuvada,<br>relampeada.<br>Dia sombrio.<br>Tempo mudado,<br>dando sinais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observatório.<br>Lua virada.<br>Lua pendida . . .<br>Circo amarelo,<br>distanciado,<br>marcando chuva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Calendário.<br>Astronomia<br>do lavrador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Planta de milho<br>na lua-nova.<br>Sistema velho,<br>colonial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Planta de enxada.<br>Seis grãos na cova,<br>quatro na regra,<br>dois de quebra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Terra arrastada<br>com o pé,<br>pisada,<br>incalcada,<br>mode os bichos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lanceado certo-cabo-da-enxada.<br>Vai, vem . . .<br>Sobe, desce . . .<br>Terra molhada.<br>Terra saroia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seis grãos na cova.<br>Quatro na regra.<br>Dois de quebra.<br>Sobe.<br>Desce . . .</p>



<p class="wp-block-paragraph">Camisa de riscado.<br>Calça de mescla.<br>Vai, vem . . .<br>Golpeando a terra,<br>o plantador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sombra da moita,<br>na volta do toco —<br>o ancorote d’água.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavador de milho,<br>que está fazendo?<br>A que milênios<br>vem você plantando?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Capanga de grãos dourados<br>a tiracolo.<br>Crente da Terra.<br>Sacerdote da Terra.<br>Pai da Terra.<br>Filho da Terra.<br>Ascendente da Terra.<br>Descendente da Terra.<br>Ele mesmo — Terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Planta com fé religiosa.<br>Planta sozinho,<br>silencioso.<br>Cava e planta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gestos pretéritos,<br>imemoriais.<br>Oferta remota,<br>patriarcal.<br>Liturgia milenar.<br>Ritual de paz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em qualquer parte da Terra<br>um homem estará sempre plantando,<br>recriando a vida,<br>recomeçando o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Milho plantado,<br>dormindo no chão,<br>aconchegados<br>seis grãos na cova.<br>Quatro na regra.<br>Dois de quebra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida inerte<br>que a terra vai multiplicar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E vem a perseguição.<br>O bichinho anônimo<br>que espia,<br>pressente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A formiga-cortadeira —<br>quenquém.<br>A ratinha do chão,<br>exploradeira.<br>A rosca vigilante<br>na rodilha.<br>O passo-preto vagabundo,<br>galhofeiro,<br>vaiando,<br>sorrindo . . .<br>Aos gritos,<br>arrancando,<br>mal aponta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cupim clandestino,<br>roendo,<br>minando,<br>só de ruindade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o milho realiza<br>o milagre genético<br>de nascer.<br>Germina.<br>Vence os inimigos.<br>Aponta aos milhares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seis grãos na cova.<br>Quatro na regra.<br>Dois de quebra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um canudinho enrolado,<br>amarelo-pálido,<br>frágil,<br>dourado,<br>se levanta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cria sustância.<br>Passa a verde.<br>Liberta-se.<br>Enraíza.<br>Abre folhas espaldeiradas.<br>Encorpa.<br>En­cana.<br>Disciplina<br>com os poderes de Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jesus e São João<br>desceram de noite na roça.<br>Botaram a bênção no milho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E veio com eles<br>uma chuva maneira,<br>criadeira,<br>fininha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma chuva velhinha,<br>de cabelos brancos,<br>abençoando<br>a infância do milho.<br><br>O mato vem vindo junto,<br>sementeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pragas todas,<br>conluiadas.<br>Carrapicho.<br>Amargoso.<br>Picão.<br>Marianinha.<br>Caruru-de-espinho.<br>Pé-de-galinha.<br>Colchão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alcança,<br>não alcança.<br>Competição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pac… pac… pac…<br>A enxada canta.<br>Bota o mato abaixo.<br>Arrasta uma terrinha<br>para o pé da planta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carpa bem feita<br>vale por duas…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando pode.<br>Quando não…<br>Sarobeia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chega terra.<br>O milho avoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cresce na vista dos olhos.<br>Aumenta de dia.<br>Pula de noite.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Verde entonado.<br>Disciplinado.<br>Sadio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora…<br>a lagarta da folha,<br>lagarta rendeira…<br>Quem é que vê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Faz a renda da folha<br>no quieto da noite.<br>Dorme de dia<br>no olho da planta.<br>Gorda.<br>Barriguda.<br>Cheia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Expurgo?<br>Nada.<br>Força da lua…<br>Chovendo acaba —<br>a Deus querê.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mio tá bonito…<br>Vai sê bão o tempo<br>pras lavoras todas…<br>O mio tá marcando…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Condiéionando o futuro:<br>O roçado de seu Féli<br>tá qui fais gosto…<br>Um refrigério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mio lá tá verde<br>qui chega a s’tar azur…</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Conversam vizinhos<br>e compadres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Milho crescendo,<br>garfando,<br>esporando nas defesas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Milho embandeirado.<br>Embalado pelo vento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do chão ao pendão,<br>60 dias vão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passou aguaceiro,<br>pé-de-vento.<br>O milho acamou…<br>Perdido?…<br>Nada…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele arriba<br>com os poderes de Deus.<br>E arribou mesmo.<br>Garboso.<br>Empertigado.<br>Vertical.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No cenário vegetal,<br>um engraçado boneco<br>de frangalhos<br>sobreleva,<br>vigilante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alegria verde<br>dos periquitos gritadores.<br>Bandos em sequência.<br>Evolução.<br>Pouso.<br>Retrocesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Manobras em conjunto.<br>Desfeita formação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Roedores grazinando,<br>se fartando,<br>foliando,<br>vaiando<br>os ingênuos espantalhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jesus e São João<br>andaram de noite<br>passeando na lavoura<br>e botaram a bênção no milho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fala assim gente de roça<br>e fala certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois não está lá<br>na taipa do rancho<br>o quadro deles,<br>passeando<br>dentro dos trigais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analogias.<br>Coerências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Milho embandeirado.<br>Bonecando em gestação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Senhor,<br>como a roça cheira bem!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Flor de milho.<br>Travessa e festiva.<br>Flor feminina.<br>Esvoaçante.<br>Faceira.<br>Flor masculina.<br>Lúbrica.<br>Desgraciosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bonecas de milho,<br>túrgidas,<br>negaceando,<br>se mostrando<br>vaidosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Túnicas.<br>Sobretúnicas.<br>Saias.<br>Sobre-saias.<br>Anáguas.<br>Camisas verdes.<br>Cabelos verdes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabeleiras soltas.<br>Lavadas.<br>Despenteadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O milharal<br>é desfile<br>de beleza vegetal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabeleiras vermelhas.<br>Bastas.<br>Onduladas.<br>Cabelos prateados.<br>Verde-gaio.<br>Cabelos roxos.<br>Lisos.<br>Encrespados.<br>Destrançados.<br>Compridos.<br>Curtos.<br>Queimados.<br>Despenteados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Xampu de chuvas.<br>Flagrâncias novas<br>no milharal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Senhor,<br>como a roça<br>cheira bem!<br><br>As bandeiras altaneiras<br>vão se abrindo<br>em formação.<br>Pendões ao vento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Extravasão<br>da libido vegetal.<br>Procissão fálica,<br>pagã.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um sentido genésico<br>domina o milharal.<br>Flor masculina<br>erótica,<br>libidinosa,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Polinizando,<br>fecundando<br>a florada adolescente<br>das bonecas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Boneca de milho,<br>vestida de palha…<br>Sete cenários<br>defendem o grão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gordas.<br>Esguias.<br>Delgadas.<br>Alongadas.<br>Cheias.<br>Fecundadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabelos soltos,<br>excitantes.<br>Vestidas de palha.<br>Sete cenários<br>defendem o grão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bonecas verdes,<br>vestidas de noiva.<br>Afrodisíacas.<br>Nupciais…</p>



<p class="wp-block-paragraph">De permeio,<br>algumas virgens loucas…<br>Descuidadas.<br>Desprovidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Espigas falhadas.<br>Fanadas.<br>Macheadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabelos verdes.<br>Cabelos brancos.<br>Vermelho-amarelo-roxo,<br>requeimado…</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o pólen dos pendões<br>fertilizando…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma fragrância quente,<br>sexual,<br>invade<br>num espasmo<br>o milharal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A boneca fecundada<br>vira espiga.<br>Amortece<br>a grande exaltação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já não importam<br>as verdes cabeleiras<br>rebeladas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espiga cheia<br>salta da haste.<br>O pendão fálico<br>vira ressecado,<br>esmorecido,</p>



<p class="wp-block-paragraph">No sagrado rito<br>da fecundação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tons maduros<br>de amarelo.<br>Tudo se volta<br>para a terra-mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tronco seco<br>é um suporte, agora,<br>onde o feijão verde<br>trança,<br>enrama,<br>enflora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Montes de milho novo,<br>esquecidos,<br>marcando claros<br>no verde<br>que domina a roça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bandeiras perdidas<br>na fartura das colheitas.<br>Bandeiras largadas.<br>Restolhadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E os bandos<br>de passo-pretos galhofeiros<br>gritam e cantam<br>na respiga<br>das palhadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não andeis a respigar —<br>diz o preceito bíblico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grão que cai<br>é o direito da terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espiga perdida —<br>pertence às aves<br>que têm seus ninhos<br>e filhotes a cuidar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basta para ti, lavrador,</p>



<p class="wp-block-paragraph">o monte alto<br>e a tulha cheia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deixa a respiga<br>para os que não plantam<br>nem colhem —</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pobrezinho que passa.<br>Os bichos da terra.<br>E os pássaros do céu.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-velho-sobrado"><strong>VELHO SOBRADO</strong></h1>



<p class="wp-block-paragraph">Um montão disforme.<br>Taipas e pedras,<br>abraçadas a grossas aroeiras,<br>toscamente esquadriadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Folhas de janelas.<br>Pedaços de batentes.<br>Almofadados de portas.<br>Vidraças estilhaçadas.<br>Ferragens retorcidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abandono.<br>Silêncio.<br>Desordem.<br>Ausência, sobretudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O avanço vegetal<br>acoberta o quadro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carrapateiras cacheadas.<br>São-caetano<br>com seu verde planejamento,<br>pendurado de frutinhas<br>ouro-rosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma bucha de cordoalha<br>enfolhada,<br>berrante de flores amarelas,<br>cingindo tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dá guarda, perfilado,<br>um pé de mamão-macho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No alto, instala-se,<br>dominadora,<br>uma jovem gameleira,<br>dona do futuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cortina vulgar<br>de decência urbana<br>defende a nudez dolorosa<br>das ruínas do sobrado —<br>um muro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fechado.<br>Largado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O velho sobrado colonial,<br>de cinco sacadas,<br>de ferro forjado,<br>cede.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bem que podia ser conservado.<br>Bem que devia ser retocado.<br>Tão alto.<br>Tão nobre-senhorial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sobradão dos Vieiras<br>cai aos pedaços,<br>abandonado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parede hoje.<br>Parede amanhã.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caliça, telhas e pedras<br>se amontoando com estrondo.<br>Famílias alarmadas se mudando.<br>Assustados — passantes e vizinhos.<br>Aos poucos,<br>a fortaleza desabando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem se lembra?<br>Quem se esquece?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Padre Vicente José Vieira.<br>D. Irena Manso Serradourada.<br>D. Virgínia Vieira —<br>grande dama de outros tempos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Flor de distinção e nobreza<br>na heráldica da cidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Benjamim Vieira.<br>Rodolfo Luz Vieira.<br>Ludugero.<br>Ângela.<br>Débora.<br>Maria…<br>Tão distante<br>a gente do sobrado…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bailes e saraus antigos.<br>Cortesia.<br>Sociedade goiana.<br>Senhoras e cavalheiros…<br>tão desusados…</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Passado…</p>



<p class="wp-block-paragraph">A escadaria de patamares<br>vai subindo…<br>subindo…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portas no alto.<br>À direita.<br>À esquerda.<br>Se abrindo,<br>familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Salas.<br>Antigos canapés.<br>Cadeiras em ordem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelas paredes<br>forradas de papel,<br>desenho de querubins,<br>segurando cornucópia<br>e laços.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Retratos de antepassados,<br>solenes,<br>empertigados.<br>Gente de dantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Grandes espelhos de cristal,<br>emoldurados de veludo negro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Velhas credências torneadas,<br>sustentando jarrões pesados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antigas flores<br>de que ninguém mais fala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rosa cheirosa de Alexandria.<br>Sempre-viva.<br>Cravinas.<br>Damas-entre-verdes.<br>Jasmim-do-cabo.<br>Resedá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um aroma esquecido —<br>manjerona.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-antiguidades"><strong>ANTIGUIDADES</strong></h1>



<p class="wp-block-paragraph">Quando eu era menina,<br>bem pequena,<br>em nossa casa,<br>certos dias da semana<br>se fazia um bolo,<br>assado na panela,<br>com um testo de borralho em cima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era um bolo econômico,<br>como tudo, antigamente.<br>Pesado.<br>Grosso.<br>Pastoso.<br>Por sinal que muito ruim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu era menina em crescimento.<br>Gulosa.<br>Abria os olhos<br>para aquele bolo<br>que me parecia tão bom<br>e tão gostoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente mandona<br>lá de casa<br>cortava aquele bolo<br>com importância.<br>Com atenção.<br>Seriamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu presente.<br>Com vontade<br>de comer o bolo todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era só olhos<br>e boca<br>e desejo<br>daquele bolo inteiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha irmã mais velha<br>governava.<br>Regrava.<br>Me dava uma fatia,<br>tão fina,<br>tão delgada…</p>



<p class="wp-block-paragraph">E fatias iguais<br>às outras manas.<br>E que ninguém pedisse mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o bolo inteiro,<br>quase intangível,<br>se guardava bem guardado,<br>com cuidado,<br>num armário alto,<br>fechado,<br>impossível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era aquilo,<br>uma coisa de respeito.<br>Não pra ser comido<br>assim,<br>sem mais nem menos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Destinava-se<br>às visitas da noite,<br>certas ou imprevistas.<br>Detestadas<br>da meninada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Criança,<br>no meu tempo de criança,<br>não valia mesmo nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente grande<br>da casa<br>usava<br>e abusava<br>de pretensos direitos<br>de educação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por dá-cá-aquela-palha,<br>ralhos<br>e beliscão.<br>Palmatória<br>e chineladas<br>não faltavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando não,<br>sentada no canto<br>de castigo,<br>fazendo trancinhas,<br>amarrando abrolhos.<br>Tomando propósito.<br>Expressão muito corrente<br>e pedagógica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquela gente antiga,<br>passadiça,<br>era assim:<br>severa.<br>Ralhadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não poupava as crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, as visitas…<br>Valha-me Deus!…<br>As visitas…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como eram queridas,<br>recebidas,<br>estimadas,<br>conceituadas,<br>agradadas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era gente superenjoada.<br>Solene.<br>Empertigada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De velhas conversas<br>que davam sono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antiguidades…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até os nomes,<br>que não se percam:</p>



<p class="wp-block-paragraph">D. Aninha<br>com Seu Quinquim.<br>D. Milécia,<br>sempre às voltas<br>com receitas de bolo,<br>assuntos de licores<br>e pudins.</p>



<p class="wp-block-paragraph">D. Benedita<br>com sua filha Lili.<br>D. Benedita —<br>alta, magrinha.<br>Lili —<br>baixota, gordinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Puxava de uma perna<br>e fazia crochê.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, diziam dela<br>línguas viperinas:<br>Lili é a bengala<br>de D. Benedita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mestre Quina.<br>D. Luisalves.<br>Saninha de Bili.<br>Sá Mônica.<br>Gente do Cônego Padre Pio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">D. Joaquina Amâncio…<br>Dessa então<br>me lembro bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era amiga do peito<br>de minha bisavó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aparecia em nossa casa<br>quando o relógio dos frades<br>tinha já marcado<br>nove horas,<br>e a corneta do quartel<br>tocado silêncio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E só se ia<br>quando o galo cantava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pessoal da casa,<br>como era de bom-tom,<br>se revezava<br>fazendo sala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rendidos de sono,<br>davam o fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fim,<br>só ficava mesmo, firme,<br>minha bisavó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">D. Joaquina era<br>uma velha<br>grossa.<br>Rombuda.<br>Aparatosa.<br>Esquisita.<br>Demorona.<br>Cega de um olho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gostava de flores<br>e de vestido novo.<br>Tinha seu dinheiro<br>de contado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Grossas contas de ouro<br>no pescoço.<br>Anéis pelos dedos.<br>Bichas nas orelhas.<br>Pitada na palha.<br>Cheirava rapé.<br>E era de Paracatu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sobrinho que a acompanhava,<br>enquanto a tia conversava,<br>contando causos infindáveis,<br>dormia estirado<br>no banco da varanda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu fazia força<br>de ficar acordada,<br>esperando<br>a descida certa<br>do bolo<br>encerrado<br>no armário alto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando este aparecia,<br>vencida pelo sono,<br>já dormia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E sonhava<br>com o imenso armário<br>cheio de grandes bolos<br>ao meu alcance.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De manhã cedo,<br>quando acordava,<br>estremunhada,<br>com a boca amarga,</p>



<p class="wp-block-paragraph">ai de mim —</p>



<p class="wp-block-paragraph">via com tristeza,<br>sobre a mesa:<br>xícaras sujas de café,<br>pontas queimadas de cigarro,<br>o prato vazio<br>onde esteve o bolo,<br>e um cheiro enjoado<br>de rapé.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-a-gleba-me-transfigura"><strong>A GLEBA ME TRANSFIGURA</strong></h1>



<p class="wp-block-paragraph">Sinto que sou abelha<br>no seu artesanato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meus versos<br>têm cheiro de mato,<br>dos bois<br>e dos currais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu vivo<br>no terreiro dos sítios<br>e das fazendas primitivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(…)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha identificação<br>profunda e amorosa<br>com a terra<br>e com os que nela trabalham.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gleba me transfigura.<br>Dentro da gleba,<br>ouvindo o mugido da vacada,<br>o mééé dos bezerros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O roncar<br>e focinhar dos porcos,<br>o cantar dos galos,<br>o cacarejar das poedeiras,<br>o latir dos cães,<br>eu me identifico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou árvore.<br>Sou tronco.<br>Sou raiz.<br>Sou folha.<br>Sou graveto.<br>Sou mato.<br>Sou paiol<br>e sou a velha tulha de barro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pela minha voz<br>cantam todos os pássaros,<br>piam as cobras<br>e coaxam as rãs.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mugem todas as boiadas<br>que vão pelas estradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou espiga<br>e o grão<br>que retornam à terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha pena (esferográfica)<br>é a enxada que vai cavando,<br>é o arado milenário<br>que sulca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meus versos<br>têm relances de enxada,<br>gume de foice<br>e o peso do machado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cheiro de currais<br>e gosto de terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(…)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amo a terra<br>de um velho amor consagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Através de gerações<br>de avós rústicos,<br>encartados nas minas<br>e na terra latifundiária,<br>sesmeiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gleba está dentro de mim.<br>Eu sou a terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(…)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em mim<br>a planta renasce<br>e floresce,<br>sementeia<br>e sobrevive.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou a espiga<br>e o grão fecundo<br>que retorna à terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha pena<br>é a enxada do plantador,<br>é o arado que vai sulcando,<br>para a colheita das gerações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu sou o velho paiol<br>e a velha tulha roceira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu sou a terra milenar.<br>Eu venho de milênios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu sou a mulher<br>mais antiga do mundo,<br>plantada<br>e fecundada<br>no ventre escuro<br>da terra.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-lavadeira"><strong>A LAVADEIRA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mulher…<br>Tosca.<br>Sentada.<br>Alheada…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Braços cansados<br>descansando nos joelhos…<br>Olhar parado,<br>vago,<br>perdida no seu mundo<br>de trouxas<br>e espuma de sabão —</p>



<p class="wp-block-paragraph">é a lavadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mãos rudes,<br>deformadas.<br>Roupa molhada.<br>Dedos curtos.<br>Unhas enrugadas.<br>Córneas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Unheiros doloridos<br>passaram,<br>marcaram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No anular,<br>um círculo metálico,<br>barato,<br>memorial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu olhar distante,<br>parado no tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">À sua volta —<br>uma espumarada<br>branca de sabão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Inda o dia vem longe<br>na casa de Deus Nosso Senhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro varal de roupa<br>festeja o sol<br>que vai subindo,</p>



<p class="wp-block-paragraph">vestindo o quaradouro<br>de cores multicores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mulher<br>tem quarenta anos de lavadeira.<br>Doze filhos,<br>crescidos<br>e crescendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viúva, naturalmente.<br>Tranquila.<br>Exata.<br>Corajosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temente dos castigos do céu.<br>Enrodilhada<br>no seu mundo pobre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Madrugadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Salva a aurora.<br>Espera pelo sol.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abre os portais do dia<br>entre trouxas<br>e barrelas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sonha calada.<br>Enquanto a filharada cresce,<br>trabalham suas mãos pesadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu mundo se resume<br>na vasca,<br>no gramado,<br>no arame<br>e prendedores,<br>na tina d’água.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De noite —<br>o ferro de engomar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vai lavando.<br>Vai levando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Levantando doze filhos.<br>Crescendo devagar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enrodilhada<br>no seu mundo pobre,<br>dentro de uma espumarada<br>branca de sabão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às lavadeiras<br>do Rio Vermelho,<br>da minha terra,</p>



<p class="wp-block-paragraph">faço deste pequeno poema<br>meu altar de ofertas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.revistabula.com/wp/wp-content/uploads/2024/11/Carlos-Willian-Leite.webp" alt="Carlos Willian Leite"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Carlos Willian Leite</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Jornalista especializado em jornalismo cultural e enojornalismo, com foco na análise técnica de vinhos e na cobertura do mercado editorial e audiovisual, especialmente plataformas de streaming. É sócio da Eureka Comunicação, agência de gestão de crises e planejamento estratégico em redes sociais, e fundador da Bula Livros, dedicada à publicação de obras literárias contemporâneas e clássicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Fonte: Bula Conteúdo / Desenho / JC. Guimarães</strong></p>



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