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	<title>Ditadura |</title>
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	<title>Ditadura |</title>
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		<title>Morre jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, símbolo da resistência à ditadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 May 2026 02:44:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Sábado, 02/05/2026 &#8211; 18h40 Por&#160;Bruno Ribeiro &#124; Folhapress O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, que marcou a resistência da imprensa à ditadura militar, morreu neste sábado (2), no Rio de Janeiro, aos 85 anos. Nascido em Exu, cidade a 431 km do Recife, em 8 de setembro de 1940, Pereira tinha formação de físico e acabou [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Sábado, 02/05/2026 &#8211; 18h40</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por&nbsp;Bruno Ribeiro | Folhapress</p>



<p class="wp-block-paragraph">O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, que marcou a resistência da imprensa à ditadura militar, morreu neste sábado (2), no Rio de Janeiro, aos 85 anos. Nascido em Exu, cidade a 431 km do Recife, em 8 de setembro de 1940, Pereira tinha formação de físico e acabou sendo levado ao jornalismo enquanto cursava engenharia no ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), entre 1960 e 1964, onde escreveu para um jornal estudantil chamado O Suplemento.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1967, trabalhou como editor na Folha da Tarde, vespertino que a empresa Folha da Manhã, que edita a Folha, possuía na época. A convite do jornalista Mino Carta, ele integrou a equipe que fundou a revista Veja, da editora Abril, em 1968.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) afirmou que Pereira foi &#8220;um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na resistência democrática durante a ditadura militar&#8221;. Não foi divulgada a causa da morte.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os textos do jornal estudantil em que Pereira escrevia repercutiram negativamente em 1964, ano do golpe militar, antes de sua formatura.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele ano, ele foi alvo de perseguição política, acabou sendo expulso do ITA e foi preso pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) paulista. Ficou dois meses na Base Aérea de Santos, no Guarujá, litoral paulista.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após a soltura, sem emprego nem diploma, Pereira deu aulas de matemática e um de seus alunos o convidou para escrever em revistas técnicas que o levaram ao jornalismo profissional.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após a passagem pela Folha da Tarde em 1967 e a participação na equipe que fundou a Veja no ano seguinte, Pereira coordenou a equipe da revista que produziu uma das primeiras reportagens do país sobre a tortura praticada pela ditadura militar, valendo-se de uma frase de um assessor de Emílio Médici que disse que o então presidente não admitia tais práticas.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A equipe relatou uma série de casos, a pretexto de informar o governo sobre ocorrências do tipo, e publicou uma edição com a palavra &#8220;Torturas&#8221; na capa. O episódio é detalhado no livro Contracorrente, biografia de Pereira produzida em 2013 por estudantes da Faculdade Cásper Líbero.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pereira atuou também em outros veículos de destaque, como a revista Realidade, até integrar os jornais Opinião e Movimento, publicações de resistência à ditadura no fim dos anos 1970.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Movimento circulou entre 1975 e 1981, sob censura prévia e dificuldades financeiras. O Memorial da Resistência, museu estatal sediado no antigo Dops paulista, descreve a publicação como &#8220;um dos mais importantes jornais de resistência do país&#8221;.<br>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os pais de Pereira eram comerciantes que se mudaram para São Paulo na década de 1960. Nos últimos anos, ele vivia no Rio de Janeiro. O jornalista foi casado com a socióloga Sizue Imanishi, que morreu em 2020, e deixa quatro filhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foto: Memorial da Resistência / Governo de São Paulo<br><br></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure><p>The post <a href="https://ipiracity.com/morre-jornalista-raimundo-rodrigues-pereira-simbolo-da-resistencia-a-ditadura/">Morre jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, símbolo da resistência à ditadura</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>O que a aparição da lenda da &#8216;Perna Cabeluda&#8217; em &#8216;O Agente Secreto&#8217; diz sobre a ditadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2026 15:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[agente secreto]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 10 de dezembro de 1975, está registrada em papel uma rara &#8220;certidão de nascimento&#8221; de uma&#160;lenda urbana. Naquela edição de quarta-feira do jornal Diario de Pernambuco, pela primeira vez se falava de uma &#8220;perna fantasma&#8221; (mais tarde, &#8220;cabeluda&#8221;) que aterrorizava moradores do Grande Recife — uma lenda que, 50 anos mais tarde, seria imortalizada [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li><a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c627rex3qnqt"><strong>Vitor Tavares</strong></a></li>



<li>Da BBC News Brasil em São Paulo</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Em 10 de dezembro de 1975, está registrada em papel uma rara &#8220;certidão de nascimento&#8221; de uma&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/vert-earth-38363455">lenda urbana</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquela edição de quarta-feira do jornal Diario de Pernambuco, pela primeira vez se falava de uma &#8220;perna fantasma&#8221; (mais tarde, &#8220;cabeluda&#8221;) que aterrorizava moradores do Grande Recife — uma lenda que, 50 anos mais tarde, seria imortalizada e projetada internacionalmente com&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz7nlp8yq9wo"><em>O Agente Secreto</em></a>, vencedor do&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy09j50w5weo">Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta quinta-feira (22/1),&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3dmm1047ndo"><em>O Agente Secreto</em>&nbsp;foi indicado a quatro Oscars</a>&nbsp;— incluindo Melhor Filme e&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/czr446040vjo">Melhor Ator (Wagner Moura)</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A &#8220;Perna Cabeluda&#8221; aparece na segunda metade no filme, nas notícias de jornal e atormentando homens homossexuais que aproveitam o escuro dos arbustos do Parque 13 de Maio, no centro do&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c5qvpqy6vw5t">Recife</a>, para exercer sua sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, muito além de um elemento&nbsp;<em>nonsense</em>&nbsp;ou de realismo mágico comum em filmes do diretor&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/czdq0r3rpjjo">Kléber Mendonça Filho</a>, a Perna representa uma história maior e real sobre repressão, censura e violência institucional no Recife (e no Brasil) dos anos 1970, durante a&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz77xg4z1rpo">ditadura militar.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Lendas como essa no Recife eram usadas para sublimar as dores da sociedade&#8221;, diz Roberto Beltrão, jornalista, escritor e organizador de livros sobre as muitas assombrações famosas na capital pernambucana, entre eles&nbsp;<em>Treze Noites com a Perna Cabeluda.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Após a primeira aparição no jornal, a lenda ganhou popularidade nas ruas da cidade ao ser retratada em diversos textos e reportagens na imprensa, o que é mostrado em&nbsp;<em>O Agente Secreto</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A presença de textos ficcionais nos jornais da época era comum, explica Beltrão, como uma forma de ocupar espaços que seriam de histórias que poderiam incomodar o regime militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Os censores estavam dentro dos jornais, que tinham muita dificuldade de retratar assuntos espinhosos para o regime&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Então, histórias absurdas passaram a fazer parte da imprensa porque precisavam vender jornal e não havia liberdade de você estar lidando com os verdadeiros problemas da sociedade.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, histórias de violência contra determinados grupos reprimidos, como mulheres ou os homossexuais, também acabavam sendo contadas em tom de fantasia.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/269e/live/09059130-f5de-11f0-9163-bde404de4781.jpg.webp" alt="Cena da Perna Cabeluda em 'O Agente Secreto'"/><figcaption class="wp-element-caption">O Agente Secreto/Divulgação<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Além de uma assombração assustadora, a Perna ganhou no Recife e em outros Estados do Nordeste ares de uma polícia moral contra aqueles que desafiavam os bons costumes — e mereciam ser chutados e levar rasteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O temor da repressão moral e física da ditadura era latente no Recife dos anos 1970, explica o advogado e cientista político Manoel Moraes, pesquisador na Universidade Católica de Pernambuco e membro da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se fala em ditadura no Brasil, diz Moraes, pouco se comenta sobre a repressão longe do eixo Rio-São Paulo — isso apesar de Pernambuco ter tido proporcionalmente mais mortes cometidas oficialmente pelo regime do que os Estados do Sudeste.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Muitas vezes a gente aqui fica em segundo plano nessa discussão&#8221;, lamenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-consolidação-de-uma-história-fantástica">A consolidação de uma história fantástica</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira notícia sobre a &#8220;perna fantasma&#8221; relatava que ela caminhava nas paredes de uma casa de São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos dias seguintes, o assunto repercutiu em &#8220;suítes&#8221;, jargão no jornalismo para novas reportagens sobre um mesmo assunto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a consolidação ocorreria em 1976, com um texto ficcional de Raimundo Carrero, então repórter do Diario, depois premiado escritor pernambucano.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/a370/live/04be68c0-f248-11f0-b5f7-49f0357294ff.png.webp" alt="Prints mostram notícias sobre a Perna no Diario de Pernambuco"/><figcaption class="wp-element-caption">Biblioteca Nacional/Acervo Diario de Pernambuco<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Na concorrida edição de domingo do jornal, Carrero contava a história da Perna Cabeluda que pulava igual a um&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-54706996">saci-pererê</a>&nbsp;e atormentava e se deitava ao lado de mulheres indefesas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ele não faz a relação com as notícias [de 1975]. Mas eu acho que ficou no subconsciente&#8221;, avalia Beltrão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carrero traz pela primeira vez o&nbsp;<em>modus operandi&nbsp;</em>pelo qual a perna ficaria famosa, chutando e dando rasteira nas pessoas. A edição também traz a primeira iconografia da perna, peluda e usando um sapato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em recente entrevista ao Diario de Pernambuco, Carrero disse que era proibido para o jornal publicar, além de críticas ao governo, casos de violência contra a mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A maior parte das histórias [da Perna Cabeluda] que começaram a circular envolviam casos de violência contra a mulher&#8221;, declarou o escritor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de absurda, a lenda foi se espalhando pela cidade, comentada em programas de rádio e causando medo na vida real.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ela se adaptou tanto ao imaginário popular que estudiosos da literatura cordel identificam que ela se tornou na época o terceiro tema mais recorrente dos folhetos, perdendo só para o&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c25lvk9rz1lo">Padre Cícero</a>&nbsp;e&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46491014">Lampião</a>&#8220;, diz Beltrão. A lenda se espalhou até para Estados vizinhos, como o Ceará.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua pesquisa, o escritor identifica que o medo no Recife de fato durou cerca de dois anos. Depois, &#8220;virou grea&#8221;, gíria pernambucana para brincadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Porque era tão surreal que era difícil de acreditar&#8221;, diz o escritor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Perna Cabeluda virou frevo, bloco de carnaval e fantasia nos anos seguintes — inclusive uma dentro da boca de um tubarão exibida em foto no Diario, que inspira outra cena de&nbsp;<em>O Agente Secreto</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Recife-foi-uma-das-cidades-que-mais-viveu-a-repressão-militar">Recife foi uma das cidades que mais viveu a repressão militar</h2>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/4dfd/live/c04eaaf0-f24d-11f0-b5f7-49f0357294ff.jpg.webp" alt="Placas homenageiam desaparecidos da ditadura no Recife"/><figcaption class="wp-element-caption">Andrea Rego Barros/Prefeitura do Recife<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo fantástico trazido pela Perna Cabeluda está ligado ao ambiente de uma cidade bastante reprimida, explica o advogado Manoel Moraes, membro da Comissão da Verdade pernambucana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recife era sede do Quarto Exército, utilizado como centro de operações e local de detenção de presos de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, Pernambuco era o epicentro das ligas camponesas e onde se destacaram figuras como Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife famoso pela sua luta por Justiça social e contra ditadura, e&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46830942">Paulo Freire</a>, idealizador do Movimento de Cultura Popular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Há um apagamento da história da repressão do Nordeste, que é muito grave, até porque ela se confunde ainda com o coronelismo local, com o crime de pistolagem, como é mostrado no filme&#8221;, diz Moraes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pesquisador explica que, anos antes do golpe militar de 1964, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, o recém-criado DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) se tornou um órgão poderoso em Pernambuco, atravessado pela violenta política local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;No Recife, os delegados do DOPS se tornaram verdadeiros precursores da política pernambucana&#8221;, explica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eles se tornaram donos de cartórios, os filhos foram para política ou magistratura. Montaram uma verdadeira estrutura que, quando o golpe se instalou em 1964, esses grupos vão se fortalecer.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse cenário, na avaliação de Moraes, fica evidente em&nbsp;<em>O Agente Secreto</em>&nbsp;com o personagem do delegado que mata pessoas e invade comércios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O filme passa de forma brilhante como essa estrutura de segurança pública local já era repressiva, engendrada no malfeito, no crime organizado, com conexões com pistoleiros.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse cenário que surge a Perna Cabeluda.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Terreno-fértil-para-lenda-urbana">Terreno fértil para lenda urbana</h2>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/0aae/live/c96a1310-f246-11f0-b385-5f48925de19a.png.webp" alt="Duas Capas de livros sobre a perna cabeluda"/><figcaption class="wp-element-caption">Roberto Beltrão e Editora Mirada<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A Perna Cabeluda é apenas uma entre as muitas lendas urbanas que assombraram o Recife.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao lado de figuras como Biu do Olho Verde, Galeguinho do Coque — todos citados na música&nbsp;<em>Banditismo por uma Questão de Classe</em>, de Chico Science &amp; Nação Zumbi —, além da Velhinha da Caxangá, da Emparedada da Rua Nova, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Roberto Beltrão, há uma combinação de fatores que explicam por que a capital pernambucana foi terreno fértil para tanta assombração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro, é preciso lembrar a antiguidade da cidade. Recife é a mais antiga entre as capitais do Brasil, fundada em 1537 — antes até que Salvador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A cidade acumula muitas histórias, muitas delas trágicas também. E elas levam um pouco de sobrenatural para uma memória coletiva&#8221;, diz Beltrão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O escritor ressalta ainda que a cidade foi &#8220;caldeirão cultural&#8221; com muita presença indígena, negra e de europeus com uma cultura supersticiosa — mistura que gerava uma espécie de &#8220;catolicismo mediúnico&#8221; nos engenhos de cana-de-açúcar, base da economia local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante o período colonial, em Pernambuco, os mortos poderosos também eram enterrados nas próprias terras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Acontecia de os donos de engenho se tornarem fantasmas porque em vida eles foram muito cruéis com os escravizados. As lendas apareceram como forma de lidar com muito sofrimento&#8221;, diz Beltrão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: BBC Brasil / O Agente Secreto/Divulgação</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="QUANDO O MARKETING ENTENDE O POVO,O MANDATO ACONTECE" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/eR0ipOmRN5w?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



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		<title>Exposição preserva a memória e a afetividade de desaparecidos e mortos pela ditadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Apr 2025 14:07:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Mortos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Centro MariAntonia da USP apresenta Ausências Brasil, que conta a história de 12 opositores do regime militar brasileiro por meio de fotografias feitas antes e depois do seu desaparecimento ou morte Jana fez Biologia; Fernando Augusto, Direito. Luiz estudou Ciências Sociais. Ana Rosa, Química e Filosofia. Todos tinham entre 25 e 32 anos e desapareceram devido [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph"><em>Centro MariAntonia da USP apresenta </em>Ausências Brasil<em>, que conta a história de 12 opositores do regime militar brasileiro por meio de fotografias feitas antes e depois do seu desaparecimento ou morte</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Jana fez Biologia; Fernando Augusto, Direito. Luiz estudou Ciências Sociais. Ana Rosa, Química e Filosofia. Todos tinham entre 25 e 32 anos e desapareceram devido à ação repressiva do regime militar brasileiro. Esses são só alguns dos 434 nomes que compõem a lista de mortos e desaparecidos durante a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985), segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), de 2014. Foi visando conservar a memória e os sonhos interrompidos de pessoas como essas, hoje ausentes, que o fotógrafo argentino Gustavo Germano organizou a exposição&nbsp;<em>Ausências Brasil</em>, em cartaz no Centro MariAntonia da USP desde o último dia 31 de março — data que marcou os 61 anos do golpe de Estado de 1964 e inaugurou a ditadura no País. A mostra apresenta duplas de fotos de diferentes mortos e desaparecidos, nas quais a diferença principal da primeira para a segunda, além da passagem de tempo, é sempre a ausência da pessoa em questão.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2025/01/Banner-para-loja-online-frete-gratis-mercado-shops-medio-720-x-90-px-1.gif" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia foi aplicada pelo fotógrafo pela primeira vez em 2007, na Argentina, com desaparecidos da ditadura militar argentina (1976-1983) e, posteriormente, no Uruguai (cuja ditadura durou de 1973 a 1985).&nbsp;<em>Ausências Brasil</em>&nbsp;foi exposta pela primeira vez no País em 2013 e, neste ano, já percorreu outras instituições – como a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo – até chegar no Centro MariAntonia. Com apoio do Núcleo de Preservação da Memória Política de São Paulo, a mostra&nbsp;fica em cartaz até 16 de maio, com entrada grátis.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Do sorriso à tristeza</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao todo,&nbsp;<em>Ausências Brasil</em>&nbsp;exibe 12 duplas de fotos de 12 pessoas diferentes. Na primeira foto de cada dupla, as pessoas aparecem em família, em casal ou sozinhas, e o sorriso prevalece. Na segunda, com a ausência da pessoa desaparecida, o foco volta-se para a seriedade, para a tristeza e para o vazio daqueles que a perderam. Em conversa com o&nbsp;<strong>Jornal da USP</strong>, o fotógrafo Gustavo Germano, que hoje vive na Espanha, afirma que a ideia da exposição surgiu devido a uma experiência pessoal: seu irmão, Eduardo, foi detido e desapareceu durante a ditadura militar argentina, em 1976. Trinta anos depois, Germano retornou ao seu país natal para concretizar essa ideia. “O meu objetivo era representar, através da fotografia, o que significam os efeitos devastadores da desaparição forçada como método de repressão política”, explica.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o fotógrafo, a disposição das fotos, feita sempre no mesmo lugar da imagem original, também tem um papel a cumprir, ao passar do universo afetivo para o vazio, simbólico e concreto, causado por essa ausência. “Não é a imagem típica do desaparecido, que é uma foto cortada, onde a pessoa está isolada de todo o universo afetivo, mas, sim, de onde o tiraram, mostrar também de onde o tiraram.” No panfleto da exposição, a palavra “Ausências” é escrita sem a letra “i” – exceto o pingo -, como forma de representar, também, a ausência de algo importante e que sempre esteve ali.</p>



<figure class="wp-block-image is-style-rounded"><img decoding="async" src="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250416_gustavo-germano-300x300.jpg" alt="Homem de óculos." class="wp-image-878537"/></figure>



<h4 class="wp-block-heading">O fotógrafo Gustavo Germano &#8211; Foto:&nbsp;<a href="https://www.ufrgs.br/arteversa/gustavo-germano-a-dolorosa-presenca-da-ausencia/">Reprodução/Arteversa &#8211; UFRGS</a></h4>



<p class="wp-block-paragraph">As 12 pessoas mortas ou desaparecidas retratadas na exposição eram originárias de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Rio Grande Sul, estados para onde o fotógrafo viajou durante a produção da mostra. Abaixo de cada dupla de fotografias, há um QR code que, quando escaneado, dá acesso a um curto vídeo com a história de vida daquela pessoa, de seu nascimento até seu desaparecimento ou morte, além de trazer uma audiodescrição das fotos. Com isso, o visitante passa a saber mais detalhes sobre os gostos e relações daquelas pessoas (afetividade) e sobre sua atuação na militância (desde a escola, passando pela universidade e chegando a partidos políticos), até quando foram presas pela ditadura.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A exposição conta, por exemplo, a história de Virgílio Gomes da Silva, 38 anos, que comandou o sequestro de Charles Burke Elbrick, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, em 1969. Ele estava vinculado à Aliança Libertadora Nacional (ALN), grupo ligado a Carlos Marighella que nasceu de um braço dissidente do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Também são retratados três homens relacionados a uma mesma mulher, Iara Xavier Pereira. Seus irmãos Iuri e Alex foram presos, torturados e assassinados pelo regime militar, fato que também ocorreu com seu marido, Arnaldo Cardoso Rocha.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-virgilio.jpg"><img decoding="async" src="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-virgilio.jpg" alt="Uma foto que mostra um casal entrando na igreja para casar e outra foto que mostra uma senhora na mesma igreja." class="wp-image-878153"/></a></figure>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-iuri.jpg"><img decoding="async" src="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-iuri.jpg" alt="Uma foto mostrando um casal sentado num muro baixo e outra foto mostrando uma mulher sozinha sentada no mesmo banco." class="wp-image-878151"/></a></figure>



<h4 class="wp-block-heading">Virgílio Gomes da Silva (na foto à esquerda) e Iuri Xavier Pereira (na foto à direita) foram filiados ao PCB e à ALN até serem assassinados em 1969 e em 1972, respectivamente. Os restos mortais de Virgílio nunca foram encontrados &#8211; Foto: Cecília Bastos/USP Imagens</h4>



<h2 class="wp-block-heading">Brasil: pioneiro no pior sentido</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Germano conta que decidiu expandir o estudo de&nbsp;<em>Ausências</em>&nbsp;para fora da Argentina ao ver a repercussão do projeto em outras exibições por países que também haviam passado por regimes autoritários na América Latina. Ele cita o Brasil como um exemplo negativo: “O primeiro país onde se aplicou a desaparição forçada como método foi o Brasil. Em outras ditaduras, como no Chile, Argentina e Uruguai, demorou um pouco mais. No Brasil, isso já acontecia em 1968”. O fotógrafo enfatiza, também, a influência dos Estados Unidos nas práticas de desaparecimento forçado por meio da chamada Operação Condor, campanha de repressão das ditaduras latino-americanas que teve o apoio estadunidense. “Esse método tem ligação com a escola americana na ideia de combate ao comunismo, mas nasce antes disso, com os franceses, primeiro na Coreia, nos anos 1950, e depois na Independência da Argélia, já nos anos 1960.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como é informado na exposição, em 2024 a presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), Eugênia Augusta Gonzaga, afirmou que o número de desaparecidos e mortos pelo regime militar pode ser muito maior do que aquele divulgado pela Comissão Nacional da Verdade, já que a CNV adotou os critérios presentes na Lei de Mortos e Desaparecidos Políticos (1995). Essa lei foi negociada com os militares e considera apenas os desaparecimentos e mortes intimamente ligados à resistência à ditadura por meio da militância, o que deixa de fora camponeses, indígenas, vítimas de esquadrão da morte e do surto de meningite dos anos 1970 — todos ligados, de alguma forma, à atuação do regime militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em&nbsp;<a href="https://apublica.org/2024/10/passa-de-10-mil-procuradora-propoe-recontar-mortos-na-ditadura/">reportagem</a>&nbsp;no ano passado – também de acordo com textos exibidos em&nbsp;<em>Ausências Brasil</em>&nbsp;-, a Agência Pública destacou que também são excluídos da conta de desaparecidos 208 ossadas da Vala de Perus, em São Paulo, descobertas em 1993, que nunca foram identificadas, além de mortos na Guerrilha do Araguaia, no início dos anos 1970, quando as Forças Armadas praticamente dizimaram todos os militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Os vídeos nos QR codes da exposição citam várias vezes os enterrados como indigentes no cemitério de Perus e os mortos na Guerrilha do Araguaia.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-jana.jpg"><img decoding="async" src="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-jana.jpg" alt="Uma foto mostrando uma mulher com uma criança e outra foto mostrando uma mulher, no mesmo local." class="wp-image-878152"/></a></figure>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-joao-carlos.jpg"><img decoding="async" src="https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2025/04/20250415_ausencias-brasil-joao-carlos.jpg" alt="Uma foto mostrando quatro garotos e outra foto, no mesmo local, mostrando três homens." class="wp-image-878155"/></a></figure>



<h4 class="wp-block-heading">Jana Moroni Barroso (na foto à esquerda, em pé) e João Carlos Haas Sobrinho (na foto à direita, o segundo garoto sentado na cerca, da esquerda para a direita) foram sequestrados e mortos na região do Araguaia &#8211; Foto: Cecília Bastos/USP Imagens</h4>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A exposição</em>&nbsp;Ausências Brasil&nbsp;<em>fica em cartaz até 16 de maio, de terça-feira a domingo e feriados, das 10 às 18 horas, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas no&nbsp;<a href="https://www.mariantonia.prceu.usp.br/exposicao-apresenta-ausencias-de-assassinados-e-desaparecidos-da-ditadura-argentina/">site do Centro MariAntonia</a>&nbsp;e pelo telefone (11) 2648-5202.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Estagiário sob supervisão de Roberto C. G. Castro</em> / <em>*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Jornal da USP /  Foto: Cecília Bastos/USP Imagens</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="INÍCIO DOS TRABALHOS DO LEGISLATIVO IPIRAENSE" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/rC7EkFQHipo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



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		<title>Como &#8216;Ainda Estou Aqui&#8217; inspira jovens a compartilhar no TikTok histórias de pais e avós torturados na ditadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Dec 2024 20:28:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
		<category><![CDATA[TikTok]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Maria Petrucci, de 22 anos, teve o pai preso por militares durante a ditadura no início dos anos 1970. Luana Lungaretti, de 22 anos, também sofreu com a tortura e prisão do pai por agentes no DOI-CODI, na mesma década. Já Elisa Nunes, de 21 anos, teve a avó exilada na França durante dez anos nesta mesma época. As [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Priscila Carvalho</strong></li>



<li><strong>Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil</strong></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Petrucci, de 22 anos, teve o pai preso por militares durante a ditadura no início dos anos 1970.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Luana Lungaretti, de 22 anos, também sofreu com a tortura e prisão do pai por agentes no DOI-CODI, na mesma década.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já Elisa Nunes, de 21 anos, teve a avó exilada na França durante dez anos nesta mesma época.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As três jovens, de idades semelhantes, compartilham histórias de familiares marcados pela repressão do regime militar brasileiro, que durou 21 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os relatos foram compartilhados graças a uma trend no TikTok, inspirada no&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5yx0xg39jpo">filme Ainda Estou Aqui,</a>&nbsp;do diretor Walter Salles, e que rendeu postagens virais, com mais de quatro milhões de visualizações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos primeiros vídeos foi o de Maria, onde ela segura a foto 3&#215;4 do pai, preso na época, e escreve: &#8220;O impacto de ver esse filme sendo filha de um preso político da ditadura que hoje tem&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c8y94y3pjygt">Alzheimer</a>&nbsp;em estado avançado&#8221;.</p>



<ul class="wp-block-list"></ul>



<p class="wp-block-paragraph">O post tinha como trilha sonora a música<em>&nbsp;É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo</em>, do cantor Erasmo Carlos, e que compõe o longa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após essa publicação, outros jovens começaram a compartilhar relatos sobre pais e avós que sofreram com a perseguição, destacando como o filme se tornou um marco para que o tema fosse falado abertamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eu não imaginei que ia ter essa repercussão e muitas pessoas jovens perguntando o que foi a ditadura. Fiquei feliz que pude contribuir para que outras pessoas pudessem ter mais consciência de todo o prejuízo que muitas famílias sofreram. Vi um paralelo com a história do meu pai&#8221;, diz Maria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Codinome-Frederico">Codinome Frederico</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Logo que ingressou na faculdade de administração pública na década de 1970, o pai de Maria, Sérgio de Azevedo, hoje com 78 anos, entrou para o movimento estudantil e ajudou pessoas que eram perseguidas pela ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele e os amigos usavam um apartamento para salvar e abrigar indivíduos e deixá-los em segurança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eles chamavam de &#8216;aparelho&#8217; e funcionava como uma espécie de esconderijo. Para dificultar a identificação, ele também usava o nome de Frederico&#8221;, diz Maria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na época, ele tinha uma amiga chamada Anita e os dois combinaram de se encontrar em uma praça no bairro do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. Ela demorou muito a aparecer no local e quando ele e um amigo estavam indo embora, foram surpreendidos por militares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Os militares os pisotearam e os levaram para a penitenciária da Tijuca&#8221;, relembra a estudante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegando ao local, ele passou cinco dias em uma cela, deitado em uma esteira no chão, com um militar armado ao seu lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ele ficou por volta de dois meses na prisão e, nesse meio tempo, ocorreram diversas situações que o impediram de ser torturado&#8221;, conta. Na primeira vez, segundo Maria, os militares haviam encontrado jovens de outro grupo e não realizaram a tortura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Provavelmente acharam um outro grupo mais significativo. E talvez não desconfiaram dele, porque ele realmente escondeu muita gente relevante no apartamento&#8221;, acrescenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um outro momento, ele foi levado para uma sessão de tortura na qual as pessoas eram chamadas em ordem alfabética.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por ter o nome S, ele estava entre os últimos e, bem naquele dia, o horário para tortura havia acabado. &#8220;Ele nunca agradeceu tanto por ser Sérgio e ter o S no nome&#8221;, relembra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outro momento, um militar o acorda no meio da noite e pergunta se ele era o Frederico e diz &#8220;que não queria estar na pele dele e que ele havia caído&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria conta que o pai chegou a pensar que fora delatado pelos amigos, mas, ao chegar na sala de tortura, viu seu amigo ensanguentado e, mesmo assim, o companheiro disse que aquele não era o Frederico que os militares estavam buscando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Até hoje a gente não sabe se ele quis poupá-lo ou se não era ele mesmo. Ele passou &#8216;raspando&#8217; por sessões de tortura&#8221;, conta a jovem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após quase dois meses, ele consegue ser solto com a ajuda de um militar conhecido da família, que o ajuda com argumentos de que ele tinha bons antecedentes e que já havia estudado no colégio naval na adolescência.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/a94c/live/89d52410-b0de-11ef-a2ca-e99d0c9a24e3.jpg.webp" alt="A foto em preto e branco mostra uma mulher jovem, de pele clara e cabelos escuros, olhando para a câmera. "/><figcaption class="wp-element-caption">Arquivo pessoal de Elisa Nunes<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Ao sair da cadeia, Maria conta que o pai era vigiado constantemente por militares e precisou mudar de casa. Ele havia passado em um concurso para ser fiscal de renda e sofreu ameaças para assumir o cargo, o que o fez desistir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eles não queriam que alguém contra o regime ocupasse um cargo público&#8221;, conta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só depois de muito tempo e com uma liminar na Justiça, que ele conseguiu, de fato, pleitear o cargo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois, passou por processos de exílio, quando foi estudar para um mestrado no Chile e na Argentina, até retornar ao Brasil, nos anos 70.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devido a todas as adversidades, Sérgio sofreu traumas e sempre falava sobre o assunto com muito receio e medo. &#8220;Ele falava baixo, falava com medo. Chegou a dar&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-61171113">depoimento na Comissão Nacional da Verdade</a>&nbsp;e ficou realmente nervoso&#8221;, relembra a filha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Fim-dos-sonhos-e-Alzheimer">Fim dos sonhos e Alzheimer</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo não sofrendo tortura física, as sequelas psicológicas foram graves, de acordo com Maria. Ele conta que o pai tomou por muito tempo ansiolíticos e, mesmo após anos, ainda tinha receio de falar sobre tudo que viveu na prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A estudante também relata que o pai parou de sonhar, literalmente, anos após sair da cadeia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ele não tinha mais a experiência de sonhar como as pessoas normais. Quando ele saiu da prisão, ele sonhava muito com tortura, tirando a camisa, a calça, para se &#8216;desidentificar'&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Como fazia abuso de ansiolíticos, teve um comprometimento psíquico e neural. Então, ele realmente não sonhava com nada ou não se lembrava. E também não tinha mais esperança com a vida. Tornou-se uma pessoa muito pessimista&#8221;, acrescenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2018, Sérgio foi diagnosticado com demência e a doença foi evoluindo. Ele precisou se retirar da faculdade em que dava aula e foi tendo uma piora no quadro de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente, por decisão da família, ele vive em uma ILPI (Instituição de Longa Permanência), e tem dificuldade em reconhecer as filhas. &#8220;Hoje, ele já está em estágio avançado do Alzheimer e muito debilitado. Tem dificuldade para se comunicar, para formar frase&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo diante da condição, Maria acredita que os resquícios da ditadura ainda permanecem. &#8220;Uma vez eu estava cantando Chico Buarque para ele e ele disse para eu não cantar aquilo que iam me prender&#8221;, relembra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a jovem, a identificação com o filme veio justamente daí, já que, para ela, a cena mais emblemática foi quando a atriz Fernanda Montenegro, que interpreta Eunice no fim da vida, reconhece o marido na televisão e esboça reação sem dizer uma palavra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Foi muito impactante. Ela ressurge de si mesma. Fiquei muito comovida com esses paralelos&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ela, a obra é fundamental para preservar a história de todas as pessoas que passaram por algum tipo de tortura nessa época, além de mostrar para outras que duvidam que isso existiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Tenho relato de amigos que foram assistir com pais conservadores. E só de conseguirem ter empatia e entender o que pelo menos foi o regime militar, fico feliz. É muito importante a empatia que o cinema proporciona&#8221;, diz.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Meu-pai-foi-torturado-e-teve-o-tímpano-perfurado">&#8216;Meu pai foi torturado e teve o tímpano perfurado&#8217;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A estudante Luana Lungaretti, de 22 anos, cresceu ouvindo sobre o impacto da ditadura militar na vida de seu pai, Celso Lungaretti, hoje com 74 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jornalista e ex-guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), ele foi preso aos 19 anos em uma operação que desarticulou o grupo ao qual pertencia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Celso foi preso no dia 16 de abril de 1970 e levado para a sede do DOI-CODI, na zona norte do Rio de Janeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante o tempo de detenção, foi submetido as sessões de tortura que incluíam choques elétricos e espancamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Choques nos dedos, nos testículos e com eletrodos atados nos ouvidos, de forma que sentíamos como se um raio atravessasse nosso cérebro&#8221;, relembra Celso, em entrevista à BBC News Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele sofreu agressões pelo tenente Ailton Joaquim, que, segundo Sérgio, era considerado um dos mais violentos da época. O militar chegou a ministrar uma aula prática de tortura na Vila Militar, em outubro de 1969, para um grupo de sargentos e oficiais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Em uma dessas sessões, ele teve o tímpano do ouvido direito estourado, uma lesão que resultou em anos de crises de labirintite e cirurgias&#8221;, conta Luana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Fiz três cirurgias, mas até hoje continua perfurado. O buraco só diminuiu de diâmetro, mas, se entrar água, infecciona&#8221;, afirma o jornalista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além dos danos físicos, as marcas psicológicas e sociais foram severas. &#8220;Ele passou quase um ano tentando se reerguer psicologicamente após a prisão. Ainda assim, enfrentou difamações e foi acusado injustamente de delatar seus colegas. Isso o isolou de muitas pessoas e comprometeu sua carreira profissional por décadas&#8221;, relata a filha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele chegou a ficar um ano preso, e levou praticamente o mesmo tempo em que ficou em cárcere para se recuperar. &#8220;Não tinha dinheiro para pagar terapeuta, mas fui superando os traumas e revolta represada&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Celso, pelo menos 20 pessoas que ele conhecia pessoalmente foram assassinadas durante a luta armada ao participar de uma comunidade alternativa, a convite de antigos amigos dele da escola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para driblar a hostilidade e os preconceitos, ele chegou a usar pseudônimos para assinar trabalhos na imprensa e conseguir trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A história do pai nunca foi um tabu dentro de casa. Desde cedo, Luana ouviu sobre o período repressivo e como ele moldou sua visão de mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Meu pai nunca se calou sobre o que viveu. Ele sempre participou de debates, deu entrevistas e escreveu sobre o tema. Em 2005, publicou o livro&nbsp;<em>Náufrago da Utopia</em>, onde relata sua trajetória na guerrilha e as marcas deixadas pela ditadura&#8221;, ressalta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao assistir ao filme&nbsp;<em>Ainda Estou Aqui</em>, a estudante sentiu-se representada.&#8221;Foi impossível não me emocionar e pensar no que meu pai enfrentou. Era como se eu pudesse sentir, mesmo que minimamente, o que ele viveu na pele&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a experiência foi marcada por limitações: tanto ela quanto Celso têm deficiência auditiva, e a ausência de legendas nos cinemas brasileiros dificultou o acesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Uma pessoa que me acompanhava precisou escrever pelo WhatsApp o que acontecia para que eu pudesse entender.&#8221; O pai da jovem ainda não conseguiu assistir ao longa, justamente pela falta de acessibilidade.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/e7c4/live/cf7e8ba0-b0de-11ef-a2ca-e99d0c9a24e3.jpg.webp" alt="Cartaz da época da ditadura com fotos de pessoas procuradas pelo regime, com os dizeres &quot;Terroristas assassinos procurados - Depois de terem roubado e assassinado vários pais de família, estão foragidos. Avise o primeiro policial que encontrar se você suspeitar da presença de um dos procurados. Ajude-nos a proteger sua própria vida e a de seus familiares&quot; "/><figcaption class="wp-element-caption">Arquivo pessoal de Luana Lungaretti<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A repercussão do filme e dos vídeos no TikTok, onde Luana compartilhou a história de sua família, é, para ela, uma oportunidade de conscientizar as novas gerações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A maioria que defende, muitas vezes, é influenciada por opiniões extremistas e, em alguns casos, sem fundamento sobre o assunto. Falta mais estudo e, principalmente, humanidade&#8221;, diz Luana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questionados sobre as pessoas que pedem para que a ditadura retorne, ambos são categóricos nas respostas. Para eles, defender a volta desse regime é fruto da falta de informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Tais pessoas, ou estão sendo enganadas por gente inescrupulosa que lhes impingem mentiras cabeludas aproveitando sua inocência, ou são seres desumanos ao extremo&#8221;, diz Celso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A filha ainda faz um apelo para que essas pessoas se coloquem no lugar das minorias, de quem perdeu alguém e de quem teve que lutar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Viver com medo, viver sendo vigiado, viver sob cautela o tempo todo, viver sem direitos. Isso não é viver, e não podemos permitir que se repita.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Minha-avó-ficou-exilada-por-dez-anos-na-França">&#8216;Minha avó ficou exilada por dez anos na França&#8217;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A avó da estudante Elisa Nunes, Vera Tude de Souza, precisou abandonar sua vida no Brasil durante a ditadura militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Minha avó era muito jovem, praticamente da minha idade, e teve que largar tudo para acompanhar meu avô, que era da luta armada. Ela não era militante, mas ajudava pessoas perseguidas, como o&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj6e5886n3do">Rubens Paiva</a>&#8220;, conta Elisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vera acabou sendo identificada pelas autoridades após ajudar na fuga de um amigo, que acabou capturado. A situação se tornou insustentável, e ela partiu para o exílio na França em 1969. Lá, ingressou no Partido Comunista Francês e passou a observar as diferenças sociais e políticas em relação ao Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ela via como políticas públicas, saúde e educação de qualidade mudavam a vida das pessoas, e isso marcou muito a visão dela&#8221;, explica a neta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo politicamente ativa no exílio, sua avó enfrentou dificuldades financeiras. Sem formação acadêmica completa, fez trabalhos manuais e passeava com cachorros para sustentar as filhas gêmeas. &#8220;A ditadura roubou isso dela, e ela teve que se virar com o que dava para criar minha mãe e minha tia&#8221;, relata Elisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a jovem, a avó conta que o período, apesar dos desafios, foi importante para a formação política dela, que agora tem 81 anos. &#8220;Ela nunca escondeu essa parte da vida para a família, sempre contou suas experiências. Foi uma época difícil, mas que trouxe muito aprendizado para ela e meu avô.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elisa também explorou a história da avó em sua monografia do ensino médio, que abordava o papel das mulheres na ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Usei os relatos dela para mostrar como era ser mulher na linha de frente naquele período. Foi muito especial trazer essa memória para o trabalho&#8221;, afirma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A identificação da família com o filme de Walter Salles foi imediata. &#8220;Assistimos juntos porque sabíamos que nos reconheceríamos nos personagens. Somos uma família de classe média, e a trajetória deles lembra muito a da minha avó.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao levar a história de Vera para o TikTok, a estudante quis destacar a força e resiliência da avó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ela é uma heroína invisível, a mulher que eu mais admiro no mundo. É importante contar essas histórias para que ninguém esqueça o que aconteceu e para que possamos entender melhor nosso passado.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Elisa, a falta de punição aos responsáveis pelo regime contribui para o esquecimento coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Os culpados nunca foram punidos, e isso cria um fator de esquecimento muito grande nas pessoas. Muitos defendem a ditadura sem saber o que realmente aconteceu”, diz</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: BBC Brasil / Fonte: Arquivo pessoal de Maria Petrucc</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="TRANSIÇÃO DA INFÂNCIA PARA A ADOLESCÊNCIA: O QUE MUDA? COMO OS PAIS ENCARAM ESSA MUDANÇA?" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/YVfKIHbU444?start=3130&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure><p>The post <a href="https://ipiracity.com/como-ainda-estou-aqui-inspira-jovens-a-compartilhar-no-tiktok-historias-de-pais-e-avos-torturados-na-ditadura/">Como ‘Ainda Estou Aqui’ inspira jovens a compartilhar no TikTok histórias de pais e avós torturados na ditadura</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Ponte Rio-Niterói: mortes, atrasos, tentativa de CPI e explosão de custos da ‘obra do século’ da ditadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Mar 2024 17:34:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[CPI]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[explosão]]></category>
		<category><![CDATA[Rio-Niterói]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Graças à visão ampla de estadistas que a Revolução de Março de 1964 ofereceu ao Brasil, podemos hoje, no mês em que comemoramos seu décimo aniversário, festejá-la com legítimo orgulho, mediante essa magnífica estrada sobre as águas que liga, por sobre a Baía de Guanabara, as cidades do Rio de Janeiro e de Niterói.&#8221; A [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Graças à visão ampla de estadistas que a Revolução de Março de 1964 ofereceu ao Brasil, podemos hoje, no mês em que comemoramos seu décimo aniversário, festejá-la com legítimo orgulho, mediante essa magnífica estrada sobre as águas que liga, por sobre a Baía de Guanabara, as cidades do Rio de Janeiro e de Niterói.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A declaração é do ministro dos Transportes à época, coronel Mário Andreazza, no discurso de inauguração da ponte Presidente Costa e Silva, mais conhecida como Ponte Rio-Niterói, há 50 anos, em 4 de março de 1974.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O discurso evidencia a dupla finalidade do ousado empreendimento, então a terceira ponte mais longa do mundo, com seus 13,2 km de extensão: conectar as duas cidades e funcionar como peça de propaganda da&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/watch?v=nqXBSjgDoOk">ditadura militar</a>, algo que, de certa forma, se mantém até hoje, com a controversa manutenção do nome em homenagem ao seu segundo presidente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ditadura foi instalada no país há 60 anos, com um golpe militar iniciado em 31 de março de 1964 que derrubou <a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1rx9vv3lvno">o presidente João Goulart</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Obras grandiosas de infraestrutura foram um marco do regime autoritário, como a estrada Transamazônica, as hidrelétricas de Itaipu e Balbina, as usinas nucleares de Angra dos Reis e a própria Ponte Rio-Niterói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Celebradas como símbolos de um &#8220;Brasil grande&#8221;, com <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45960213">acelerado crescimento econômico</a>, foram também polêmicas pelos atrasos e orçamentos estourados, impactos ambientais e condições precárias de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Rio-Niterói é simbólica em todos esses aspectos, vista como um marco da engenharia e exaltada como &#8220;obra do século&#8221; pelo governo, como mostram jornais da época.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu vão principal, com uma estrutura em aço inglês de 300 metros de extensão, é até hoje o maior do mundo em viga reta contínua.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de construção é pouco usado em grandes vãos, mas foi escolhido devido à proximidade de dois aeroportos, Santos Dumont e Galeão. Outras técnicas de engenharia, como ponte pênsil ou estaiada, teriam comprometido a passagem dos aviões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Se você um dia passar na ponte Rio-Niterói, no ponto mais alto, lembre-se que você está a 130 metros de onde estão cravadas as fundações da ponte na rocha&#8221;, explica o engenheiro Carlos Henrique Siqueira, que há 52 anos trabalha na ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Siqueira começou em 1972, aos 24 anos, como engenheiro mais jovem na supervisão da obra e permanece até hoje, como consultor da Ecoponte, concessionária responsável pela operação da via.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Se você pegar a largura desse vão de 300 metros e essa altura de 130 metros, você coloca três estádios do Maracanã ali embaixo.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A grandiosidade do projeto impressiona, mas por outro lado sua construção ficou marcada por acidentes fatais, atraso na obra e críticas à má-qualidade dos materiais usados. A ponte virou alvo de uma tentativa de CPI.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O regime foi obrigado a trocar o consórcio responsável e passou a tocar a obra em ritmo frenético a fim de atender “prazos políticos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os custos explodiram, e, embora não existam dados oficiais a respeito, estima-se que o preço final tenha ficado até quatro vezes o valor original.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="O-fracasso-inicial">O fracasso inicial</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes da ponte, a viagem entre Rio de Janeiro e Niterói levava mais de duas horas, seja por balsa, incluíndo o tempo de espera, seja contornando a Baía de Guanabara, em um trajeto de cerca de 100 km que cruzava o que hoje são outros cinco municípios da Baixada Fluminense.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de ligar as duas cidades por uma ponte ou por túnel submerso era debatida há mais de um século e ganhou força na ditadura sob o argumento de que a obra era de interesse nacional, porque integraria também a BR-101, estrada que desce o litoral do país de norte a sul.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em fevereiro de 1965, o presidente Castello Branco criou um grupo de trabalho sobre o tema que, dois meses depois,&nbsp;<a href="https://books.google.com.br/books?id=BvkRAAAAIBAJ&amp;pg=PA29&amp;dq=ponte+rio+niteroi&amp;article_id=3597,2998405&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjWoMj1kYiFAxUhqJUCHZVKAcYQ6AF6BAg2EAI#v=onepage&amp;q=ponte%20rio%20niteroi&amp;f=false">optou pela ponte</a>, alternativa mais barata e com tecnologia que o Brasil dominava melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foram mais quatro anos de estudos, elaboração de projetos e processos de licitação. A ponte começou a ser construída, de fato, no início de 1969.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil atravessava naquele momento o endurecimento da ditadura com a edição do Ato Institucional número 5 (AI-5), medida mais extrema do regime, que autorizava o presidente a fechar o Congresso Nacional, cassar mandatos parlamentares, intervir em Estados e municípios, suspender os direitos políticos e civis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ousada previsão inicial de entrega era março de 1971, e a execução do orçamento inicial foi acelerada para dar conta do prazo. Mas só 20% da obra havia sido construída até janeiro do ano previsto, como reconheceu o governo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também foram feitas muitas críticas de engenheiros à qualidade dos métodos de construção, equipamentos e materiais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns desses problemas ficaram evidentes em acidentes fatais, o mais grave deles em 24 de março de 1970, quando parte do empreendimento literalmente afundou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele dia, foi feito um teste das fundações, aplicando uma técnica para fundações profundas de concreto com uma plataforma que sustentava 34 tubulões, cada um com 22 metros de comprimento, que seriam preenchidos com água.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Trinta e três tubulões já estavam cheios, e faltava apenas um, quando se ouviu um estrondo violento, e a plataforma desabou”, descreveu a reportagem do jornal O Globo no dia seguinte ao acidente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Os que trabalhavam na proximidade foram arrastados pela sucção das duas mil toneladas dos tubulões cheios de água&#8221;. Três engenheiros e cinco operários morreram no acidente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A situação da construção da ponte a essa altura era tão delicada que, naquele mês, o regime decidiu trocar o consórcio responsável pela maior parte da obra — a exceção foram os vãos centrais, que seriam executados por um consórcio inglês.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grupo formado pelas empreiteiras Construtora Brasileira de Estradas (CCBE ), Ferraz Cavalcanti, Servix e Empresa de Melhoramentos e Construção (Emec) tinha oferecido o menor lance da licitação, quase metade do segundo colocado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O consórcio perdedor acabou chamado para concluir a ponte — entre as novas empresas, estavam Camargo Corrêa e Mendes Júnior, que décadas depois foram alvo da Operação Lava Jato, acusadas de pagamento de propinas em troca de favorecimentos em contratos da Petrobras.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="A-tentativa-de-CPI-da-Ponte">A tentativa de CPI da Ponte</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Foi nesse contexto que o MDB, único partido de oposição autorizado a atuar no país entre 1966 e 1979, tentou criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI da Ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo seria “apurar as causas que levaram o governo à desapropriação (do primeiro consórcio) e possíveis prejuízos ao erário”, noticiou o Jornal do Brasil, em 2 de fevereiro de 1971.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tentativa foi barrada pelo Arena, partido governista com maioria no Congresso. O então líder do governo, deputado Geraldo Freire, acusou o MDB de agir por interesses políticos, “pretendendo criar em torno dela (a construção da ponte) não a imagem de obra do século, mas de escândalo do século”, registrou o Jornal O Globo, em 27 de maio do mesmo ano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os documentos citados no pedido de CPI, estava um relatório de novembro de 1970 produzido pelos engenheiros que haviam projetado a ponte e supervisionavam a obra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles diziam que “o andamento lento decorre de muitas modificações desnecessárias do projeto, resultando no abandono de obras previamente executadas; de um planejamento e sequência das operações de construção inapropriadas; e de atrasos causados pela baixa qualidade da execução”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um trecho alertava que “diversos tubulões e alguns blocos de coroamento (estrutura que transfere a carga dos pilares para as fundações profundas) estão consideravelmente defeituosos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O documento ainda apontou sobre as fundações que “a qualidade do concreto estava tão ruim que este material não poderia ser propriamente considerado como sendo concreto”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O MDB citava também, na justificativa para a CPI, uma carta ao Ministro dos Transportes enviada pelo engenheiro Fernando Lobo Carneiro em julho de 1970.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carneiro era chefe do programa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tinha desenvolvido um método para calcular a resistência dos concretos à tração, aplicado mundialmente e conhecido como “Brazilian Test”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na carta, ele criticava técnicas usadas na construção, em especial a decisão de concretar a laje superior em duas camadas, em vez de uma só. Esse método vinha provocando rupturas em construções nos Estados Unidos, no Canadá, na África, e mesmo no Brasil, na adutora de Ribeirão das Lajes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema de realizar em duas etapas, explicou Carneiro na carta, é que isso comprometeria a eficiência e segurança da construção da ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O engenheiro argumentou que o método usado envolvia o uso de cabos dentro da estrutura de concreto para aumentar sua resistência e que a forma mais adequada para que isso fosse feito era a concretagem em uma única etapa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Certas técnicas construtivas que se pretendem adotar na execução da ponte Rio-Niterói, e que têm em vista, fundamentalmente, a redução de custo e do prazo de execução, estão muito longe de terem sido comprovadas pela prática”, criticou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O engenheiro Benjamin Ernani Diaz foi responsável por projetar a maior parte da ponte com Antônio Alves de Noronha Filho. Ele aponta à BBC News Brasil dois fatores principais para o difícil andamento inicial da obra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro, afirma Diaz, foi a compra de equipamentos fracos para a perfuração do solo, e o outro, a opção por concretar a laje em duas etapas — ambas atribuídas ao consórcio responsável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Profissional renomado em sua área, Diaz foi pioneiro no uso de computadores na engenharia civil brasileira e pela introdução no país de uma tecnologia mais moderna de colagem de aduelas (estruturas pré-fabricadas de concreto armado), no projeto da ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O que aconteceu é que compraram equipamento muito fraco, barato, para fazer a fundação, e a máquina que perfurava o solo não atingia profundidades adequadas”, lembra Diaz, que foi também chefe de projeto da Usina Nuclear de Angra 2, professor da UFRJ e, hoje, atua como consultor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o consórcio construtor dizia que o estudo de viabilidade da obra, que constava do edital de licitação, trazia informações erradas sobre a profundidade da baía para a fixação das fundações da ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso exigiria a importação de equipamentos de perfuração mais caros do que os previstos inicialmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O governo acabou sendo alvo de críticas também. O Clube de Engenharia divulgou um relatório em maio de 1971 condenando os “prazos políticos para conclusão de obras públicas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://books.google.com.br/books?id=OK9NAAAAIBAJ&amp;pg=PA11&amp;dq=%22ponte+Rio-Niteroi%22&amp;article_id=6915,1757772&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjVkZmYv_SEAxU_r5UCHV0fDGAQ6AF6BAhSEAI#v=onepage&amp;q=%22ponte%20Rio-Niteroi%22&amp;f=false">Segundo uma reportagem do Jornal do Brasil</a>, a carta citava a Ponte Rio-Niterói como exemplo de empreendimento em que a definição inicial de prazos curtos e orçamentos baixos pelo governo comprometiam a segurança da obra.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://books.google.com.br/books?id=nL9OAAAAIBAJ&amp;lpg=PA15&amp;dq=%22ponte%20Rio-Niteroi%22&amp;hl=pt-BR&amp;pg=PA16#v=onepage&amp;q=%22ponte%20Rio-Niteroi%22&amp;f=false">Em um editorial de 13 de janeiro de 1971</a>, o próprio Jornal do Brasil também condenava a “pressa” no lançamento do projeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A ponte, que esperou cem anos ou mais, poderia esperar mais algum tempo para sair um projeto perfeito, baseado em cálculos exatos, em pesquisas detalhadas, previstas todas as consequências”, dizia o editorial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por decisão política, o regime militar não demoliu dois vãos construídos com os métodos criticados, conta Carlos Henrique Siqueira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em vez disso, foram projetados reforços para essa estrutura, que correspondiam aos dois primeiros vãos sobre o mar, na margem do Rio de Janeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Aquilo que havia sido feito, pensou-se derrubar. Destrói tudo e faz de novo. Porém, o governo brasileiro disse que ia ser uma coisa muito dramática. A sociedade aí é que não ia acreditar mesmo (na construção da ponte)”, recorda.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="‘Pau-na-máquina">‘Pau na máquina’</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com a troca de consórcio, o governo passou a gerenciar diretamente o empreendimento por meio de uma estatal, pagando 9% dos custos como remuneração às empreiteiras, e imprimiu um ritmo acelerado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Andreazza dizia que a ponte precisava ser entregue logo porque seria a cobrança de pedágio que pagaria os empréstimos que bancaram a obra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas havia também o desejo do ministro e do presidente Emílio Médici de concluir a obra antes do fim do seu mandato, que de fato acabou apenas onze dias após a inauguração da ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Claudio Frischtak, ex-economista do Banco Mundial e presidente da consultoria Inter.B, o coronel Andreazza, ministro dos Transportes, tinha pretensões presidenciais, mesmo não sendo general (a mais alta patente militar). Ele de fato tentou disputar pelo PDS a eleição indireta de 1985, que marcou o fim do regime militar, mas acabou preterido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Era um cara relativamente jovem na época, boa pinta, (perfil de) executivo, e extremamente ambicioso. Queria colocar sua a marca, não só em termos de rodovias, como talvez na ópera máxima dele, que seria essa ponte”, dizia a reportagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Aí ele fez uma coisa comum em países autoritários, que era: &#8216;pau na máquina!&#8217; Então, é um ‘pau na máquina’ que você não sabe exatamente qual foi o custo humano e nem tampouco o custo financeiro, quanto custou essa ponte, ao fim e ao cabo”, ressalta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O engenheiro Ernani Diaz lembra-se da pressa nessa segunda etapa: “(O orçamento subiu) porque o segundo consórcio começou a cobrar equipamento para manter o prazo do governo. Se for fazer uma ponte em quatro anos em vez de dois, precisa de menos equipamento. Aí, para fazer mais rápido, começou a exigir outras duas treliças (para içar os pedaços da ponte)”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carlos Siqueira também se recorda do ritmo frenético. &#8220;O governo tinha ciência da magnitude do projeto. Eu trabalhava na supervisão da ponte e, se eu quisesse trabalhar 24 horas por dia, era permitido, porque a minha empresa ganhava um percentual em cima do meu salário. A obra deslanchou”, conta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A construção acelerada favorecia os acidentes de trabalho em meio à falta de equipamentos adequados se segurança. No seu auge, 10 mil pessoas trabalhavam na ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em maio de 1971, durante uma visita da imprensa à obra, o coronel João Carlos Guedes, administrador da empreitada, disse que o governo já tinha distribuído &#8220;1,2 mil pares de sapatos, pois só no mês passado 170 trabalhadores furaram os pés com pregos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Como têm um prazo de seis dias para tratamento, isso vinha produzindo prejuízos consideráveis ao andamento da obra”, disse ainda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acidentes mais graves causaram dezenas de mortes. Não há números oficiais, mas as pesquisas de Siqueira apontam para cerca de 40.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Custos-altos-e-incertos">Custos altos e incertos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As informações sobre a evolução dos custos da obra não são precisas. Registros oficiais e da imprensa indicam que o projeto teria saído de um orçamento inicial de 344 milhões de cruzeiros — considerando os contratos de 1968 com os consórcios brasileiro e inglês — para&nbsp;<a href="https://books.google.com.br/books?id=M5gVAAAAIBAJ&amp;pg=PA24&amp;dq=ponte+rio+niteroi+d%C3%B3lares&amp;article_id=2596,3454297&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjs3Yugpo2FAxUBqJUCHQsdAjMQ6AF6BAgbEAI#v=onepage&amp;q=ponte%20rio%20niteroi%20d%C3%B3lares&amp;f=false">ao menos 1 bilhão de cruzeiros</a>, impactado por fatores como alterações no projetos, novas vias a serem construídas nos acessos e reajustes inflacionários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma estimativa do MDB divulgada durante a tentativa de CPI, em maio de 1971, previa gastos de mais de 1,8 bilhão de cruzeiros, englobando custos com projetos, desapropriação, obras e a troca dos consórcios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também há informações sobre a evolução dos valores em dólares. Segundo uma&nbsp;<a href="https://books.google.com.br/books?id=HcBOAAAAIBAJ&amp;pg=PA6&amp;dq=ponte+rio-niteroi+estudo+de+viabilidade+milh%C3%B5es&amp;article_id=2859,4466840&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwit9Kyv64-FAxWBq5UCHcVZB7QQ6AF6BAgIEAI#v=onepage&amp;q=ponte%20rio-niteroi%20estudo%20de%20viabilidade%20milh%C3%B5es&amp;f=false">reportagem de 12 fevereiro de 1971 do Jornal do Brasil</a>, o estudo de viabilidade da obra feito em 1967 estimava um custo de US$ 100 milhões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No início de 1971, o primeiro consórcio já previa o custo final em US$ 250 milhões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Antes mesmo da concorrência, os dirigentes do (primeiro) Consórcio sabiam que o custo previsto no estudo de viabilidade econômica era insuficiente para a construção da ponte. Confiavam em reajustamentos, usuais em obras públicas e que por certo não faltariam na Ponte Rio-Niterói, obra considerada como de importância econômica e promocional pelo Governo Costa e Silva&#8221;, dizia&nbsp;<a href="https://books.google.com.br/books?id=F8BOAAAAIBAJ&amp;pg=PA6&amp;dq=ponte+rio-niteroi+250+milh%C3%B5es&amp;article_id=3996,2095736&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwik2rfH6o-FAxXTqZUCHVrNBNAQ6AF6BAgFEAI#v=onepage&amp;q=ponte%20rio-niteroi%20250%20milh%C3%B5es&amp;f=false">outra reportagem do Jornal do Brasil de fevereiro de 1971.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;As dificuldades surgidas com as fundações (da ponte na Baía) ampliaram a margem de erro original. As últimas análises mostraram que o custo final seria 2,5 vezes maior que o calculado&#8221;, continuava a reportagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O saldo final da obra teria ficado na casa de US$ 400 milhões, segundo o engenheiro Carlos Henrique Siqueira, pesquisador da ponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Foi o valor que encontramos ao final da obra, no fechamento do orçamento. Hoje, não se constrói (ponte similar) por menos de US$ 8 bilhões (cerca de R$ 40 bilhões)&#8221;, estima, atribuindo o custo maior à disparada de preços de insumos como gasolina e aço e regras mais rígidas com meio ambiente e segurança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;De fato, os jornais da ocasião criticavam muito. Havia um determinado jornal que todo dia dizia &#8216;elefante branco, não vai servir para nada, jogar dinheiro fora&#8217;, quando não queriam dizer que algum dinheiro ia ser desviado&#8221;, lembra Siqueira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Vejam como essas vozes da discórdia estavam erradas. Quem pode imaginar hoje Rio e Niterói sem essa ponte? Quando ela fica engarrafada, ela para literalmente o trânsito nas duas cidades&#8221;, defende.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não há denúncias concretas de corrupção envolvendo a ponte, e os engenheiros que atuaram na obra ouvidos pela reportagem dizem não acreditar nisso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o historiador Pedro Campos, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a falta de denúncias não é garantia de que não houve corrupção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Autor do premiado Estranhas Catedrais, livro em que analisa a relação do regime autoritário com empreiteiras, Campos diz que pagamentos de propinas e contratos direcionados eram comuns, mas dificilmente eram revelados devido à repressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Os mecanismos de fiscalização e controle não estavam devidamente operacionais, porque a ditadura censurava os veículos de comunicação, a oposição política, dentre outros segmentos e agentes sociais que poderiam fazer acusações”, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As denúncias ficaram mais fortes ao final do regime e atingiram ministros do regime, como Delfim Neto (Fazenda, Agricultura e Planejamento) e Andreazza (Transportes e Interior), como registrou, inclusive, um telegrama secreto da embaixada dos Estados Unidos no Brasil para Washington,&nbsp;<a href="https://oglobo.globo.com/politica/telegrama-secreto-dos-eua-relata-corrupcao-na-ditadura-militar-22742570">revelado pelo jornal O Globo em 2018.</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Metrô-e-troca-de-nome-debates-que-não-avançam">Metrô e troca de nome: debates que não avançam</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em média, 150 mil veículos trafegam diariamente pela cinquentenária ponte Rio-Niterói, transportando cerca de 400 mil pessoas por dia, segundo dados da concessionária Ecoponte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Engarrafamentos são comuns pela manhã, no sentido Rio-Niterói, e no fim da tarde, no sentido contrário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Claudio Frischtak, o principal problema da obra foi priorizar apenas o transporte rodoviário, ou seja, sem estrutura para metrô ou trem, seguindo o modelo que predominava no país desde os anos 1950.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Foi uma obra importante, mas com problema de desenho, porque não deu opção ferroviária. Hoje nós temos um problema gravíssimo de conexão do Rio para Niterói e São Gonçalo, um município dormitório (que a população deixa durante o dia para trabalhar), pobre e muito populoso&#8221;, analisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;E o mais pobres se deslocam como? Com sorte, com van. Se não, com ônibus apertados&#8221;, continua.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também crítico da ponte exclusivamente rodoviária, o historiador Pedro Campos atribui esse tipo de problema ao fato de a população não ter voz na ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Essas grandes obras não eram submetidas ao escrutínio popular para que as pessoas pudessem escolher se queriam um hospital ou uma estrada no meio da região Amazônica. Se queriam melhores escolas, ou maior hidrelétrica do mundo&#8221;, destaca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;São projetos feitos à revelia da população, (decididos) por pouquíssimos agentes, um círculo restrito a oficiais militares e grandes empresários, e marcados pela exploração intensa da força de trabalho&#8221;, acrescenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora se discuta a construção de um túnel de metrô submerso para ligar Rio e Niterói, não há qualquer previsão concreta para a obra. Outra questão controversa da ponte sem previsão de mudanças é seu nome.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já foram apresentados projetos de lei para alteração na Câmara dos Deputados, e o Ministério Público Federal pediu o mesmo à Justiça Federal do Rio de Janeiro em 2015, mas nenhuma iniciativa prosperou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ninguém a conhece pelo nome do general sei lá o quê. Eu fui chefe de projeto da Ponte Rio-Niterói. É perda de tempo (mudar o nome oficial)&#8221; avalia o engenheiro Ernani Diaz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O historiador Pedro Campos discorda. &#8220;Isso expressa bem a dificuldade que a gente tem de desenvolver uma política de memória que de fato avance no processo pedagógico de mostrar à população o que foi ditadura, os crimes bárbaros que foram cometidos naquela época&#8221;, crítica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Infelizmente, a ausência dessa política de memória é um terreno também fértil para o desenvolvimento de uma certa extrema-direita que vai ser saudosa da ditadura&#8221;, acredita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: BBC Brasil / ACERVO ECOPONTE</p>



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		<title>&#8216;Meus avós esconderam mistério sobre morte do meu pai na ditadura&#8217;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Mar 2024 17:17:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[avós]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[Dorival Mata]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em uma noite de setembro de 1990, Dorival Mata Machado assistia à televisão com os avós paternos quando foi transmitida uma notícia que mexeu com a família: a&#160;descoberta&#160;de uma&#160;vala clandestina&#160;no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, em&#160;São Paulo. A informação deu origem a um acontecimento que Dorival, na época com 18 anos, considera um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Em uma noite de setembro de 1990, Dorival Mata Machado assistia à televisão com os avós paternos quando foi transmitida uma notícia que mexeu com a família: a&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140328_comissao_verdade_ms">descoberta</a>&nbsp;de uma&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-61171113">vala clandestina</a>&nbsp;no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, em&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c2dwqdkxj8yt">São Paulo</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A informação deu origem a um acontecimento que Dorival, na época com 18 anos, considera um dos mais emblemáticos sobre a história que ele conhece do próprio pai, José Carlos da Mata Machado, que&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46496289">morreu</a>&nbsp;quando o filho tinha 1 ano de idade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante da notícia na televisão, os avós de Dorival, Yedda Novaes e Edgard de Godoi da Mata Machado, se entreolharam, cochicharam e disseram ao neto que deveriam checar se o pai dele não estava enterrado lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dorival se lembra que ficou surpreso com o comentário, por que durante anos acreditou que sabia onde o corpo do pai estava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Quase todo Dia de Finados na minha vida, até então, vocês me levam no cemitério da Colina [em Belo Horizonte] para ver uma lápide onde está escrito José Carlos da Mata Machado. Como assim? Meu pai não está lá?&#8221;, questionou Dorival.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pai dele havia sido uma das centenas de vítimas da ditadura militar brasileira, que teve início após o golpe entre 31 de março a 1º de abril de 1964.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foram 224 pessoas comprovadamente mortas e 210 desaparecidas, que os familiares não localizaram seus corpos até hoje, segundo a Comissão Nacional da Verdade (CNV), que entre 2012 e 2014 apurou os crimes da ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No ano em que o golpe faz 60 anos, histórias como a de Dorival e do pai dele ajudam a recontar o horror do passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A notícia no telejornal de 1990 fez o jovem perceber que os avós ainda tinham perguntas sem respostas sobre o próprio filho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dorival e outros parentes decidiram esclarecer se o pai dele realmente estava no cemitério de Belo Horizonte, cidade em que moravam. Para isso, entenderam que seria fundamental abrir pela primeira vez o caixão lacrado que havia sido entregue por militares à família.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A história de José da Mata Machado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">José Carlos da Mata Machado, mais conhecido como Zé Carlos, foi morto aos 27 anos, em outubro de 1973.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudante de direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Zé Carlos foi uma figura importante do movimento estudantil de Belo Horizonte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da UFMG e vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O gosto pela política veio de família. O pai de Zé Carlos, Edgard de Godoi da Mata Machado, foi deputado federal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contrário ao regime militar, Edgard teve o mandato cassado durante a ditadura, em 1968, com base no Ato Institucional Número Cinco (AI-5), que permitiu medidas antidemocráticas, como a cassação de parlamentares da oposição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele mesmo ano, em meio ao endurecimento do regime militar, Zé foi preso em um congresso da UNE em Ibiúna, no interior de São Paulo, e ficou detido por oito meses.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando deixou a prisão, Zé Carlos e a companheira de militância Maria Madalena Prata Soares se casaram. Em fevereiro de 1972, nasceu Dorival.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de um episódio de meningite do filho do casal e em meio à luta contra o regime militar, os pais decidiram deixar Dorival com os avós paternos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme os documentos da Comissão Nacional da Verdade, Zé Carlos passou a ser perseguido intensamente por órgãos de repressão a partir de março de 1973, em meio a uma operação contra um grupo de militantes de esquerda do qual ele fazia parte, intitulado Ação Popular Marxista Leninista (APML). No período, diversos integrantes desse coletivo foram presos ou mortos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zé e a esposa estavam organizando uma fuga para uma fazenda no interior de Minas Gerais. Antes, porém, ele foi a São Paulo para buscar apoio jurídico aos companheiros presos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na saída de São Paulo, ele foi preso por agentes do regime militar em 19 de outubro de 1973.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Posteriormente, segundo os documentos da CNV, ele foi encaminhado a Recife, onde dias depois foi morto sob tortura, junto com um outro militante, Gildo Lacerda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na época, o regime militar divulgou que os dois morreram em um tiroteio que teria sido provocado por outro colega de militância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A nota oficial dizia que os dois haviam sido mortos após um colega desconfiar que Zé e Gildo estariam traindo os membros da APML.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a versão era fantasiosa, conforme foi comprovado por advogados da família na época e, décadas depois, pela Comissão Nacional da Verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zé Carlos e Gildo foram mortos por agentes do Departamento de Operações de Informações &#8211; Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), a agência de repressão política subordinada ao Exército da época.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apurações independentes, reforçadas na CNV, apontaram que os dois foram presos em locais distintos – Zé Carlos em São Paulo e Gildo, em Salvador – e foram levados a Recife, onde foram mortos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os depoimentos de diversos ex-presos políticos confirmam que Zé Carlos e Gildo Lacerda foram vítimas de uma sessão de tortura no DOI-CODI de Recife.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um homem que estava preso no mesmo local, segundo a CNV, afirmou ter visto Zé Carlos sangrando pela boca e pelos ouvidos, pouco antes de morrer, ao lado de um militante que parecia já estar morto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem disse ter ouvido Zé Carlos, completamente machucado, pedindo: &#8220;Companheiro: meu nome é Mata Machado. Sou dirigente nacional da AP (Ação Popular). Estou morrendo. Se puder, avise aos companheiros que eu não abri nada&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quase 20 anos depois, o cunhado de Zé Carlos, Gilberto Prata Soares, que também era um militante de esquerda, declarou à Comissão Parlamentar Externa sobre Mortos e Desaparecidos Políticos que deu informações a militares, o que os levou a encontrar Zé Carlos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Os-restos-mortais-de-Zé-Carlos">Os restos mortais de Zé Carlos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Além da dor da perda do filho, os pais de Zé não sabiam onde o corpo dele estava. Não havia qualquer certidão de óbito que explicasse a morte do jovem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desesperados, os familiares dele pediram ajuda a Mércia Albuquerque, que hoje é considerada uma das mais atuantes advogadas de presos políticos da ditadura militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir da primeira conversa, a defensora começou uma busca que, posteriormente, classificaria como &#8220;uma das maiores barbaridades que testemunhei, praticadas pelo aparato brutal da repressão&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em dezembro de 2001, ao receber o título de cidadã de Natal e do Rio Grande do Norte, Mércia fez um discurso sobre a sua carreira e mencionou Zé Carlos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela contou que, após falar com familiares dele, vasculhou os cemitérios da região em busca do corpo do estudante, que o DOI-CODI não queria entregar à família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela percorreu alguns lugares quando uma pessoa disse que deveria fazer buscas no cemitério da Várzea. Ela seguiu para o local e um coveiro relatou que havia dois jovens enterrados em caixões de madeira sem tampa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;De posse das fotografias pude identificar, apesar do início da decomposição, o corpo barbarizado de José Carlos da Mata Machado&#8221;, relatou Mércia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A defensora descreveu ter ficado assustada com o estado do corpo do militante. Ela contou à família dele que Zé Carlos havia sofrido violência intensa, com diversas fraturas ósseas e que estava com a cabeça &#8220;espatifada&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O outro militante também enterrado como indigente era Gildo Macedo. Mas Mércia disse que os familiares dele estavam pressionados e atemorizados com a situação, por isso não pediram que fosse retirado dali – os restos mortais de Gildo nunca foram localizados e, até hoje, a família o busca para enterrá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para tentar liberar o corpo de Zé Carlos, Mércia disse ter ido ao Exército falar com um coronel, que criou diversos obstáculos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Mostrei-lhe as fotografias das covas. O coronel, com semblante de ódio, disse-me apenas que voltasse depois. Perguntei-lhe quando. Ele então fitou-me, impaciente, e disse: &#8216;É uma pena que a senhora, tão jovem, defenda terroristas'&#8221;, relatou Mércia em seu discurso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para convencer o coronel, ela disse ter respirado fundo e argumentado que enterrar os mortos seria um direito sagrado até mesmo na guerra, em que &#8220;os exércitos concedem sempre uma trégua, respeitando o inimigo, e entregando os corpos para sepultamento&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Zé Carlos está morto, e a família chora seu corpo. O Exército brasileiro agora quer torturar a família pelo resto da vida&#8221;, narrou Mércia, ao contar o que disse ao pedir a liberação do corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo ela, o coronel ficou &#8220;visivelmente abalado&#8221; diante das suas palavras e concordou, mas havia condições: não poderia ter aviso fúnebre, o caixão deveria permanecer lacrado e a imprensa deveria ficar longe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As condições foram aceitas, e o caixão seguiu em um avião de Recife, com autorização das Forças Armadas, em direção a Belo Horizonte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o episódio, Mércia disse ter sofrido represália. A advogada contou ter sido sequestrada por quatro homens em um carro em alta velocidade, que ameaçaram jogá-la na rua a qualquer momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, segundo ela, os homens a abandonaram em uma zona de prostituição em um bairro em Recife.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Fui socorrida por uma prostituta apelidada &#8216;Biscuí&#8217;, que surgiu à minha frente qual uma nova Maria Madalena, confortando-me e enxugando as minhas lágrimas&#8221;, narrou a advogada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A história de Mércia inspirou livros e, mais recentemente, uma peça de teatro intitulada&nbsp;<em>Lady Tempestade</em>, na qual a atriz Andréa Beltrão dá vida à advogada de vítimas da ditadura — há estimativas que apontam que ela tenha defendido mais de 500 pessoas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="O-mistério-do-caixão">O mistério do caixão</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quase duas décadas depois de o caixão chegar a Belo Horizonte, os pais de Zé Carlos ainda tinham dúvidas se o filho realmente estava ali.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles sabiam do esforço de Mércia, mas questionavam se realmente aquele caixão encaminhado pelo Exército, sob a condição de permanecer lacrado, carregava os restos mortais do filho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a perda de Zé Carlos foi um duro golpe do qual os pais nunca conseguiram se recuperar. Por isso, eles tentavam evitar mexer em tudo que fosse referente ao tema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Minha avó acordava à noite gritando e sonhava com o meu pai sendo morto. Acordei mais de uma vez com ela gritando: &#8216;não faz isso com ele, não!&#8217;. Meu avô não conseguia nem falar direito o nome do meu pai&#8221;, diz Dorival.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O receio sobre o caixão lacrado de Zé Carlos só foi manifestado pelos pais do militante pela primeira vez diante da notícia da descoberta da vala clandestina descoberta no início da década de 1990 no cemitério do bairro de Perus, em São Paulo, onde foram encontradas ossadas de algumas vítimas da ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Lembro que meus avós sempre assistiam a três telejornais seguidos, para ter opiniões diferentes&#8221;, conta Dorival.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;No primeiro daquele dia, falaram pouco sobre essa vala. No segundo, um pouco mais, e a minha avó disse: &#8216;o que a gente deveria fazer?&#8217;. O terceiro falou muito mais, e a minha avó falou sobre mandar a arcada dentária do meu pai para investigarem se ele estava enterrado lá.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dorival diz que foi um choque ter percebido que os avós nunca tiveram certeza se Zé Carlos realmente estava enterrado naquele caixão no cemitério mineiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Até então, eu entendia que por influência política e até religiosa, eles tinham certeza de que tinham conseguido recuperar o corpo&#8221;, explica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Como eu era pequeno na época que o caixão chegou, não sabia que havia chegado lacrado e nunca tinha sido aberto.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dorival sabia que mexer naquilo seria muito doloroso para os avós, mas também acreditava que seria importante esclarecer aquela dúvida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os parentes decidiram pedir a exumação do cadáver, com o principal objetivo de descobrir se Zé Carlos estava enterrado ali.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com dois tios e o dentista da família, Dorival foi ao cemitério da Colina no dia do procedimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Os coveiros tiraram a tampa de madeira do caixão, e havia embaixo uma tampa de alumínio. Era basicamente um caixão do Exército, tiraram o alumínio e, até o topo do caixão, era coberto de serragem&#8221;, descreve Dorival.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eles começaram a tirar a serragem e chegaram a falar: não tem nenhum corpo aqui. Foram segundos em que um mundo de coisas passou na minha cabeça: &#8216;será que o meu pai está vivo?'&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas os coveiros logo encontraram restos mortais no caixão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Foram tirando a serragem, encontrando os ossos. Pegaram o maxilar e a mandíbula. Minha tia logo reconheceu: é o seu pai. Entregaram a mandíbula ao dentista, que sempre cuidou da família, e ele reconheceu que era omeu pai&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dorival se deparou com o que define como um &#8220;momento muito importante para a compreensão do mundo e de tudo&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando acharam o crânio de Zé Carlos no caixão, o dentista da família encaixou as partes encontradas e viu as consequências da tortura sofrida pelo militante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ali, pudemos ter uma noção direta do que foi a violência nos porões da ditadura. Praticamente todos os ossos da cabeça do meu pai estavam quebrados, parte do crânio dele estava afundada até a direção dos dentes.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante dos seus olhos, Dorival entendeu as consequências do horror vivido pelo pai antes de morrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O caixão fechado tinha tudo a ver com aquela história falsa que contavam. Abrir o caixão no passado seria uma forma de confirmar que a versão dos militares para a morte do meu pai era mentira, porque não havia nenhum tiro, e ele tinha a cabeça amassada, sinais de tortura e estava com o couro cabeludo deslocado. Ele morreu apanhando.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Morreu-lutando-pelos-mais-vulneráveis">&#8216;Morreu lutando pelos mais vulneráveis&#8217;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Dorival diz que acompanhar a exumação do corpo do pai foi uma experiência dolorosa e que durante anos foi poupado pelos familiares dos detalhes mais escabrosos sobre a forma como Zé foi vítima da ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Criado pelos avós paternos e por uma tia, Dorival, hoje com 52 anos, ficou sabendo da história de vida de seus pais aos poucos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo desse tempo, o filho teve várias percepções sobre Zé Carlos, mas diz que sempre acreditou que o pai &#8220;morreu lutando pelos mais vulneráveis&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Desde que me conheço por gente, sabia que ele tinha morrido. Mas sempre entendi que ele morreu lutando pelos pobres, sem que tivessem pedido ou sei lá se queriam isso, mas ele estava preocupado com os mais vulneráveis&#8221;, diz Dorival.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até a adolescência, Dorival tinha o pai quase como um herói. Mas sua visão mudou após participar de uma festa para comemorar os 20 anos de formados da turma na qual o militante fez Direito, curso no qual não conseguiu se formar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Meu pai tinha pedido para meus avós se livrarem de todas as fotos dele, durante a perseguição militar. Então, nunca vi muitas imagens do meu pai. Foi nessa festa que vi várias fotos dele e vi o meu pai brincando com outras pessoas e dançando&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;“Foi meu primeiro choque, porque até então meu pai era um herói. Ali, eu vi que ele foi um jovem normal, como outro qualquer&#8221;, comenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os relatos que ouviu ao longo da vida mostraram a Dorival que o pai era conhecido por muitas pessoas como um jovem educado, organizado, com um discurso bem elaborado e muito ligado ao catolicismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Talvez isso incomodasse, por que os militares pensavam: como um menino tão religioso, educado e calmo pode ser contra a gente?&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zé Carlos se tornou um dos rostos das vítimas que ilustram o terror causado pela ditadura militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tornou-se nome de rua, foi tema de livro e terá a vida contada em um filme, intitulado&nbsp;<em>Zé</em>, produzido por Rafael Conde, que será lançado em agosto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar da repercussão de sua morte, foram mais de duas décadas para que ele fosse reconhecido oficialmente como uma vítima da ditadura militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso só ocorreu em janeiro de 1996, na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), criada para reconhecer os mortos e desaparecidos e auxiliar seus familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele mesmo ano, a mãe de Dorival, Maria Madalena, recebeu o atestado de óbito do companheiro e ficou aliviada. &#8220;Acabou o velório&#8221;, disse na época.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dali, ela não precisaria mais explicar que era viúva, porque tinha um documento oficial para comprovar isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Madalena foi indenizada pelo governo federal pelas torturas que ela e o marido sofreram ao longo do regime militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela e Dorival mantêm uma boa relação e se falam com frequência. Ele diz que o fato de ter sido criado pela família paterna não diminuiu o amor pela mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) disse em nota à reportagem que as indenizações aos familiares das vítimas ou às próprias vítimas da ditadura foram concedidas após análise da CEMDP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O MDHC afirma que possui uma área especializada em apoiar famílias de vítimas da ditadura militar, a Assessoria Especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa iniciativa, segundo a pasta, é responsável por &#8220;coordenar as ações de promoção e defesa do direito à memória e à verdade, proceder ao pagamento de indenizações decorrentes de decisões da CEMDP e gerenciar banco de dados de perfis genéticos de familiares de mortos e desaparecidos políticos, por exemplo.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda em nota, o ministério disse que atua até hoje para retomar ações de identificação de &#8220;remanescentes ósseos de vítimas da ditadura militar brasileira por meio de repasse de recursos e a celebração de acordos de cooperação técnica com instituições capacitadas na área&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Anistia">Anistia</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em meio às iniciativas governamentais para tentar algum tipo de reparação, Dorival critica a conduta do país em relação à memória de seus mortos na ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele diz que um dos grandes problemas é a Lei da Anistia, sancionada em 1979 pelo regime militar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa lei segue em vigor e foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2010 &#8211; o que significa que a grande maioria dos civis e militares envolvidos nos crimes durante o período não pôde ser julgada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso permitiu, por exemplo, que dissidentes pudessem voltar do exílio sem riscos de se tornarem presos políticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também fez com que agentes que atuaram nas torturas, sequestros ou assassinatos de opositores ao governo ficassem impunes de modo geral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa anistia costuma ser duramente criticada. A Comissão Nacional da Verdade apontou a lei é incompatível &#8220;com o direito brasileiro e a ordem jurídica internacional, pois tais ilícitos, dada a escala e a sistematicidade com que foram cometidos, constituem crimes contra a humanidade, imprescritíveis e não passíveis de anistia.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A CNV concluiu que mais de 300 pessoas, entre militares, agentes do Estado e presidentes durante a ditadura, deveriam ser responsabilizados juridicamente pelas ações ocorridas no período, sem qualquer possibilidade de anistia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Aparecida de Aquino, que há mais de 30 anos estuda sobre a ditadura, define a &#8220;anistia ampla, geral e irrestrita, para torturados e torturadores&#8221; como um erro que precisa ser reparado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Alguns dizem que essa foi a anistia possível, mas eu não comungo dessa ideia. Na prática, isso indica que os crimes não poderiam ser julgados na Justiça&#8221;, explica Aquino, que é professora de História da Universidade de São Paulo (USP).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Não houve uma ação geral contra os torturadores, alguns casos ficaram na dependência de familiares buscarem a reparação na Justiça contra os torturadores. Isso implica o futuro do país e a história que vai ser contada nos livros didáticos.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em razão dessa anistia, diz a especialista, muitas pessoas podem até mesmo questionar a ditadura militar brasileira e dizer que foi um bom período, como ocorreu nos últimos anos em diversos momentos em declarações de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquino aponta que há movimentos que até hoje tentam reverter essa lei para que os torturadores possam ser punidos de alguma forma, ainda que décadas depois.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem respostas sobre os responsáveis pela morte do pai, Dorival admite que a impunidade é um dos principais sentimentos que tem ao falar sobre a história de Zé Carlos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dorival se formou em Economia e, hoje, atua na área de pesquisas. Diz que nunca quis nenhum tipo de reparação financeira, mas sempre esperou mais esclarecimentos sobre o assassinato do pai.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Minha avó me dizia que não queria dinheiro, ela queria saber quem tinha matado o filho dela e o que levou aquelas pessoas a fazerem isso com ele. Ela queria saber por que quiseram matá-lo, em vez de mantê-lo preso ou expulsarem do país, como faziam na época&#8221;, diz Dorival.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os pais de Zé Carlos morreram sem nenhuma resposta sobre os responsáveis pela morte do filho. Ninguém nunca foi punido ou identificado pelo crime.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: BBC Brasil / CNV/ARQUIVO PESSOAL</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Associação de proteção dos animais de Ipirá" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/RHgFPsM6DQw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Vítimas de tortura na ditadura pedem memória e providências</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Araujo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Jun 2023 14:02:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
		<category><![CDATA[Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Vítimas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Dia Internacional de Apoio é celebrado nesta segunda-feira A campainha tocou no apartamento 31. O estudante paulistano Adriano Diogo, de 23 anos, estava cansado. Estudante de geologia na Universidade de São Paulo (USP), ele, naquele dia, estava extenuado depois de cruzar a cidade e chegado de mais uma jornada como professor de ciências em uma [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph"><em>Dia Internacional de Apoio é celebrado nesta segunda-feira</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A campainha tocou no apartamento 31. O estudante paulistano Adriano Diogo, de 23 anos, estava cansado. Estudante de geologia na Universidade de São Paulo (USP), ele, naquele dia, estava extenuado depois de cruzar a cidade e chegado de mais uma jornada como professor de ciências em uma escola secundarista. Andou até a porta. Ao abrir, encontrou o pesadelo. Ele não esperava o que aconteceria a partir&nbsp;daquele 17 de março de 1973. Histórias como a de Adriano têm mais um especial momento de reflexão e memória nesta segunda (26 de junho), Dia Internacional de Apoio às&nbsp;<strong>Vítimas de Tortura</strong>.<img decoding="async" src="https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.png?id=1540256&amp;o=node"><img decoding="async" src="https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.gif?id=1540256&amp;o=node"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo está nítido na memória de Adriano Diogo, hoje aos 74 anos de idade. “Primeiro, uma coronhada com o cabo da metralhadora no lado direito do olho”, lembrou em entrevista à&nbsp;<strong>Agência Brasil</strong>. Ele recorda que foi sendo arrastado aos gritos pela escada, por&nbsp;militares disfarçados. Haviam chegado em uma caminhonete com pintura falsa de um jornal da cidade. Saíram em um Opala verde. Adriano assustou-se com o ódio dos agentes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Nós vamos te matar, terrorista”. “Onde estão as armas?”. “Maldito”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Do apartamento na Mooca (zona leste de São Paulo), os militares levaram o universitário por 10 quilômetros, até o Complexo do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), na Vila Mariana, onde funcionava a Operação Bandeirante (Oban), um centro de repressão política que desembocou em um espaço de tortura e assassinatos durante a ditadura militar no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading">90 dias na solitária</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As diferentes violências que se seguiram àquele dia em que a campainha tocou, incluindo os 90 dias em uma solitária, depois 45 no prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Deops), e mais um ano e meio no Presídio do Hipódromo, deixaram marcas profundas no homem. Mas não deixaram&nbsp;jamais os ideais e o ativismo. “Embora eu fosse bem jovem, desde o dia em que saí da cadeia, há 50 anos, eu fazia o que faço hoje. Vou em cadeias, em espaços de internação de menores, em delegacia. Quando pessoas de movimentos sociais são presas, busco saber o que aconteceu”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daqueles dias de dores diversas, ele se lembra com detalhes dos momentos. Inclusive que um dos algozes e dos mais violentos era um tal de major Tibiriçá, codinome do chefe do DOI-CODI à época, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar a ser reconhecido como torturador pela Justiça brasileira no ano de 2008.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="720" height="90" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/4.jpg" alt="" class="wp-image-86855" srcset="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/4.jpg 720w, https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/4-300x38.jpg 300w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Foi Ustra quem recebeu Adriano Diogo no complexo da Operação Bandeirante. Além de comandar a violência física, o militar, em diferentes ocasiões, mostrava fotos de amigos e colegas assassinados e autopsiados em demonstrações de violência psicológica. “Conte o que você viu aos seus amigos na cela”, provocava.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adriano Diogo descobriu na cadeia a morte de um grande amigo, nos dias seguintes ao que chegou ao DOI/Codi&nbsp;o líder estudantil&nbsp; Alexandre Vannucchi Leme, aos 22 anos de idade, também estudante de geologia na USP. Para o amigo Adriano, Alexandre era o “Minhoca”, apelido dos tempos da faculdade. “Para tentar apagar as marcas de tortura contra o Minhoca, eles levaram o corpo para fora da Oban e simularam atropelamento com um caminhão”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ninguém acreditou na fraude. Tamanha foi a repercussão que o arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, organizou uma missa no dia 30 de março em memória do estudante. A repercussão foi grande. “O Ustra ficou muito nervoso. Levou todos os presos para o pátio e bateram na gente de todas as formas”, recorda Adriano Diogo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto Ustra esteve na chefia, durante 40 meses, houve 40 mortes. Além disso, chegou, em média, uma denúncia de tortura a cada 60 horas, segundo registrou a Comissão da Verdade. Outro momento marcante, em 1973, foi aquele em que Gilberto Gil cantou a música&nbsp;<em>Cálice</em>&nbsp;(composta em parceria com Chico Buarque) na USP, em primeira mão, para dezenas de estudantes. “Ele teve muita coragem realmente”, considera.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Retomar a vida</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de quase dois anos, Adriano Diogo saiu da cadeia. “Fui buscar o diploma lá na geologia e retomar a vida”. Ele fez carreira como geólogo e pesquisador. Foi deputado e até presidiu a&nbsp;<strong><a href="http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Comissão da Verdade na Assembleia Legislativa de São Paulo</a></strong>. Um problema, porém, foi que as recomendações do relatório ficaram apenas no papel. O relatório final foi entregue à sociedade em março de 2015. depois de três anos de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos capítulos é de “Mortos e Desaparecidos”, com 165 casos investigados, inclusive a&nbsp;do amigo Alexandre Vannucchi Leme .&nbsp;“Nós fizemos uma série de recomendações ao Estado brasileiro e não foram atendidas (<strong><a href="http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/parte-iii-cap6.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">confira aqui o relatório</a></strong>). Para você ter uma ideia, o Brasil é signatário do&nbsp;<strong><a href="https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/cooperacao-internacional/editais-2018-1/Edital12_ProtocolodeIstambul_PNUD16020.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Protocolo de Istambul de combate à&nbsp;tortura</a></strong>. Sabe quantos comitês de combate à tortura têm no Brasil, além&nbsp;<strong><a href="https://www.gov.br/participamaisbrasil/comite-nacional-de-prevencao-e-combate-a-tortura1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">do nacional</a></strong>? Só um (no Rio de Janeiro)”, lamenta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sexta (23), o atual governo reativou o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. Uma reunião marcada para o dia 21 de agosto, data que marca os dez anos da lei que criou esse sistema, vai estabelecer um plano de trabalho e de atuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Marcas registradas</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV)</strong> trouxe 29 recomendações e a maioria ficou também somente no papel, <strong>identificou um relatório do Instituto Wladimir Herzog.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><img decoding="async" src="https://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/all/modules/drupal/scald_file/icons/application_pdf.png" alt="file type icon">&nbsp;<a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/default/files/atoms/files/fortalecimento_da_democracia_2.pdf">Relatório do Instituto Vladimir Herzog</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Confira estudo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apenas duas recomendações foram atendidas pelo poder público, avaliou a entidade. A revogação da Lei de Segurança Nacional e a introdução da audiência de custódia, para prevenção da prática da tortura e de prisão ilegal, foram as exceções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a coordenadora do relatório, a historiadora Gabrielle Abreu, o sentimento das pessoas torturadas no Brasil, é mesmo esse de impunidade. “A violência e a impunidade, infelizmente, são marcas registradas no Brasil. Vimos ocorrer&nbsp;no período da escravidão, por exemplo, quando milhões de homens e mulheres negros foram escravizados”, afirmou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O relatório, segundo ela, tem a finalidade de estimular uma reflexão&nbsp;verdadeira e crítica sobre o que foi a ditadura e outros períodos de grave violação de direitos humanos. A busca por não deixar esquecidas essas histórias é fundamental, disse a historiadora. Além disso, há no entender dela, invisibilidade e apagamentos de torturas e mortes de diferentes grupos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, populações mais pobres submetidas aos desmandos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“Há história desconhecidas da ditadura, como nas favelas. É uma montanha de violações de direitos humanos que foram apagadas”.&nbsp;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Os dados do relatório mostram&nbsp;não somente ter havido recomendações da CNV não realizadas (total de 14), mas também retrocessos (sete). Esse é o caso da recocomendação da “criação de mecanismos de prevenção e combate à tortura”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Tortura aos 16 anos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Voltar ao passado, porém, é reconhecer histórias de violências inadmissíveis. No dia 16 de abril de 1971, Ivan Soares, com apenas 16 anos de idade, foi capturado junto com o pai, o operário Joaquim, e levado para as instalações do DOI-Codi, em São Paulo. Pai e filho participavam do Movimento Revolucionário Tiradentes. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“Eles nos torturaram durante dois dias seguidos. Eles mataram meu pai e eu continuei preso. Prenderam também a minha mãe (uma professora) e minhas irmãs. Elas foram espancadas, Uma delas foi estuprada”.&nbsp;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Menor de idade, Ivan ficou nas mãos da ditadura durante quase seis anos sem ser processado ou condenado. “Os militares anunciaram que ele tinha morrido em um suposto tiroteio com as forças de repressão”. Ivan era estudante do então ginásio. “A gente tinha a vida de trabalhadores pobres. Nasci numa favela em Porto Alegre onde não tinha nada. Não tinha água encanada, luz, ônibus,esgoto, escolas. Tudo era muito difícil”. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele explica que os moradores dessa comunidade de Vila Jardim&nbsp; lutavam por melhores condições de vida. “Desde que me entendi por gente eu vi as lutas das pessoas que são da classe trabalhadora, tentando sair da condição de ser pisado pelo sistema capitalista”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os últimos três anos de cadeia&nbsp;Ivan cumpriu em um presídio de segurança máxima, que foi a Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté. Ele era o único preso político e convivia com os presos e pacientes psiquiátricos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ivan saiu da prisão em agosto de 1976, disposto a recomeçar a vida. Mas as perseguições não cessaram. Uma vez por semana, ele precisava se apresentar na auditoria militar. “Eu era seguido todos os dias, 24 horas por dia. Eu ia estudar, trabalhar. Mas sempre com a presença dela, dessas figuras execráveis por perto&#8221;.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Eu descia do ônibus e tinha que caminhar a pé até a escola. Em um carro, eles passavam me xingando fazendo piadinha. Diziam para eu correr para eles treinarem tiro”. A tortura era também do lado de fora. “Desde o momento em que eu estava sendo torturado, tinha absoluta noção de que vivia um processo histórico, Eu me mantive pelo fator ideológico”. Hoje, ele mora na cidade de Foz do Iguaçu (PR). </p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, ele considera fundamental a aplicação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade. ”Nós revelamos os crimes da ditadura. E a gente vai continuar lutando”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: <strong>Agência Brasil</strong></p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/vitimas-de-tortura-na-ditadura-pedem-memoria-e-providencias/">Vítimas de tortura na ditadura pedem memória e providências</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>O caráter dos que lutaram contra a ditadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Apr 2023 12:37:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Urariano Mota Em trechos do seu romance “A mais longa duração da juventude”, Urariano Mota reflete sobre o caráter dos lutadores contra a ditadura brasileira. Eu estava refletindo há pouco e vi que o admirador reflete o seu caráter nas pessoas que ele admira. O caráter dos ídolos está no admirador. Ainda que este [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Por Urariano Mota</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em trechos do seu romance “A mais longa duração da juventude”, Urariano Mota reflete sobre o caráter dos lutadores contra a ditadura brasileira.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2022/12/Sem-nome-720-×-90-px-1.jpg" alt="" class="wp-image-70022" width="835" height="104"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estava refletindo há pouco e vi que o admirador reflete o seu caráter nas pessoas que ele admira. O caráter dos ídolos está no admirador. Ainda que este não realize os grandes feitos dos seus ídolos, essa admiração revela o homem que os admira. Assim, quem eleva Mussolini ao posto de grande homem, é fascista ou simpatizante de fascismo. Na sua admiração se revela. Quem admira Marx é uma pessoa comunista ou de esquerda ou democrata. E quem admira Machado de Assis<a href="https://vermelho.org.br/coluna/jose-carlos-ruy-e-seu-dicionario-machado-de-assis/">&nbsp;e seu dicionarista José Carlos Ruy, a</a>ssim como eles gostaria muito, se Deus fosse camarada, de fazer obra semelhante. E quem, numa escala miserável e medíocre, admira Bolsonaro, assim como o criminoso revela a própria ignorância e fascismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas reflexões me vêm a propósito do caráter dos lutadores contra a ditadura brasileira. E para não me alongar, destaco trechos do meu romance “A mais longa duração da juventude”, cujo título é uma promessa que espero ter, numa felicidade, quem sabe talvez, realizado. Aos trechos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Selene continua:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Mas o que são as dificuldades para a vitória do socialismo, companheiro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Fale baixo, companheira – Célio sussurra, entredentes, atrás.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Selene o encara, na iminência de lhe enviar um raio. Mas sufoca a fulminação, e sem lhe responder continua num tom menor:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– O que são nossas dificuldades frente ao heroísmo do vietcongue?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então eu, como um pequeno-burguês convertido ao novo evangelho, à pregação apaixonante da revolução pergunto já conquistado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– O que posso fazer?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Selene me olha e responde rápido:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Me pague uma sopa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Peço e pago uma. E mais uma cerveja para nós. Mas ao chamar o garçom, Célio intervém:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Eu troco minha cerveja por uma sopa. Pode ser?</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Claro, pode – e me digo: ‘foi-se embora meu cinema de sábado’.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao chegar a sopa, densa, de macarrão e carne, Selene a aplaude. O garçom sorri para a mocinha esfomeada. Ela também sorri para o garçom. Então, com a colher que vai ao prato e volta em brevíssimos intervalos de tempo, ela nos fala, deliciada:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Sem sopa não há revolução… &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então a advogada Gardênia anotará da entrevista com Vargas: ‘Ele era um tipo romântico, ingênuo’. O que isso queria dizer? Ali na sala está corporificado para ela: de braços abertos, Vargas protege a companheira e a filha. No diário da advogada: ‘eu conversei com ele que fugisse, ao que ele se negou dizendo que isso não faria, porque zelava pela segurança da filha e da esposa’. E Vargas, na defesa sem armas, na imaginada que pode dar às pessoas do seu extremado carinho, registra o diário da advogada: ‘Eu pedi que ele deixasse a criancinha sob meus cuidados. Ele me falou que não ia levar Nelinha para uma aventura, porque ela era uma pessoa frágil, e seria também assassinada. Aí era pior, porque a menina ficaria órfã, sem ninguém’.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto flagramos a pessoa, a coragem e terror de Vargas: a consciência de que será morto. Mas não só morto a tiro, de bala. Morto depois de intensa tortura e sofrimento. Aqui entra o ponto nevrálgico, ele sabe que não demora ser brutalizado, se continuar no Recife. Mas não deseja que a sua mulher o acompanhe, na hipótese de fuga ou adiamento da execução. Se ele é o condenado, por que atrair, dividir o inferno com quem ama?</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Fuja, fuja, Vargas. O momento de escapar é agora – fala a advogada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas ele, o homem ‘romântico ingênuo’, não quer. À distância podemos ver a lógica fria do heroísmo em lugar do romântico, penso. A advogada Gardênia lhe atribui a qualidade de romântico porque ele defende de modo absoluto a integridade física da companheira. Um caso de paixão de enamorado, talvez. E acrescenta o ingênuo, porque ele se nega a receber o oferecimento prático do mundo real, a saber: fugir, salvar-se, para depois em segurança avaliar o estrago que deixa. Mas não estamos preparados para ver a grandeza no instante em que ocorre. Ou melhor, só vemos o grande quando ele nos impacta de modo bárbaro. Por exemplo, Gregório Bezerra sendo espancado a golpes de ferro na cabeça pelas ruas do Recife. Na sua altiva resistência vemos. Mas não enxergamos que o heroísmo vem antes da tragédia. Na decisão que antecede o desfecho não vemos a grandeza. O próprio Vargas, naquela hora em que abre os braços no apartamento de Gardênia, nada vê de excepcional. Ele apenas age para defender pessoas do seu amor, age apenas por justiça. Não levará para a desgraça a companheira querida e sua Krupskaia. Não permitirá que corram riscos maiores que viver com um ‘terrorista’. E ameniza a própria bravura com uma fórmula prosaica:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Talvez eles nem me peguem agora. É tempo de eu vender livros pedidos pelas escolas. Com o dinheiro da comissão, eu fujo. Entendeu, doutora? Mas fique com os meus documentos. Se a situação apertar, já estão com a senhora</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aperta a mão da advogada e sai. Desce pelas escadas para melhor refletir, como se no tempo entre o quarto andar e o térreo houvesse um acréscimo de vida. E vem parando nos trechos intermediários, a retardar a sua hora, até alcançar a portaria e sair para a Rua Sete de Setembro. Agora, é o mundo real sem mais discussão filosófica. E o real são ele, Daniel e Fleury…….</p>



<p class="wp-block-paragraph">O horror das mortes em 1973 é o retrato do seu último instante físico. Não é justo resumir uma vida humana assim. Sobre um animal sentimos a brutalidade: ‘O novilho continuava lutando. A cabeça ficou pelada e vermelha, com veias brancas, e se manteve na posição em que os açougueiros a deixaram. A pele pendia dos dois lados. O novilho não parou de lutar. Depois, outro açougueiro o agarrou por uma pata, quebrou-a e cortou-a. A barriga e as pernas restantes ainda estremeciam. Cortaram também as patas restantes e as jogaram onde jogavam as patas dos novilhos de um dos proprietários. Depois arrastaram a rês para o guincho e lá a crucificaram; já não havia movimento’. Se essa infâmia narrada magistral por Tolstói nos fere quando pensamos no gado, o que diremos de pessoas no matadouro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Penso em Vargas e seu sacrifício, o heroísmo que ninguém notou. Morto como mais um boi, gado abatido qualquer. Se não lhe comemos a carne, comemos a sua grandeza, porque o defecamos em nova brutalidade. Onde está Vargas, onde buscar Vargas? Ele está na sala da advogada Gardênia, quando ela lhe propõe a fuga, que corra e suma antes de ser morto, e ele se nega porque Nelinha era muito frágil? Ele está no ônibus, quando luta febril ao vislumbrar a sua última hora, da qual possui a certeza, e para ela caminha ainda assim? ‘Nelinha está salva’, ele se fala. ‘Ela continuará a viver. Ela e a minha filhinha continuam. Venham, malditos’. E nisso, ao expressar também a crueza do seu isolamento, pois não estava ‘organizado’, sem vínculo direto com organização clandestina, onde buscar o terrorista Vargas? Desta maneira ele ficou adiante, conforme o viu a advogada Gardênia:</p>



<p class="wp-block-paragraph">‘Vargas, que eu conhecia muito, estava também numa mesa, estava com uma zorba azul-clara, e tinha uma perfuração de bala na testa e outra no peito. E uma mancha profunda no pescoço, de um lado só, como se fosse corda, e com os olhos abertos e a língua fora da boca’. Vargas teria sido puxado por corda para o matadouro? Aos bois partem o rabo, rompem a cartilagem, para assim ele arremeter para o lugar onde o sangram. A homens arrastam? Nos laudos da ditadura, não há uma narração da dor. Mentirosos, chegam a ocultar a causa mortis, ao esconder lesões, ao eufemizar a barbárie. Tudo que falam é uma adaptação do cadáver à fraude da repressão política. É nessas circunstâncias que cresce o valor do depoimento da advogada, que testemunhou e preencheu as lacunas, o vácuo dos laudos tanatoscópicos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">‘Soledad estava com os olhos muito abertos, com expressão muito grande de terror. A boca estava entreaberta e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão que ela foi morta e ficou algum tempo deitada e a trouxeram, e o sangue quando coagulou ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. E o feto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali, ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror’.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Portal Vermelho.org</p>



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<iframe title="&quot;Dois dedos de prosa sobre os crimes de peculato e descaminho no caso envolvendo&quot;as jóias da coroa&quot;" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/Twa_VdSdIfI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Ditadura militar de Mianmar executa 4 ativistas pró-democracia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Araujo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jul 2022 13:48:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[Miamar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; O regime militar de Mianmar afirmou nesta segunda (25) ter executado quatro ativistas pró-democracia condenados por ajudar forças de resistência do país em julgamentos questionados internacionalmente. Os quatro homens foram condenados à pena de morte entre janeiro e abril, e não foi detalhado quando ou como morreram. A Associação de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph"><strong>S</strong>ÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; O regime militar de Mianmar afirmou nesta segunda (25) ter executado quatro ativistas pró-democracia condenados por ajudar forças de resistência do país em julgamentos questionados internacionalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os quatro homens foram condenados à pena de morte entre janeiro e abril, e não foi detalhado quando ou como morreram. A Associação de Assistência a Presos Políticos (AAPP) afirma que se tratam das primeiras execuções judiciais no país desde o final da década de 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os mortos pela junta militar, que tomou o poder em um golpe de Estado em fevereiro de 2021, está Phyo Zeya Thaw, 41, ex-deputado pelo partido Liga Nacional pela Democracia (LND), ao qual também pertence a líder civil Aung San Suu Kyi, presa pelos militares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também morreram Kyaw Min Yu, 53, Hla Myo Aung e Aung Thura Zaw. &#8220;Essas execuções equivalem à privação arbitrária de vidas e são outro exemplo do histórico cruel contra direitos humanos de Mianmar&#8221;, disse Erwin Van Der Borght, diretor regional da Anistia Internacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Organizações pressionam a comunidade internacional por respostas, em especial para impedir que mais execuções ocorram. Números da AAPP mostra que, desde a tomada de poder pelos militares, 76 presos foram condenados à pena de morte e outras 41 pessoas que estão foragidas também, totalizando 117 condenados a execução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Thazin Nyunt Aung, esposa de Phyo Zeyar Thaw, disse à agência Reuters que não foi informada sobre a execução de seu marido. Os homens foram detidos na prisão de Insein, da época colonial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos os homens foram acusados de crimes ligados à nova legislação antiterrorismo do país. Phyo e Kyaw –este conhecido como Jimmy e opositor do Exército desde a adolescência– foram acusados de ter orquestrado ataques contra a junta. Já os outros dois homens foram acusados de executar uma suposta informante dos militares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Especialistas da ONU, em recente relatório, afirmaram que a lei marcial imposta em Mianmar conferiu aos militares a possibilidade de decretar pena de morte para 23 tipos de crimes que seriam vagos e reprimiriam qualquer crítica ao poder vigente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O chanceler do Japão, Yoshimasa Hayashi, disse que as mortes vão contra os reiterados pedidos por resolução pacífica do conflito e liberação dos detidos e que isolam ainda mais Mianmar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Embaixada dos EUA também condenou as execuções de líderes pró-democracia. A China, por sua vez, pediu, por meio do porta-voz da chancelaria, que &#8220;todas as partes resolvam os conflitos dentro da estrutura constitucional&#8221; e alegou que prioriza o princípio de não interferência nos assuntos domésticos de outros países.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: <strong>Notícias ao Minuto</strong></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="1024" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2022/06/WhatsApp-Image-2022-06-15-at-10.41.14-1024x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-53290"/></figure><p>The post <a href="https://ipiracity.com/ditadura-militar-de-mianmar-executa-4-ativistas-pro-democracia/">Ditadura militar de Mianmar executa 4 ativistas pró-democracia</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Manifestantes contrários a golpe militar são mortos a tiros no Sudão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Araujo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Nov 2021 18:54:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[Sudão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ao menos dez manifestantes que protestavam contra o golpe militar no Sudão foram mortos a tiros por forças de segurança nesta quarta-feira (17), segundo um sindicato de médicos. Dezenas ficaram feridos. A repressão é ainda mais letal que a de sábado (13), quando oito pessoas foram mortas e mais de 200 ficaram feridas em uma outra manifestação no país, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Ao menos dez manifestantes que protestavam contra o golpe militar no Sudão foram mortos a tiros por forças de segurança nesta quarta-feira (17), segundo um sindicato de médicos. Dezenas ficaram feridos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A repressão é ainda mais letal que a de sábado (13), quando oito pessoas foram mortas e mais de 200 ficaram feridas em uma outra manifestação no país, que é o terceiro maior da África em extensão territorial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A população tem ido às ruas para protestar contra o golpe militar de 25 de outubro, em que o general que comandava a transição de governo prendeu o premiê interino do país e outros políticos e decretou estado de emergência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com slogans como &#8220;o povo escolhe os civis&#8221; e &#8220;não ao poder militar&#8221;, milhares de pessoas protestaram nesta quarta nas ruas de Cartum, a capital do Sudão, e das cidades vizinhas de Bahri e Omdurman.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As manifestações ocorrem apesar do bloqueio das redes de telefonia e da internet e desafiam a repressão, que já deixou ao menos 24 mortos segundo a agência de notícias Reuters.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O golpe militar</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Militares deram um golpe de Estado há quase um mês no Sudão, o terceiro maior país da África em extensão, e tomaram o poder após prender o primeiro-ministro interino, Abdallah Hamdok, ministros e outras autoridades civis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O general Abdel Fattah al-Burhan, que chefiava o conselho que supervisionava a transição para uma democracia, fez um pronunciamento oficial na TV, anunciou estado de emergência no país e dissolveu o próprio conselho e o governo de transição, que era comandado por Hamdok.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Conselho Soberano foi criado há dois anos, após a saída de Omar al-Bashir (ditador que caiu em meio a protestos depois de governar por três décadas). Ele era formado por civis e militares que frequentemente discordavam sobre o futuro do país e o ritmo da transição para a democracia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As prisões, o estado de emergência e a dissolução do conselho ocorreram perto da data em que o general Abdel-Fattah Burhan teria de entregar a liderança do Conselho Soberano a um civil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: <strong>g1/Foto: Mohamed Nureldin/Reuters</strong></p>



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