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	<title>Hanseniase |</title>
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	<title>Hanseniase |</title>
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		<title>Por que Brasil é o segundo país com mais casos de hanseníase no mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jun 2023 19:24:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Ciências]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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		<category><![CDATA[Hanseniase]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O dermatologista Marco Andrey Cipriani Frade trabalha com pacientes de hanseníase e estuda a doença há mais de 25 anos. Ele é professor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, no interior paulista, e atualmente preside a Sociedade Brasileira de Hansenologia. Em meados de 2008, ao voltar de um pós-doutorado na Holanda, o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li><strong>André Biernath</strong></li>



<li>Role,<strong>Da BBC News Brasil em Londres</strong></li>



<li><a href="https://twitter.com/andre_biernath">Twitter,<strong>@andre_biernath</strong></a></li>



<li>2 de junho de 2023</li>
</ul>



<p>O dermatologista Marco Andrey Cipriani Frade trabalha com pacientes de hanseníase e estuda a doença há mais de 25 anos.</p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" data-id="70022" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2022/12/Sem-nome-720-×-90-px-1.jpg" alt="" class="wp-image-70022"/></figure>
</figure>



<p>Ele é professor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, no interior paulista, e atualmente preside a Sociedade Brasileira de Hansenologia.</p>



<p>Em meados de 2008, ao voltar de um pós-doutorado na Holanda, o especialista sentiu algo estranho. Dois dedos do pé começaram a formigar enquanto ele caminhava numa praia. Pouco depois, uma região da coxa perdeu pelos e ficou dormente.</p>



<p>&#8220;Como eu não queria me autodiagnosticar, procurei dois colegas e relatei essa perda de sensibilidade. Eles disseram que provavelmente não era nada demais, apenas &#8216;coisa da minha cabeça'&#8221;, relata.</p>



<p>Os exames laboratoriais que o médico fez também não permitiram nenhuma conclusão definitiva.</p>



<p>Não satisfeito, Frade foi conversar com sua chefe na universidade. &#8220;Ela examinou, disse que aquilo era hanseníase e precisava ser tratado&#8221;, diz.</p>



<p>A história do dermatologista, ele próprio um dos principais especialistas no tema do país, reflete uma realidade pouco divulgada. O Brasil ainda é o segundo país do mundo com mais casos de hanseníase — só fica atrás da Índia.</p>



<p>Para piorar, dificuldades para reconhecer os sintomas mais frequentes desta doença e a falta de conscientização sobre o tema dificultam o diagnóstico precoce de uma condição para a qual há tratamento e cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Uma-doença-milenar">Uma doença milenar</h2>



<p>A hanseníase é descrita em tratados de Medicina da Índia do século 6 a.C. Ela também aparece em diversas passagens do Novo Testamento da Bíblia, ainda com o nome pelo qual era conhecida no passado: lepra.</p>



<p>No Evangelho de Marcos, por exemplo, há uma passagem em que um &#8220;leproso&#8221; se aproxima de Jesus Cristo e pede para ser curado.</p>



<p>&#8220;E Jesus, movido de compaixão, estendeu a mão, tocou-o [&#8230;] Logo a lepra desapareceu e [ele] ficou limpo&#8221;, diz o texto.</p>



<p>Na Europa durante a Idade Média, indivíduos com a doença eram expulsos das cidades e obrigados a andar com um sino para anunciar a passagem.</p>



<p>Muitos eram internados nos &#8220;leprosários&#8221; ou &#8220;lazaretos&#8221;, instituições que continuaram (e continuam) a existir em muitos lugares — inclusive no Brasil.</p>



<p>Em suma, a hanseníase é causada pela bactéria&nbsp;<em>Mycobacterium leprae</em>. Ela é transmitida por meio de gotículas de saliva e do contato próximo e frequente com um indivíduo infectado.</p>



<p>Esse micro-organismo tem uma preferência pelos lugares mais frios do corpo — como cotovelos, joelhos, pés e lóbulos da orelha —, onde há uma menor circulação de sangue.</p>



<p>Ele costuma se esconder nos nervos periféricos, que ficam logo abaixo da pele, e podem permanecer ali por anos ou décadas antes de manifestar qualquer sintoma.</p>



<p>&#8220;Cerca de 90% da população consegue se defender bem do patógeno. Mas há 10% que, por uma questão de imunidade, vão desenvolver a doença&#8221;, estima o médico Egon Daxbacher, coordenador do Departamento de Hanseníase da Sociedade Brasileira de Dermatologia.</p>



<p>O nome hanseníase, aliás, faz referência ao cientista norueguês Gerhard Hansen, que descobriu o patógeno e o identificou como o causador da moléstia no século 19.</p>



<p>Outra característica marcante da&nbsp;<em>Mycobacterium leprae</em>&nbsp;é o tempo que ela leva para se reproduzir: enquanto outras bactérias geram descendentes em 12 ou 24 horas, essa espécie tem uma replicação lenta, que demora até 15 dias.</p>



<p>Essa morosidade ajuda a entender uma das características mais marcantes da enfermidade: os anos ou as décadas que ela demora a se manifestar e provocar os efeitos mais graves no organismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Uma-ameaça-mais-real-do-que-se-imagina">Uma ameaça mais real do que se imagina</h2>



<p>Embora essa doença pareça uma lembrança que ficou no passado, as estatísticas mostram uma realidade completamente distinta: o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde,&nbsp;<a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2023/boletim-epidemiologico-volume-54-no-07/view">publicado em 11 de maio</a>, revela que 18.318 brasileiros foram diagnosticados com hanseníase em 2021.</p>



<p>Isso representa 13% de todos os casos registrados no mundo — segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), foram 140.594 pacientes detectados com o&nbsp;<em>Mycobacterium leprae</em>&nbsp;em todo o planeta naquele ano.</p>



<p>No documento, o Ministério da Saúde faz uma análise das notificações de hanseníase no país entre 2010 e 2021.</p>



<p>A boa notícia é que a taxa de novos casos está em queda: na maioria dos Estados, esse índice diminuiu. A doença só continua a ser considerada &#8220;hiperendêmica&#8221; (quando há mais de 10 casos por 100 mil habitantes) em Tocantins e Mato Grosso.</p>



<p>Ela também está &#8220;muito alta&#8221; (5 a 9,99 casos por 100 mil habitantes) no Maranhão e no Piauí.</p>



<p>Para completar, oito Estados têm uma taxa &#8220;alta&#8221; (2,5 a 4,99 casos) nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.</p>



<p>Daxbacher indica que a queda maior observada nos últimos dois ou três anos não deve ser encarada com tanto otimismo. &#8220;Eu gostaria muito que isso indicasse uma melhora da situação, mas certamente há um efeito da pandemia de covid-19 na diminuição dos diagnósticos da hanseníase&#8221;, avalia.</p>



<p>Ou seja: como falamos de uma doença de progressão lenta, a tendência é que as estatísticas também se modifiquem pouco a pouco.</p>



<p>Na visão do dermatologista, grandes mudanças epidemiológicas num espaço tão curto de tempo refletem mais a urgência relacionada ao coronavírus, que exigiu um desvio em esforços e recursos de todo o setor de saúde.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/75c6/live/a9913f20-f648-11ed-92cc-b3a9bf1f67e9.jpg" alt="Mapa da hanseníase no Brasil, 2010 e 2021"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Os mapas mostram a mudança no cenário epidemiológico da hanseníase no Brasil entre 2010 e 2021</figcaption></figure>
</div>


<h2 class="wp-block-heading" id="Uma-realidade-esquecida-">Uma realidade esquecida</h2>



<p>Frade faz outra ponderação a respeito desses números recém-divulgados.</p>



<p>Ele lembra que, no início dos anos 2000, a OMS lançou uma estratégia para diminuir a hanseníase em todo o globo — a meta era ter menos de um caso por dez mil habitantes e, assim, tirar a doença da lista dos principais problemas de saúde pública.</p>



<p>&#8220;E isso de fato ocorreu em boa parte do mundo. Mas o Brasil não alcançou esse objetivo&#8221;, destaca o dermatologista.</p>



<p>&#8220;Porém, com a meta global atingida, as campanhas de busca ativa de novos casos deixaram de ocorrer e as próprias Faculdades de Medicina passaram a não falar mais sobre a hanseníase com os novos alunos&#8221;, lembra ele.</p>



<p>Esse alívio das medidas até fazia sentido do ponto vista internacional — porém, no caso particular do Brasil e das outras nações que ficaram pelo caminho e não tiveram a diminuição esperada, a hanseníase perdeu a atenção que vinha recebendo.</p>



<p>E isso, por sua vez, fez com que os casos e as transmissões continuassem a acontecer na surdina, sem o devido cuidado das instituições de saúde regionais, nacionais e internacionais.</p>



<p>&#8220;O dado que aparece nos boletins epidemiológicos é nada mais, nada menos, que a representação da realidade. A questão é que os profissionais formados hoje em dia sabem pouco sobre quando suspeitar de hanseníase&#8221;, opina Frade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Por-que-o-Brasil">Por que o Brasil?</h2>



<p>Mas o que faz do nosso país um dos líderes do ranking global de hanseníase até hoje?</p>



<p>Daxbacher explica que a doença está muito relacionada à pobreza e aos locais onde várias pessoas dividem a mesma casa.</p>



<p>&#8220;Índia, Brasil e Indonésia são países muito populosos e com grandes aglomerados urbanos, onde mora boa parte da população&#8221;, contextualiza.</p>



<p>O dermatologista lembra que a bactéria causadora da enfermidade é transmitida por meio da respiração e depende do contato constante.</p>



<p>&#8220;As pessoas mais acometidas ficam muito próximas umas das outras e moram em casas com poucos cômodos e baixa ventilação. Essa ainda é a realidade de parte da população brasileira e desses outros países&#8221;, complementa.</p>



<p>E isso, claro, se alia ao fato de a hanseníase ser uma doença que recebe menos atenção das políticas públicas.</p>



<p>Sem diagnóstico e tratamento, os infectados seguem transmitindo a bactéria por muitos anos — o que perpetua as cadeias de transmissão dela na comunidade.</p>



<p>Mas Frade lembra que a moléstia pode acometer gente de qualquer classe social. Segundo ele, a hanseníase está de fato vinculada à pobreza, mas ela não é exclusiva dos menos favorecidos.</p>



<p>&#8220;Nós temos muitos pacientes de classe média ou alta que passam por inúmeras ressonâncias magnéticas ou ultrassonografias e demoram décadas para ter um diagnóstico adequado&#8221;, destaca.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/a29f/live/18209f30-f649-11ed-92cc-b3a9bf1f67e9.jpg" alt="Ilustração do século 13 retrata indivíduos com hanseníase"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Ilustração do século 13 retrata indivíduos com hanseníase</figcaption></figure>
</div>


<h2 class="wp-block-heading" id="Sintomas-além-da-pele">Sintomas além da pele</h2>



<p>Frade também chama a atenção para o fato de os sintomas da hanseníase serem mais amplos do que é conhecido pelo imaginário popular — em linhas gerais, as pessoas pensam que ela só provoca lesões deformadoras de pele.</p>



<p>&#8220;Precisamos lembrar das manifestações neurológicas dessa doença&#8221;, diz o professor da USP de Ribeirão Preto.</p>



<p>Ele ainda estima que as lesões de pele clássicas aparecem em menos de 30% dos casos mais recentes.</p>



<p>&#8220;As pessoas sofrem por muito tempo com outros sintomas neurológicos e há uma dificuldade enorme em reconhecê-los como um sinal de suspeita&#8221;, lamenta ele.</p>



<p>Os outros incômodos relacionados à hanseníase que vão além da pele incluem dormência e formigamentos de partes específicas do corpo (especialmente mãos, braços, pés, pernas e rosto), perda de sensibilidade de trechos da pele, cãibras e dores.</p>



<p>E todas essas pistas da infecção têm repercussões práticas na qualidade de vida e na saúde dos acometidos.</p>



<p>&#8220;É a dona de casa que encosta na panela quente e não sente nada. Ela só vai perceber a bolha na pele depois, enquanto toma banho. Ou o mecânico que não consegue mais rosquear um parafuso com a ponta dos dedos&#8221;, exemplifica Frade.</p>



<p>Com o passar do tempo — e a destruição dos nervos pela&nbsp;<em>Mycobacterium leprae&nbsp;</em>—, ocorre a perda de movimentos, deformações e outras complicações secundárias.</p>



<p>&#8220;Há pacientes que calçam um sapato com uma pedra dentro e nem se dão conta. Eles só vão perceber algo de errado quando veem a meia cheia de sangue no fim do dia&#8221;, lembra.</p>



<p>&#8220;Fora que essas lesões despercebidas elevam o risco de outras infecções, que às vezes necessitam até de amputação&#8221;, acrescenta o médico.</p>



<p>O dermatologista destaca que, nas definições oficiais da OMS, o diagnóstico da hanseníase é feito a partir de um trio de manifestações:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Lesões em áreas da pele com alteração da sensibilidade térmica, dolorosa e/ou tátil;</li>



<li>Espessamento de nervos periféricos, associado a alterações sensitivas, motoras e/ou autonômicas;</li>



<li>Presença de bacilos do&nbsp;<em>Mycobacterium leprae&nbsp;</em>em exames.</li>
</ul>



<p>&#8220;Se há um desses três fatores, mesmo que o teste dê negativo, é necessário pensar em hanseníase&#8221;, esclarece Frade.</p>



<p>Daxbacher pondera que o xis da questão está na detecção precoce. &#8220;Se realizarmos o diagnóstico nos primeiros estágios, o paciente pode apresentar apenas queixas neurológicas sem manifestações na pele&#8221;, diz.</p>



<p>&#8220;Portanto, é importante procurar o serviço de saúde para uma avaliação se você estiver com dormência persistente em partes do corpo ou o aparecimento de manchas na pele, especialmente aquelas que não ardem, não coçam e não doem&#8221;, orienta.</p>



<p>Esses sintomas podem ser várias coisas — de diabetes à hérnia de disco, de micose à dermatite. Mas também sugerem o início de uma hanseníase.</p>



<p>Feito o diagnóstico, o tratamento é relativamente simples e está disponível a todos os brasileiros no Sistema Único de Saúde (SUS). A depender do estágio e do grau de acometimento, o médico vai prescrever dois ou três antibióticos, que são tomados por seis a doze meses.</p>



<p>Esse esquema terapêutico tem poder curativo — mas pacientes que já tiveram lesões profundas em nervos muitas vezes não recuperam 100% dos movimentos ou da função de pés, mãos e outras partes do corpo, infelizmente.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/8f74/live/e1573360-f648-11ed-92cc-b3a9bf1f67e9.jpg" alt="Pés de pessoa com hanseníase"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,Ainda há muitos casos de hanseníase sem diagnóstico no Brasil, apontam especialistas</figcaption></figure>
</div>


<h2 class="wp-block-heading" id="Como-diminuir-os-casos">Como diminuir os casos</h2>



<p>Daxbacher destaca que, nos últimos meses, o Ministério da Saúde atualizou a estratégia para lidar com a hanseníase.</p>



<p>&#8220;Uma novidade que já está em curso em vários Estados é a implantação de um teste rápido que permitirá acompanhar os familiares de indivíduos que foram diagnosticados com a doença&#8221;, resume.</p>



<p>&#8220;A ideia é seguir mais de perto essas pessoas ao longo dos anos para conferir se elas se infectaram. A partir daí, é possível fazer a detecção mais precoce e iniciar o tratamento&#8221;, complementa.</p>



<p>A esperança é que esse rastreamento de contatos permita flagrar os casos nos estágios iniciais e impedir a criação de novas cadeias de transmissão do&nbsp;<em>Mycobacterium leprae</em>&nbsp;na comunidade — para, futuramente, ter taxas cada vez menores dessa enfermidade no país.</p>



<p>Para Frade, a hanseníase deixará de ser um problema de saúde pública no Brasil quando médicos, enfermeiros e outros especialistas estiverem melhor treinados sobre o problema.</p>



<p>&#8220;É necessário formar e capacitar profissionais de saúde para que eles não tenham preconceitos e sejam capazes de reconhecer os três sinais cardinais da hanseníase&#8221;, conclui ele.</p>



<p>Fonte: BBC Brasil</p>



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		<title>Hanseníase: a doença antiga que a ciência não consegue eliminar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Feb 2023 03:00:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Ciências]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um dos únicos vetores conhecidos da bactéria Mycobacterium leprae &#8211; o bacilo de Hansen, que causa a hanseníase &#8211; na natureza é um mamífero que mais parece um rato grande com um longo focinho, vestido em uma armadura de couro: o tatu-galinha. Nativo da América do Sul, este animal se alimenta de insetos e agora também pode [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li>Kamala Thiagarajan</li>



<li>BBC Future</li>



<li>Quarta, 1 de fevereiro de 2023</li>
</ul>



<p><strong>Um dos únicos vetores conhecidos da bactéria </strong><em><strong>Mycobacterium leprae</strong></em><strong> &#8211; o bacilo de Hansen, que causa a hanseníase &#8211; na natureza é um mamífero que mais parece um rato grande com um longo focinho, vestido em uma armadura de couro: o tatu-galinha.</strong></p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" data-id="70023" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2022/12/Sem-nome-720-×-90-px.jpg" alt="" class="wp-image-70023"/></figure>
</figure>



<p>Nativo da América do Sul, este animal se alimenta de insetos e agora também pode ser encontrado em toda a América Central e no sul da América do Norte.</p>



<p>O Brasil, a Índia e a Indonésia representam a maior parte dos 200 mil novos casos de hanseníase verificados todos os anos. E, no Brasil, os tatus são caçados para comer.</p>



<p>Pesquisadores concluíram em um estudo que 62% dos tatus mortos por caçadores estavam infectados com M. leprae. E pesquisas similares nos Estados Unidos &#8211; onde 150-250 novos casos em seres humanos são relatados todos os anos &#8211; concluíram que 20% dos animais daquele país são portadores da bactéria.</p>



<p>Mas a culpa pode não ser do tatu. Acredita-se que os seres humanos possam ter transmitido originalmente a doença para esses animais, quando os europeus a trouxeram para o Brasil, cerca de 500 anos atrás.</p>



<p>Cientistas também encontraram recentemente a bactéria em esquilos-vermelhos no Reino Unido. Mas, apesar das extensas pesquisas, nenhum outro portador animal foi encontrado até agora.</p>



<p>Houve até sugestões de que os esquilos-vermelhos poderiam ter sido responsáveis por espalhar a doença na Europa medieval. Mas podem existir outros abrigos naturais para a bactéria, que já foi descoberta sobrevivendo até no solo, segundo amostras analisadas no Reino Unido, Índia e Bangladesh.</p>



<p>A hanseníase é uma doença infecciosa crônica, que ataca a pele, os nervos e as membranas mucosas. Ela gera manchas brancas no corpo, dormência, fraqueza muscular e paralisia.</p>



<p>Mas, apesar das suas consequências devastadoras e do registro de casos possivelmente desde o ano 1400 a.C., essa doença antiga permanece até hoje, em grande parte, um mistério.</p>



<p>Ninguém sabe com surgiu a hanseníase, nem por que algumas partes do mundo são mais afetadas do que outras. Os cientistas também não sabem ao certo como ela é transmitida &#8211; e ainda não existe uma forma fácil de diagnosticar uma pessoa.</p>



<p>Por que a hanseníase é um problema tão difícil de resolver? E o que podemos fazer a respeito?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Perda-de-pacientes">Perda de pacientes</h2>



<p>&#8220;É uma doença muito complexa e, em grande parte, a hanseníase segue sendo um quebra-cabeça intrigante, até hoje&#8221;, afirma Gangadhar Sunkara, cientista especializado em desenvolvimento de drogas e chefe do programa global da companhia farmacêutica Novartis.</p>



<p>Apesar dos avanços significativos para conter a doença, até três milhões de pessoas em todo o mundo ainda vivem com hanseníase e, em média, 200 mil novos casos são diagnosticados todos os anos, segundo as estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS).</p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" data-id="70022" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2022/12/Sem-nome-720-×-90-px-1.jpg" alt="" class="wp-image-70022"/></figure>
</figure>



<p>Mas, em 2020, esse número caiu para 128 mil casos, segundo Cairns Smith, professor emérito de saúde pública da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, e ex-diretor da organização Leprosy Mission.</p>



<p>Ao longo de dois anos, cerca de 140 mil casos deixaram de ser detectados, segundo os dados da OMS. Acredita-se que esta omissão tenha sido causada, em grande parte, pelas dificuldades impostas pela pandemia de covid-19 aos sistemas de saúde de todo o mundo.</p>



<p>&#8220;Eles não foram diagnosticados, nem tratados, e estão em sério risco de desenvolver incapacidades&#8221;, afirma Smith.</p>



<p>São particularmente preocupantes os números de crianças que não foram diagnosticadas devido às dificuldades impostas pela pandemia. Pelo menos 15 mil dos novos casos detectados anualmente em todo o mundo são de crianças.</p>



<p>Ser infectado com a doença na infância significaria evitar incapacidades duradouras. &#8220;Mas esses números [de crianças que recebem diagnóstico] caíram para 8 mil a 9 mil casos&#8221;, segundo Smith. &#8220;Isso significa que existem muitas crianças que estão em risco de desenvolver a doença.&#8221;</p>



<p>&#8220;Alguns países estão mostrando recuperação, mas ainda existe baixa detecção de casos em países como Mianmar, Sri Lanka e Filipinas&#8221;, prossegue ele. &#8220;Atualmente, estamos realmente enfrentando um desafio urgente.&#8221;</p>



<p>O mundo fez grandes avanços no tratamento da hanseníase nas últimas quatro décadas, especialmente com a introdução da terapia com múltiplas drogas pela OMS, para tratar a hanseníase multibacilar em 1982. A hanseníase multibacilar é uma forma mais avançada da doença, frequentemente caracterizada por lesões da pele e incapacidade.</p>



<p>Um tratamento novo é a terapia com múltiplas drogas, uma combinação de três comprimidos. Dois deles são administrados uma vez por mês e o outro, diariamente.</p>



<p>Este tratamento apresenta impactos enormes em termos de suspensão do avanço da doença. É o mais próximo que já conseguimos chegar da cura e evita o surgimento de incapacidades entre as pessoas afetadas.</p>



<p>Mas a terapia não conseguiu impedir o surgimento de novos casos, segundo explica Venkata Pemmaraju, líder de equipe em exercício do Programa Global sobre Hanseníase da OMS, que trabalha com questões relacionadas à hanseníase há quatro décadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Velhos-desafios">Velhos desafios</h2>



<p>O que faz com que essa doença antiga seja tão persistente? Segundo Sunkara, diversos fatores estão envolvidos.</p>



<p>Em primeiro lugar, o bacilo de Hansen reproduz-se com extrema lentidão. Por isso, uma pessoa infectada pode levar dois a 20 anos para exibir qualquer sintoma da doença.</p>



<p>O tempo médio de incubação da doença (ou seja, o período entre a exposição à bactéria e o surgimento dos primeiros sintomas) é de cinco anos e, em casos raros, um paciente pode passar duas décadas sem apresentar sintomas.</p>



<p>&#8220;Esta bactéria tem um tempo de incubação mais longo&#8221;, afirma Sunkara. &#8220;Leva cerca de 14 dias para que uma bactéria se divida em duas no corpo, em comparação com outras bactérias causadoras de doenças que podem dobrar de quantidade em minutos.&#8221;</p>



<p>Comparativamente, em condições ideais, a bactéria intestinal comum Escherichia coli, que tem algumas linhagens que podem causar envenenamento alimentar, pode dividir-se uma vez a cada 20 minutos.</p>



<p>O longo tempo de incubação é problemático não só para o paciente, mas também para os que estão à sua volta. Durante esse período, um paciente que não sabe que foi infectado pode transmitir a infecção para os demais, especialmente para seus contatos próximos, como membros da família.</p>



<p>Após o estabelecimento e o desenvolvimento da infecção na forma multibacilar, o tratamento da hanseníase pode levar até dois anos, mesmo com uma combinação de antibióticos.</p>



<p>A resistência aos antibióticos é outra questão importante. O tratamento original da hanseníase era o antibiótico dapsona, que se descobriu ser eficaz contra a bactéria nos anos 1940. Antes dele, a doença era incurável.</p>



<p>Mas, nos anos 1960, a droga já estava perdendo a eficácia. Atualmente, existem diversas opções mais eficientes, particularmente o antibiótico rifampicina.</p>



<p>A abordagem moderna de uso de diversos antibióticos em conjunto foi criada, em parte, para evitar o novo desenvolvimento de resistência, mas esta preocupação permanece presente.</p>



<p>Com diagnóstico e tratamento precoce, a hanseníase é eliminada com muito mais facilidade. Mas, infelizmente, diagnosticar a hanseníase é extremamente difícil.</p>



<p>O método padrão atual é fazer uma biópsia. Nesta técnica, é feita uma incisão minúscula em uma lesão da pele, através da qual o sangue é espremido. A polpa e o fluido do tecido são então coletados para exame no microscópio.</p>



<p>Mas este método é caro e trabalhoso, pois exige um laboratório e conhecimento técnico. Ele é particularmente difícil em áreas rurais, onde nem sempre são disponíveis instalações de laboratório, e em países de baixa renda, onde a hanseníase é comum e os recursos são escassos.</p>



<p>&#8220;Como resultado, muitos pacientes são diagnosticados com curso adiantado da doença, quando já ocorreram lesões da pele e dos nervos&#8221;, afirma Sunkara.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/46F5/production/_128456181_p0dyh34h.jpg" alt="Placa em que se lê 'hanseníase tem cura'"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,A hanseníase é tratada com muito mais facilidade no início da infecção</figcaption></figure>
</div>


<p>Esta questão é agravada pelo fato de que os cientistas ainda não sabem exatamente como a hanseníase é transmitida. É surpreendentemente difícil ser infectado e, muitas vezes, são necessários vários meses de contato próximo com uma pessoa infectada.</p>



<p>O consenso atual é que, provavelmente, ela é transmitida por gotículas no ar quando alguém tosse ou espirra, mas pode haver outros caminhos, como a pele.</p>



<p>Por isso, em vez de passar pelo trabalhoso processo de diagnóstico, uma opção é tratar imediatamente as pessoas que possam ter sido expostas.</p>



<p>&#8220;Para evitar a difusão da hanseníase, em 2018, a OMS introduziu uma intervenção significativa: os contatos próximos dos pacientes com hanseníase foram rastreados e receberam uma dose única de rifampicina&#8221;, explica Pemmaraju.</p>



<p>Concluiu-se que a intervenção tem efeito protetor de cerca de 55-60%. Mas a pandemia interrompeu o diagnóstico, levando à perda de 140 mil casos em todo o mundo, o que traria consequências para a difusão da hanseníase.</p>



<p>&#8220;Considerando que cada paciente com hanseníase tenha 10 contatos, são mais de 1,5 milhão de pessoas que estão em risco de desenvolver hanseníase porque não conseguiram tomar a dose única de rifampicina&#8221;, afirma Smith.</p>



<p>O tratamento com rifampicina teve impacto significativo em países como Gana, segundo Benedict Quao, chefe do Programa Nacional de Controle da Hanseníase de Gana, que é membro da Parceria Global para a Erradicação da Hanseníase.</p>



<p>&#8220;Pela primeira vez, os países receberam orientações médicas para poder forçar a liderança política a agir&#8221;, afirma ele.</p>



<p>A pandemia de covid-19, em grande parte, é responsável pela interrupção deste novo programa. Mas ela também introduziu uma ferramenta útil: o rastreamento de contatos.</p>



<p>Este método tem sido útil para identificar os contatos dos pacientes com hanseníase em muitas regiões, fazendo com que eles recebam uma dose do antibiótico preventivo. O problema é que alguns países talvez não consigam mobilizar recursos suficientes para o fornecimento regular de rifampicina aos contatos dos pacientes com hanseníase, segundo Quao.</p>



<p>&#8220;Em Gana, nós tivemos essa experiência em seis das nossas 16 regiões e queremos ampliá-la&#8221;, afirma ele. &#8220;É uma boa época para termos essa intervenção, mas não é uma intervenção perfeita. Os países reconhecem isso.&#8221;</p>


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<figure class="aligncenter"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/6E05/production/_128456182_p0dyh1vy.jpg" alt="Bactéria"/><figcaption class="wp-element-caption">Legenda da foto,É difícil diagnosticar a hanseníase com rapidez, em parte porque o bacilo de Hansen cresce muito lentamente</figcaption></figure>
</div>


<p>Se fosse disponível um exame de diagnóstico rápido e eficaz, que não fosse invasivo, muitos desses casos perdidos de hanseníase e os contatos próximos dos pacientes poderiam ser identificados, sem necessidade de prescrições de rifampicina para indivíduos potencialmente saudáveis. A boa notícia é que esses exames de diagnóstico estão atualmente sendo desenvolvidos, embora possam não ser disponíveis por algum tempo.</p>



<p>Para estudar a doença, sua progressão e o desenvolvimento de exames de diagnóstico, os cientistas frequentemente precisam injetar M. leprae em tatus, em uma técnica que foi tentada pela primeira vez em 1971.</p>



<p>&#8220;O fato de não podermos cultivar essa bactéria tão facilmente em ambientes de laboratório é outro fator que dificulta o progresso do desenvolvimento desses exames&#8221;, segundo Sunkara.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Novos-horizontes">Novos horizontes</h2>



<p>Em 2000, a Fundação Novartis firmou parceria com a OMS e vem fornecendo medicamentos gratuitos para a terapia com múltiplas drogas em todo o mundo. E, em fevereiro de 2022, eles firmaram parceria com a Fiocruz para realizar um estudo utilizando inteligência artificial (IA) para acelerar o diagnóstico da hanseníase.</p>



<p>&#8220;Chamo isso de aplicar tecnologia de última geração a uma doença primitiva&#8221;, define Sunkara.</p>



<p>Existem pelo menos outras 20-30 doenças da pele que se apresentam na forma de manchas brancas, segundo ele. Usando o algoritmo de IA para analisar as diferentes formas em que a luz é refletida na superfície de cada doença da pele, é possível identificar os casos de hanseníase e distingui-los de outras condições similares com muito mais precisão.</p>



<p>Seu estudo, publicado na revista Lancet Regional Health, definiu a previsão em 90%. Mas, com 1.229 imagens de pele, o conjunto de dados ainda é pequeno. Se o exame tiver sucesso em escala maior, poderá um dia se tornar uma ferramenta útil para acelerar o diagnóstico e o tratamento da hanseníase.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Estigma-persistente">Estigma persistente</h2>



<p>Os avanços modernos no tratamento e diagnóstico da hanseníase mudaram a vida de muitos pacientes, mas existe um problema que ainda não desapareceu totalmente: a discriminação continua implacável.</p>



<p>&#8220;A hanseníase segue sendo uma questão de direitos humanos profundamente enraizada&#8221;, segundo Alice Cruz, Relatora Especial das Nações Unidas sobre a eliminação da discriminação contra pessoas afetadas pela hanseníase, uma função que ela desempenha desde novembro de 2017.</p>



<p>Cruz afirma que existe mais de uma centena de leis que discriminam as pessoas com hanseníase em todo o mundo, criando uma forte estigmatização que pode agir como barreira para o tratamento.</p>



<p>Em alguns países, a hanseníase pode ser motivo de divórcio. A Índia era um deles, até alterar suas leis em 2019. Muitas pessoas afetadas pela doença ainda lutam para conseguir emprego e ter acesso à assistência médica e à educação.</p>



<p>&#8220;Os países deveriam fazer todo o possível para abolir as leis discriminatórias e substituí-las por políticas que possam garantir direitos sociais e econômicos às pessoas afetadas pela hanseníase&#8221;, afirma Cruz.</p>



<p>&#8220;Indo mais adiante, deveríamos nos perguntar: nossos sistemas de saúde estão trabalhando para oferecer total acessibilidade para as pessoas afetadas pela hanseníase?&#8221;, questiona ela. &#8220;Isso porque a hanseníase é muito mais que uma doença. Ela se tornou um rótulo que desumaniza as pessoas atingidas por ela.&#8221;</p>



<p><strong>Leia a </strong><a href="https://www.bbc.com/future/article/20230124-leprosy-the-ancient-disease-scientists-cant-solve">versão original desta reportagem</a><strong> (em inglês) no site </strong><a href="https://www.bbc.com/future/">BBC Future</a><strong>.</strong></p>



<p>Fonte: BBC Brasil</p>



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