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	<title>imigrantes brasileiros |</title>
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	<title>imigrantes brasileiros |</title>
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		<title>Medo e impotência: imigrantes brasileiros na Alemanha lamentam ascensão da direita radical</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Feb 2025 17:05:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Alemanha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As eleições parlamentares deste domingo (23/2) apenas confirmaram o cenário que já se desenhava nos últimos anos: a direita radical está cada vez mais forte e tem cada vez mais apoio da população na&#160;Alemanha. O controverso Alternative für Deutschland (AfD, ou Alternativa para a Alemanha), ficou em segundo lugar nas urnas, com 20,6% dos votos. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Julia Braun</strong></li>



<li><strong>Da BBC News Brasil em Londres</strong></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">As eleições parlamentares deste domingo (23/2) apenas confirmaram o cenário que já se desenhava nos últimos anos: a direita radical está cada vez mais forte e tem cada vez mais apoio da população na&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/topics/c1gdqg5rgzkt">Alemanha</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O controverso Alternative für Deutschland (AfD, ou Alternativa para a Alemanha), ficou em segundo lugar nas urnas, com 20,6% dos votos. O conservador União Democrata-Cristã (CDU) foi o vencedor, com 28,6% dos votos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2025/01/Banner-para-loja-online-frete-gratis-mercado-shops-medio-720-x-90-px-1.gif" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O partido foi alçado principalmente por seu forte discurso anti-imigração. Para os eleitores do AfD&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/clyeqnpyz50o">esse é o tema mais importante</a>, com foco no aumento de refugiados e pedidos de asilo nas últimas décadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a campanha, a líder da legenda, Alice Weidel, chegou a apoiar oficialmente um projeto de &#8220;remigração&#8221;, ou o &#8220;retorno&#8221; em massa de imigrantes e seus descendentes para seus países de origem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O termo ganhou destaque pela primeira vez no cenário político alemão no início de 2024, quando a notícia de que políticos do AfD haviam participado de um encontro com neonazistas para discutir a deportação em massa de milhões de imigrantes e &#8220;cidadãos não assimilados&#8221; — independente de situação legal ou de possuírem cidadania alemã — escandalizou o país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O episódio provocou uma onda de protestos nacionais e levou o AfD a se distanciar da ideia de &#8220;remigração&#8221; — uma postura posteriormente abandonada ao longo da campanha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A possibilidade de um endurecimento das políticas migratórias — e o sentimento cada vez mais hostil em relação aos imigrantes — assusta brasileiros que moram na Alemanha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Me-sinto-impotente">&#8216;Me sinto impotente&#8217;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Gabriela Badain, estudante de 27 anos que mora há dois anos em Leipzig, no leste da Alemanha, diz se sentir impotente diante do avanço da direita radical.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eu, assim como muitos outros imigrantes, estamos muito preocupados&#8221;, diz a mestranda que estuda Alemão como Língua Estrangeira. &#8220;Sei o quanto o resultado dessa eleição pode influenciar meu futuro, mas não tive o que fazer além de tentar conversar com os eleitores alemães à minha volta, porque não posso votar.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No país, apenas pessoas com cidadania alemã possuem direito ao voto em eleições nacionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Me sinto excluída totalmente do lugar onde vivo&#8221;, lamenta a brasileira natural de São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estado da Saxônia, onde a cidade em que Gabriela mora está localizada, se tornou um dos principais polos de crescimento do AfD nos últimos anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde setembro do ano passado, o partido tem a segunda maior bancada no Parlamento local, com apenas um assento a menos do que a União Democrata-Cristã (CDU).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A região leste da Alemanha, aliás, vem sendo considerada um bastião da direita radical.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também no ano passado, o AfD comemorou um &#8220;sucesso histórico&#8221; após&nbsp;<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy4y2n3357no">conquistar quase um terço dos votos nas eleições locais do Estado de Turíngia</a>. Foi a primeira vitória da direita radical em uma eleição para parlamento estadual na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gabriela afirma nunca ter experimentado ataques xenofóbicos direcionados diretamente contra ela, mas lamenta o aumento dos casos em todo o país — segundo dados compilados pela Statista em 2024, 13,3% da população acredita que o país está em risco por causa dos estrangeiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Sou uma pessoa branca e muitas vezes só percebem que sou imigrante quando ouvem meu sotaque, mas já vivenciei situações muito tristes ao lado de colegas ou do meu namorado, que é libanês.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A estudante relata um episódio específico em que, durante um encontro em um restaurante com o namorado e outros amigos de origem libanesa, um jovem alemão se aproximou da mesa onde estavam sentados e estendeu o braço em um movimento que pode ser comparado a uma saudação nazista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Fiquei horrorizada e quis denunciar para a polícia, mas meus amigos disseram que não era a primeira vez que isso acontecia com eles e que não daria em nada.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/ffbe/live/b3846660-f060-11ef-896e-d7e7fb1719a4.jpg.webp" alt="Gabriela Badain"/><figcaption class="wp-element-caption">Arquivo pessoal<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A própria AfD já foi acusada de defender ideias neonazistas e integrantes do partido foram condenados por apologia à ideologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No ano passado, o partido foi expulso da coligação Identidade e Democracia (ID), formada por partidos da direta radical do Parlamento Europeu, depois que um político da sigla afirmou que os membros da SS nazista &#8220;não eram todos criminosos&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A SS era uma força paramilitar nazista e foi uma das organizações responsáveis pelo Holocausto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Episódios como esse fizeram com que todos os demais partidos, incluindo a CDU e o Partido Social Democrata (SPD), do primeiro-ministro Olaf Scholz, prometessem nunca colaborar com a AfD, isolando a ultradireita através de um chamado &#8220;cordão sanitário&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a tentativa de Friedrich Merz de aprovar no Parlamento alemão um projeto que pedia restrições à reunificação familiar e a rejeição de imigrantes nas fronteiras, em janeiro deste ano, causou polêmica em todo o país. Isso porque, para aprovar a moção e as linhas gerais do texto serem discutidas, o líder da CDU contou com apoio da AfD.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O projeto de lei acabou não sendo aprovado, mas Merz incluiu em sua lista de prioridades num eventual governo a implementação da medida — algo que também assusta muitos imigrantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Ver CDU compartilhando ideias com a AfD preocupou muita gente. Quando vi as notícias sobre isso só consegui pensar &#8216;nossa, agora ferrou'&#8221;, conta Gabriela Badain.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A estudante relata ainda uma inquietação entre colegas estrangeiros que vivem na Alemanha com visto de estudante. &#8220;Já estive em várias conversas em que a ideia de terminar o mestrado em outro país surgiu&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela mesma afirma estar preocupada com seu futuro. &#8220;Trabalho meio período como professora de alemão para crianças imigrantes e não sei o quanto essa intolerância crescente pode afetar meu trabalho ou a busca por outras vagas&#8221;, afirma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por tudo isso, Gabriela afirma que pretende deixar a Alemanha caso a sensação de insegurança e a hostilidade em relação aos imigrantes cresça ainda mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;As pessoas imigrantes já passam por muitas dificuldades e desafios por não estarem no próprio país. Então se eu me sentir ameaçada, mesmo eu estando em um lugar de privilégio, me faria não querer continuar morando nesse país — e eu acho que muitas pessoas do meu círculo também se sentem assim.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Única-esperança-é-saber-que-não-são-maioria">&#8216;Única esperança é saber que não são maioria&#8217;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Luciano Luz, 38, trabalha como entregador de comida por aplicativo desde que se mudou para a cidade alemã de Mannheim há seis anos. O paranaense não nega já ter sido tratado de forma diferente em seu dia a dia apenas por ser imigrante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele relata ao menos dois episódios em que se sentiu desrespeitado durante o trabalho. Em uma dessas ocasiões, estava pedalando sua bicicleta quando um carro se aproximou e o passageiro arremessou um copo de água com gelo em suas costas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Quase 100% dos entregadores de aplicativo na minha cidade são imigrantes e não havia outro motivo para fazerem isso&#8221;, conta. &#8220;Foi a primeira vez que senti medo por conta dessa onda anti-imigração.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Natural de Foz do Iguaçu, Luciano imigrou para a Alemanha para ficar mais perto da única filha, nascida de um relacionamento com uma mulher alemã que ele conheceu quando ainda morava no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas apesar de ter sido ele mesmo vítima de preconceito, compartilha que está cada vez mais cultivando um sentimento de apatia diante do crescimento da direita radical.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Evito carregar comigo o sentimento de medo ou raiva diante de tudo que está acontecendo, porque não tem o que eu possa fazer e pensar demais nisso só vai me adoecer&#8221;, diz.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/3232/live/35696bd0-f061-11ef-9e61-71ee71f26eb1.jpg.webp" alt="Luciano Luz"/><figcaption class="wp-element-caption">Arquivo pessoal<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Sinto que as pessoas que votam na AfD sempre cultivaram algum tipo de sentimento anti-imigrante ou anti-LGBT, mas estão se sentindo mais encorajadas e saindo do armário agora. E elas vão continuar pensando assim, não tem jeito.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Minha única esperança é saber que elas não são a maioria da população e que muito possivelmente não vão conseguir eleger um primeiro-ministro agora ou no futuro&#8221;, afirma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Luciano diz que as pessoas que o acolheram com respeito na Alemanha e que demonstram compaixão em relação aos imigrantes têm ajudado a construir esse pequeno sentimento de confiança em relação ao futuro, mas não de forma suficiente para que ele pense em ficar no país para sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O entregador tem planos de voltar a viver no Brasil com a filha em breve. &#8220;A verdade é que a extrema direita está crescendo em todo lugar, na Alemanha, nos Estados Unidos e até no Brasil&#8221;, diz. &#8220;Mas sinto falta da minha família e do clima do Brasil, então prefiro voltar.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;E acho que nunca me senti totalmente bem-vindo na Alemanha. Sempre notei um tratamento diferente em relação a mim, mesmo falando alemão e respeitando todos os costumes.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Enxergo-uma-outra-parte-da-Alemanha">&#8216;Enxergo uma outra parte da Alemanha&#8217;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Já Éder Souza, 40, afirma não ter planos de deixar a Alemanha, apesar de também notar um crescimento inegável do sentimento nacionalista e anti-imigrante ao seu redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Enxergo uma outra parte da Alemanha que bate de frente com essa onda de direita nacionalista e xenofóbica&#8221;, diz o paulista natural de Mauá, região metropolitana de São Paulo. &#8220;É por isso que eu fico.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Éder deixou o Brasil ao lado da esposa em 2018 após receber uma proposta para trabalhar como consultor na área de software. Atualmente vive em Bruchsal, uma cidade localizada perto da fronteira com a França.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas antes mesmo da mudança, o especialista em tecnologia já se sentia preocupado pela forma como seria recebido na Alemanha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Comecei a aprender alemão alguns anos antes de me mudar e naquela época já ouvia relatos sobre a AfD e as políticas anti-imigração&#8221;, diz. &#8220;Confesso que isso me fez sentir bastante receio sobre como seria recebido.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O brasileiro diz ouvir constantemente relatos de colegas imigrantes sobre casos de xenofobia. &#8220;Amigos negros foram xingados na rua mais de uma vez&#8221;, lamenta. &#8220;Mas felizmente eu e minha esposa nunca passamos por nenhuma situação de xenofobia diretamente.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Éder, uma das posições mais difíceis de entender é a de imigrantes ou cidadãos alemães com origem estrangeira que apoiam a AfD e outros partidos com políticas anti-imigração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Isso me causa muito espanto&#8221;, diz. &#8220;Mas vejo o quanto a extrema direita usa um discurso populista, com o apoio de figuras como o Elon Musk, para atrair as pessoas.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/5d54/live/4c086fd0-f061-11ef-896e-d7e7fb1719a4.jpg.webp" alt="Éder Souza"/><figcaption class="wp-element-caption">Arquivo pessoal<br></figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O bilionário sul-africano apoiou o AfD ao participar por videoconferência de um comício da legenda no final de janeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;É bom ter orgulho de ser alemão. Lutem por um futuro brilhante para a Alemanha&#8221;, disse Musk, reiterando seu apoio ao partido que encarna, segundo ele, &#8220;a melhor esperança para a Alemanha&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dono da SpaceX e da rede social X (antigo Twitter), o bilionário também apoiou Donald Trump em sua campanha pela presidência americana. Ele atualmente comanda o Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) dos EUA.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: BBC Brasil / Foto: Getty Images</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><br></p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/medo-e-impotencia-imigrantes-brasileiros-na-alemanha-lamentam-ascensao-da-direita-radical/">Medo e impotência: imigrantes brasileiros na Alemanha lamentam ascensão da direita radical</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>O surpreendente &#8216;país&#8217; onde imigrantes brasileiros podem ser 30% da população</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Oct 2023 13:22:36 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[imigrantes brasileiros]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Se para boa parte dos brasileiros a palavra &#8220;Oiapoque&#8221; é o sinônimo imediato do ponto mais ao norte do país, para um grupo cada vez maior ela também significa a entrada para uma vida no exterior. É ali, naquela cidade do Amapá, que o Brasil encontra a Guiana Francesa, um departamento ultramarino da França na [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Por Vitor Tavares</strong></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Se para boa parte dos brasileiros a palavra &#8220;Oiapoque&#8221; é o sinônimo imediato do ponto mais ao norte do país, para um grupo cada vez maior ela também significa a entrada para uma vida no exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É ali, naquela cidade do Amapá, que o Brasil encontra a Guiana Francesa, um departamento ultramarino da França na América do Sul — uma espécie de Estado que não faz parte da França Metropolitana (que fica na Europa), mas que é parte do país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo&nbsp;<a href="https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/portal-consular/BrasileirosnoExterior.pdf">estimativas recém-divulgadas pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil</a>, o Itamaraty, 91,5 mil brasileiros viviam na Guiana Francesa em 2022. É a 10ª maior população brasileira em um território estrangeiro, à frente pela primeira vez, por exemplo, da comunidade brasileira na Argentina (90,3 mil) e da própria França europeia (90 mil).</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/8406/live/945c3130-5edc-11ee-954a-413268577267.png" alt="Grafico mostrando quantos brasileiros moram na Guiana Francesa: "/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">É um número que vem aumentando ano após ano — eram 82,5 mil em 2021, e 72,3 mil em 2020, segundo os dados do Itamaraty. O órgão não faz distinção de status migratório (legal ou ilegal) nas estatísticas sobre comunidade brasileira no exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Você ouve português em todo lugar. De leste a oeste, há brasileiros aqui”, diz a maranhense Vaneza Ferreira, que mora na Guiana Francesa há 24 anos e trabalha numa organização humanitária com atuação na fronteira e com povos tradicionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando a população total da Guiana Francesa de 301 mil habitantes (equivalente à de Palmas, capital do Tocantins), segundo estimativas do Insee, o órgão de estatísticas demográficas da França, o número do Itamaraty equivaleria a quase um terço (30,3%) dos moradores daquele território.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma fonte do Itamaraty ressaltou à BBC News Brasil que essa proporção pode ser um pouco menor na realidade, já que a população total da Guiana Francesa deve ser maior que os 301 mil, caso fossem consideradas as pessoas que vivem ali sem documentação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a estimativa do Brasil, dos 91,5 mil brasileiros no território franco-guianense, 89 mil estão em Caiena, a capital, a cerca de 200 km da fronteira com o Amapá, e 2,5 mil na região da cidade de Saint Georges de L&#8217;Oyapock, do outro lado da fronteira com o Oiapoque.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do lado das estatísticas oficiais francesas, dados de 2020 do Insee apontavam que cerca 30% dos moradores registrados na Guiana Francesa são imigrantes da América, Ásia e Oceania, sem especificar os países .</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em dados de 2015, em que <a href="https://www.insee.fr/fr/statistiques/3695893">detalhava os grupos migratórios</a>, o Insee já calculava oficialmente que os brasileiros eram 9,2% da população da Guiana Francesa. Além dos brasileiros, os imigrantes mais numerosos no território são os haitianos e os surinameses.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="720" height="90" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/08/City.jpeg" alt="" class="wp-image-94783" srcset="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/08/City.jpeg 720w, https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/08/City-300x38.jpeg 300w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="O-que-torna-a-Guiana-Francesa-atrativa">O que torna a Guiana Francesa atrativa?</h2>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://ichef.bbci.co.uk/news/640/cpsprodpb/bd94/live/c716cb80-5edc-11ee-93e8-5d16174eb488.png" alt="Gráfico mostra países com mais brasileiros"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O que torna a Guiana Francesa especialmente atrativa a brasileiros em primeiro lugar, segundo especialistas e moradores do país, é a moeda. Como é parte da França, os trabalhos são pagos em euro. Na cotação no início de outubro, 1 euro equivale a aproximadamente 5,30 reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Eles conseguem ganhar valores que nunca ganhariam no Brasil, em funções como pedreiros, por exemplo”, diz a socióloga Rosiane Martins, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) que desenvolveu pesquisas no Pará e Amapá sobre o movimento migratório à Guiana Francesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos de comparação, o Índice de Desenvolvimento Humano (<a href="https://globaldatalab.org/shdi/table/shdi/FRA/">IDH) da Guiana Francesa</a>&nbsp;em 2021 era previsto em 0,794 , o equivalente a países como Bulgária. O&nbsp;<a href="https://hdr.undp.org/system/files/documents/global-report-document/hdr2021-22overviewpt1pdf.pdf">Brasil tem IDH de 0,754</a>, e o da França é 0,903 (quanto mais perto do 1, mais desenvolvido é o lugar).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além da busca pelo salário em euro, que possa patrocinar uma vida melhor da família por meio de envio de recursos ao Brasil, a migração à Guiana Francesa também tem outras especificidades, segundo a pesquisadora e especialistas no assunto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A maioria dos brasileiros que vai para o território é natural de Estados próximos geograficamente, principalmente Amapá, Pará e Maranhão. São, na maior parte, homens, que buscam empregos na área da construção civil e no garimpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como um ato de esforço do governo francês de coibir a entrada ilegal de brasileiros no território, é necessário um visto de turismo, que é solicitado nos consulados da França no Brasil, para acessar temporariamente a Guiana Francesa. Com dinheiro para uma passagem aérea, é mais fácil ir como turista à França, na Europa, onde o brasileiro não precisa de visto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde 2020, também foi suspensa a emissão de vistos para Guiana Francesa em Macapá, a capital mais perto da fronteira. Os interessados precisam ir até Brasília para realizar o procedimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo um<a href="https://www.portal.ap.gov.br/noticia/0507/visto-governos-do-amapa-e-da-franca-decidem-reativar-comite-para-rediscutir-regras-de-acesso-ao-territorio-da-guiana">&nbsp;comunicado emitido pelo governo do Amapá</a>&nbsp;em julho, a gestão estadual tenta fazer acordos com a França para a retomada da retirada dos vistos e também da emissão da carta transfronteiriça para moradores de Oiapoque. Esse documento permite que os moradores da fronteira passem até 72h apenas na cidade de Saint Georges, do outro lado do rio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na ponte binacional entre as duas cidades, inaugurada em 2017 após muito atraso, brasileiros precisam mostrar visto e, caso estejam de carro, pagar um seguro de automóvel de até 175 euros. A travessia por barco, muitas vezes sem fiscalização, segue sendo a mais utilizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma fonte do Itamaraty afirma que essas medidas tomadas pela França acontecem porque, &#8220;se não, a Guiana Francesa iria virar brasileira, dada a dimensão da população do Brasil e a pressão demográfica que isso iria causar”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Dois-tipos-de-imigração-">Dois tipos de imigração</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo&nbsp;<a href="http://barthes.enssib.fr/clio/acsehmr/guyane.pdf">pesquisadores</a>, o primeiro movimento da imigração brasileira ocorreu a partir do fim dos anos 1960 e anos 1970, quando foi construída a 50 km de Caiena a Base Espacial de Korou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mão de obra brasileira foi até incentivada, diante do vazio populacional que existia naquele território. Em 1974, eram estimados 1,5 mil brasileiros ali, em geral qualificados para construção e atuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse primeiro grupo é considerado por pesquisadores como parte de uma “migração familiar”, que ocorreu com a ida de famílias inteiras ou ainda com as políticas de reunificação familiar a partir de 1976. Essas pessoas formaram uma comunidade estável e permanente, inserida na sociedade local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, após o término das obras, os brasileiros seguiram sendo mão de obra primordial na construção da infraestrutura francesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde aquela época até hoje, há relatos de brasileiros reunidos “na praça das Palmeiras (centro de Caiena) onde aguardavam os empreiteiros chegarem com as pickups anunciando obras”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As notícias sobre as oportunidades correram nos Estados vizinhos, atraindo mais e mais imigrantes, grande parte com baixa escolaridade e sem os documentos legais. Também foram chegando mais moradores à cidade de Oiapoque, atraídos pelas oportunidades na vida fronteiriça, como a possibilidade de ganhar em euro e gastar em real. Em 2000, eram 12 mil moradores na cidade; em 2010, já eram mais de 20 mil; em 2022, a população chegou a 27 mil, segundo o IBGE.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Natural da cidade de Santa Helena, no Maranhão, Vaneza Ferreira tinha 12 anos, em 1999, quando atravessou com a mãe, que se casou com um franco-guianense, para o lado francês da fronteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela faz parte da geração que se estabeleceu permanentemente no território e se considera parte da “diáspora brasileira, que já tem pessoas de até terceira e quarta geração”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Eu me reivindico franco-guianense-brasileira, porque a Guiana adotou agente”, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do outro lado dessa moeda, há milhares de brasileiros que não criam vínculos com o território e vão ali muitas vezes para atuar em atividades ilegais, como o garimpo em minas de ouro, explica a pesquisadora Rosiane Martins.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Se pensar nos migrantes clandestinos, é incontável. A cada legalizado que eu encontrava morando lá, havia até sete morando em sublocações, de forma irregular&#8221;. diz Martins.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São, em geral, homens que cruzam o rio no Oiapoque para ganhar algum dinheiro e voltar ao Brasil. Muitas vezes são detidos e levados pela polícia francesa de volta ao Amapá. As mulheres conseguem vagas na faxina, cozinha e muitas vezes são exploradas numa rede de prostituição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo um relatório de 2016 da então Agência Francesa de Coesão Social e Igualdade de Oportunidades, o crescimento da população brasileira na Guiana Francesa está principalmente relacionado ao ressurgimento da atividade de mineração de ouro desde meados da década de 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Martins, as redes que cooptam esses migrantes atuam principalmente no Maranhão, Amapá e Pará.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos desses imigrantes vivem no vai e vem na fronteira, mas outros acabam tentando a vida em Caiena, onde vivem em situação extremamente vulnerável, invadindo terrenos e criando ocupações e favelas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eles vão ficando porque é perto, fácil de voltar ao Brasil, tem o fuso horário igual, clima igual. E acabam convivendo bem numa sociedade multiétnica&#8221;, explica Martins. &#8220;Alguns vão querendo voltar, mas não conseguem fugir mais dessa realidade&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A gente que está dentro da sociedade, temos nossa segurança, como se proteger. Mas essas pessoas são exploradas, estão em risco constante. As pessoas precisam tomar cuidado com a ilusão desse trabalho ilegal. A gente recebe todos os dias notícias dramáticas vindas da floresta”, diz Vaneza Ferreira, que vê de perto a realidade no seu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma fonte do Itamaraty com relações na Guiana Francesa disse que “vira e mexe recebe no celular foto de cadáver&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Também presenciei a situação de humilhação de centenas de brasileiros que são deportados toda semana para Belém e Macapá”, disse a fonte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho para se legalizar é considerado cada vez mais difícil. Mas isso não quer dizer que o fluxo diminui. &#8220;São pessoas que consomem, trabalham por um valor baixo, fazem parte da economia. Então, em momentos de necessidade, a fiscalização diminui, não colocam tantas barreiras&#8221;, diz Rosiane Martins.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Açaí-e-‘frantuguês-">Açaí e ‘frantuguês’</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A presença massiva de brasileiros na Guiana Francesa pode ser percebida no dia a dia no território, segundo moradores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há restaurantes do tipo self service com churrasco espalhados por Caiena, festas onde se ouve música pop brasileira e igrejas evangélicas nos bairros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando cheguei aqui, o açaí por exemplo só era consumido por brasileiros. Hoje é universal e todo mundo aqui come, como o paraense, acompanhado de um peixe frito, uma carne”, diz Pierre Cupidon, 35 anos, que trabalha como DJ e na construção civil, instalando redes de água e internet.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como o pai dele era da Guiana Francesa, ele se mudou com a mãe de Belém para a região de Caiena em 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Há festas que eu só toco música brasileira. Claro, há influências de outros países também, mas o Brasil é muito presente&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro exemplo é no vocabulário, que muitas vezes mistura o francês com o português e até com o creole (a língua local). “Tem gente que chama &#8216;amiga&#8217; aqui de ‘copina’. É como se fosse uma aportuguesada de ‘copine’, que é &#8216;amiga&#8217; em francês”, exemplifica Vaneza Ferreira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de um território diverso em origens, os brasileiros sentem que há uma intensa troca cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“É engraçado porque a gente ainda é bem pequenininho comparado a outras cidades do Brasil, mas a diversidade cultural é enorme, enriquece o território”, diz Ferreira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O povo em si aqui se sente mais parte da América Latina do que da França”, opina Cupidon.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="As-Guianas-">As Guianas</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A chamada região das Guianas (que inclui Guiana Francesa, Suriname, Guiana e ainda o Estado brasileiro do Amapá e a região venezuelana de Guayana) foi alvo de disputa entre os colonizadores europeus desde o século 16, com a presença de espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses e franceses.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Guiana (antes chamada de Guiana Inglesa) conseguiu independência do Reino Unido e se tornou um país em 1966. O Suriname (antes Guiana Holandesa) passou pelo mesmo processo em 1975, separando-se do Reino dos Países Baixos. A ocasionalmente chamada &#8220;Guiana Portuguesa&#8221; virou Estado do Amapá no Brasil, e a parte da Guiana Espanhola somou-se à Venezuela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Guiana Francesa, por sua vez, nunca se separou da França. Oficialmente, o território faz parte da União Europeia, sua moeda oficial é o euro e sua população tem cidadania francesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Economicamente, a Guiana Francesa segue dependente da França.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como boa parte da América do Sul, o território foi colonizado como uma sociedade escravista, onde plantadores importavam escravizados da África.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o fim da escravidão, a França estabeleceu ali uma colônia penal, com uma rede de campos e penitenciárias onde prisioneiros do país eram enviados a trabalhos forçados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira onda de imigração à região aconteceu com os chineses ainda no século 19, para trabalhar nas plantações de açúcar, e de pessoas vindas da ilha caribenha de Santa Lúcia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dos anos 1960, porém, três grupos se sobressaíram nesse movimento migratório: os haitianos (também colonizados por franceses), os vizinhos surinameses e os brasileiros. Em 2016, essas três nacionalidades representavam 90% de todos os imigrantes do país, segundo o órgão de estatísticas da França.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: BBC Brasil </p>



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