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		<title>“One Health”: quem opera contra a Saúde Coletiva</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Apr 2026 14:07:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O conceito aterrissa no Brasil em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única, que dialoga com tradições da Saúde Pública. Mas de ter um olhar crítico sobre seus modos de implementação – e a quem interessam Por Heleno Corrêa Filho Pesquisadores e trabalhadores da saúde [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">O conceito aterrissa no Brasil em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única, que dialoga com tradições da Saúde Pública. Mas de ter um olhar crítico sobre seus modos de implementação – e a quem interessam</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por Heleno Corrêa Filho</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pesquisadores e trabalhadores da saúde pública mundial&nbsp;<a href="https://doi.org/10.3402/iee.v5.25300">se encantaram</a>&nbsp;com a promessa executiva e acadêmica da aplicação de&nbsp;<a href="https://www.frontiersin.org/journals/veterinary-science/articles/10.3389/fvets.2018.00014">conceitos totalizadores</a>&nbsp;da Saúde Única (“One Health”). No Brasil, em 2024, colocaram em prática a proposta de empregar esse arcabouço conceitual para reorganizar políticas públicas que sustentam tanto as diretrizes da Saúde Coletiva quanto as bases constitucionais do Sistema Único de Saúde (SUS).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://outraspalavras.net/outrasaude/one-health-cavalo-de-troia/">One Health, cavalo de troia?</a></strong><br><em>Ministério da Saúde parece flertar com projeto que desconsidera conquistas políticas e teóricas da Reforma Sanitária. Um artigo expõe suas origens e problemas, e questiona: por que ele começa a ser construído sem debate com o CNS e em parceria com entidades que se opõem ao SUS?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O entusiasmo inicial, no entanto, rapidamente entrou em&nbsp;<a href="https://www.redalyc.org/pdf/4063/406345800003.pdf">choque com o reconhecimento da Determinação Social da Saúde</a>&nbsp;(DSS). O que era um encantamento filosófico e conceitual foi atropelado por uma implantação verticalizada e acrítica, associada a atores historicamente adversários da Saúde Coletiva e do SUS.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse encantamento também se explica pelo cenário internacional. Em grande parte do mundo, o direito à saúde ainda se encontra em estágio incipiente. Poucos países do capitalismo ocidental – como Inglaterra, Canadá e Brasil – reconhecem a saúde como direito e dever do Estado. Mesmo com limitações decorrentes da privatização e da restrição de ofertas, o conceito de “One Health” representa avanço, sobretudo em países latino-americanos sem sistemas universais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para esses contextos, a ideia, desenvolvida entre 1918 e 1976 nos Estados Unidos e posteriormente difundida na América Latina, surge como progresso possível:&nbsp;<a href="https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/view/14634/version/15358">quem não tem nada e avança passa a ter um pouco</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Saúde Única em oposição à Saúde Coletiva</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, porém, os promotores que financiam e apoiam a introdução da “One Health” como diretriz – inclusive em ações epidemiológicas intersetoriais –&nbsp;<a href="https://www.saudeemdebate.org.br/sed/article/view/10109/2081">passaram a se articular com setores contrários à Saúde Coletiva</a>. Essa influência se reflete em formulações que tensionam princípios como integralidade, equidade e universalidade do cuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O resultado foi um choque entre a plausibilidade conceitual da proposta e a organização político-administrativa de sua implementação. Desde o início, houve exclusão do patrimônio histórico da Saúde Coletiva, responsável por fundamentar constitucionalmente o SUS. A proposta, inicialmente apresentada como “ação programática”,&nbsp;<a href="https://www.viomundo.com.br/blogdasaude/heleno-correa-saude-unica-disputa-o-interesse-publico-e-poder-economico-sobre-a-saude-da-populacao.html">incorporou adversários históricos e afastou protagonistas da luta sanitária brasileira</a>. Até 2026, a “One Health” no país se desenvolve em meio a conflitos econômicos, legais, políticos e institucionais.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Novos e velhos adversários</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, amplia-se o rol de atores que operam contra a Saúde Coletiva – inclusive dentro dos próprios Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses adversários incluem diferentes grupos. Muitos&nbsp;<a href="https://www.scielosp.org/pdf/icse/2023.v27/e220488/pt">desses agentes sequer figuravam no horizonte das disputas sanitárias antes de 2024</a>:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>1. Os vendedores de agrotóxicos</strong>, liderados por multinacionais de xenobióticos, combatem estudos e pesquisadores, perseguem juridicamente camponeses, financiam repressão e até violência contra organizações como MST e Via Campesina. Os conflitos não se restringem às corporações: envolvem também narcotráfico, crime organizado, contrabando e milícias interessadas nesse mercado;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>2. Os promotores de monoculturas transgênicas</strong>, altamente dependentes de agrotóxicos, buscam controlar e financiar pesquisas públicas voltadas a&nbsp;<em>commodities</em>. A produção transgênica, animal e humana, depende intensamente desses insumos. Seus defensores se colocam como adversários da Saúde Coletiva brasileira e da própria Saúde Pública internacional;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>3. Vendedores de insumos para controle de endemias</strong>, baseados no uso intensivo de xenobióticos, dizem apoiar a vigilância no SUS, desde que centrada no bombardeio químico. Opõem-se a práticas comunitárias de controle de criadouros e preservação ambiental. O conflito reside no interesse da indústria química frente ao trabalho de agentes públicos e tecnologias sociais sem uso de venenos;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>4. Os vendedores de produtos à base de asbesto (amianto)</strong>&nbsp;contestam a Saúde Pública por evidenciar doenças e mortes associadas, como o mesotelioma de pleura. Em áreas afetadas, há infiltração de lobistas no poderes públicos, atuando em conflito com a Saúde Coletiva. Enquanto conhecem seus adversários, pesquisadores muitas vezes não percebem que são alvo;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>5. As “fundações não governamentais multinacionais”</strong>&nbsp;atuam para limpar a imagem de setores como amianto, agrotóxicos e transgênicos. Financiadas por grandes grupos econômicos, promovem narrativas “verdes”, cooptam pesquisadores e oferecem remunerações acima do padrão público, aproveitando-se da precarização acadêmica;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>6. Associações governamentais que promovem “inovações conceituais”</strong>&nbsp;não acadêmicas financiam servidores mal remunerados e estruturam redes paralelas de pesquisa. No Brasil, atuam na cooptação de setores subfinanciados, incentivam cooperação internacional alinhada a interesses externos e operam com baixa transparência e frágil controle social;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>7. Multinacionais farmacêuticas</strong>&nbsp;se opõem à Saúde Coletiva e influenciam legislações e pesquisas clínicas. No Brasil, contribuíram para normas que fragilizam direitos de participantes e ampliam o poder de patrocinadores nos comitês éticos. A “Big Pharma” também promove o uso indiscriminado de antibióticos e sustenta patentes e preços elevados, além de financiar ONGs de pesquisa clínica à margem do debate ampliado em saúde;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>8. Representantes nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ligados a lobistas</strong>&nbsp;atuam como adversários internos. Enfraquecem instâncias participativas, como o Conselho Nacional de Saúde, e utilizam o discurso da “One Health” para encobrir interesses. Combatem políticas baseadas em tecnologias sociais e não dependentes de xenobióticos;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>9. Adversários da Saúde do Trabalhador</strong>&nbsp;buscam&nbsp;<a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1413-81232020001204843&amp;nrm=iso">substituir mecanismos de controle social,</a>&nbsp;como os CISTTs e instâncias da RENASTT. A Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT)&nbsp;<a href="https://www.saudeemdebate.org.br/sed/article/view/10598">confronta modelos produtivos que geram adoecimento e riscos ambientais</a>, tornando-se alvo de interesses ligados a atividades poluidoras e destrutivas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entre o Conceito e a Implementação</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Diante desse quadro, até 2026, a “One Health” no Brasil se coloca em cena em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única — que dialoga com tradições anteriores da Saúde Pública, como a&nbsp;<a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-12902014000401173&amp;nrm=iso">tríade agente-hospedeiro-ambiente</a>&nbsp;formulada por Wade Hampton Frost. O problema reside nos modos de implementação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A crítica, portanto, não é à integração conceitual em si, mas à tentativa de sua hegemonização sem diálogo com a tradição da Determinação Social da Saúde. Não se trata de ser contrário às iniciativas conceituais integradoras em saúde que&nbsp;<a href="https://cebes.org.br/site/wp-content/uploads/2011/01/Determinacao.pdf">antecederam as bases brasileiras da Saúde Coletiva</a>&nbsp;como consequência da Determinação Social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao desconsiderar contextos econômicos globais e conflitos geopolíticos contemporâneos, a formulação político-administrativa da “One Health” corre o risco de esvaziar o papel do controle social e da participação popular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, centro do debate está a escolha dos caminhos para articular setores sociais, administrativos e legais na promoção da saúde. A Saúde Coletiva, entendida como prática da Saúde Pública subordinada ao controle social participativo direto, permanece como referência fundamental para orientar essas decisões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Outra Saúde / Créditos: EasyFarm</p>



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