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	<title>reciclagem |</title>
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	<title>reciclagem |</title>
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		<title>Queda do dólar aniquila renda dos catadores de recicláveis: 8 toneladas de papel para ganhar um salário mínimo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leo Araujo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Sep 2023 17:38:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[catadores]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O latido incessante dos cães entre as grades dos portões anuncia a passagem do piauiense Elias Pereira, de 53 anos, que puxa sua carroça pelas ruas de Guarulhos, na Grande São Paulo. Todos os dias, o catador de material reciclável percorre 20 km de bicicleta, para ir e voltar de casa, e pelo menos mais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O latido incessante dos cães entre as grades dos portões anuncia a passagem do piauiense Elias Pereira, de 53 anos, que puxa sua carroça pelas ruas de Guarulhos, na Grande São Paulo.</p>



<p>Todos os dias, o catador de material reciclável percorre 20 km de bicicleta, para ir e voltar de casa, e pelo menos mais 20 km puxando o carrinho artesanal que, sozinho, pesa 110 kg.</p>



<p>Enquanto alguns setores do país comemoram a queda do dólar, o que diminui o valor das viagens internacionais e da importação de produtos, Elias viu a renda familiar dele cair drasticamente.</p>



<p>Por conta principalmente da valorização do real frente à moeda americana, cada quilo de papel que ele vendia por R$ 1 em 2021, hoje vale R$ 0,15. A latinha caiu de R$ 8,50 para R$ 5 e hoje ele relata que está desesperado para alimentar &#8220;as oito bocas que eu tenho dentro de casa&#8221;.</p>



<p>&#8220;Se fosse naquela época (há dois anos), eu teria ganhado R$ 30 com a quantidade que eu trouxe, mas hoje fiz R$ 5&#8221;, afirma ele à reportagem logo após entregar o que arrecadou na primeira jornada do dia.</p>



<p>Hoje, Elias precisa transportar 8,8 toneladas de papel para arrecadar o equivalente ao valor de um salário mínimo: R$ 1.320.</p>



<p>Em março de 2021, o dólar chegou a R$ 5,75. Em julho deste ano, a moeda americana era cotada a R$ 4,75 — 17% mais barato.</p>



<p>A BBC News Brasil acompanhou parte da rotina diária do catador em busca de reciclagem. A reportagem também ouviu especialistas do setor, uma economista e outros catadores para entender por que isso acontece e se há caminhos possíveis para proteger os trabalhadores do segmento.</p>



<p>Economista e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Carla Beni afirma que a oscilação do preço do material reciclado ocorre porque a celulose e o alumínio são commodities negociadas no mercado financeiro mundial — ou seja, o preço flutua de acordo com fatores que vão muito além da economia local gerada pela reciclagem.</p>



<p>A consequência desse impacto é que, assim como Elias, muitos catadores pensam em abandonar a profissão. A estimativa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) é de que o Brasil tenha cerca de 1 milhão de catadores.</p>



<p>Segundo o órgão, esses trabalhadores são responsáveis pela maior parte da coleta do país, mas 75% do lucro com esse trabalho fica com as indústrias.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="720" height="90" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg" alt="" class="wp-image-86857" srcset="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg 720w, https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/6-300x38.jpg 300w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="6-km-+-3-horas-+-46-kg-R-30">6 km + 3 horas + 46 kg = R$ 30</h2>



<p>Às 8h, Elias inicia a pedalada no bairro do Cabuçu, que lhe rendeu o apelido pelo qual ele é conhecido na região. Cerca de 10 km e uma hora depois, o &#8220;Neguinho do Cabuçu&#8221; chega ao ferro-velho no bairro Santa Emília, em Guarulhos, para pegar a carroça e iniciar sua jornada.</p>



<p>A reportagem o acompanhou por três horas caminhando pelas ruas da cidade, com termômetro registrando 31 graus num dia de setembro. Depois de 6 km percorridos, o resultado: 26 kg de papelão, 5 kg de ferro, 2,2 kg de alumínio e 13 kg de plástico.</p>



<p>&#8220;Dia de sorte&#8221;, diz ele ao olhar o carrinho cheio.</p>



<p>É hora então de voltar ao ferro-velho e pesar tudo. Após o veredito da balança, o pagamento: R$ 30 reais, em três notas de 10.</p>



<p>Elias é um homem sorridente, de 1,60 m e músculos talhados pelo trabalho duro, mas neste momento é o desânimo que aparece no olhar.</p>



<p>Ele não esconde a decepção de ter sua mão-de-obra trocada por uma quantia que mal pagaria o seu almoço, caso ele não tivesse a opção de comer em uma unidade do Bom Prato, a R$ 1. Mas, dentro de casa, ele não tem refeições subsidiadas e confessa que precisa fazer escolhas diárias para garantir a alimentação da família.</p>



<p>&#8220;Eu deixei de comprar carne (de boi). Um quilo é R$ 35. Eu compro mais uma bistequinha, um frango, uma salsicha. O feijão aumentou, o arroz aumentou. Você vai no mercado com R$ 80 e não traz quase nada&#8221;, lamenta.</p>



<p>&#8220;Ontem, eu comprei R$ 30 de asa de frango e parece que veio só as peles. Eu olhei e pensei: &#8216;veio só isso?'&#8221;</p>



<p>Do outro lado da balança no ferro-velho de Guarulhos está Mauriceia Maria de Lima Santos, de 54 anos. Dona do negócio e filha de catador, ela analisa o momento do setor.</p>



<p>Santos afirma que a reciclagem viveu um de seus melhores momentos no ano de 2021, mas que, desde meados de 2022, viu a maioria dos catadores que vendiam para ela abandonar a profissão.</p>



<p>&#8220;A gente está vivendo uma crise na reciclagem. Quando acontece essa queda brusca (do dólar), essas pessoas vivem em situação de miséria. Elas vivem de doação porque o que eles trazem de reciclagem não dá para comprar pão &#8220;, afirma a dona do ferro-velho.</p>



<p>Ela diz que prefere, algumas vezes, diminuir a margem de lucro dela para melhorar a renda dos catadores.</p>



<p>&#8220;Às vezes, o nosso comprador abaixa o preço e a gente segura, como acontece agora com o papelão. Hoje, eu pago R$ 0,15 quando a maioria paga R$ 0,10. Eu acho injusto a pessoa carregar 100 kg e ganhar R$ 10. Para muita gente pode não parecer muito, mas para o catador R$ 5 faz a diferença&#8221;, conta ela.</p>



<p>Ela disse ter percebido uma queda entre 40% e 50% na quantidade de reciclagem que recebe dos catadores.</p>



<p>&#8220;Eu entregava uma média de 5 toneladas de sucata por semana. Hoje, eu levo 10 dias para entregar essa mesma quantidade. Meus custos aumentaram, meus impostos aumentaram, mas meu ganho caiu. O que eu preciso fazer? Trabalhar mais.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Por-que-o-papelão-está-mais-barato">Por que o papelão está mais barato?</h2>



<p>A economista Carla Beni afirma que o papelão foi o produto mais afetado pela queda do dólar nos últimos meses.</p>



<p>&#8220;Nós tivemos uma queda de preço para ele em torno de 70%. O câmbio em 2022 estava R$ 5,40, R$ 5,50. Hoje, nós estamos com câmbio abaixo de R$ 5. Tivemos períodos recentes a R$ 4,74. Então, quando você tem essa diferença de câmbio, a importação fica mais barata&#8221;, explica.</p>



<p>Ela diz que os catadores são prejudicados com a queda do dólar porque a latinha de alumínio, o aço, o papel, vidro, plástico, garrafa PET e embalagens do tipo longa vida são commodities negociadas nas bolsas de mercadorias em dólar.</p>



<p>Segundo a professora, não existe um dado nacional dos preços pagos aos catadores de materiais recicláveis, mas números do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), uma associação de empresários dedicada à promoção da reciclagem, apontam que a variação do custo das mercadorias acompanha a do dólar.</p>



<p>&#8220;Quanto mais apreciado estiver o real, o que é muito bom para vários segmentos da economia, pior é para a vida do catador. Ele vai precisar andar mais e recolher mais&#8221;, afirma ela.</p>



<p>A reportagem ouviu de integrantes do setor que diversas empresas preferem importar, por exemplo, plástico reciclado da China ou bobinas de papel branco quando o real está mais valorizado. O motivo é que os produtos importados têm melhor qualidade.</p>



<p>&#8220;Qual é a concorrência imediata do papelão? O papel branco puro. Então, o papel reciclado tem um preço menor do que o papel branco só que, além de tudo, ele ainda tem todo um processo químico de elementos, tem que triturar e ele acaba tendo um rendimento menor. Então, na comparação, quando fica mais barato importar, acaba se preferindo comprar o papel puro branco&#8221;, diz a professora da FGV.</p>



<p>Para a economista, porém, é injusto que os catadores de recicláveis não sejam recompensados pelo trabalho social que fazem recolhendo materiais recicláveis.</p>



<p>&#8220;Quando você precifica esses materiais como uma commodity, você está fazendo comparações diferentes. Esse catador recolhe uma a uma as latinhas que são jogadas no lixo e eu dou ao trabalho dele o mesmo preço do alumínio produzido na indústria. Não é possível que você ande um mês inteiro recolhendo as sobras da sociedade e não receba um salário mínimo&#8221;, diz.</p>



<p>Dudu Catador, líder nacional do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e membro da Rede Latino-Americana e Caribenha de Catadores (Red Lacre), defende que uma taxação mais alta dos materiais reciclados importados é o principal ponto para evitar uma queda ainda maior nos preços.</p>



<p>&#8220;O Brasil precisa implantar decretos para melhorar a renda do catador. Tem que diminuir os impostos daqui (sobre o material reciclável) e aumentar os de fora para que os catadores possam trabalhar e levar sua renda digna e botar comida no prato&#8221;, afirma.</p>



<p>A economista da Fundação Getulio Vargas aponta que o aumento de impostos como medida protetiva de seu parque industrial é implantado no mundo inteiro.</p>



<p>&#8220;É perfeitamente possível. Os países praticam impostos específicos para poder proteger a indústria interna. Mas fazer uma taxação maior para esse fim eu acho muito pouco provável. É melhor fazer uma distribuição de renda sob um plano específico de manutenção de pelo menos um salário mínimo&#8221;, diz a professora.</p>



<p>Ela explica que esse pagamento poderia ser feito após os trabalhadores serem devidamente cadastrados nos municípios onde vivem, embora seja mais cética quanto à possibilidade de implementar um programa nacional nestes moldes.</p>



<p>De toda forma, a professora aponta que a saída mais efetiva seria que esses catadores criem ou participem de cooperativas. Quando isso ocorre, os ferros velhos são cortados da cadeia de vendas até a indústria e isso garante maior lucro para os trabalhadores.</p>



<p>&#8220;Se ele se organizar numa cooperativa, vai receber um preço mais justo em relação ao preço de um atravessador, no ferro velho. Nas cooperativas, ele paga INSS e tem mais direitos e melhor rendimento, apesar de ainda ser autônomo&#8221;, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Coleta-seletiva-e-o-golpe-nos-catadores">Coleta seletiva e o golpe nos catadores</h2>



<p>Elias e outros catadores ouvidos pela reportagem afirmaram que, além da queda do dólar, o advento da coleta seletiva fez &#8220;sumir&#8221; a reciclagem das ruas e impactar ainda mais o rendimento deles.</p>



<p>Isso acontece, segundo eles, porque as pessoas que separavam esse material para os catadores, hoje entregam para o caminhão da coleta seletiva, que passa uma vez por semana. E tudo vai direto para as cooperativas da região.</p>



<p>O catador conta que chegou a carregar 300 kg de material numa só viagem durante a pandemia, mas hoje entrega 50 kg quando tem sorte.</p>



<p>&#8220;Eles passam levando tudo e a gente fica sem. Tem gente que guarda para mim, mas nem todo mundo pensa assim. Às vezes eu ganho R$ 50 o dia todo. Mas se está ruim trabalhando, ficar em casa é pior&#8221;, conta.</p>



<p>O catador mora com a mulher, os quatro filhos, dois netos e um genro no terreno da casa dele. A principal renda da família é o dinheiro que Elias consegue com o material reciclado que ele vende.</p>



<p>A mulher dele, que sofre de depressão, não está trabalhando, assim como o genro. A filha, que está com um filho de 4 meses, recebe o Bolsa Família.</p>



<p>Há oito meses, ele sentiu a pressão de ficar parado dentro de casa. Elias foi atropelado quando pedalava voltando para casa. O resultado foi um maxilar e duas costelas quebradas, além de um machucado no tornozelo que o faz mancar até hoje.</p>



<p>Depois de 20 dias de repouso após o acidente, Elias viu os armários esvaziados e o apelo do neto o fez voltar às ruas. A única ajuda que tinha era de Mauriceia Santos, a dona do ferro-velho, que doou cestas básicas e fez compras para ele.</p>



<p>&#8220;Ele (o neto) falou que tinha acabado as bolachas dele e o Danone (iogurte). A geladeira não tinha nada. Uma tristeza que saiu água dos olhos. Eu falei: &#8216;quando o vô trabalhava, comprava suas coisas'&#8221;, conta.</p>



<p>&#8220;Naquele dia, eu tirei uns entulhos da casa de um rapaz e ganhei R$160. Eu estava com a boca inchada e desmaiei logo depois de almoçar no Bom Prato. Eu trabalho doente, mas eu não deixo ninguém com fome&#8221;, segue o catador.</p>



<p>A ausência de direitos trabalhistas desanima Elias — que soma 15 anos de carteira assinada, principalmente em supermercados. Depois que foi demitido há quase oito anos, ele conta que passou a recolher recicláveis e fazer bicos na construção civil.</p>



<p>Elias diz que não recebe o benefício de transferência de renda do governo, o Bolsa Família, porque perdeu o CPF e não tem tempo para tirar uma segunda via do documento.</p>



<p>Ele diz que procura emprego nas áreas onde já atuou com carteira assinada e pretende deixar de ser catador. Enquanto isso, busca alternativas para complementar a renda.</p>



<p>&#8220;Sempre que eu posso, faço uns bicos. Limpo terrenos, carrego entulho. Qualquer um deles paga melhor do que a reciclagem&#8221;, diz.</p>



<p>De acordo com levantamento feito pela Ancat e Instituto Pragma, com dados de 641 organizações de catadores, em 2020 foram comercializadas 326,7 mil toneladas de materiais recicláveis no Brasil. Isso é o equivalente a uma produção média de 895 toneladas por dia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="Em-busca-de-novas-oportunidades">Em busca de novas oportunidades</h2>



<p>Embora a variação da cotação do dólar tenha impacto direto na vida dele, Elias conta que sequer acompanha as notícias do tema. Ele só sabe o resultado das mudanças na balança do ferro-velho.</p>



<p>No entanto, ele tem fresco na memória o contraste de agora com o início de 2022, quando chegou a ganhar R$ 600 num único dia, um rendimento que não consegue nem mesmo em uma semana inteira de trabalho.</p>



<p>Ele afirma que o custo das cestas básicas mensais da família dele é de, pelo menos, R$ 800.</p>



<p>&#8220;Às vezes, eu quero comprar uma roupinha mais decente, mas não dá. Ou você come, ou você veste. Tem que escolher. Um chinelo Havaianas hoje custa R$ 30. Um chinelo simples. O valor que eu ganhei hoje foi o que eu paguei num chinelo.&#8221;</p>



<p>O sonho dele é conseguir comprar uma casa boa e dar melhores condições de vida e educação para os filhos e netos. Hoje, a família vive em uma área irregular e corre risco de despejo.</p>



<p>&#8220;Quero colocar (meus netos) numa escola melhorzinha para não ficar que nem eu, analfabeto. Eu quero que eles estudem. Não quero eles puxando carrinho&#8221;, desabafa.</p>



<p>Elias relata que um familiar disfarçou e virou a cabeça para não cumprimentá-lo quando o viu com a carroça na rua. &#8220;Eu tenho vergonha (de ser catador). A gente faz isso para não roubar. Puxar carrinho é serviço de doido. Mas o ganho que eu achei foi esse aqui e estou bem nisso.&#8221;</p>



<p>Ele diz que apenas torce para ter novas oportunidades de trabalho, pois se sente humilhado pela desgastante rotina diária.</p>



<p>Mas ele pensa em desistir? Elias levanta a camiseta polo e bate no abdômen definido enquanto diz, com a voz firme, que ainda tem muita força para trabalhar.</p>



<p>&#8220;Pode estar sol ou chover granizo que eu estou trabalhando.&#8221;</p>



<p>Fonte: <strong>BBC</strong></p>



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