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	<title>Saúde Coletiva |</title>
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	<title>Saúde Coletiva |</title>
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		<title>“One Health”: quem opera contra a Saúde Coletiva</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Apr 2026 14:07:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O conceito aterrissa no Brasil em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única, que dialoga com tradições da Saúde Pública. Mas de ter um olhar crítico sobre seus modos de implementação – e a quem interessam Por Heleno Corrêa Filho Pesquisadores e trabalhadores da saúde [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">O conceito aterrissa no Brasil em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única, que dialoga com tradições da Saúde Pública. Mas de ter um olhar crítico sobre seus modos de implementação – e a quem interessam</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por Heleno Corrêa Filho</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pesquisadores e trabalhadores da saúde pública mundial&nbsp;<a href="https://doi.org/10.3402/iee.v5.25300">se encantaram</a>&nbsp;com a promessa executiva e acadêmica da aplicação de&nbsp;<a href="https://www.frontiersin.org/journals/veterinary-science/articles/10.3389/fvets.2018.00014">conceitos totalizadores</a>&nbsp;da Saúde Única (“One Health”). No Brasil, em 2024, colocaram em prática a proposta de empregar esse arcabouço conceitual para reorganizar políticas públicas que sustentam tanto as diretrizes da Saúde Coletiva quanto as bases constitucionais do Sistema Único de Saúde (SUS).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://outraspalavras.net/outrasaude/one-health-cavalo-de-troia/">One Health, cavalo de troia?</a></strong><br><em>Ministério da Saúde parece flertar com projeto que desconsidera conquistas políticas e teóricas da Reforma Sanitária. Um artigo expõe suas origens e problemas, e questiona: por que ele começa a ser construído sem debate com o CNS e em parceria com entidades que se opõem ao SUS?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O entusiasmo inicial, no entanto, rapidamente entrou em&nbsp;<a href="https://www.redalyc.org/pdf/4063/406345800003.pdf">choque com o reconhecimento da Determinação Social da Saúde</a>&nbsp;(DSS). O que era um encantamento filosófico e conceitual foi atropelado por uma implantação verticalizada e acrítica, associada a atores historicamente adversários da Saúde Coletiva e do SUS.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse encantamento também se explica pelo cenário internacional. Em grande parte do mundo, o direito à saúde ainda se encontra em estágio incipiente. Poucos países do capitalismo ocidental – como Inglaterra, Canadá e Brasil – reconhecem a saúde como direito e dever do Estado. Mesmo com limitações decorrentes da privatização e da restrição de ofertas, o conceito de “One Health” representa avanço, sobretudo em países latino-americanos sem sistemas universais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para esses contextos, a ideia, desenvolvida entre 1918 e 1976 nos Estados Unidos e posteriormente difundida na América Latina, surge como progresso possível:&nbsp;<a href="https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/view/14634/version/15358">quem não tem nada e avança passa a ter um pouco</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Saúde Única em oposição à Saúde Coletiva</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, porém, os promotores que financiam e apoiam a introdução da “One Health” como diretriz – inclusive em ações epidemiológicas intersetoriais –&nbsp;<a href="https://www.saudeemdebate.org.br/sed/article/view/10109/2081">passaram a se articular com setores contrários à Saúde Coletiva</a>. Essa influência se reflete em formulações que tensionam princípios como integralidade, equidade e universalidade do cuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O resultado foi um choque entre a plausibilidade conceitual da proposta e a organização político-administrativa de sua implementação. Desde o início, houve exclusão do patrimônio histórico da Saúde Coletiva, responsável por fundamentar constitucionalmente o SUS. A proposta, inicialmente apresentada como “ação programática”,&nbsp;<a href="https://www.viomundo.com.br/blogdasaude/heleno-correa-saude-unica-disputa-o-interesse-publico-e-poder-economico-sobre-a-saude-da-populacao.html">incorporou adversários históricos e afastou protagonistas da luta sanitária brasileira</a>. Até 2026, a “One Health” no país se desenvolve em meio a conflitos econômicos, legais, políticos e institucionais.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Novos e velhos adversários</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, amplia-se o rol de atores que operam contra a Saúde Coletiva – inclusive dentro dos próprios Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses adversários incluem diferentes grupos. Muitos&nbsp;<a href="https://www.scielosp.org/pdf/icse/2023.v27/e220488/pt">desses agentes sequer figuravam no horizonte das disputas sanitárias antes de 2024</a>:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>1. Os vendedores de agrotóxicos</strong>, liderados por multinacionais de xenobióticos, combatem estudos e pesquisadores, perseguem juridicamente camponeses, financiam repressão e até violência contra organizações como MST e Via Campesina. Os conflitos não se restringem às corporações: envolvem também narcotráfico, crime organizado, contrabando e milícias interessadas nesse mercado;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>2. Os promotores de monoculturas transgênicas</strong>, altamente dependentes de agrotóxicos, buscam controlar e financiar pesquisas públicas voltadas a&nbsp;<em>commodities</em>. A produção transgênica, animal e humana, depende intensamente desses insumos. Seus defensores se colocam como adversários da Saúde Coletiva brasileira e da própria Saúde Pública internacional;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>3. Vendedores de insumos para controle de endemias</strong>, baseados no uso intensivo de xenobióticos, dizem apoiar a vigilância no SUS, desde que centrada no bombardeio químico. Opõem-se a práticas comunitárias de controle de criadouros e preservação ambiental. O conflito reside no interesse da indústria química frente ao trabalho de agentes públicos e tecnologias sociais sem uso de venenos;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>4. Os vendedores de produtos à base de asbesto (amianto)</strong>&nbsp;contestam a Saúde Pública por evidenciar doenças e mortes associadas, como o mesotelioma de pleura. Em áreas afetadas, há infiltração de lobistas no poderes públicos, atuando em conflito com a Saúde Coletiva. Enquanto conhecem seus adversários, pesquisadores muitas vezes não percebem que são alvo;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>5. As “fundações não governamentais multinacionais”</strong>&nbsp;atuam para limpar a imagem de setores como amianto, agrotóxicos e transgênicos. Financiadas por grandes grupos econômicos, promovem narrativas “verdes”, cooptam pesquisadores e oferecem remunerações acima do padrão público, aproveitando-se da precarização acadêmica;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>6. Associações governamentais que promovem “inovações conceituais”</strong>&nbsp;não acadêmicas financiam servidores mal remunerados e estruturam redes paralelas de pesquisa. No Brasil, atuam na cooptação de setores subfinanciados, incentivam cooperação internacional alinhada a interesses externos e operam com baixa transparência e frágil controle social;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>7. Multinacionais farmacêuticas</strong>&nbsp;se opõem à Saúde Coletiva e influenciam legislações e pesquisas clínicas. No Brasil, contribuíram para normas que fragilizam direitos de participantes e ampliam o poder de patrocinadores nos comitês éticos. A “Big Pharma” também promove o uso indiscriminado de antibióticos e sustenta patentes e preços elevados, além de financiar ONGs de pesquisa clínica à margem do debate ampliado em saúde;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>8. Representantes nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ligados a lobistas</strong>&nbsp;atuam como adversários internos. Enfraquecem instâncias participativas, como o Conselho Nacional de Saúde, e utilizam o discurso da “One Health” para encobrir interesses. Combatem políticas baseadas em tecnologias sociais e não dependentes de xenobióticos;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>9. Adversários da Saúde do Trabalhador</strong>&nbsp;buscam&nbsp;<a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1413-81232020001204843&amp;nrm=iso">substituir mecanismos de controle social,</a>&nbsp;como os CISTTs e instâncias da RENASTT. A Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT)&nbsp;<a href="https://www.saudeemdebate.org.br/sed/article/view/10598">confronta modelos produtivos que geram adoecimento e riscos ambientais</a>, tornando-se alvo de interesses ligados a atividades poluidoras e destrutivas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entre o Conceito e a Implementação</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Diante desse quadro, até 2026, a “One Health” no Brasil se coloca em cena em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única — que dialoga com tradições anteriores da Saúde Pública, como a&nbsp;<a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-12902014000401173&amp;nrm=iso">tríade agente-hospedeiro-ambiente</a>&nbsp;formulada por Wade Hampton Frost. O problema reside nos modos de implementação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A crítica, portanto, não é à integração conceitual em si, mas à tentativa de sua hegemonização sem diálogo com a tradição da Determinação Social da Saúde. Não se trata de ser contrário às iniciativas conceituais integradoras em saúde que&nbsp;<a href="https://cebes.org.br/site/wp-content/uploads/2011/01/Determinacao.pdf">antecederam as bases brasileiras da Saúde Coletiva</a>&nbsp;como consequência da Determinação Social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao desconsiderar contextos econômicos globais e conflitos geopolíticos contemporâneos, a formulação político-administrativa da “One Health” corre o risco de esvaziar o papel do controle social e da participação popular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, centro do debate está a escolha dos caminhos para articular setores sociais, administrativos e legais na promoção da saúde. A Saúde Coletiva, entendida como prática da Saúde Pública subordinada ao controle social participativo direto, permanece como referência fundamental para orientar essas decisões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Outra Saúde / Créditos: EasyFarm</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><br><br></p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/one-health-quem-opera-contra-a-saude-coletiva/">“One Health”: quem opera contra a Saúde Coletiva</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Quando a ciência ousa transformar o Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 14:07:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Dois pesquisadores apresentam, no grande encontro da Saúde Coletiva, suas contribuições. Uma maneira nova (e subversiva) de enxergar a alimentação. O uso de big data para construir políticas de igualdade. Saberá o poder público aliar-se à academia para enfrentar as misérias do país? Por Gabriela LeiteReceba o Boletim Outra Saúde Dois dos maiores expoentes da ciência [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Dois pesquisadores apresentam, no grande encontro da Saúde Coletiva, suas contribuições. Uma maneira nova (e subversiva) de enxergar a alimentação. O uso de big data para construir políticas de igualdade. Saberá o poder público aliar-se à academia para enfrentar as misérias do país?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por Gabriela LeiteReceba o Boletim Outra Saúde</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dois dos maiores expoentes da ciência brasileira estiveram presentes na noite da última terça (2) no 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ao lado da sanitarista, socióloga e ex-ministra da Saúde que comandou a reconstrução do SUS após a pandemia, <strong>Nísia Trindade</strong>. Eram os epidemiologistas <strong>Carlos Monteiro</strong>, fundador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (<a href="https://www.fsp.usp.br/nupens/">Nupens/USP</a>), e <strong>Mauricio Barreto</strong>, criador do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (<a href="https://cidacs.bahia.fiocruz.br/">Cidacs/Fiocruz</a>). As instituições expressam duas enormes conquistas para a saúde dos brasileiros, com influência global. A concepção e condução do grande debate ficou a cargo do sanitarista e vice-presidente da Abrasco, <a href="https://outraspalavras.net/author/reinaldoguimaraes/"><strong>Reinaldo Guimarães</strong></a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um centro de análise de um enorme volume de dados da população brasileira, onde dezenas de pesquisadores estão reunidos para averiguar a efetividade de programas de proteção social e seus impactos na saúde – esse poderia ser um resumo do papel do Cidacs, localizado no Parque Tecnológico da Bahia, em Salvador. Sua existência foi possível graças a um diálogo da academia com a gestão pública. Em meados de 2011, começou a ser firmada uma parceria entre pesquisadores e o Ministério do Desenvolvimento Social, por influência da então ministra Tereza Campello. A ideia era ceder para estudos epidemiológicos os dados do Cadastro Único (CadÚnico) – um registro do governo federal de informações de todas as pessoas que se beneficiam de programas assistenciais como o Bolsa Família.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/12/251203-mauricio.jpg" alt="" class="wp-image-3117356"/><figcaption class="wp-element-caption"><strong>Mauricio Barreto</strong>, criador do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde – Cidacs/Fiocruz. Créditos: Kio Lima/Abrascão</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, 9 anos após a criação do Cidacs, esse sistema conta com informações de 140 milhões de brasileiros – utilizando tecnologias complexas, como alta capacidade computacional. É possível cruzar informações de programas sociais com dados de saúde, nascimento, nutrição, óbitos e outros. O resultado é uma imensa base de investigação, que alimenta pesquisas reveladoras sobre as determinações sociais da saúde. Algumas delas, citadas por Mauricio, demonstram que o Bolsa Família, além de elevar a renda dos mais empobrecidos, teve&nbsp;<a href="https://outraspalavras.net/outrasaude/a-dificil-superacao-das-desigualdades-na-saude/">dezenas de impactos secundários</a>. Contribuiu para a melhora do estado nutricional, a redução do baixo peso ao nascer, da mortalidade infantil e materna, de doenças cardiovasculares – até abaixou níveis de hospitalização por suicídio e melhorou a saúde mental de seus beneficiários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua fala, Mauricio frisou a importância de a epidemiologia estar fortemente vinculada à Saúde Coletiva no Brasil e mostrou como novas tecnologias podem fazer avançar a compreensão sobre a população brasileira ­– e, mais importante, atuar sobre as imensas desigualdades do país. Segundo ele, as descobertas do Cidacs sobre o impacto do Bolsa Família na saúde mostram que “a importância do SUS tem que ser compatibilizada com processos de transformação da sociedade”. Se um programa como esse, que reduz muito ligeiramente o fosso entre ricos e pobres, provoca tantas transformações na vida das pessoas, “imaginem o que faria o pleno emprego, por exemplo”, instiga. Maurício encerrou sua fala com uma defesa: “O SUS é uma engenharia em construção, e ela precisa de um ramo da Ciência &amp; Desenvolvimento que seja inovador e permita a transformação”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma mudança de paradigma na alimentação</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto Mauricio quanto Carlos Monteiro, que se dirigiu ao público em seguida, são mostras de que mesmo em condições muito desfavoráveis, a ciência brasileira comprometida com avanços sociais segue forte. O pesquisador da USP foi<a href="https://www.fsp.usp.br/nupens/carlos-monteiro-e-uma-das-50-pessoas-influentes-de-2025-segundo-the-washington-post/">&nbsp;considerado</a>, pelo&nbsp;<em>Washington Post</em>, uma das 50 pessoas que mais influenciariam o ano de 2025. Seus estudos foram responsáveis por uma mudança de paradigma na alimentação. Monteiro foi um dos criadores da NOVA, uma classificação que categoriza os alimentos de acordo com seu grau de processamento – de&nbsp;<em>in natura</em>&nbsp;a ultraprocessados. Até então, grãos de cereais e biscoitos eram igualmente classificados como “fontes de carboidrato”; filé de peixe e salsicha, “proteínas”. Mas os estudos realizados por Monteiro e seus colegas foram mostrando, a partir do final dos anos 2000, que isso não era correto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do século passado, os avanços na indústria eram muito positivos, ao prolongar a duração da comida, conta Monteiro. “Mas a partir de certo momento ela passou a investir em substitutos dos alimentos,&nbsp;<em>extremamente mais lucrativos</em>&nbsp;que os convencionais”, alerta. São os ultraprocessados, formulações industriais com baixíssimo nível de nutrientes e repletos de compostos químicos para torná-los mais agradáveis ao paladar e olfato. Segundo o epidemiologista, a partir de determinado momento, a indústria – com seu enorme poder de influência ­– começou a mudar o padrão de alimentação das populações para promover esse tipo de comida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os estudos do grupo de Carlos Monteiro foram pioneiros em mostrar que essas formulações estavam impactando a população de forma extremamente negativa, causando aumento da obesidade e de doenças crônicas como diabetes e hipertensão. O autor foi um dos responsáveis pela Vigitel, o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico que começou a ser implantado a partir de 2005. Por meio de entrevistas à distância, o Ministério da Saúde passou a fazer uma avaliação de consumo alimentar e atividade física. As primeiras hipóteses sobre a mudança na alimentação dos brasileiros começaram a surgir quando os pesquisadores perceberam que a desnutrição estava caindo, mas a obesidade aumentava.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/12/251203-carlosmonteiro.jpg" alt="" class="wp-image-3117366"/><figcaption class="wp-element-caption"><strong>Carlos Monteiro</strong>, fundador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde – Nupens/USP. Créditos: Kio Lima/Abrascão</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A NOVA tem caráter subversivo, defende Monteiro, porque “aponta com o dedo para quem é o responsável por essa epidemia” – o grande capital. Sua hipótese foi testada por dezenas de cientistas mundo afora que comprovam os malefícios do aumento do consumo de ultraprocessados. Hoje, a classificação de alimentos criada pelo grupo de pesquisadores do Nupens já inspirou as diretrizes de 15 países – tão diversos quanto a França e a Malásia ­– e influenciou políticas regulatórias por toda a América Latina. O próprio modelo de perfil de nutrientes elaborado pela Organização Pan-americana da Saúde (Opas) baseou-se na NOVA.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fala de Carlos Monteiro traçou um panorama de sua trajetória acadêmica, e merece ser<a href="https://www.youtube.com/watch?v=1NAuW7o0RIs">&nbsp;assistida por completo</a>. Vale destacar sua primeira experiência, quando desenvolveu a dissertação de mestrado em 1975, no departamento de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da USP. O epidemiologista fez um levantamento nutricional nos bairros onde fazia residência médica, no Vale do Ribeira ­– região pobre do sul do estado de São Paulo. Seu grande achado: as crianças de famílias que tinham uma porção de terra para plantar, por menor que fosse, eram muito menos afetadas pela desnutrição que aquelas sem posse. “A recomendação da dissertação era a reforma agrária”, brinca, lembrando que aquele era um período de intensa perseguição da ditadura militar no Brasil.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como resposta, políticas públicas</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Falando nos militares… Após a apresentação de Monteiro, o mediador Reinaldo Guimarães passou a palavra para a ex-ministra Nísia Trindade, lembrando: as grandes descobertas da ciência brasileira não são efetivas se não houver quem as escute no poder público. “Imagine se Carlos Monteiro ou Mauricio Barreto tivessem que lidar com um general Pazuello para implementar suas descobertas”, provocou, recordando o desmonte do Ministério da Saúde no governo Bolsonaro. Nísia, ela própria uma renomada pesquisadora, comandou a reconstrução da pasta com os ouvidos atentos aos cientistas e contribuiu para melhorar os indicadores da saúde dos brasileiros em seus pouco mais de dois anos no ministério.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://lojahucitec.com.br/"><img decoding="async" src="https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/08/HUCITEC-basaglia3.png" alt=""/></a></figure>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/12/251203-nisia.jpg" alt="" class="wp-image-3117367"/><figcaption class="wp-element-caption"><strong>Nísia Trindade</strong>, ex-ministra da Saúde que comandou a reconstrução da pasta entre 2023 e 2025. Créditos: Kio Lima/Abrascão</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Ela saudou a presença dos dois epidemiologistas: “A ciência do Brasil hoje é referência e os trabalhos de vocês têm muito a ver com isso. Isso vai além de publicações em periódicos – embora sejam muito importantes. Esse trabalho influencia a construção de políticas públicas”. Ao traçar um panorama das ações de sua gestão à frente da saúde, frisou: “Para que haja consequência no que estamos falando, é importante o investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação” – e destacou o “papel de indução do Ministério da Saúde, indução que não se faz de gabinete, mas na escuta e diálogo feitos com comunidade científica e ouvindo os problemas da sociedade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Outra Saúde / Créditos: Kio Lima/Abrascão</p>



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<iframe title="NOVEMBRO AZUL: MÊS MUDIAL DE COMBATE AO CÂNCER DE PRÓSTATA" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/2axkOlm19WQ?start=1194&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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		<title>14º Abrascão encara os próximos desafios da Saúde Coletiva</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 13:49:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Rômulo Paes de Sousa&#160;em entrevista a&#160;Gabriela Leite Na reta final de 2025, a Saúde Coletiva se prepara para um de seus grandes evento, o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, carinhosamente conhecido como Abrascão. Trata-se não apenas do maior evento científico da área, mas de um encontro com histórica força política. Sua trajetória está intrinsecamente [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph"><strong>Rômulo Paes de Sousa&nbsp;</strong>em entrevista a&nbsp;<strong>Gabriela Leite</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na reta final de 2025, a Saúde Coletiva se prepara para um de seus grandes evento,  o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, carinhosamente conhecido como Abrascão. Trata-se não apenas do maior evento científico da área, mas de um encontro com histórica força política. Sua trajetória está intrinsecamente ligada à luta pela democracia e pela saúde pública no país: a primeira edição aconteceu em 1986, meses após a 8ª Conferência Nacional de Saúde – que desenhou o projeto do SUS –, fruto do mesmo movimento da Reforma Sanitária Brasileira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As duas últimas edições do congresso espelharam os momentos mais críticos da política nacional. A penúltima, em&nbsp;<a href="https://outraspalavras.net/videos/sus-hora-de-resistir-e-reinventar/">julho de 2018</a>, ocorreu durante o governo de Michel Temer, em um contexto pós-golpe marcado pelo desmonte de políticas públicas. O evento serviu como um importante registro dos retrocessos na área da Saúde e um espaço para repensar a resistência social. Já&nbsp;<a href="https://outraspalavras.net/outrasaude/comecou-o-abrascao-2022-reconstrucao-da-saude-e-foco-da-abertura/">em 2022</a>, o clima, realizado no rescaldo das eleições, era radicalmente oposto: de celebração pela derrota de Jair Bolsonaro e de forte expectativa pela reconstrução do país – começando pela saúde pública e pelo SUS.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o que esperar do Abrascão de 2025? O tema oficial já oferece as primeiras pistas:&nbsp;<em>Democracia, equidade e justiça climática: a saúde e o enfrentamento dos desafios do século XXI</em>. Em entrevista ao&nbsp;<strong><em>Outra Saúde</em></strong>, o presidente da Abrasco,&nbsp;<strong>Rômulo Paes de Sousa</strong>, reforçou o peso dessa escolha. “A democracia está em questão. Por isso, é muito importante colocarmos este tema como fundamental para o Brasil e para o mundo – porque a segunda parte dessa consigna do Congresso são justamente os desafios do século XXI”, afirmou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O terceiro eixo, a justiça climática, ganha contornos de urgência no Abrascão 2025, especialmente após a COP30, sediada em Belém. Rômulo defende que a atenção ao tema já é inevitável. “A percepção é de que fenômenos planetários causam uma alteração profunda no perfil epidemiológico, por causa de várias implicações em termos da modificação do meio ambiente como consequência da mudança climática”. O presidente da Abrasco reforça que a crise climática é um divisor de águas sanitário, cujos impactos, alerta, recaem com mais força sobre os mesmos grupos sociais historicamente vulnerabilizados, criando uma ligação direta com o segundo pilar do evento: a equidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse ponto que os temas se fundem. Rômulo detalha como a equidade deixa de ser um conceito abstrato para se tornar uma resposta necessária à dupla carga de injustiça – social e ambiental. “A questão da equidade está vinculada ao tema da democracia e também à própria constituição do que seja a Saúde Coletiva. Quer dizer, um dos aspectos fundantes da Saúde Coletiva é a promoção da equidade”, explicou. Para ele, o objetivo deve ser uma democracia que vá além da formalidade e promova oportunidades de forma “adequada”, o que significa compensar ativamente os déficits históricos que puniram estruturalmente populações negras, indígenas, periféricas e outras minorias no Brasil. Neste contexto, a justiça climática também se ergue como uma bandeira pela equidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O 14º Abrascão será realizado no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília, de 29 de novembro a 3 de dezembro de 2025 – o pré-Congresso acontece nos dias 28 e 29. O evento, que bateu recorde de inscrições com quase 10 mil resumos submetidos, contará com a presença de autoridades como o ministro da Saúde Alexandre Padilha, a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos Esther Dweck, deputados federais e representantes de organismos internacionais como a OPAS e o Banco Mundial. A programação inclui grandes debates, mesas-redondas e oficinas –&nbsp;<a href="https://zandaeventos.com.br/saudecoletiva2025/">confira a programação completa no site oficial</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A redação de&nbsp;<strong><em>Outra Saúde&nbsp;</em></strong>já está em Brasília e se prepara para fazer a cobertura do evento. Nas quatro próximas edições do boletim, destacaremos algumas das principais atividades do Abrascão. Acompanhe!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fique com a entrevista completa.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/11/251128-romulo.jpg" alt="" class="wp-image-3117153"/><figcaption class="wp-element-caption">Rômulo Paes de Souza, presidente da Abrasco</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Gostaria que você começasse falando do tema&nbsp;</strong><strong><em>Democracia, Equidade e Justiça Climática</em></strong><strong>.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O surgimento da Saúde Coletiva, enquanto um campo de conhecimento e prática profissional, se confunde com o próprio surgimento do SUS. Esse campo vai se constituindo e logo depois começa a contribuir para a constituição do sistema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós temos três fundamentos que marcam o surgimento tanto da saúde coletiva quanto do SUS. O primeiro é a&nbsp;<strong>luta democrática</strong>. A luta democrática aparece como a forma de organização política e social em que a sociedade brasileira poderia resolver os seus conflitos e produzir consensos e convergências em relação a determinados temas do seu interesse. Esse é um aspecto marcante do surgimento dessas duas construções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo é a&nbsp;<strong>referência técnica</strong>. A referência é baseada, sobretudo, na Conferência de Alma-Ata e na ideia de um sistema com as características que o SUS veio a se converter posteriormente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o terceiro é, do ponto de vista filosófico, ter como referência a&nbsp;<strong>ciência ou o conhecimento científico</strong>&nbsp;– não a única –, para o processo decisório e alocatório em termos de políticas públicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses três elementos, que estão na raiz dessas duas instituições, hoje estão em questão. O primeiro é a democracia. Existe um conflito que ocorre em países tradicionalmente democráticos. E uma tônica comum dessa crítica é substituir a possibilidade de resolver os conflitos a partir da democracia para a resolução dos conflitos pela eliminação do contrário. A expulsão dos imigrantes, o silenciamento dos divergentes, ou até a eliminação física das figuras políticas centrais, digamos assim, em um processo de uma disputa mais intensa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, a democracia está em questão. Por isso, é muito importante que nós coloquemos este tema como fundamental para o Brasil e para o mundo, porque a segunda parte dessa consigna são justamente os desafios do século XXI.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão da equidade também aparece ligada a esse tema, porque é uma questão fundamental na democracia – ela ser não apenas uma democracia formal, mas uma democracia que promova as oportunidades de maneira adequada. Significa não apenas termos um processo de promoção da igualdade, mas também uma forma de compensar déficits históricos que puniram de uma forma estrutural vários grupos sociais no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão da equidade está vinculada ao tema da democracia e também à própria constituição do que é a Saúde Coletiva. Quer dizer, um dos aspectos fundantes da Saúde Coletiva é a promoção da equidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, a justiça climática aparece de uma forma mais contemporânea, onde a dimensão ambiental passa a ser melhor observada na saúde coletiva. Ainda há uma grande discussão entre nós sobre o quanto isso, por exemplo, modificará os modelos teóricos. Mas, de qualquer forma, há uma atenção muito grande nessa questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em relação ao que envolve a dimensão ambiental, a questão política é justamente a percepção de que fenômenos planetários têm uma alteração profunda no perfil epidemiológico, por causa de várias implicações em termos da modificação do meio ambiente como consequência da mudança climática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há também um aspecto importante: os efeitos das mudanças climáticas não se darão de uma forma imediata para todos, de maneira igual. Na verdade, aqueles que já vivenciam esses déficits históricos que eu me referi terão um sofrimento imediato muito maior. Então, é importante que a gente conectasse também esse aspecto ao nosso Congresso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Pensando nas últimas edições do Abrascão: há três anos, em 2022, o presidente Lula havia acabado de ser eleito – era um momento de celebração mas também de reconstrução após a pandemia, com o fim do governo Bolsonaro. O que foi construído desde então e como você acha que o Abrascão 2025 se encaixa nessa linha do tempo da política brasileira?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos fazer um balanço das várias mudanças que ocorreram recentemente. Podemos ver que os ciclos históricos, que eram mais prolongados no passado, agora estão mais acelerados. Há mudanças drásticas acontecendo de uma forma intensa em períodos muito curtos. Essa é uma primeira questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma segunda questão é o quão frágeis são esses fundamentos que nos constituem. Democracia, por exemplo. Nós temos uma democracia funcional, mas outros países têm apresentado uma disfuncionalidade surpreendente, como, por exemplo, os próprios Estados Unidos. Isso coloca para nós um desafio muito importante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda que, por exemplo, Trump venha a passar e que a direita tenha muitas dificuldades de apresentar uma alternativa competitiva para as eleições do ano que vem, todos estes comportamentos, atitudes e pensamentos que fundamentam essa ação extremista continuará. A ultradireita permanecerá como desafio, ainda que nós tenhamos um resultado eleitoral mais favorável à democracia, mais favorável à ciência, mais favorável à equidade. Mas o país continua sob ameaça daqueles que são contra a democracia, contra a equidade e anticiência. Esse curto período de três anos é um exemplo excepcional disso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também, como contraponto a essa fragilidade, é possível também ver a resiliência. O SUS sobreviveu, apesar de uma gestão inepta e, em relação à pandemia, criminosa. As instituições do ensino superior, a pós-graduação no Brasil, o serviço público brasileiro sobreviveu, apesar dos ataques que sofreu. Não houve só incompetência – esse era um elemento constante no modelo de gestão que foi adotado –, mas também uma politização perversa contra os adversários, aqueles que divergiam da agenda política oficial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De uma certa forma, podemos olhar o Brasil e os Estados Unidos como espelhos um do outro, por causa dos tempos políticos lá e cá. Agora, passados esses três anos de retorno à normalidade democrática e retorno à funcionalidade do serviço público, nós vemos com horror e perplexidade o que está acontecendo nos Estados Unidos. Pois sabemos que esse tipo de ameaça pode de novo acontecer no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que me surpreende, nessa história toda, é o quanto há uma convivência impressionante das elites brasileiras, ou parte delas, com a inépcia, com a irresponsabilidade fiscal – inclusive apesar de uma agenda macroeconômica que foi sempre apregoada quanto padrão ouro da gestão econômica no Brasil. Quer dizer, isso tudo foi rifado no governo Bolsonaro, e, mesmo assim, as elites continuam com essa adesão a um projeto que, se for vitorioso, vai repetir o mesmo fiasco que acometeu o governo anterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Você pode falar mais sobre os Grandes Debates – realizados em todos os dias do Congresso, no grande auditório [<a href="https://abrasco.org.br/14o-abrascao-confira-os-destaques-da-programacao-cientifica/">saiba mais</a>] – programados para o Abrascão?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia é que os grandes debates precisam espelhar a consigna do Congresso, mas também os grandes temas de interesse da nossa comunidade. O primeiro, “A Saúde e os desafios do Século 21”, é muito coincidente com o tema, aponta para a questão dos desafios. Inclusive, terá a presença do Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para nos ajudar a refletir em que ponto estamos em termos do SUS. E deverá ser um debate crítico, porque quem dialogará com ele será o professor Janilson Paim (UFBA), que é um dos mais importantes pesquisadores da área de saúde pública no Brasil e que tem tido&nbsp;<a href="https://outraspalavras.net/outrasaude/o-sus-que-esta-ai-e-uma-caricatura/">uma leitura muito crítica</a>&nbsp;desse momento que nós vivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, é um debate para classificar os desafios e as alternativas que estão sendo produzidas, para enfrentá-los e apontar caminhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo debate, “A democracia em transe: debatendo as crises dos regimes democráticos no ocidente”, trata justamente da democracia e o quanto ela está ameaçada. Nós temos uma tarefa histórica importante de compreender os seus limites, e vermos como as sociedades podem reagir a essa fragilização desse modelo político.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No terceiro, “Racismo Ambiental e Justiça Climática: a Luta dos Territórios pela Vida”, nós vamos tratar da questão climática, da questão ambiental, e temos a presença de lideranças importantes, inclusive do ponto de vista internacional. Temos, por exemplo, a presidente da Federação Mundial das Associações de Saúde Pública (WFPHA), Emma Rawson-Te Patu, da Nova Zelândia, que é uma liderança indígena muito importante e liderou vários relatórios sobre saúde indígena no mundo. Esse debate deve refletir como a dimensão ambiental ganha nesse Congresso um destaque maior em comparação aos anteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O quarto debate, “Novas perspectivas de estudos e intervenções em Saúde Coletiva”, trata das contribuições recentes que o Brasil tem dado para a ciência mundial a partir da Saúde Coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil tem duas experiências importantes nesse sentido. Uma é liderada por Carlos Augusto Monteiro, que trata principalmente da situação nutricional e segurança alimentar. Ele tem sido uma referência fundamental para a Organização Mundial da Saúde, influenciando enormemente, inclusive, o próprio mercado de alimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma outra experiência magnífica vem da Fiocruz da Bahia, o Cidacs (Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde), onde o professor Maurício Barreto lidera um projeto importantíssimo de utilização de grandes bases de dados, de&nbsp;<em>big data</em>, para avaliação de políticas públicas, sobretudo na saúde, mas não só. Mais recentemente, inclusive, eles têm crescido muito o estudo dessa relação saúde-clima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há inovação muito importante em vários pontos do sistema microbiológico e também muitos achados em termos de saúde muito inovadores, não só para o Brasil. E teremos também a ex-ministra da Saúde Nísia Trindade, que vai mostrar a conexão dessas grandes contribuições da Saúde Coletiva na saúde pública. Ninguém melhor que ela, que acaba de ter uma experiência muito importante, muito marcante no Ministério da Saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, o último debate será “Violência armada, uma ameaça à democracia, à equidade e à saúde”. A violência geralmente é tratada principalmente como um tema urbano, da agressão em larga escala e muito intensa sobre determinados grupos populacionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso vai ser mostrado tanto por Daniel Cerqueira, pesquisador e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele vai nos apresentar o mapa da violência no Brasil, e mostrar como essa violência está colocada. Ao seu lado estará Jacqueline Muniz, pesquisadora e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), que tem sido uma das vozes mais sofisticadas para analisar o fenômeno da violência, sobretudo do Rio de Janeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para além deles, nós traremos uma convidada do México, que é Amaranta Gómez Regalado, uma liderança indígena e professora da Universidad Veracruzana, que tem feito uma reflexão sobre as violências cotidianas nessas grandes questões estruturais, que envolvem migrantes, indígenas, pessoas trans, pessoas com deficiência. Ela vai nos trazer uma dimensão mais cotidiana da violência, que de uma certa forma naturaliza essa violência mais intensa em larga escala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Outra Saúde / Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil<br></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="PANORAMA DA ATUALIDADE NO MUNICÍPIO DE IPIRÁ" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/F6izJQDNUqo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Jaime Breilh: Saúde não rima com Capital</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Oct 2025 13:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
		<category><![CDATA[Jaime Breilh]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Coletiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Gabriel Brito e Gabriela Leite Um grande epidemiologista latino-americano sustenta: Ciências estão cegas por um cartesianismo que só permite enxergar fragmentos da realidade. Pandemia foi a prova dos nove. Mas para reagir, é preciso superar as lógicas do lucro e do individualismo Pensar o mundo em uma nova chave crítica. Essa é a grande mensagem [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Por Gabriel Brito e Gabriela Leite</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um grande epidemiologista latino-americano sustenta: Ciências estão cegas por um cartesianismo que só permite enxergar fragmentos da realidade. Pandemia foi a prova dos nove. Mas para reagir, é preciso superar as lógicas do lucro e do individualismo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensar o mundo em uma nova chave crítica. Essa é a grande mensagem do equatoriano Jaime Breilh, médico e referência histórica do campo da Saúde Coletiva. Em sua passagem pelo Brasil, este pensador da medicina social apresentou seus estudos epidemiológicos a partir de uma perspectiva crítica, o que significa entender a saúde como processo social — muito mais amplo do que o mero direito a serviços.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo suas reflexões, ao se deixarem dominar pela lógica reprodutiva capitalista, as ciências se tornaram convenientemente cartesianas. Aparentemente centradas numa lógica de eficiência e praticidade, na realidade os diversos campos de conhecimentos tornam-se compartimentados, o que Breilh considera uma alienação proposital.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A ciência cartesiana está acostumada a trabalhar na ponta do iceberg. O que é saúde para essa ciência cartesiana? É tratar as pessoas quando ficam doentes. Mas o processo de adoecimento não vem ao acaso. Tem uma determinação social, atinge mais duramente certos grupos e classes sociais”, explicou em entrevista ao&nbsp;<em>Outra Saúde</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sua passagem pelo Brasil se deveu à participação no Simcol 2025, o Simpósio Discente da Pós-Graduação em Saúde Coletiva, promovido na Faculdade de Medicina da USP. Na ocasião, ele, que foi reitor da Universidade Andina Simon Bolívar, aproveitou para lançar seu livro&nbsp;<em>Epidemiologia crítica e a saúde dos povos – ciência ética e corajosa em uma civilização doentia</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se queremos entender as doenças que vêm por toxicidade, não podemos só receber pacientes e resolver tudo no hospital. Se sabemos que na agroindústria há um uso maciço de químicos, os trabalhadores estão expostos, há um uso descomunal de agrotóxicos, que estão nos alimentos e chegam ao consumidor urbano, devemos agir em outras frentes”, disse, ao explicar a forma de raciocínio crítico que propõe.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2025/10/image-17.png" alt="" class="wp-image-3115805"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Sua obra é uma crítica implacável do capitalismo, metabolismo social que tem destruído culturas e saberes por todo o mundo, o que significa o que muitos chamam de “epistemicídio”. Isto é, mata-se formas de pensar não submissas ao lucro, o que atinge fortemente os campos científicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Breilh convoca a universidade a retomar seu compromisso ético em favor da humanidade e, sem cerimônia, uma politização da atividade científica. Para ele, tal atitude é urgente frente a um mundo que derrete a olhos vistos enquanto aliena e afasta as pessoas da ação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A ciência cartesiana faz um bom negócio. Ela considera que deve estudar as pessoas doentes. Faz modelos matemáticos muito sofisticados sobre a ponta do iceberg. E diz quais medicamentos e tratamentos levam à cura. Prescreve uma forma de prevenção, mas há uma manipulação desta prevenção. Até as vacinas seguem tal lógica. A pandemia foi uma escandalosa mostra”, refletiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua visão, o capitalismo a partir da centralidade das big techs e apropriação de praticamente todo o conhecimento gerado pela humanidade entram num novo estágio de agressividade. Mesmo sob boas intenções, nem estados e governos conseguem se defender de sua força, menos ainda pessoas comuns afundadas na rotina imposta pelo sistema socioeconômico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Há uma força que nos induz a um individualismo muito forte. A juventude não quer nem ter filhos agora. Pode ter dois cachorros, três gatos, mas não pode ter um filho. Por quê? É muita responsabilidade, que não se quer assumir. Isso é um signo do tempo. Preocupante. Porque indica uma noção de que quem tem filhos não pode ter uma boa vida. O princípio é: ‘tenho que fazer minha carreira’. Até os relacionamentos afetivos se tornaram reflexo disso”, lamentou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jaime Breilh faz um chamado à ação das comunidades científicas, pois simplesmente “não há mais sentido em viver assim”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Seu livro reivindica a Epidemiologia como uma ciência crítica. Como dito na própria obra, aplica uma ideia, trazida ao Brasil por Naomar Almeida Filho, segundo a qual este campo do saber passou, após a pandemia, “de ciência tímida à ciência crítica”. O que isso significa em termos práticos?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É um grande dilema, pois pressiona as universidades, o pensamento e cria um modelo de ensino que capacita as juventudes para um pensamento do poder, que é linear. A epidemiologia é uma ciência valente, uma universidade deve enfrentar a realidade complexa e definir com soberania o que são as necessidades de uma população. E precisamos da universidade em suas diferentes especialidades para cumprir o papel que lhe foi dado em pelas sociedades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema é que até os organismos de cooperação internacional estão num outro tempo histórico; foram criados na década dos 40 do século passado, que representavam Estados e governos. Este tempo acabou. Porque os pressupostos das entidades de cooperação internacional estão completamente controlados por grandes empresas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo onde há filantropia, não é ingênua. É uma filantropia que busca condicionar tudo, inclusive as universidades, os jornais, as publicações. Ela define o que se apoia, não se apoia, se proíbe ou persegue.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Outra ideia fortemente defendida por você diz respeito aos limites da “ciência cartesiana” e suas conclusões lógicas que ignorariam condições históricas em seus objetos e locais de aplicação. Como superar essa ciência cartesiana, chamada explicitamente de “bolha” em sua elaboração?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos nadando contra a corrente. Porque todos os impulsos econômicos estão indo em outra direção. Assim, a ciência cartesiana está acostumada a trabalhar na ponta do iceberg. O que é saúde para essa ciência cartesiana? É tratar as pessoas quando ficam doentes. Mas o processo de adoecimento não vem ao acaso. Tem uma determinação social, atinge mais duramente certos grupos e classes sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, vejo que a ciência cartesiana faz um bom negócio. Ela considera que deve estudar as pessoas doentes. Faz modelos matemáticos muito sofisticados sobre a ponta do iceberg. E diz quais medicamentos e tratamentos levam à cura. Prescreve uma forma de prevenção, mas há uma manipulação desta prevenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até as vacinas seguem tal lógica. A pandemia foi uma escandalosa mostra. A crise sanitária acabou por se tornar o grande negócio das vacinas e dos antivirais, em lugar de uma inversão integral de tudo que deveria ser feito para se evitar os contágios. Ou se evitar as próximas pandemias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como um processo sociológico, ou social, é uma luta que reflete a pressão de interesses muito fortes. Agora, intensifica-se tal lógica com a entrada em cena da inteligência artificial, da saúde digital e cibernética. A ameaça ficou ainda maior. Porque Big Data significa também uma grande pressão e capacidade de definir a realidade. E quem são os donos dessa informação? A população, os nossos países?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem mesmo nossos governos controlam isso. Os governos têm de defender-se, inclusive um país grande como o Brasil, que, por sorte, tem um governo que já colocou algumas condições. Mas isso não está acontecendo no resto do mundo e mesmo o Brasil não pode lidar com toda a enorme pressão. É uma etapa da humanidade muito complexa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, cabe ponderar que no discurso cotidiano de governos (mesmo progressistas) e da cidadania comum, o direito à saúde aparece como direito a serviços de saúde. Além disso, não podemos ignorar que seus resultados são mais rapidamente observáveis, o que influencia toda a agenda política e administrativa do setor. Como atrelar a discussão aqui posta aos temas mais imediatos desta área da vida social?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós precisamos entender as razões fundamentais, definir o espaço e o território da ação e da gestão. A cura é importante. Os hospitais são fundamentais. Tudo o que se faz nos centros de saúde e no SUS é absolutamente importante. Mas não é tudo. Por exemplo, se queremos entender as doenças que vêm por toxicidade, não podemos só receber pacientes e resolver tudo no hospital. Se sabemos que na agroindústria há um uso massivo de químicos, os trabalhadores estão expostos, há um uso descomunal de agrotóxicos, que estão nos alimentos e chegam ao consumidor urbano, devemos agir em outras frentes. Isto é um exemplo de determinação social da saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas como agimos? Tratamos como assunto de um ministério, seja o Saúde, da Agricultura ou do Meio Ambiente. Ou seja, não existe, e nunca existiu, uma política clara e integral de saúde, pois esta ainda é pensada em termos de hospitais, clínicas, terapêutica, tratamento… Fica-se preso à lógica dos negócios, tanto na área que vende os alimentos como nas que vendem os remédios e demais serviços de tratamentos de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, fizemos um estudo em uma zona produtora de bananas no Equador, o maior produtor mundial desta fruta. Podemos produzir bananas dentro de um modelo agroecológico ou com uso intensivo de venenos – algo muitas vezes imposto ao produtor, diga-se. Observamos as coisas e fizemos descobertas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas bananas produz uma unidade agroecológica e uma grande empresa exportadora? Digamos que uma produzia 20 caixas de banana por hectare ao mês, e a outra 60. A segunda é vista como superior. Mas encheu os ecossistemas de venenos, que atingem o ser humano. E quem paga esses danos? Se fazemos uma conta das externalidades de ambos os modelos produtivos, vemos que o modelo agroecológico, que produz quantidade menor, é superior. Mas não há esse parâmetro. Há uma narrativa de que temos de ser produtivos, competir, sempre sob o argumento de que o lucro de poucos é o bem do próprio país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos de reconstruir a lógica de como se constroem e se pensam as políticas, tanto no Estado, no âmbito público, como nas universidades, quando definem seus programas, suas cátedras, suas disciplinas e o que fazem com o conhecimento ali gerado.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que é Saúde Coletiva neste século 21, com a interação de diversas crises, em especial a climática? É possível falar em Saúde Coletiva sem explicitamente colocar o capitalismo como objeto central de sua crítica?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, o capitalismo é o nome da sociedade em que vivemos. É capitalismo por quê? Porque a reprodução social do Brasil ou do Equador ou de qualquer país capitalista se faz sob a acumulação de capital, que define tudo. Da economia à cultura, define tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, o capitalismo atual é muito agressivo, nem é só neoliberal, é um erro chamá-lo atualmente de neoliberalismo, como se estivéssemos no século anterior. Neste momento estamos falando de um capitalismo muito agressivo, acelerado, altamente tecnológico, em associação com um grupo de donos de todas as empresas, das gigantes que controlam o Big Data.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui, Big Data significa o conhecimento, praticamente toda a informação da humanidade, apropriada como serviço por alguns que fazem trilhões de dólares. Esse é o capitalismo atual, que cria e reproduz todos os dias desigualdade, mais problemas, mais concentração e, assim, mais exclusão e migração. O mundo está enlouquecido com a migração. Já não sabe o que fazer com o fenômeno. Mas a migração é gerada pelo próprio sistema. É uma sociedade muito violenta, muito injusta e cada dia pior.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É aqui que entra a “mudança epistemológica” que você defende?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas que não estudam isso não se dão conta de como podem ir ao shopping center, jogar tênis ou fazer suas aulas. Não refletem porque seguem indo ao shopping, onde estão todos os produtos que compram. Só querem ir ao Starbucks e pegar café. É o mundo dito normal. Mas está caindo aos pedaços. E aqueles que estudam a problemática se dão conta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso dizemos que temos que ser valentes para parar tamanha loucura. Isso é consciência. E as universidades têm de ajudar os jovens. Sempre foi dito que a juventude é a esperança dos povos, porque dela virão as novas ideias. Tudo bem. Mas o que acontece com a cultura hegemônica da juventude? Há uma força que nos induz a um individualismo muito forte. A juventude não quer nem ter filhos agora. Pode ter dois cachorros, três gatos, mas não pode ter um filho. Por quê? É muita responsabilidade, que não se quer assumir. Isso é um signo do tempo. Preocupante. Porque indica uma noção de que quem tem filhos não pode ter uma boa vida. O princípio é: “tenho que fazer minha carreira”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até os relacionamentos afetivos se tornaram reflexo disso. “Você tem sua vida e eu a minha. Eu tenho meus negócios, você os seus. É o seu mundo, é o meu. Quando quisermos, damos um beijo, fazemos algo bonito, uma viagem. Se não, tchau”. Quando eu penso nisso, dentro de minha perspectiva de vida, digo: que pena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perdemos uma parte enorme e grandiosa da vida e a humanidade entra em crise. Porque a juventude, ao assimilar esta maneira de viver, estará apenas a serviço de empresas. Não há vida pública, ficam todos no teletrabalho, ganha-se o dinheiro, mas não se vê o mundo. Essa será nossa cultura?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Que papel a saúde coletiva pode desempenhar neste cenário?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O papel é estudar o que está acontecendo, investigar, tentar promover consciência e induzir a juventude a uma mudança. Quando as autoridades de uma instituição educativa têm consciência e geram um movimento interno, a juventude capta, porque existe tal sensibilidade, um princípio ético (que depois se perde dentro da lógica de mundo aqui criticada).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem várias possibilidades de se fazer a juventude aprender a gostar e amar seu país, seu lugar no mundo. Por que ainda pensamos que o melhor está no Norte? Isso para uma cultura, um país, uma sociedade, é terrível. Prevalece a ideia de uma dependência geral, cultural, política etc. Assim, ditam de fora o que devemos fazer. Não há mais sentido em viver assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Outra Saúde / Foto: Reprodução</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><br></p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/jaime-breilh-saude-nao-rima-com-capital/">Jaime Breilh: Saúde não rima com Capital</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Saúde Coletiva para conduzir a reconstrução do SUS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Nov 2023 15:45:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Coletiva]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Gabriel Brito Congresso realizado em Recife, na semana passada, reuniu pesquisadores desta área em que o Brasil é pioneiro. Em debate, a necessidade de que cientistas sociais ajudem a pensar políticas de Saúde – inclusive para combater as práticas neocoliniais Rosana Onocko Campos&#160;em entrevista a&#160;Gabriel Brito Foi realizado, em Recife, o 9º Congresso Brasileiro de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Por <a href="https://outraspalavras.net/author/gabrielbrito/">Gabriel Brito</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Congresso realizado em Recife, na semana passada, reuniu pesquisadores desta área em que o Brasil é pioneiro. Em debate, a necessidade de que cientistas sociais ajudem a pensar políticas de Saúde – inclusive para combater as práticas neocoliniais</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Rosana Onocko Campos</strong>&nbsp;em entrevista a&nbsp;<strong>Gabriel Brito</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi realizado, em Recife, o 9º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas (CBCSH), encontro de estudiosos e pesquisadores da Saúde Coletiva. Trata-se de um campo da sociologia no qual o Brasil é pioneiro, cujas elaborações vêm do final da década de 1970, a partir da conexão entre epidemiologistas, cientistas sociais e políticos, em meio às lutas contra a ditadura militar e elaboração de um modelo de saúde que daria origem à chamada Reforma Sanitária. O SUS foi construído nesse contexto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com as últimas três décadas de neoliberalismo e agenda de Estado mínimo, a importância da Saúde Coletiva na concepção do modelo de saúde brasileiro ficou ofuscada. Agora, como explica&nbsp;<strong>Rosana Onocko Campos</strong>, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), organizadora do encontro, a especialidade pede por mais inserção dentro do sistema público de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Precisamente, estamos dizendo que os cientistas sociais precisam entrar em campo, reivindicando mais inserções práticas de trabalho no próprio sistema, nas equipes multiprofissionais, no desenho do SUS”, resumiu Rosana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a socióloga Nísia Trindade na chefia do Ministério da Saúde, o Congresso não poderia deixar de refletir uma mudança de época na compreensão da saúde pública do país. O tema do evento, “Emancipação e Saúde: decolonialidade, reparação e reconstrução crítica”, é eloquente a respeito desta necessária mudança. O contexto político brasileiro, ainda bastante tensionado pelo avanço ultraconservador e ainda com marcas causadas pela pandemia, traz muitos percalços ao mesmo tempo em que mostra a necessidade da mudança de perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Agora, com a pandemia, todo mundo começou a falar em&nbsp;<em>sindemia</em>, um termo que veio de fora. São os gringos descobrindo o que chamamos ‘determinantes sociais de saúde’ desde os anos 1970. Sempre soubemos que toda epidemia era diferente uma da outra, que uma epidemia em um local é diferente de ouro. Olha que interessante: a saúde pública mundial do Norte, vou chamar assim, descobriu na pandemia da covid o conceito de sindemia. Logo alguns brasileiros, sobretudo do campo médico, mas não só, até dentro da própria saúde coletiva, saíram falando de sindemia como se fosse um conceito novo. E não é. É um nome estrangeiro para o que sempre soubemos”, ironizou Rosana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o que seria, afinal, um modelo decolonial de saúde? Talvez o conceito seja mais fácil de compreender do que se sugere. “[O modelo colonial] se dá, por exemplo, a partir da prevalência do modelo médico hegemônico, da biomedicina, concentrado em prescrever o que as pessoas devem fazer. A saúde pública, e não a Saúde Coletiva, é mestra em prescrever estilos de vida. Estamos falando de ser decoloniais nesse sentido de sair da posição prescritiva, de que supostamente sabemos fazer bem para os outros, e falamos de construir posições mais dialógicas, de proximidade, estar em contato com o outro e se abrir à diferença de maneiras de estar no mundo”, sintetizou Rosana, também psicóloga.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na prática, os sociólogos da saúde querem mais espaço dentro do sistema. A presença de Nísia, não à toa ovacionada no congresso, e a reformulação dos Núcleos de Atenção à Saúde da Família, agora transformados em Equipes Multiprofissionais, com a finalidade de aumentar o leque de especialidades da atenção primária, simbolizam o que pode ser uma renovação prática na Saúde Coletiva do país. Como esclarece Rosana, a ideia é “aumentarmos o peso dos cientistas sociais junto ao sistema de saúde e aos equipamentos sociais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto ao primeiro ano de Nísia Trindade Lima à frente do ministério, Rosana Onocko diz que ela e sua equipe fazem um trabalho heroico. “Dito isso, com certeza ainda precisa avançar muito. E aí eu acho que o desafio da gestão do próximo ano vai ser esse, porque houve uma espécie de retomada urgente, e estava correto, mas há o perigo de retornar ao mesmo nível de antes. O SUS precisa de transformações estruturais se não quisermos nos encontrar no final do governo Lula perante os mesmos dilemas que tivemos no final do Lula 2”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confira a entrevista completa com Rosana Onocko.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="720" height="90" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg" alt="" class="wp-image-86857" srcset="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg 720w, https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2023/05/6-300x38.jpg 300w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como resume o 9º Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde? O que o evento reuniu e condensou em suas mesas e trabalhos?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi bem interessante, mostrou a força da renovação e a pujança da área das ciências sociais e humanas aplicadas à saúde. Tivemos mais de 1.700 trabalhos aprovados, o que mostra uma vitalidade muito boa da área no contexto da saúde coletiva brasileira. Mas, sobretudo, destaco a presença de novos temas, de novas agendas, de uma discussão que não dissocia a produção científica da produção de transformações sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Por que ciências sociais em saúde? Qual o percurso histórico desta disciplina do conhecimento?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É muito interessante porque às vezes eu brinco que a Saúde Coletiva é como uma jabuticaba, uma coisa brasileira. Mas agora se espalhou pela América Latina, em muitos outros países se usa o termo Saúde Coletiva. Classicamente, nos anos 1980, 90, estudávamos a partir da noção de saúde pública. E este encontro da Saúde Coletiva com as ciências sociais foi fundamental para produzir a grande força da saúde coletiva brasileira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, com a pandemia, todo mundo começou a falar em&nbsp;<em>sindemia</em>, um termo que veio de fora. O que é o conceito de sindemia? São os gringos descobrindo o que chamamos “determinantes sociais de saúde”. Mas nós estávamos falando disso desde os anos 1970. Sempre soubemos que toda epidemia era diferente uma da outra, sempre soubemos que uma epidemia em um local é diferente de um outro local. Olha que interessante, a saúde pública mundial do Norte, vou chamar assim, descobriu na pandemia da covid o conceito de sindemia. Logo alguns brasileiros, sobretudo do campo médico, mas não só, até dentro da própria saúde coletiva, saíram falando de sindemia como se fosse um conceito novo. E não é um conceito novo. É um nome estrangeiro para o que sempre soubemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio texto histórico do Sergio Arouca,&nbsp;<a href="https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/37787">O dilema preventivista</a>, já questionava a saúde pública tradicional. Ele é um dos primeiros autores a colocar em contato as questões que tinham a ver com a saúde pública e com a prevenção de doenças. É uma tradição muito rica e valiosa da nossa área. Para nós, Saúde Coletiva é um campo de muito, muito valor. A carta também aponta que ao longo dos anos 2000, no começo do século 21, houve um espírito muito quantitativista, inclusive nas avaliações da CAPES, de indução ao produtivismo acadêmico, que de certa forma prejudicou as ciências sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uns 10 anos atrás, se você pegasse todos os pesquisadores da Saúde Coletiva, tínhamos, mais ou menos, um quarto deles focado no planejamento e gestão, um quarto em ciências sociais e outra metade na epidemiologia. E os programas e os cursos tanto de graduação quanto de pós-graduação priorizavam contratar epidemiologistas, porque o fator de avaliação mais preponderante era o número de publicações. No entanto, a lógica e a velocidade de publicação da epidemiologia são diferentes das ciências sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, a carta final do Congresso, de uma certa forma, tensiona o passado recente e chama a atenção para a mudança de cenário e a mudança necessária ao presente do país, a retomada da dimensão da política e das avaliações que sejam mais sensíveis do ponto de vista cultural e social. Isso inclui a necessidade de aumentarmos o peso dos cientistas sociais junto ao sistema de saúde e aos equipamentos sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E existe uma influência histórica das ciências sociais em saúde na concepção do modelo de saúde brasileiro, no SUS?</strong>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O SUS foi desenhado, vamos dizer assim, a partir de visões de outros sistemas de saúde. Dessa forma, isso acontecia praticamente ao mesmo tempo em que o campo chamado Saúde Coletiva se constituía. Mas, naquele momento, a linha teórica prevalente nas ciências sociais em saúde era dos estudos marxistas, às vezes mais gramscianos. Tais influências tiveram a ver com o momento da&nbsp;<a href="https://outraspalavras.net/descolonizacoes/wikifavelas-o-legado-de-sergio-arouca-para-democracia/">8ª Conferência Nacional de Saúde</a>&nbsp;[realizada em 1986 e considerada marco de fundação do SUS] e do que dela acabou indo parar no desenho do sistema de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A carta final fala em políticas públicas de saúde que não reproduzam modelos coloniais de desenvolvimento social. Como seria, em linhas gerais, uma visão de tipo decolonial num sistema de saúde?&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante contextualizar, em especial para nós da saúde coletiva. Como falei na abertura do evento, temos sempre trabalhado com a história do próprio campo, desde o surgimento do campo da Saúde Coletiva, de encontro da saúde pública clássica com as ciências sociais. Portanto, para nós, a presença das ciências sociais é fundante. Não há Saúde Coletiva sem ciências sociais. E, ao longo da história da Saúde Coletiva, houve diferentes correntes que foram tendo mais hegemonia ou prevalência dentro do pensamento social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O título do Congresso “<em>Emancipação e Saúde: Decolonialidade, Reparação e Reconstrução Crítica”,&nbsp;</em>é demonstrativo de um momento específico da história do Brasil, um momento difícil e duro também em termos globais. E o Congresso também colocou tais questões como muito nevrálgicas, muito centrais. Acho que isso produz um certo deslocamento dos cientistas sociais da saúde coletiva, pelo menos apareceu em várias mesas. Na minha fala de abertura, fiz o convite de sermos cientistas sociais que não estão na Torre de Marfim, mas estão ao lado das pessoas, das comunidades, do povo. É uma forma viva de encarar o pensamento teórico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É claro que as ciências sociais sempre contribuíram com reflexões teóricas em seu campo, mas falamos de uma teoria que não se descola de uma prática emancipadora, de uma prática de transformação, de uma prática de combate às desigualdades e aos preconceitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O Congresso também destacou uma marginalidade da sociologia da saúde no Brasil e que esse tipo de profissional poderia fazer parte das equipes multiprofissionais da atenção primária. Quais seriam os ganhos na saúde pública se essa reivindicação da carta fosse assumida pelo Estado brasileiro no seu sistema de saúde?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa, para mim é uma grande e ótima questão que saiu do Congresso porque, precisamente, está dizendo que os cientistas sociais precisam estar em campo, reivindicando, como a Abrasco se comprometeu, com mais inserções práticas de trabalho, diríamos assim, dos cientistas sociais no próprio sistema, nas equipes multiprofissionais, no desenho do SUS.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A saúde coletiva sempre trouxe a ideia de produzir diagnóstico, estudos, a ciência social sempre contribuiu muito, mas eu acho que, de fato, o Congresso conseguiu colocar de uma forma mais contundente a necessidade de estar junto das equipes de saúde, de ter cientistas sociais para ajudar a pensar a realidade e a prática.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E o que seriam práticas neocoloniais em saúde?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, quando o sistema de saúde chega numa comunidade quilombola ou indígena corre-se o risco de reproduzir práticas neocoloniais, isto é, deixar de escutar o que uma comunidade pede. Isso se dá, por exemplo, a partir da prevalência do modelo médico hegemônico, da biomedicina, concentrado em prescrever o que as pessoas devem fazer. A saúde pública, e não a Saúde Coletiva, é mestra em prescrever estilos de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos falando de ser decoloniais nesse sentido de sair da posição prescritiva, de que supostamente sabemos fazer bem para os outros, e falamos de construir posições mais dialógicas, de proximidade, estar em contato com o outro e se abrir à diferença de maneiras de estar no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que coincide com ideias de gestão social e coletiva do sistema de saúde.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Exato. E existem coisas muito interessantes. Temos um campo que cresce muito, o da vigilância popular em saúde, por exemplo. Estamos chamando para fazer juntos os espaços que foram classicamente relegados aos técnicos, especialistas. E podemos sair dos especialismos, ainda que não devamos prescindir de especialistas. Mas trata-se de colocá-los em diálogo com quem precisa do serviço e tem demandas próprias para endereçar ao sistema de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como a presença da Nísia Trindade, ela mesma uma socióloga com especialização em Saúde Coletiva, e atual ministra da Saúde, dialogou com este momento histórico vivido no Congresso</strong>?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi bonito, o momento do encontro da Nísia com o seu povo, sabe? Porque estava cheio de cientistas sociais e ela disse no discurso “eu não sou uma ministra não-médica, sou uma ministra socióloga”. E aí o auditório caiu em palmas, as pessoas não paravam de aplaudir. A figura da Nísia nesse momento e lugar é muito emblemática do momento que vivemos dentro das ciências sociais e humanas em saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E como você avalia seu primeiro ano de ministério na prática? Acredita que essa posição ainda marginal das ciências sociais em saúde começa a se alterar?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vejo um trabalho quase heroico dela e sua equipe. São sementes de um governo que teve de remontar o que estava destruído. Eles encontraram um ministério profundamente sucateado, destruído no seu sistema de informação, destruído no seu corpo técnico, destruído do ponto de vista dos recursos humanos. Ao colocar tudo para funcionar, conseguir mobilizar as questões dos recursos e iniciativas, a exemplo da retomada das vacinas, da retomada das autorizações de algumas medicações, da inserção da saúde no PAC, da retomada do Mais Médicos, agora com uma política de especializações, da criação da ideia das equipes multiprofissionais como reformulação dos Núcleos de Atenção à Saúde da Família (NASF), mostrou-se muita coragem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando o ritmo sempre lento da máquina federal, é um trabalho muito bom que eles fizeram. Dito isso, com certeza ainda precisa avançar muito. E aí eu acho que o desafio da gestão do próximo ano vai ser esse, porque houve uma espécie de retomada urgente, e estava correto, mas há o perigo de retornar ao mesmo nível de antes. O SUS precisa de transformações estruturais se não quisermos nos encontrar no final do governo Lula perante os mesmos dilemas que tivemos no final do Lula 2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos garantir estabilidade e formas de pensar o provimento de recursos humanos, discutir claramente o financiamento da saúde e como esse financiamento, de fato, reforça o caráter público do SUS e não simplesmente aumenta a torneira para que mais serviços privados se apropriem do recurso público. São dois ou três pontos centrais muito estratégicos, que, de fato, vão ser necessários enfrentar. E é bem difícil a conjuntura política, porque quando vemos que algumas transformações têm de ser feitas o panorama não é tão alentador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Outra saúde</p>



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