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		<title>“A cor dessa cidade não sou eu”: o racismo e as contradições do carnaval</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Feb 2023 06:49:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Bahia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Franklim Peixinho[1], parceria Jornalistas Livres, Ciranda e Instituto Hori &#8211; Quinta, 23 de fevereiro de 2023 “Os afoxés, cordões, blocos, escolas de samba, frevos, esses baratos todos que antes eram chamados de “coisa de negros” e por isso mesmo reprimidos hoje fazem parte de um “patrimônio cultural nacional” do qual, é claro, os beneficiários não são os “neguinhos”, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">por <a href="https://www.instagram.com/prof.franklimpeixinho">Franklim Peixinho</a>[1], parceria <a href="https://jornalistaslivres.org/">Jornalistas Livres</a>, <a href="https://www.ciranda.net/">Cirand</a>a e <a href="https://institutohori.org.br/">Instituto Hori</a> &#8211; Quinta, 23 de fevereiro de 2023</p>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>“Os afoxés, cordões, blocos, escolas de samba, frevos, esses baratos todos que antes eram chamados de “coisa de negros” e por isso mesmo reprimidos hoje fazem parte de um “patrimônio cultural nacional” do qual, é claro, os beneficiários não são os “neguinhos”, mas as secretarias e as empresas de turismo” (</em><a href="https://mulherespaz.org.br/site/wp-content/uploads/2021/06/feminismo-afro-latino-americano.pdf"><em>Lélia Gonzalez</em></a><em>, 1982).</em></pre>



<p class="wp-block-paragraph">Por que<a href="https://www.instagram.com/marienedecastro/"> Mariene de Castro,</a> não canta no carnaval de Salvador? Talvez por que  “Santo de Casa não faz milagre” ou ainda por estarem às últimas cotas de participação, ocupadas por “outsiders” da branquitude.  </p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" data-id="70022" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2022/12/Sem-nome-720-×-90-px-1.jpg" alt="" class="wp-image-70022"/></figure>
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<p class="wp-block-paragraph">O carnaval é um espaço de expressão popular da cultura afrobrasileira, que enfrenta a criminosa apropriação do capital branco. Esta tendência colonial de apropriar-se da cultura dos “subalternizados” não é novidade, aliás, fiz algumas observações sobre tal em&nbsp;<a href="http://www.ciranda.net/spip.php?page=article&amp;id_article=10315&amp;lang=pt_br">“Por que o branco é tão marginal?”</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É sintomático que uma mulher negra, como a cantora soteropolitana Mariene de Castro, esteja fora do carnaval baiano. Elas – mulheres negras – trazem maximizada as opressões interseccionais: capital, raça e gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São elas, por exemplo, que constituem a maioria da força do trabalho ambulante no carnaval. Recentemente foram tratadas na base da cacetada e bomba de gás&nbsp; lacrimogênio pela&nbsp; Guarda Municipal &nbsp;de Salvador, em um mais um processo vergonhoso e escancarado de racismo institucional, que, diga-se de passagem, se repete todo ano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, as que não são excluídas, são desumanizadas e precarizadas em sua força de trabalho no carnaval.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Racismo institucional contra ambulantes soteropolitanos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O prefeito Bruno Reis, se intitula negro, de acordo com o TSE, tal como o seu mentor, o Acm “Negro”, herdeiro do carlismo na Bahia.&nbsp; Ambos, são homens brancos que se apropriam de uma identidade racial e, descaradamente, alegam se sentirem negros. Por outro lado, pessoas pretas não podem se sentirem brancas para escaparem do racismo: eis mais uma face do “maravilhoso mundo” do privilégio branco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhadores e trabalhadoras negras soteropolitanas, que tentavam se cadastrar para o trabalho ambulante no carnaval deste ano, foram tratadas de forma desumana, em filas sem qualquer abrigo contra o sol e chuva. Muitas tiveram que dormir dias nas filas, como seus filhos, para brigar por um espaço de trabalho na folia momesca.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Estamos falando de pessoas pretas, mulheres na sua maioria, periféricas&nbsp; e desempregadas.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A precarização e o destrato do trabalho negro é uma herança escravocrata que se perpetua na administração pública do carnaval soteropolitano, e soma-se ao que o artista preto&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/jorgewashingtonr/">Jorge Washington</a>&nbsp;fala sobre a&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/p/CoxyteOJOhP/">gourmetização do carnaval</a>, que se dá com a exclusão da “tia da latinha, da cerveja”, dos trabalhadores negros no período da folia – artistas, ambulantes, catadores…</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A indústria branca do carnaval</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">“As coisas de negros” são um barato, e a sanha exploradora colonial quando enxergou uma oportunidade lucrativa, tratou de se apropriar e criar um mercado para eles… Lucrarem, óbvio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma observação de Lélia Gonzalez que segue atual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E como se dá esse processo? Por diversas formas. Vejamos algumas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Axé Music é um exemplo disso. As vozes negras femininas, principalmente, foram as preteridas no mercado da música baiana, para cantoras brancas, tais como a “nega loira”.&nbsp; &nbsp;A produção cultural negra é base da música baiana, seja nas composições e estrutura percussiva, contudo, há uma preferência por artistas brancos no comando de bandas e blocos de carnaval. Eles definem quem canta, quem toca e apagam a presença negra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A exclusão racial também se dá em relação ao público consumidor, pois os blocos soteropolitanos na década de 1990, selecionavam racialmente –&nbsp; em um processo velado –&nbsp; pessoas brancas, de modo que dificilmente uma pessoa negra e periférica saía nas agremiações de “gente bonita”<strong>*</strong>. Isso diminuiu depois de várias denúncias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se dizer que semelhantemente há algo com as escolhas de passistas “gringas” nas escolas de samba no eixo Rio/São Paulo, ao invés das mulheres negras da comunidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Blocos afros, principalmente os pequenos, são desprestigiados na transmissão das mídias, e perdem espaços para “sertanejos” e demais artistas brancos de outros gêneros, fora do contexto da música baiana. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estes – os outsiders – garantem a maioria dos patrocínios e exposição nos canais de comunicação, quando da transmissão do carnaval. Os blocos de preto desfilam lá pelas tantas da noite, com parca cobertura da mídia.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.instagram.com/lazzomatumbi/">Lazzo Matumbi</a>, cantor negro soteropolitano, pergunta se o “Carnaval tá bom pra todo mundo?”. E responde que o Axé Music teve&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/p/CoyLfvwpHnG/">uma intenção excludente, sobretudo com artistas negros</a>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A par disso, acompanho todo o esforço que blocos afros, como&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/blocookanbi/">Okànbí&nbsp;</a>– representado por&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/jorjaobafafe/">Jorjão Bafafé&nbsp;</a>–&nbsp; realizam para resistentemente trazer a cultura negra para avenida na folia de Salvador, realidade que afeta ainda grandes blocos como Olodum e Ilê Ayê.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, o carnaval é uma explosão da cultura popular negra, mas que segue ameaçada pelo racismo estrutural, portanto não romantizemos com toda sinestesia que vivemos no momento da folia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Salve Mariene de Castro e a produção artística negra brasileira!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Salve Oxum, a Yabá que a ganha a guerra sem levantar a espada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Apesar de tanto dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os grandes blocos carnavalescos de Salvador exigiam que as pessoas preenchessem uma ficha anexando uma foto 3×4 colorida, com a informação do endereço, para avaliação e aprovação. Pessoas negras e de bairros periféricos não eram aprovadas, até que algumas pessoas negras passaram a informar endereço de bairros não periféricos e alterar a foto para de outra pessoa branca, o que evidenciou a seleção racial velada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[1] <strong><a href="https://www.instagram.com/prof.franklimpeixinho">Franklim Peixinho</a></strong> é homem negro, Ogan do <a href="https://www.instagram.com/_ikandele/">Ilê Axé Ikandèlé,</a> professor de História e Direito Penal, advogado antirracista, militante do Círculo Palmarino/Bahia, Dirigente do <a href="https://institutohori.org.br/">Instituto Hori</a>. Mestre em Políticas Públicas e em História da África, Diáspora e Povos Indígenas (UFRB), Doutor em Ciências Jurídicas. Pesquisa a necropolítica da guerra às drogas no Brasil e educação antirracista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Jornalistas Livres</p>



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