Texto: Manuela Trafane* Arte: Daniela Gonçalves**
Em mostra na Biblioteca Brasiliana, o artista Waldo Bravo mescla sua arte com ícones do mestre francês para apresentá-los por outra ótica
A arte se alimenta da própria arte de forma antropofágica. Pelo menos é nisso que acreditam muitos teóricos da arte e mesmo artistas. Em sua nova exposição na sala BDNES da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, Duchamp Revisitado, o artista chileno Waldo Bravo lança mão dessa ideia e se apropria de ícones do vanguardista Marcel Duchamp para apresentá-los ao público por outra ótica — muitas vezes lúdica, que engloba tanto o estilo de Bravo, quanto as características da arte contemporânea. A mostra fica em cartaz até o dia 25 de fevereiro. A entrada é gratuita.
O francês Henri-Robert-Marcel Duchamp (1887-1968), naturalizado norte-americano, foi um artista de vanguarda no século passado, precursor da chamada “arte conceitual”. Para questionar o fazer artístico, Duchamp produzia ready-made’s — objetos prontos, como pás de neve e ampolas farmacêuticas elevados à condição de arte, apenas porque foram apresentadas pelo artista como tal. Seu objetivo era questionar o que é arte e qual o papel do artista em sua produção, por meio de suas obras de teor satírico.
“Na minha opinião, e de outros historiadores e críticos de arte, ele é o artista mais importante de toda a história da arte, ou, pelo menos, o mais relevante dos séculos 20 e 21”, acredita Bravo. Para ele sua principal relevância foi ter obrigado as pessoas a pensarem sobre arte, para além da questão estética. Em sua exposição na sala BDNES da BBM, o artista se apropria de ícones duchampianos, revisitados no contexto contemporâneo e inseridos no estilo de produção de Bravo.

Obra A Fonte de Marcel Duchamp – Foto: Wikimedia Commons

Obra E105 da série In-serções, de Waldo Bravo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Um exemplo é a digigrafia E105. Nela, o ready-made A Fonte (1917) — um mictório de porcelana assinado com o pseudônimo R.Mutt — é pintado repetidamente, em diversas cores. “Nessa obra de Duchamp, ele questionou a relevância do fazer artístico. A peça foi comprada em alguma loja de material de construção e foi colocada em um pedestal dentro de uma galeria”, conta Bravo. “Ao fazer isso, a obra foi elevada ao status de arte. Com essa transformação ele se pergunta ‘qual a relevância do artista fazer arte com as próprias mãos?’. O fato de o artista não ter tocado na obra fisicamente não diminui o valor e a questão autoral”, conceitua ele.
Em outro quadro, E47b, o artista reproduz a Roda de Bicicleta (1913) de Duchamp, mas no lugar da roda, coloca um ovo frito. O objetivo foi não só recontextualizar a obra, mas também modificá-la para que o público pudesse interpretá-la por uma nova ótica. O mesmo é feito na pintura B81. Na tela, Bravo pintou o Secador de Garrafas (1914), só que colou flores de seda nas extremidades do objeto. “O legado de Duchamp, historicamente, sempre fica restrito a minorias intelectualizadas e longe do grande público. A exposição busca, de certa forma, aproximar seu pensamento das massas com uma abordagem mais informal, mais descontraída e mais divertida”, diz o artista chileno.

Foto: ResearchGate

Obra E47b da série Transmuta-ações, de Waldo Bravo – Foto: Catálogo da exposição
Na maioria das obras, os signos de outra série de pinturas de Bravo, a Auto-apropriações: Arqueologia da Pintura (2015-2018) apelidada Signografia arqueo-urbana, aparecem. Nela, o artista dialogava com os signos da história da arte — em especial com a arte rupestre e o grafite urbano — para criar figuras recorrentes, como um círculo com um x no meio ou as duas linhas com vários riscos perpendiculares, que se assemelha a uma escada.
“O crítico que acompanhou e publicou textos sobre a minha produção de aproximadamente dez anos atrás, Paulo Klein, tem uma teoria para justificar a presença desses signos nela”, diz o artista. “Ele supõe que meu envolvimento com arqueologia chilena na infância e o choque que tive ao chegar no Brasil nos anos 1980 e me deparar com o grafite em seu auge, culminaram na produção de meus próprios signos, já que esse é um elemento muito presente em ambos. Mas para mim isso foi natural, não premeditado”, explica.

Obra Secador de garrafas de Marcel Duchamp – Foto: Wikimedia Commons

Obra B81 da série Transmuta-ações, de Waldo Bravo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Ao repetir os ícones de Duchamp incessantemente na exposição, Bravo também os transforma em símbolos que, por sua vez, são misturados aos seus próprios. O painel B78 evidencia essa fusão entre artistas. Ao fundo, o estilo do chileno foi produzido com serigrafia sobre papel, nas cores laranja e azul-escuro. Em cima dele, as três obras duchampianas citadas anteriormente foram pintadas em tinta acrílica. Para Forte, isso é antropofagia: “No sentido de canibalismo mesmo. Eu me alimento do trabalho duchampiano para criar coisas novas, a arte se alimenta da arte”.
Quem é Waldo Bravo
Waldo Bravo nasceu no Chile em 1960. Apesar de afirmar ter contato com a arte desde pequeno, foi quando veio para o Brasil, em 1981, que iniciou uma carreira profissional. Ao longo dos anos, esteve presente em galerias e museus pelo mundo, com doze exposições individuais, quatro participações em Bienais e diversas exposições coletivas. Sua primeira mostra com a Universidade de São Paulo foi no Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) em 2010.
Além de artista, Bravo é curador e orientador do grupo de artistas Contempoarte, que também se apresentou na BBM em agosto de 2025, na mostra Artmosfera. Nessa ocasião, o chileno conheceu o espaço da sala BNDES e ‘se apaixonou’. “Um espaço muito bacana, bem estruturado, amplo, fiquei com vontade de fazer uma exposição minha. Enviei a proposta e o projeto foi acolhido. Fiquei muito feliz”, finaliza.

O artista Waldo Bravo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
A exposição Duchamp Revisitado fica em cartaz até o dia 25 de fevereiro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Não é preciso fazer agendamento. Mais informações estão disponíveis no site da BBM.
*Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg
**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado
Fonte: Jornal da USP