O sujeito oculto no caso Master

Bahia Brasil justiça

A gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central precisa ser investigada

Por Cleber Lourenço – Segunda, 26 de janeiro de 2026

Toda frase tem um sujeito, ainda que ele não apareça. No caso do Banco Master, o sujeito sempre esteve lá — só foi cuidadosamente ocultado. Seu nome é Roberto Campos Neto. No mínimo, ele precisa ser investigado.

Durante anos, o Banco Master cresceu em ritmo incompatível com qualquer normalidade prudencial. Em números secos, quase constrangedores: em 2019, o banco tinha cerca de R$ 2,5 bilhões em CDBs emitidos. Em 2022, esse volume já havia saltado para R$ 17,4 bilhões. Em 2024, alcançou a casa dos R$ 40 bilhões.

Não se trata de crescimento orgânico, nem de eficiência extraordinária. Trata-se de uma expansão agressiva, sustentada por ativos de difícil avaliação, estruturas opacas e produtos que prometiam retorno alto demais para um sistema financeiro que se diz regulado.

Nada disso aconteceu no escuro. Houve alertas. Houve avisos formais e informais. Houve incômodo explícito do Fundo Garantidor de Créditos e de grandes bancos, que financiam o próprio fundo e têm interesse direto na estabilidade do sistema. E tudo isso chegou ao então presidente do Banco Central.

Daniel Vorcaro multiplicou o tamanho do Banco Master em apenas cinco anos. Esse crescimento vertiginoso não ocorreu em um vácuo institucional. Ele se deu exatamente no mesmo período em que Roberto Campos Neto assumiu e comandou o Banco Central. A trajetória do Master se confunde, em datas e em ritmo, com a própria trajetória de Campos Neto à frente da autoridade monetária.

Ainda assim, nada foi feito.

Roberto Campos Neto não pode ser tratado como figurante técnico de um desastre que ocorreu “apesar” da regulação. Ele foi protagonista de um projeto. Um projeto que transformou a supervisão bancária em obstáculo ideológico e a regulação em concessão política. Sob seu comando, o Banco Central passou a tratar o mercado como parceiro, não como objeto de controle. Preferiu confiar onde deveria conter, flexibilizar onde deveria exigir, tolerar onde deveria intervir.

Esse modelo não produziu apenas o caso Master. Ele abriu espaço para uma verdadeira epidemia das chamadas instituições financeiras que não são bancos, mas operam como se fossem. As fintechs. Empresas que captam, intermedeiam, prometem e lucram sob uma moldura regulatória frouxa, muitas vezes ambígua, frequentemente atrasada. O caso do Will Bank é exemplar: colapsou deixando trabalhadores, clientes e investidores expostos, enquanto o custo do desastre foi socializado.

Mais grave: investigações conduzidas por autoridades apontam que parte dessas estruturas financeiras alternativas foi criada ou instrumentalizada pelo próprio crime organizado, seja para lavagem de dinheiro, seja para movimentação e ocultação de recursos. A fronteira entre inovação financeira e fraude deliberada tornou-se difusa não por acaso, mas por ausência de fiscalização efetiva.

Sob a gestão de Campos Neto, consolidou-se a lógica de deixar crescer primeiro e perguntar depois. Intervir apenas quando o problema já se tornou grande demais para ser ignorado. Administrar o estrago como se ele fosse acidente, quando na verdade foi consequência. É o liberalismo financeiro travestido de modernização institucional.

O resultado é previsível. Bancos médios passaram a operar como se fossem grandes demais para cair, amparados pela expectativa tácita de que o Fundo Garantidor de Créditos estaria sempre à disposição. Quando o castelo ruiu, a conta não ficou com quem decidiu correr o risco. Foi socializada: sistema financeiro, fundos de pensão, trabalhadores e, no limite, a sociedade.

A narrativa oficial tenta reduzir o caso a uma fraude individual, quase um desvio moral isolado. Funciona como cortina de fumaça. Daniel Vorcaro pode e deve responder criminalmente, mas ele não desenhou o ambiente permissivo que tornou o Master possível. Quem desenhou foi quem decidiu que regular menos era virtude e fiscalizar mais era entrave.

A tentativa de empurrar o problema para o BRB, como se fosse um resgate indireto, só reforçou a dimensão do erro. Não se tratava mais de salvar um banco, mas de salvar uma narrativa. O Banco Central recuou tarde. Tarde demais para fingir surpresa.

Hoje, Roberto Campos Neto ocupa uma cadeira confortável no conselho de um grande banco privado. E não é por falta de apoio no mercado. Campos Neto conta com a blindagem recorrente de operadores do sistema financeiro, que insistem em tratar suas decisões como técnicas e neutras, quando são, na prática, escolhas políticas.

Essa blindagem ajuda a explicar por que o debate sobre sua atuação costuma ser empurrado para debaixo do tapete. Recentemente, o senador Renan Calheiros voltou a pedir, em entrevista ao ICL Notícias, que outro caso ligado a Roberto Campos Neto fosse melhor apurado — ao criticar um acordo firmado pelo Banco Central que encerrou, sem julgamento de mérito, um processo administrativo envolvendo operações cambiais de centenas de milhões de dólares, mediante uma penalidade irrisoria.de alguns reais. O episódio é citado como exemplo de que o problema não se restringe ao Banco Master.

O Banco Master está em liquidação. O Fundo Garantidor de Créditos enfrenta o maior teste de sua história. E o país assiste, mais uma vez, ao custo concreto de uma escolha política feita no topo do Estado.

O sujeito oculto do caso Master nunca foi invisível. Ele apenas foi protegido pelo discurso técnico, pela linguagem neutra e pela falsa ideia de que decisões políticas podem ser tratadas como meros atos administrativos.

Não podem. Nunca puderam.

Fonte: ICL Noticias / Foto IA Chat GPT

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