O cálculo usado para quantificar o volume de estoque de carbono do projeto ambiental controlado pela família de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teve a sua autoria negada pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), apontada como a responsável pela metodologia.
Como mostrou a Folha, o cálculo do estoque de carbono em um território em Apuí (AM) multiplicou o patrimônio de duas empresas que pertencem a fundos ligados ao Master. A valorização delas foi de R$ 45,5 bilhões.
Os fundos eram inflados com o objetivo, segundo investigadores, de desviar recursos do Master e retroalimentar uma ciranda financeira supostamente montada pelo ex-banqueiro.
O posicionamento da universidade pública tem papel central na trama que resultou no preço inflado desses ativos, pois foi a partir de um estudo técnico apresentado pelas empresas Global Carbon e Golden Green que a valorização foi feita de um dia para o outro. As empresas apresentaram como uma espécie de selo de qualidade o estudo da Unesp, que nega relação com a contabilidade no projeto ambiental de parentes de Vorcaro.
À Folha, por meio de nota encaminhada na semana passada, a Global Carbon declarou que “os inventários e os quantitativos foram elaborados pela Unesp aplicando a metodologia desenvolvida pela própria universidade”.
Segundo a empresa, “a própria Unesp foi responsável pela metodologia científica utilizada no cálculo de precificação (valoração econômica) desses ativos ambientais”.
A universidade, por sua vez, informou que nunca teve conhecimento desses estudos, tampouco contrato firmado com qualquer empresa ou instituição para prestar serviços de quantificação de estoque de carbono envolvendo a Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí (AM). Afirma ainda que nunca deu aval para que qualquer pessoa atuasse em seu nome.
A instituição afirmou que só teve notícia do caso a partir das reportagens publicadas pela Folha.
“A Unesp em nenhum momento firmou contratos ou convênios com tais empresas ou permitiu que outros o fizessem, tampouco autorizou o uso de seu nome, seja por servidores ou terceiros, para chancelar qualquer forma de prestação de serviços às empresas mencionadas nas reportagens”, declarou, em nota enviada à reportagem.
A Unesp afirma que há pesquisas desenvolvidas na instituição sobre o tema, mas que não identificou os requisitos legais e técnicos mínimos para que fosse feito requerimento de propriedade intelectual. Por isso, o conhecimento científico gerado a partir disso é de domínio público, não podendo ser comercializado.
“Se algum servidor utilizou o nome da Unesp para a prestação de serviços de consultoria sem a anuência e sem o trâmite interno de aprovação dessas atividades, a Universidade possui mecanismos internos de averiguação desse tipo de conduta, da qual teve conhecimento após a leitura do conteúdo produzido por esse jornal”, declarou.
O “Relatório de Quantificação de Estoques de Carbono” da Fazenda Floresta Amazônica, que traz a exposição de marca da Unesp, é assinado pelo professor Iraê Amaral Guerrini, que trabalha na universidade. Outros quatro pesquisadores assinam o levantamento.
A Folha questionou Iraê Amaral Guerrini sobre o assunto. O professor confirmou que houve pagamento pelo serviço que ele prestou, mas se negou a dizer o valor, sob alegação de que seria “confidencial”.
Questionado sobre quem fez o pagamento, primeiro disse, por meio de mensagem, que foi o dono da fazenda, Marco Antonio de Melo. Ocorre que o fazendeiro negou a informação. “Não fui eu que paguei, não”, disse à Folha.
Mais tarde, em outra mensagem, o professor Guerrini voltou atrás, disse que houve um mal-entendido e que nunca teve contato com Melo. Quem fez o pagamento, afirmou, foi a empresa Global Carbon.
Para que qualquer docente preste serviços remunerados a terceiros, segundo a Unesp, é preciso que seja feita uma solicitação de atividade remunerada concomitante, o que não foi feito. E que a única forma de a instituição ser remunerada seria por meio de um contrato de convênio com a instituição, o que não existiu.
Em nota, o professor Iraê Amaral Guerrini disse que sua metodologia “possui finalidade estritamente científica, não tendo sido concebida para fins comerciais, de precificação de ativos ambientais, de estruturação financeira, de certificação de créditos de carbono ou de inserção em mercados regulados ou voluntários”.
“Não participamos, em nenhum momento, de processos relacionados à precificação, negociação, comercialização, certificação, estruturação financeira ou captação de recursos associados a créditos de carbono ou a quaisquer ativos ambientais decorrentes desses projetos”, afirmou.
O estudo do professor que analisou a área da Fazenda Floresta Amazônica, terra com extensão total de 143,9 mil hectares, concluiu que há no local um estoque de 168,8 milhões de toneladas de CO₂, um volume considerado abissal por especialistas do setor. Acontece que esse critério de estoque só existe no papel e não tem referência em preços de mercado.
O crédito de carbono, já conhecido e negociado entre empresas, é um certificado emitido ao se comprovar uma redução de CO₂ em projetos que são auditados e registrados. Por isso, pode ser vendido para quem precisa compensar emissões – empresas que têm metas de redução na emissão de gases de efeito estufa e ficam acima da linha compram créditos de carbono.
Já o estoque de carbono é uma estimativa do carbono que existe numa floresta, uma fotografia, sem garantir titularidade exclusiva ou dupla contagem e, principalmente, sem comprador ou mercado com preço verificável. Por isso, o estoque em si não vale dinheiro, nem tem registro aceito e liquidez real.
Isso, porém, não foi levado em conta pelas transações que envolveram as operações da Global Carbon e Golden Green, que precificaram esses estoques para concluir que valiam, juntas, R$ 45,5 bilhões.
O estudo que embasa o montante de carbono foi realizado em 2023. Iraê Amaral Guerrini não deu um valor financeiro para isso, mas montou a fórmula para chegar a esse preço, em novo estudo feito em 2024, ao elaborar um “Relatório de Precificação das Unidades de Estoque de Carbono”.
O documento monta a equação para fazer a atualização do preço de cada unidade de estoque de carbono, baseada em fatores como preços de commodities de soja, carne e milho, além da variação cambial do dólar e euro.
À Folha, Guerrini disse que sua pesquisa foi utilizada em projetos como o Brasil Mata Viva (BMV) desde 2010, em convênio firmado entre a BMV e a AUIN (Agência de Inovação da Unesp), tendo a metodologia como propriedade intelectual da Unesp.
Depois disso, afirmou, houve um “convênio celebrado com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Unesp (Proec), a Fundunesp (Fundação para o Desenvolvimento da Unesp) e a Global Carbon para a continuidade de seu uso”.
“A metodologia foi encaminhada à Secretaria Extraordinária do Ministério da Fazenda para avaliação técnica e eventual consideração para uso em políticas públicas ambientais, reforçando seu caráter institucional, científico e de interesse público”, afirmou.
A Global Carbon e a Alliance Participações, empresa que, como revelou a Folha, é controlada por Henrique Vorcaro e Nathália Vorcaro, pai e irmã de Daniel Vorcaro, declararam, por meio de nota única, que a Alliance Participações “foi procurada para participar de investimento relacionado a um projeto de créditos de carbono” e que “na condição de investidora, recebeu vasta documentação técnica”.
Segundo as empresas, foram repassados certificados de quantificação de ativos e relatórios de precificação emitidos pela Unesp, auditorias contábeis elaboradas por empresas de renome internacional e documentação cartorária relacionada à propriedade e posse da terra acompanhada de relatório de auditoria emitido por escritório de advocacia de renome nacional.
“Essa documentação indicava consistência e regularidade em relação às estimativas de valor financeiro dos créditos apresentados, bem como quanto aos aspectos fundiários, pelo que a empresa decidiu realizar o investimento”, declararam.
“A Alliance esclarece que: (i) nunca comercializou, direta ou indiretamente, qualquer dos ativos; (ii) nunca atuou como gestora ou administradora dos fundos e/ou do projeto, que fora desenvolvido por terceiros; (iii) na condição de investidora, reserva-se o direito de tomar as medidas legais cabíveis com o objetivo de obter o ressarcimento dos valores investidos, caso seja comprovada a inconsistência dos ativos em questão”, afirmaram.
PASSO A PASSO DO ESQUEMA
2019
A Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí (AM), em seus 143,9 mil hectares, passa a ser negociada para ser a origem de bilhões de reais em créditos de carbono, mesmo sendo a área uma terra pública, pertencente à União
2020
Com CNPJs de prateleira, têm origem as empresas Global Carbon e Golden Green, voltadas para negócios com crédito de carbono, ambas já ligadas a fundos administrados pela Reag
2021
A partir de auditorias embasadas em balanços financeiros das duas empresas, sem nenhum lastro em mercado ou na realidade fundiária da Fazenda Floresta Amazônica, Global Carbon e Golden Green passam a valer bilhões do dia para a noite
2023
A Alliance Participações, comandada por Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel, entra diretamente no negócio e compra 80% dos direitos de negócios de carbono da propriedade
2023
O fazendeiro Marco Antônio de Melo, suposto dono da fazenda, e José Antônio Ramos Bittencourt, intermediário no negócio, recebem como pagamento 2,5% das cotas dos fundos New Jade 2 e 7,5% das cotas do Biguaçu, ambos administrados pela Reag
2023
Relatório da Unesp quantifica o estoque de carbono da propriedade e diz que há 168,8 milhões de toneladas de CO₂ naquele território, usando método que nunca foi aplicado em mercado
2024
Baseada no método teórico da Unesp, as empresas ficam bilionárias. A Golden Green passa a valer R$ 14,6 bilhões, enquanto Global Carbon é estimada em R$ 31 bilhões.
2024
As transações entram na mira da Justiça, ao vir à tona a informação de que as terras da região são da União e destinadas à reforma agrária, logo não poderiam ser usadas por terceiros
2025
As transações entram na mira da Polícia Federal, com a deflagração da Operação Carbono Oculto, que apura a suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo os fundos da Reag para o PCC
Fonte: Política Livre / Banco Master: esquema sob investigação envolve lavagem de dinheiro e manipulação de mercado | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil