O problema do custo de vida é o excesso de crédito

economia

O aumento artificial dos preços, especialmente dos imóveis, supera o crescimento econômico e a inflação geral

Com a ideia de proibir grandes investidores de comprarem imóveis, o presidente Trump trouxe para o primeiro plano a questão do mercado imobiliário. Esse tema tem estado recentemente no topo do debate público, e políticos e comentaristas de todas as correntes aproveitaram a oportunidade para promover suas próprias agendas.

E uma das maneiras de influenciar a opinião pública em direção aos próprios objetivos é a semântica. Se conseguirmos renomear algo a nosso favor, metade do trabalho de convencer as pessoas já estará feita. Isso é muito mais importante do que a maioria das pessoas imagina.

Minha língua materna não é o inglês, mas sim o espanhol. Isso me permitiu comparar as duas estratégias semânticas adotadas pelos governos de língua espanhola e pelos governos de língua inglesa em relação a esse tema.

Na Espanha e em outros países hispânicos, a situação atual dos preços dos imóveis — que, aliás, não é um fenômeno novo e é semelhante ao que ocorre no mundo anglófono — foi rebatizada como “crise habitacional”. Esse termo é bastante específico e foi promovido para transmitir a ideia de que o problema é onde morar — isto é, que as pessoas não conseguem encontrar imóveis disponíveis. O atual governo marxista-socialista espanhol elaborou esse termo para fazer as pessoas acreditarem, ainda que apenas de forma subconsciente, que há muitas pessoas que não conseguem encontrar uma moradia devido à situação. Ele também coloca no mesmo balaio pessoas incapazes de comprar uma casa e pessoas que enfrentam dificuldades para pagar o aluguel.

Os governos de língua inglesa deram um passo além e rebatizaram toda a situação como uma “crise do custo de vida ou da acessibilidade” (affordability crisis). Suponho que, em espanhol, isso seria traduzido como “crisis de asequibilidad”, uma expressão longa e pouco natural, com baixa probabilidade de se popularizar. A linguagem passou a determinar a propaganda governamental.

“Crise”

O principal problema de usar a palavra “crise” é que ela transmite duas ideias. A primeira é que se trata, de alguma forma, de uma situação nova. Isso é claramente absurdo. Lembro-me de lutar para economizar dinheiro suficiente em 2006, quando todos repetíamos a frase de que os imóveis não poderiam ficar mais caros.

A segunda ideia é que a situação é tão grave que algo precisa ser feito. A situação teria se tornado tão ruim que o governo não teria outra opção a não ser intervir. O uso da palavra “crise” é sempre um chamado por mais intervenção governamental, mesmo em situações como esta, que foram causadas e agravadas por políticas do próprio governo.

“Acessibilidade”

Então, o que “acessível” realmente significa? Em um dicionário, é definido como algo barato o suficiente para que as pessoas possam comprar, mas isso é bastante confuso. Por definição, preços reais só existem quando uma transação ocorre. Uma casa pode ser avaliada em um determinado valor, mas não se pode dizer, de fato, que o preço dessa casa é aquele valor até que ela seja vendida.

É isso que vemos no mercado imobiliário. Os preços continuam subindo gradualmente, o que significa que as pessoas que compram imóveis gastam cada vez mais dinheiro com eles. Se não pudessem pagar, simplesmente não os comprariam.

É aqui que ocorre o truque de ilusionismo. O governo quer fechar o círculo de tornar os imóveis mais acessíveis e, ao mesmo tempo, manter políticas que contribuem para a valorização dos preços desses ativos. Dessa forma, o patrimônio dos proprietários é “protegido”, ao mesmo tempo em que mais pessoas entram no mercado. Trata-se, obviamente, de uma política insustentável, mas é ela que está sendo apresentada como a solução. Hipotecas de prazo mais longo, empréstimos garantidos pelo governo, subsídios e vantagens fiscais para novos proprietários são todos desenhados para continuar alimentando o mercado e manter os preços em alta.

Crédito

Assim, se considerarmos que a habitação não é acessível, o problema pareceria não ser os preços, mas o fato de que as pessoas simplesmente não têm dinheiro suficiente. Elas não têm acesso suficiente ao crédito. Logo, a solução seria criar hipotecas garantidas pelo governo, conceder subsídios e reduzir taxas de juros. Tudo isso, é claro, para “ajudar pessoas pobres e em dificuldade”.

Mas a falta de crédito não é o problema. O problema é o crédito barato. Tendemos a nos concentrar na escassez de oferta para explicar os preços atuais dos imóveis, mas o outro lado da moeda é igualmente importante. Uma demanda artificialmente elevada vem alimentando o mercado imobiliário há bastante tempo. Em resumo, a oferta foi restringida e a demanda foi subsidiada, especialmente por meio de dinheiro fácil e crédito abundante.

A inflação constante da oferta monetária tem penetrado na economia principalmente sob a forma de crédito barato. E qual é um bem relevante que as pessoas utilizam crédito para adquirir? A resposta é casas e imóveis. E quanto mais alto o preço, menor é a probabilidade de alguém conseguir comprar à vista. Assim, todos tendemos a recorrer a uma hipoteca para comprar. Nos Estados Unidos, os empréstimos hipotecários constituem a principal fonte de endividamento das famílias.

O crédito barato permitiu que muitas pessoas subissem na chamada escada da propriedade, mas também alimentou a alta dos preços e dos ativos. Isso é agravado por outro efeito da inflação. Os aumentos da oferta monetária diluem o valor de cada unidade monetária. Somado às restrições à construção de novas moradias, o imóvel torna-se um ativo real que dificilmente perde valor em relação à moeda fiduciária. Isso também aumentou o número de pessoas que não apenas investem em imóveis, mas que consideram o imóvel como seu maior ativo. Sem um aumento constante dos preços, uma grande parte dos investimentos em imóveis simplesmente não ocorreria.

Não existe “crise de acessibilidade”

Mas a situação real é que não existe uma crise de acessibilidade, nem tampouco uma crise habitacional. Existe uma política de inflação constante da oferta monetária e uma política de quase um século de intervenções políticas no mercado imobiliário. A situação atual é resultado de política governamental. O fato de que as pessoas estejam enfrentando cada vez mais dificuldades para ingressar no mercado imobiliário é uma consequência necessária disso.

A solução

Temos dois problemas. Um deles é a situação da habitação. Se formos honestos ao buscar um mercado imobiliário mais decente, precisamos compreender que os preços dos imóveis precisam cair. Precisamos construir mais moradias e permitir mais inovação no setor habitacional, o que implica remover regulações. Também precisamos dar um fim ao crédito artificialmente barato.

Para começar a resolver o primeiro problema, precisamos começar a resolver o segundo. Isso também significa que a linguagem deve descrever a realidade com precisão. Quem dá nome às coisas controla a narrativa. Para começar a recuperar essa narrativa, precisamos parar de usar os termos que o governo promove.

Devemos parar de usar o termo “crise de acessibilidade”. Por que não voltar a uma descrição mais precisa? Uma bolha imobiliária. É isso que está acontecendo na realidade. Se quisermos ser ainda mais precisos, podemos chamá-la de uma bolha imobiliária inflacionária causada pelo governo.

O termo bolha imobiliária transmite automaticamente a verdade. O problema é o aumento artificial dos preços, especialmente dos preços dos ativos neste caso, que superam o crescimento econômico e a inflação geral. Um número cada vez maior de pessoas não consegue acessar esse mercado porque os preços continuam subindo. Mas um número considerável de pessoas está se beneficiando dessa situação. Uma bolha imobiliária transmite a ideia de que se trata de um evento financeiro que está enriquecendo alguns e prejudicando todos os demais, o que se aproxima muito mais da verdade. Bolha imobiliária é uma forma mais honesta de denominar a situação atual.

Conclusão

Devemos tentar retomar o controle da narrativa, mas um passo necessário para isso é parar de falar da maneira como o governo quer que falemos. Ao decidirmos por conta própria como nomear as coisas, podemos começar a controlar a forma como as interpretamos e explicar melhor os acontecimentos. Precisamos lembrar que o nosso uso da linguagem é voluntário e importante. Ele nos permite ser exatos e precisos.

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Por Carlos Boix

Fonte: Money Report

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