Atrasos nas saídas, bloqueios nas redes, disputa judicial e duelos por horário transformam a folia de 2026 em palco de conflitos abertos entre artistas, organizadores e até o público
O Carnaval de Salvador 2026 não foi só de trio elétrico rasgando a avenida e do povo pulando que nem pipoca. Entre um bloco e outro nos circuitos Dodô e Osmar, a folia também foi marcada por confusão e exposição. Para resumir, foi um arerê só. Teve atraso que deixou folião virado no satanás, disputa judicial que deu pano pra manga, unfollow com direito a bloqueio e até esporro em cima do trio. No meio da festa que faz a cidade ferver, bastidores viraram manchete quase na mesma proporção que a própria Axé Music em fevereiro.
A primeira confusão começou já no dia 12 de fevereiro. O grupo Mudei de Nome avisou nas redes que a concentração seria às 17h30, mas fez questão de alertar que “não se tratava de embarque de navio” – ou seja, atraso podia rolar. E rolou. O trio de Xanddy Harmonia, que abriria o circuito, só começou a se movimentar por volta das 20h20. Quase três horas depois do previsto.
O resultado foi aquele aperto: trio encostando em trio, todo mundo socado, folião agoniado e gritos pedindo para a estrutura da frente andar logo. Teve gente dizendo que estavam “estragando o Carnaval”. Quando Xanddy avisou que ainda iria se trocar antes de iniciar o show, parte do público vaiou, num clima pesado. A tensão só recuou quando o artista voltou aos microfones e entregou o prometido repertório com 70% de samba de roda. Bastou o tambor bater para a multidão esquecer tudo e se jogar na dança.
Bloqueio e pinga-fogo
No dia seguinte, sexta-feira 13, a treta saiu da avenida e foi parar nas redes sociais. Ivete Sangalo passou a seguir Igor Kannário no Instagram, mas acabou bloqueada pouco depois. A situação deu o que falar, porque não é todo dia que membros da realeza carnavalesca – uma das rainhas do axé e o Príncipe do Gueto – se estranham.
Em entrevista à Macaco Gordo, Kannário explicou que decidiu bloquear Veveta porque, segundo ele, a cantora estrelada nunca o procurou em momentos difíceis de sua trajetória. Disse respeitá-la, mas afirmou que ambos não fazem parte do mesmo ciclo e que não via motivo para retribuir o gesto agora, após anos de carreira. A fala foi direta, sem rodeio, daquele jeitão que faz metade aplaudi-lo e metade torcer o nariz para ele. Um bafafá!
Farinha pouca…
A maior confusão do Carnaval – conforme a voz da rua – foi protagonizada por Daniela Mercury, comandante do Bloco Crocodilo, na briga pela primeira posição no Circuito Dodô, ou seja, Barra-Ondina. A artista conseguiu, inicialmente, uma liminar que garantia ao Crocodilo abrir os desfiles no domingo (15) e na segunda-feira (16), com base no critério de antiguidade – o boco participa do percurso desde 1996, ano de inauguração oficial do trajeto.
A decisão previa cumprimento imediato e multa diária em caso de desobediência. Com isso, o Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) e a Saltur, órgão da prefeitura que organiza a festa, foram notificados para reorganizar a fila. O argumento central era que, por desfilar há quase três décadas de forma contínua, o bloco teria preferência histórica na abertura. Segundo a própria Daniela, outra rainha do Reino de Momo, é o que está nas regras da folia há anos. A medida reacendeu uma discussão antiga sobre quem deveria puxar a fila do circuito.
Bell no ringue
Quem entrou no bolo doido foi Bell Marques. O puxador do Camaleão declarou que, no passado, poucos queriam sair primeiro, porque o circuito começava vazio, e o trio precisava andar mais rápido. Para ele, a mudança de cenário — com transmissão ao vivo e público concentrado entre Barra e Ondina — transformou a dianteira em posição cobiçada.
O cantor defendeu a manutenção da ordem tradicional definida pela organização e classificou a corrida pela pole position como “chata e antiética”. Foi além: garantiu que sempre cantou para o público, independentemente da televisão estar ligada ou não nele ao vivo. Pelas redes, internautas apontaram que Bell teria deixado de seguir Daniela após a polêmica, embora não haja confirmação de que a seguia antes. A especulação aumentou o burburinho e deixou a resenha ainda mais apimentada.
Liminar derrubada
A reviravolta veio no dia 14, quando veio a público que o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ) suspendeu a liminar favorável à Daniela. Ao analisar o recurso apresentado por blocos tradicionais, o TJ entendeu que não há direito automático à primeira posição com base apenas na antiguidade. Destacou que a ordem dos desfiles é definida anualmente, conforme critérios técnicos, administrativos, logísticos e de segurança.
A Corte avaliou que alterar a fila às vésperas da festa poderia impactar contratos de patrocínio, venda de abadás, planejamento operacional e a própria segurança pública. Com isso, foi mantida a programação definida pelo Comcar. No domingo, o Olodum abriu o circuito, seguido pelo Camaleão. Na segunda, o bloco Coruja, de Ivete, saiu na frente, com o Camaleão na sequência. O Crocodilo permaneceu em posição intermediária – sexto no domingo e nono na segunda.
Kannário liga o modo esporro contra valentões
Enquanto a treta jurídica fervia, Igor Kannário ocupou novamente o centro das tretas no dia 16, mas dessa vez em pleno Circuito Osmar. Enquanto cantava para a pipoca gigantesca que o seguia desde o Campo Grande, interrompeu o show para repreender um folião que trocava socos e agredia pessoas. Pediu que a Polícia Militar retirasse o valentão e fez um discurso duro contra as brigas. Mas não deixou de alfinetar os excessos da PM dirigidos ao público.
Kannário disse estar cansado de “botar o peito na bala” e de ver sua imagem manchada por confusões. Em tom de aviso, afirmou que poderia abandonar o circuito caso a violência continuasse. Parte do público aplaudiu a postura; outra parte considerou tudo exagerado demais. De todo modo, o recado foi claro: Carnaval é para brincar, não para brigar.
Ilê e Gandhy na bronca
No Curuzu, noite de sábado (14), o Ilê Aiyê também foi pivô de uma treta. E das grandes. Um carro estacionado irregularmente atrasou a tradicional saída do “mais belo dos belos” em aproximadamente duas horas. A Transalvador foi acionada, mas o dono do veículo não apareceu de imediato. Resultado: moradores do bairro e devotos do afro, que aguardavam apreensivos até o início dos toques de tambor, deixaram a fúria fluir e subiram até em cima do carro.
Já no Dodô, os Filhos de Gandhy reclamaram publicamente do horário de saída do bloco de Bell Marques na segunda-feira (16). Um porta-voz do “Tapete Branco da Paz”, àquela altura nada pacífico, exigiu respeito, cobrando o acordo para saída às 16h. Bell rebateu, dizendo que estava dentro do horário previsto e destacando a pontualidade do Camaleão. A troca de farpas causou incômodo e mostrou como cada minuto na avenida pode virar motivo de desentendimento.
Provocação de prefeito
Como se não faltasse treta, o prefeito Bruno Reis (União Brasil), em meio ao último dia de Carnaval, aproveitou a cerimônia do Guinness Book que reconheceu a folia em Salvador pelo recorde de reciclagem de latinhas, para dar aquela cutucada no Rio de Janeiro.
Ao destacar que a capital baiana reciclou seis vezes mais alumínio, usou o número para argumentar que a festa soteropolitana era também seis vezes maior que a dos cariocas. Logo as redes se incendiaram, com gente se engalfinhando entre ataques e defesas. Pelo visto, ano que vem tem mais pega pra capar.
Fonte: Metro 1 / Foto: Tacio Moreira e Aldair Lima/ Metropress