por Angela Monize – Terça, 24 de março de 2026
a minha senhora não escreve ao quadro,
ela escreve a minha vida.
aparece nos intervalos. no tempo entre um pensamento e outro, no silêncio depois de uma frase mal terminada, no gesto automático de quem ainda acha que está no controle.
há dias em que percebo, já sei como ela se move. sob entrelinhas se mostra facilmente.
reconheço o ritmo, a forma como ela ocupa os cantos, como se soubesse exatamente onde ficar sem precisar ser convidada.
às vezes ela me observa perigosamente. como quem mede o tempo sem relógio, como quem entende algo que eu ainda não alcancei.
e eu continuo a confiar…
até por que não há exatamente escolha nesse tipo de companhia.
a minha senhora tem momentos suspensos,
fica à beira de si mesma, como se estivesse sempre prestes a atravessar alguma coisa.
a minha senhora me atravessa devagar,
sem violência,
com uma permanência que não pede explicação.
e eu ?
me lanço para fora, eu mudo de lugar dentro de mim, finjo me esconder de quem mais me observa…
a minha senhora tem momentos suspensos, olha para o nada como se ali existisse alguma resposta que só ela escuta.
ela me atravessa devagar, como quem experimenta a própria permanência dentro de um outro corpo.
ela me toma sem pressa, e nesse gesto eu me reorganizo sem perceber.
quando ela se ajeita pra dormir,
o lençol vira uma extensão do que não se diz.
não se pode adormecer o inconsciente. não existe desejo ao se completar uma fábula tão torpe ao se esconder da própria imagem.
suas mãos alisam o tecido como quem acalma alguma coisa arcaica.
e eu me deixo ser colocada, como se houvesse um lugar exato onde eu devesse estar. aquilo já decidido antes mesmo de mim.
há um eco distante que insiste em me acordar do estado em que a minha senhora me deixa.
mas eu entendo que há estados em que ela precisa permanecer,
há territórios onde só ela sabe existir.
dentro do estábulo,
a madeira range baixo, a terra sustenta um silêncio antigo,
e tudo ali parece aceitar o peso do que não se nomeia.
ela descansa perto do que é bruto, do que não se enfeita, do que apenas é.
depois, percorre o meu jardim.
as formigas desenham caminhos sob a minha pele que é envolvida com delicadeza pelo campo.
e o ar perpassa, sorrateiro, infiltrando em cada detalhe, nos pequenos movimentos, no que passa despercebido até se tornar impossível de se ignorar.
todos aqui temos “uma senhora”.
e quando ela retorna a superfície de nós, traz a noite como uma dobra do tempo.
adentra no inverno como um calor que não resolve,
que não aquece o suficiente pra se tornar conforto,
mas também não vai embora.
fica.
e é nesse ficar que algo começa a se entender.
porque quando ela se cansa, ela dorme outra vez, e o mundo continua como se nada tivesse mudado.
mas mudou. sempre muda um pouco…
a minha senhora não escreve ao quadro. ela escreve a minha vida.
e eu começo a perceber que não se trata de ir embora, nem de ser levada de uma vez.
é mais lento que isso.
mais preciso.
ela me ensina nos detalhes, nos intervalos, naquilo que cede sem fazer barulho.
e, sem perceber exatamente quando começou, eu já não tento escapar.
eu observo.
acompanho.
aprendo o ritmo,
a forma como tudo se desfaz sem alarde.
e há algo quase íntimo nisso tudo.
como se, no fundo, o que ela faz não fosse me tirar do mundo,
mas me ensinar, pouco a pouco,
a amar a vida
e a caber no fim.