Cartografia da Perda (III)

Ângela Monize Bahia Brasil colunistas

Por Angela Monize – Segunda, 6 de abril de 2026

o luto não avisa quando vem.

passa pela beira dos dias, nos detalhes mais distraídos, como quem testa o espaço. talvez dê sinais, pequenos sinais, quase imperceptíveis. mas nunca certezas.

perder é uma palavra demasiadamente curta para abarcar todos os significados. os conjuntos que criamos dentro de nós mesmos a cada sugestão do que se pode vir a perder.

perder pessoas, coisas, ou momentos… perder versões inteiras de si.

hoje eu acordei e me veio a sensação de que não gostaria de ter acordado. 

o corpo ainda preso em um cansaço que não é só físico, como se tivesse passado a noite inteira tentando reorganizar a vida, os sonhos, as miragens. demorei a dormir. virei de um lado pro outro, contando pensamentos em vez de carneirinhos. e quando finalmente dormi, não tardou a amanhecer. 

hoje, em específico, houve uma recusa em mim.

não quero falar.

não quero sustentar conversas, nem encarar rostos que esperam de mim alguma coisa.

fico melhor assim, observando.

as árvores se movem na estrada. o verde parece mais denso, bonito, visível; acalma as minhas pálpebras cansadas. eu observo o filamento, o solo, a pista…

o ar carrega um cheiro estranho, meio metálico, meio gasto. lembra carro velho aquecido pelo sol, aquele calor abafado que fica preso no estofado. mas sobre a minha pele há outro mundo.

meu perfume tem uma intensidade quase hipnótica, um aroma doce que se abre devagar, com jasmim denso e um fundo ambarado. um adocicado quase como se estivesse envolto em alguma coisa mais profunda, mais terrosa, mais viva. grudando na respiração, se mistura ao corpo como açúcar queimado, desses que deixam um rastro no fundo da língua.

depois vem algo mais seco, firme como madeira aquecida, me lembra a terra que já conheceu a chuva e agora guarda o cheiro dela em silêncio. e por fim, o corpo de jasmim exala a cada respiração.

e é curioso como, mesmo nesse estado, eu escolhi algo assim.

como se, no meio do cansaço, ainda houvesse em mim uma vontade de existir.

hoje eu tive um pesadelo.

uma menininha gritava, desesperada, com um pincel nas mãos e tinta preta escorrendo pelos dedos. ela tentava me pintar, cobrir minha pele com aquilo, como se quisesse me transformar em algo que eu não conseguia reconhecer. eu gritava também, pedindo pra que ela parasse, tentando afastar aquele gesto bruto.

mas havia algo ali que me impedia de reagir com dureza.

ela tremia.

ela não sabia o que estava fazendo, mas fazia com uma urgência quase fatal, como se aquilo fosse a única forma de se expressar.

e mesmo enquanto eu era atingida, eu sabia que ela precisava de ajuda.

talvez seja isso que sempre me atravessa. essa forma de olhar o outro mesmo quando me dói, mesmo quando fere. uma empatia que não se desliga, um respeito pelas dores que não são minhas, mas que eu reconheço como se fossem.

e ainda assim, eu sigo.

nunca fui alguém sem esperança.

há sempre alguma coisa em mim que insiste, mesmo quando tudo ao redor parece querer a perda.

a ansiedade me visita com frequência, me atravessa em ondas que às vezes tiram o ar, mas existem instantes, pequenos e frágeis, em que eu consigo ficar no agora.

sentir o chão.

respirar sem antecipar o próximo desastre.

deixar o que pesa um pouco mais ao fundo, fazer, nesse sentido, uma escolha momentânea de não se afogar.

hoje, enquanto escrevo, penso em alguém que faz parte da minha vida. alguém que já me fez sorrir e chorar.

ela amplia os momentos com suavidade, mas é firme na mesma proporção. carrega uma alegria que não depende de circunstância alguma.

de qualquer maneira, sinto falta de sua companhia…

me pego pensando no que ainda não vivi.

nas histórias que ainda não comecei, nos lugares que ainda não pisei, nas versões de mim que ainda não conheço.

há um impulso em mim que não se satisfaz com o que já foi.

uma vontade de arriscar,

de atravessar o que parece incerto,

de ir justamente onde o sinal não fecha, onde o fluxo não se interrompe, onde o risco existe como possibilidade viva.

porque é ali que a vida se mostra.

e o luto…

permanece como uma camada de mim.

como algo que existe junto, em segundo plano.

há perdas que não acontecem de uma vez.

há pessoas que se desfazem de nós enquanto ainda estamos com os corpos encaracolados, há vínculos que se rompem em silêncio, e há versões que deixam de existir somente pela rotina gasta.

e é engraçado pensar que quando isso acontece, emergem as memórias esquecidas, os sentimentos não resolvidos,

pensamentos que estavam soterrados.

tudo ganha forma.

e, às vezes, dói de um jeito quase físico. ou até físico de fato.

há quem tente reconstruir o que já não existe, refazer a pessoa dentro da própria cabeça, reorganizar o passado como se isso fosse possível.

mas o que é…

é.

e ninguém sente isso por você.

há uma honestidade dura nesse lugar,

uma solidão que não é vazia, mas cheia de tudo aquilo que não foi dito, não foi feito, não foi vivido.

e mesmo assim, continuar é a única coisa que tenho.

subo mais um lance de escadas, 

tateando os degraus,

observo tudo ao meu redor,

respirando,

aceitando o ritmo.

percebendo o que depende ou não de mim.

porque, no fundo, eu conto com o tempo.

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