Um tiro no sol

Alexandre Gusmão colunistas

Por Alexandre Gusmão

“Disparo contra o sol / sou forte, sou por acaso / minha metralhadora cheia de mágoas / eu sou um cara”.
Repare o tempo: o dono do relógio. Vive ele também parado. Um dia, por obra do destino, uniram-se num mesmo coro Cazuza, roqueiro anos oitenta, dono dos versos acima, e Justiniano, lavrador do sertão de Ipirá, que viveu nos anos vinte do século passado.

“Extremamente nervoso, ossudo e muito alto” — assim o descreve Eugênio Gomes em O Mundo da Minha Infância. O escritor conta que, indignado pela escassez impiedosa das chuvas e já descrente de qualquer providência divina, Justiniano perdeu a compostura, armou sua espingarda pica-pau, e cheio de mágoas, deu um pipoco no sol. Um tiro no sol.
Justiniano, como Cazuza, também era um cara. E ganhou fama. Não por acaso, também foi chamado de louco.

Cruzasse a rua depois desse fato, beatas se benziam, meninos faziam arrelia.
Eivado de mágoas também, mas sem o conflito com o divino, cantam os versos de Incelênça pra terra que o sol matou, de Elomar:
“Levanto meus olhos, pela terra seca /
só vejo a tristeza, que desolação /
uma ossada branca fulorando o chão.”

A imagem revolta; a melodia apascenta. As incelências são cantos antigos de guarda e vigília. A estrofe seguinte é um dedo em riste apontando para o sol:
“Inté os olhos d’água chorou que secou /
e o sol dessas mágoa /
queimou os imbuzero, os bode e os carnêro, toda a criação /
isso o sol queimou.”
sobre o carcará e a sussarana – dois predadores da caatinga, o cantador acusa:
“isso o sol poupou.”
Justo não é, diria Justiniano.

O escritor que recolheu essas histórias em cacos da própria memória teve parte de sua formação na histórica cidade de Cachoeira, recôncavo baiano. Em Memórias, descreve as inesquecíveis manhãs ao atravessar a ponte nova para o colégio, debaixo de bruma. O nevoeiro acima. O Paraguaçu embaixo.

Nos cacos da minha memória: as férias, a mesma ponte, minha família, uma Variant azul e o som do atrito de ferro e madeira.

Era o ano de 1985. Um século antes, a Ponte Dom Pedro II, importada da Inglaterra, fora entregue à cidade. Pertencia, também ela, ao tempo de Justiniano.
De Cachoeira brotaram, ambos poetas, Damário da Cruz e João de Moraes Filho.

O primeiro escreveu: “De mim exijam pouco… pois o tempo que me resta é louca busca de atravessar o sol.”
E ainda:
“quanto mais eu sonho com Cachoeira /
mais amanheço em Nova York.”

Eugênio Gomes anota que, andando por NY, onde morou, e vendo os arranha-céus, vinha-lhe à cabeça um sobrado com telhado de três águas, imponente na humilde praça de sua cidade natal, nos anos de 1900. Ali onde quase nada havia e qualquer coisa se tornava imensa.

Em Fortaleza, numa manhã de janeiro de 1942, depois de três dias seguidos de chuva grossa, o astro-rei resolveu aparecer. Bastou. Sem aviso, sem combinação, a Praça do Ferreira se encheu de gente.

Todos contra o sol: um coro de vaias e assobios. Não houve tiro, mas xingamentos e gritos.
João de Moraes, quase um século depois do tiro de Justiniano, compõe os versos:
“O sol bate mais forte
na cara do homem que capina a esperança
por um prato de comida
quieta, menino, não dispare contra o sol,
ele esfria de cansaço.”

A ciência diz que o sol se apagará um dia. O danado, antes do fim, vai se expandir e contrair, só para contrariar. Coisa vai ser, Justiniano, quando o segundo sol chegar.

Alexandre Gusmão é arte educador,
professor de arte e biólogo.

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