Por Angela Monize – Domingo, 26 de abril de 2026
passando pela chuva,
gotas ainda presas no ar, o cheiro denso da terra,
o barro cedendo sob os passos, o céu recém-aberto em respiração,
eu a observo.
passando pela mata,
chão verde entre cortes de terra seca, raízes expostas, pequenos silêncios vivos entre folhas,
o tempo suspenso entre o que morreu e o que ainda vive,
eu a observo.
passando depois do trovão,
ar ainda carregado, o eco vibrando baixo,
o mundo em ajuste fino,
eu a observo…
uma flor de trovão interrompe minha pupila
o olhar falha por um segundo,
como se a luz tivesse sido desviada diretamente pra você.
o campo inteiro perde definição, e só um ponto permanece nítido.
cor aberta, haste fina, dimensionada.
a luz se concentra
a cor acende no meio do terreno irregular, luminoso, derradeiro…
minha pupila dilata,
tentando alcançar o que transborda.
um foco de claridade,
vibrando contra o fundo opaco do chão,
fazendo do olhar um lugar estreito demais para contê-la.
o campo inteiro cede.
cebola brava,
cravada no chão com raízes densas,
camadas sobre camadas guardadas sob a superfície.
existe em você algo que não se entrega inteiro de imediato, mas vibra intensamente no seu sorriso.
sou puxada pela raiz,
ela incendeia.
somente algumas pessoas conseguem ver tal efeito.
há mais beleza no que não se mostra de imediato. mais força no que permanece oculto.
o sorriso, aberto como flor, de orelha a orelha,
não encerra,
inicia tudo.
meus olhos acompanham,
e tudo converge.
e ali,
nesse ponto exato onde tudo converge,
sou puxada pela raiz, em busca de saber quão próxima estou dos segredos que posso ouvir, das memórias compartilhadas, os cafés em copos de vidro sobre uma mesa transparente atravessada de informações.
as camadas da cebola brava, como quis ser chamada.
as camadas que, quando se soltam, ardem,
fazem os olhos reagirem,
fazem lacrimejar não de dor,
mas de intensidade.
a verdade é que nem toda beleza é leve de atravessar.
existe uma estrutura que guarda, protege,
e não permite acesso descuidado.
e ainda assim,
é impossível não querer entender de onde vem tanta incidência,
tamanha força concentrada em tão pouco tempo.
talvez exista um segredo guardado no que não se mostra de imediato.
talvez o brilho venha justamente do que ficou retido, comprimido, elaborado no escuro.
talvez a superfície seja só um gesto e o essencial seja a matéria viva.
você,
flor que responde ao impacto,
que se mantém mesmo sob a chuva,
entre os trovões, quando o mundo ainda vibra.
que carrega mais do que se deixa ver.
e é por isso que apenas olhar não satisfaz.
retorna e insiste na boa conversa, nas gracinhas, no riso solto…
e é por isso
que eu a observo…
entre uma conversa e outra, o tempo se abre em detalhes.
um café dividido,
uma frase que permanece
projetos, sonhos, vida.
um riso que não se esgota.
há uma construção acontecendo.
permanecer perto o suficiente pra ver mais uma camada se revelar.
e então, sem alarde,
a amizade começar a florescer
entre eu e você,
cebola brava.
Foto: Angela Monize