Mesmo com notável subnotificação, quantidade de casos de violência contra mulheres registrados pelo SUS escancaram misoginia como uma crise nas estruturas da sociedade brasileira
Por Sophia Vieira
Em 2025, as unidades de saúde do Brasil atenderam 900 meninas e mulheres vítimas de violência por dia, somando 330 mil registros. A denúncia foi feita em reportagem da Folha, com dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e ajuda do Ministério da Saúde. Entre 2015 e 2025, entre as 2,3 milhões de notificações de violência interpessoal registradas por unidades de saúde públicas e privadas, 71% das vítimas foram mulheres.
O perfil das vítimas atesta quais são os grupos mais vulneráveis: mulheres entre 20 e 49 anos, majoritariamente negras (pretas e pardas), com menor escolaridade e agredidas dentro de casa por parceiros ou ex-parceiros. Em mais da metade dos casos, elas já haviam buscado atendimento anteriormente pelo mesmo motivo, o que evidencia a repetição da violência e as dificuldades de rompimento desse ciclo.
Os números, contudo, ainda são incapazes de refletir a totalidade dos casos. Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Senado, apenas 34% das vítimas procuram algum tipo de assistência à saúde. A pesquisadora Camila Alves, da Fiocruz, afirma à reportagem que o aumento das notificações também está relacionado à melhora na identificação e no registro dos casos por profissionais de saúde, especialmente no Sistema Único de Saúde.
Essa mesma pesquisa indica que 27% das brasileiras sofreram violência doméstica e familiar em 2025. A percepção social acompanha esse cenário: 79% das mulheres acreditam que a violência aumentou no país, 67% afirmam conhecer alguma vítima e 94% consideram o Brasil um país machista.
Os dados, então, proporcionam um diagnóstico claro: a violência contra a mulher não é uma crise que cresce junto à ascensão dos “red pills” e outras vertentes masculinistas digitais, mas algo cristalizado nas estruturas de toda a sociedade. Políticas públicas de proteção e prevenção, como os protocolos estabelecidos pelo SUS são essenciais para evitar que os subsequentes episódios vão às suas consequências finais: o feminicídio.
Fonte: Outra Saúde / Créditos: Freepik