Guerra no Irã eleva petróleo a US$ 120 e pressiona custos do agro no Brasil

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Alta do diesel chega a 7,7% no país e fertilizantes nitrogenados sobem até 60%, com risco de impacto na produção de alimentos entre 2026 e 2027.

A guerra no Irã passou a afetar diretamente três bases operacionais do agronegócio global: energia, fertilizantes e logística, concentradas na região do Golfo Pérsico. Os primeiros reflexos já aparecem nos preços internacionais de alimentos. Em março, o índice da FAO subiu 2,4% em relação a fevereiro, com aumento em cereais 1,5%, óleos vegetais 5,1% e açúcar 7,2%.

Engenheira agrônoma Patrícia Cesarino: “A volatilidade é a única certeza. É preciso evitar compras de última hora, diversificar fornecedores e reduzir dependência de origens específicas” – Foto: Divulgação

A entidade alerta que a continuidade do conflito pode elevar os custos de fertilizantes e combustíveis a ponto de reduzir o uso de insumos, limitar áreas plantadas ou induzir a migração para culturas menos intensivas. Esse movimento tende a restringir a oferta global de alimentos entre 2026 e 2027.

Projeções da Organização das Nações Unidas indicam que até 45 milhões de pessoas podem entrar em situação de fome aguda caso o cenário persista, ampliando o quadro de insegurança alimentar global.

No mercado de energia, o petróleo Brent chegou próximo de US$ 120 por barril no fim de março. “Esse movimento pressiona toda a cadeia produtiva, já que energia é insumo essencial tanto na fabricação de fertilizantes quanto no transporte global de mercadorias”, afirma a engenheira agrônoma Patrícia Cesarino.

O Estreito de Ormuz tornou-se um ponto crítico. A região concentra cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e até 30% do comércio global de fertilizantes. “A forte alta no petróleo no mercado internacional tem impactos diretos no preço do diesel no Brasil, que já acumula aumentos relevantes desde o início do conflito”, diz o engenheiro agrônomo Hugo Centurion.

No mercado interno, o diesel registrou alta de até 7,7% em poucos dias, refletindo a escalada do petróleo. O Brasil importa entre 25% e 30% do combustível que consome, o que amplia a exposição às oscilações externas.

O efeito sobre o agro é direto. O diesel representa entre 30% e 40% do custo do transporte rodoviário, principal modal logístico do país. “Como o Brasil depende majoritariamente de caminhões para distribuir alimentos, qualquer alta no combustível se traduz rapidamente em aumento do frete, pressionando o custo de produção, o escoamento da safra e os preços dos alimentos ao consumidor”, afirma Patrícia.

Engenheiro agrônomo Hugo Centurion: “Estamos em um momento de cautela, mas também de evolução tecnológica forçada pela necessidade” – Foto: Divulgação

No segmento de insumos, fertilizantes nitrogenados registraram aumento de cerca de 60% em algumas regiões desde o início do conflito. A produção depende diretamente do gás natural, cuja alta eleva o custo industrial. Ao mesmo tempo, o risco geopolítico encarece seguros marítimos e fretes internacionais. “O resultado é um efeito simultâneo e cumulativo produzir, transportar e distribuir insumos agrícolas ficou mais caro ao mesmo tempo”, salienta Centurion.

Esse impacto recai sobre um ponto estrutural da produção global. Estima-se que até metade dos alimentos produzidos no mundo dependa de nitrogênio sintético. Qualquer restrição no acesso a fertilizantes afeta diretamente a produtividade das lavouras.

Relatórios recentes indicam que atrasos na entrega de fertilizantes podem reduzir a produtividade em até 4% apenas pelo descompasso na aplicação, com perdas maiores caso o uso seja reduzido. Em algumas regiões, produtores já revisam para baixo as estimativas de rendimento, especialmente no milho.

Diante desse cenário, a gestão de risco passou a ser central na estratégia produtiva. “Para quem ainda não travou o custeio da próxima safra, o momento é de escalonar compras sem esperar por uma queda nos preços”, orienta Patrícia. “A volatilidade é a única certeza. É preciso evitar compras de última hora, diversificar fornecedores e reduzir dependência de origens específicas”, complementa.

O uso de tecnologia também ganha peso. Ajustes finos na adubação, com base em mapas de fertilidade e análise detalhada de solo, permitem otimizar o uso de insumos e reduzir perdas. “O agronegócio brasileiro é resiliente, mas a guerra no Irã exige uma empresarialização ainda maior do campo. O produtor que sobreviverá a esta crise com margens saudáveis será aquele que priorizar a eficiência técnica e a gestão rigorosa de custos”, afirma Patrícia. “Estamos em um momento de cautela, mas também de evolução tecnológica forçada pela necessidade”, completa Centurion.

Fonte: Assessoria

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