o mundo pulsa forte depois da meia-noite.
Por Angela Monize – Quarta, 13 de maio de 2026
as avenidas continuam acesas como se a cidade tivesse desaprendido a dormir. os postes derramam luz sobre o asfalto molhado, os semáforos trocam de cor para ninguém, os fios elétricos cortam o céu como cicatrizes suspensas.
e eu atravesso tudo isso sentindo o peito cheio de alguma coisa impossível de conter.
é como se existir queimasse por dentro.
o corpo tenta acompanhar a velocidade dos dias, das pessoas, das mudanças, enquanto o coração insiste em sentir tudo até o extremo. até a última camada. onde já não deveria alcançar.
eu vejo a neblina da minha janela ao amanhecer e penso no quanto a vida nunca desacelera por ninguém. vejo prédios gigantescos ocupando o horizonte como monumentos erguidos ao cansaço. vejo janelas acesas às quatro da manhã e sei que existe alguém do outro lado tentando sobreviver ao próprio excesso também.
aquilo que se faz com os pensamentos, com as memórias, com um futuro inteiro acumulado dentro da cabeça…
o excesso.
não ouço dizer sobre o peso que cada pessoa pode ou consegue carregar. sobre essa necessidade absurda de continuar funcionando mesmo quando alguma coisa dentro da gente já desmoronou faz tempo. a normalidade me assusta às vezes. essa encenação coletiva de que todo mundo suporta tudo muito bem e o tempo todo.
ninguém suporta nada.
a encenação se recria.
a vida passa por cima de mim constantemente e, ainda assim, eu preciso levantar. responder mensagens. sorrir em alguns momentos. continuar atravessando ruas como se os meus pensamentos não estivessem imensos dentro da minha cabeça. engolir o tempo todo aquele gostinho de chorar…
me sinto ao avesso.
e talvez o pior seja perceber que ninguém consegue visualizar sentimentos. as pessoas escutam, aconselham, abraçam… mas ninguém vê realmente. ninguém toca exatamente no lugar onde as coisas doem. às vezes, acontece o contrário.
as pessoas mudam de voz.
os lugares perdem o cheiro.
as roupas deixam de servir.
os sonhos apodrecem ou florescem rápido demais.
e eu continuo sentindo tudo.
de uma maneira quase inconveniente. exagerada. insuportável.
mas ainda assim, viver continua sendo incrivelmente bonito.
é surreal perceber que consigo transformar tudo isso em palavra. escrever exatamente do jeito que sangra. tocar alguém que talvez nunca tenha me visto na vida, mas que vai parar por alguns segundos porque se reconheceu em alguma frase minha.
isso me destrói de um jeito bonito.
porque escrever, pra mim, sempre foi o jeito mais honesto de existir.
é quase como abrir o peito com as próprias mãos e ainda assim continuar viva. escrever de qualquer maneira, até mesmo em conversas aleatórias com meus amigos mais íntimos. entregar a minha dor crua, em palavras, o tempo todo.
o único lugar onde eu finalmente não preciso diminuir a intensidade das coisas.