ACM Neto pode se beneficiar de nova postura do bolsonarismo, por Raul Monteiro

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A grande família Bolsonaro, cujo projeto atual é eleger o chamado O1 Flávio à Presidência da República, parece ter finalmente despertado para a necessidade de olhar a Bahia e ACM Neto (União Brasil) sob nova perspectiva. Ao invés de exigir de Neto um palanque como condição para apoiá-lo no Estado, Flávio, primeiro, e agora o irmão, Eduardo, que se auto-exilou nos Estados Unidos, passaram a defender o voto no candidato das oposições como forma de derrotar o PT aqui e o presidente Lula, nacionalmente. A ideia, portanto, é não atrapalhar Neto na corrida ao governo e, no segundo do turno, contar com seu apoio para eleger Flávio.

Na prática, trata-se de um sinal à base bolsonarista composta de extremistas para que pare de cobrar de Neto a contrapartida do apoio ao presidenciável como condição para votar nele ao governo. É também uma virada de 180 graus em relação àquilo que o bolsonarismo, na época em que o pai de ambos tentou se reeleger, fez. Em 2022, montado na arrogância e no autoritarismo que marcaram seu governo, sua história e comportamento, o capitão fez birra contra a estratégia de Neto de não apoiá-lo na Bahia no primeiro turno, vingando-se com a montagem de um palanque ao governo para seu então ex-ministro João Roma (PL) que não os levou a nada.

De quebra, ainda viu Neto cruzar os braços na Bahia na campanha do segundo turno em que foi derrotado por Lula. De fato, a inteligência parece nunca ter sido a marca do capitão hoje em prisão domiciliar. Quanto a Roma, agiu com o oportunismo que sempre o caracterizou mas, ao final, o colocou de volta aos pés de Neto, na chapa de quem será candidato a senador. Agora, em mais um sinal de que Flávio pode ser melhor do que o pai, principalmente de cabeça, o candidato adota uma estratégia fincada em um objetivo eleitoral e não na ideologia maluca que até aqui norteou a família e seus seguidores radicais.

É um alívio para o candidato oposicionista que agora, assim como há quatro anos, não pode abrir mão dos votos que compartilha com o presidente Lula no Estado, o chamado “Luneto”. Naquele pleito marcado pela calcificação da polarização no país, pelo menos cerca de 1,2 milhão eleitores votaram nele e no petista, um contingente expressivo que o empurrou para o segundo turno, colocando-o muito próximo da vitória contra o hoje governador Jerônimo Rodrigues (PT). Portanto, ao contrário da tese anti-científica de que foi derrotado ao governo porque não apoiou a reeleição de Bolsonaro, a decisão de Neto de ficar neutro, sem um candidato declarado à Presidência, foi a mais acertada para a hora, garantindo-lhe uma performance eleitoral histórica e cacifando-o para o pleito de agora. 

A bem da verdade, Neto tem hoje à sua disposição a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado (PSD) para apoiar. Se o ex-governador de Goiás não chega a representar, pelo menos por hora, uma alternativa concreta para a disputa presidencial, não deixa de ser um antídoto contra uma eventual tentativa da campanha governista de classificar Neto como um candidato ‘tanto faz’, sem um padrinho nacional, como ocorreu no pleito passado. Não dá para descartar que seja um diferencial ao qual se juntam outros, decorrentes de sua determinação de evitar os erros da campanha passada que, juntos, dificultaram imensamente sua vitória.

*Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

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