As metástases cerebrais, condição em que células tumorais se disseminam de outros órgãos para o cérebro, estão entre as complicações mais frequentes e graves do câncer avançado. Segundo um estudo populacional publicado em 2025 na revista Frontiers in Oncology, pacientes com metástases cerebrais que receberam radioterapia apresentaram taxas de sobrevida acima de 79% após doze meses, percentual significativamente superior ao observado entre aqueles que não receberam radioterapia. No grupo sem radioterapia, 43,6% morreram em até seis meses. A análise, baseada em 55.094 pacientes da base norte-americana SEER, reforça o papel central da radioterapia no controle da doença e na ampliação da sobrevida desses pacientes.
Os dados reforçam um movimento já observado em estudos recentes sobre a evolução do tratamento das metástases cerebrais, marcado pela ampliação do uso da radioterapia de alta precisão e pela integração com terapias sistêmicas modernas, como imunoterapia e terapias-alvo. Um estudo publicado em 2023 na Japanese Journal of Clinical Oncology, com 800 pacientes acompanhados em um centro oncológico japonês, mostrou que 74,6% dos pacientes com metástases cerebrais receberam radioterapia ao longo do tratamento, além de apontar crescimento progressivo do uso da radiocirurgia estereotáxica e da associação entre radioterapia e tratamentos sistêmicos.
De acordo com a rádio-oncologista brasileira Sonmi Lee, membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) titular do Real Hospital Português, o avanço tecnológico vem transformando o manejo das metástases cerebrais e ampliando as possibilidades de controle da doença. “Hoje, conseguimos tratar muitas metástases cerebrais de forma muito mais precisa, preservando estruturas importantes do cérebro e reduzindo efeitos colaterais historicamente associados ao tratamento. A radiocirurgia representa um dos maiores avanços nesse cenário porque permite entregar altas doses de radiação de maneira extremamente localizada”, explica.
Metástases cerebrais podem surgir em diferentes tipos de câncer
As metástases cerebrais ocorrem quando células malignas conseguem atravessar a circulação sanguínea e atingir o sistema nervoso central. Diferentemente dos tumores primários do cérebro, elas mantêm as características do câncer de origem. Assim, uma metástase cerebral decorrente de câncer de mama continua sendo biologicamente um câncer de mama metastático.
Embora praticamente qualquer tumor possa atingir o cérebro, os tipos mais frequentemente associados às metástases cerebrais incluem os cânceres de pulmão, mama, rim, colorretal e melanoma. O estudo populacional publicado em 2025 identificou que o câncer de pulmão correspondeu a 79,2% dos casos avaliados, seguido por melanoma, câncer de mama e tumores renais.
O artigo também mostra que a idade influencia diretamente o prognóstico. Pacientes mais jovens apresentaram maior sobrevida após o diagnóstico das metástases cerebrais, enquanto o risco de mortalidade aumentou progressivamente após os 65 anos, sobretudo nos casos relacionados ao câncer de pulmão, mama e linfomas.
Além disso, as metástases cerebrais podem ocorrer de diferentes formas dentro do sistema nervoso central. Existem as chamadas metástases parenquimatosas, que formam tumores no tecido cerebral propriamente dito, e as metástases leptomeníngeas, que acometem as membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal, geralmente associadas a prognóstico mais agressivo.
Dependendo da localização e do tamanho das lesões, os pacientes podem apresentar dores de cabeça persistentes, alterações cognitivas, crises convulsivas, mudanças de personalidade, alterações visuais, dificuldades motoras, problemas de equilíbrio e alterações na fala.
“O diagnóstico precoce ainda é um desafio importante porque muitos sintomas podem inicialmente ser confundidos com outras condições neurológicas ou clínicas. A tomografia computadorizada e, principalmente, a ressonância magnética têm papel fundamental nesta investigação”, explica Sonmi Lee.
Radioterapia de alta precisão ganha espaço no tratamento
A radioterapia permanece como um dos principais pilares terapêuticos no tratamento das metástases cerebrais. Nas últimas décadas, entretanto, houve uma mudança importante na forma de utilização dessas técnicas, com redução gradual do uso da radioterapia de cérebro total e crescimento das abordagens mais focais e individualizadas.
O estudo japonês publicado em 2023 identificou exatamente essa tendência. Entre 2016 e 2021, os pesquisadores observaram aumento do uso da radiocirurgia estereotáxica, técnica que utiliza feixes altamente direcionados de radiação para tratar pequenas lesões cerebrais em poucas sessões, preservando tecidos saudáveis ao redor.
Os dados mostraram que a radioterapia de cérebro total isolada caiu de 28,7% para 18,8% ao longo do período analisado, enquanto a radiocirurgia associada a terapias sistêmicas aumentou progressivamente. Segundo os autores, essa mudança acompanha a busca por tratamentos mais eficazes e menos tóxicos do ponto de vista neurocognitivo.
“Estamos conseguindo tratar muitas metástases cerebrais sem necessariamente irradiar o cérebro inteiro. A radiocirurgia permite maior preservação cognitiva e, em muitos casos, controle local bastante elevado das lesões”, afirma Sonmi Lee. A especialista explica também que a escolha da estratégia terapêutica depende de múltiplos fatores, incluindo número de metástases, localização das lesões, controle da doença fora do cérebro, condição clínica do paciente e características moleculares do tumor primário.
Integração entre radioterapia e terapias-alvo amplia possibilidades
Outra mudança importante observada nos estudos recentes é a integração crescente entre radioterapia e tratamentos sistêmicos modernos. Medicamentos como terapias-alvo e imunoterápicos vêm demonstrando maior capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica e atuar diretamente nas metástases cerebrais.
No estudo japonês, os pesquisadores observaram aumento progressivo do uso combinado da radioterapia com terapias-alvo e imunoterapia, especialmente em tumores de pulmão com mutações específicas e em câncer de mama HER2 positivo.
O estudo populacional de 2025 também destaca que avanços recentes na Oncologia molecular vêm modificando o prognóstico de determinados grupos de pacientes. Entre os exemplos citados estão os inibidores de tirosina quinase de terceira geração, como o osimertinibe, utilizados em câncer de pulmão com mutações em EGFR, além de terapias direcionadas ao HER2 no câncer de mama metastático.
“Hoje já existem tratamentos sistêmicos com atividade intracraniana bastante relevante. Em muitos casos, conseguimos combinar essas terapias com radioterapia de maneira personalizada, ampliando controle da doença e qualidade de vida”, afirma Sonmi Lee.
Acesso desigual às tecnologias ainda limita tratamento no Brasil
Apesar dos avanços terapêuticos, especialistas alertam que o acesso à radioterapia e às tecnologias mais modernas permanece desigual no Brasil. Embora a radioterapia convencional esteja presente em diferentes regiões do país, a oferta de radiocirurgia estereotáxica ainda é limitada e concentrada em centros especializados.
Segundo a SBRT, o cenário é agravado pela distribuição desigual dos equipamentos e pela dificuldade de acesso a serviços de alta complexidade fora dos grandes centros urbanos. “Existe uma desigualdade importante no acesso, tanto do ponto de vista geográfico quanto estrutural. Muitos pacientes ainda enfrentam demora para iniciar a radioterapia ou precisam percorrer longas distâncias para conseguir tratamento especializado. Quando falamos em tecnologias mais avançadas, como a radiocirurgia, essa limitação se torna ainda mais evidente”, afirma Sonmi Lee.
Além das metástases cerebrais, a radioterapia também desempenha papel central no tratamento dos tumores primários do sistema nervoso central, como os gliomas. Nesses casos, o tratamento frequentemente é realizado após cirurgia, podendo atuar tanto no controle local da doença quanto na redução do risco de progressão tumoral. Para os especialistas, os avanços observados nos últimos anos reforçam a necessidade de ampliar a infraestrutura de radioterapia no país e garantir acesso mais equitativo às tecnologias modernas de tratamento oncológico.
“Os avanços existem e vêm modificando o prognóstico e a qualidade de vida de muitos pacientes com metástases cerebrais. O grande desafio agora é garantir que essas tecnologias e abordagens estejam disponíveis de maneira mais ampla e equitativa no sistema de saúde brasileiro”, finaliza Sonmi Lee.
Com Informações do Site Medicina SA