Mesmo após a cura, tuberculose mantém risco elevado de morte por até 14 anos, aponta estudo

saúde

Escrito por Lívia Oliveira 

Pesquisa mostra que sobreviventes da doença seguem enfrentando risco elevado de morte por câncer, problemas cardiovasculares, doenças respiratórias e causas sociais. 

A tuberculose pode até sair dos exames, mas nem sempre sai da trajetória de vida de quem enfrentou a doença. Um estudo desenvolvido por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) publicado na Nature Medicine acendeu um alerta: mesmo após concluir o tratamento com sucesso, pessoas diagnosticadas com tuberculose continuam apresentando risco maior de morte por diversas causas por até 14 anos. 

A pesquisa analisou dados de milhões de brasileiros entre 2004 e 2018 e reforça que a cura microbiológica não encerra, necessariamente, os impactos da infecção sobre o corpo e sobre a vida. A pesquisa utilizou dados da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, vinculados a registros nacionais de tuberculose e mortalidade. Os pesquisadores compararam pessoas diagnosticadas e tratadas para tuberculose com indivíduos sem histórico da doença, mas com perfis socioeconômicos semelhantes. 

Os achados apontaram que mesmo após o tratamento, o risco de morte por causas naturais permaneceu 77% maior entre ex-pacientes. Entre as pessoas que foram apenas diagnosticadas, esse risco mais que dobrou: ao longo de 14 anos, o risco de morte por causas naturais foi 116% maior do que aquelas sem histórico da doença.  

Os efeitos de longo prazo atravessam múltiplos sistemas do organismo. O estudo encontrou aumento nas mortes por doenças cardiovasculares, câncer, enfermidades respiratórias e distúrbios endócrinos, como diabetes. Também chamou atenção o crescimento de mortes por causas externas, como violência e homicídios. Os achados sugerem que a tuberculose pode aprofundar desigualdades já existentes. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a tuberculose voltou a ocupar, em 2023, o posto de principal causa de morte por um único agente infeccioso no planeta. Nesse contexto, combater a tuberculose não deve significar apenas diagnosticar e tratar, mas também acompanhar sobreviventes a longo prazo. 

Os autores do estudo apontam que políticas públicas precisam ir além da distribuição de antibióticos, como criar programas de acompanhamento pós-tratamento no SUS, com monitoramento cardiovascular, respiratório e metabólico, integrar suporte psicológico e assistência social para reduzir o estigma e suas consequências, fortalecer estratégias de busca ativa em populações vulneráveis e incorporar a tuberculose como marcador de risco crônico nas políticas de saúde pública. 

Pesquisador(es): Thiago Cerqueira-Silva, Viviane Boaventura, Enny PaixãoMauro Sanchez, Clémence Leyrat, Otavio T. Ranzani, Mauricio BarretoJulia Pescarini.

Fonte: Cidacs Bahia / Foto: Envato



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