Saúde: uma força de trabalho superexplorada

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Salários baixos. Jornadas longas. Trabalho intenso e extenuante. Em seminário de Outra Saúde, pesquisadora caracteriza condições laborais na saúde em país dependente: “O SUS são trabalhadores precarizados cuidando de trabalhadores precarizados”

Por Thauanne Gonçalves

Durante o primeiro dia da etapa São Paulo do evento “Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS”, ficou muito evidente, a partir das manifestações da plateia, a alta expectativa para discutirmos hoje a situação dos trabalhadores do SUS. E, sobretudo, para pensar no futuro desses trabalhadores. A mesa que estamos realizando no segundo dia tem essa grande responsabilidade.

No Grupo de Pesquisa Saúde, Sociedade, Estado, Mercado (SEM) do Instituto de Medicina Social (IMS) da UERJ, temos como uma das nossas principais frentes de trabalho os estudos sobre a força de trabalho em saúde no Brasil. Somos um grupo marxista que compõe a recém criada Rede de Pesquisa Marxista na Saúde, que foi fundada em 2025 e contou com o apoio do Outra Saúde para a publicação da nossa Carta.

O principal referencial teórico que utilizamos nas nossas pesquisas é a Teoria Marxista da Dependência (TMD), que tem como categoria analítica fundamental a superexploração da força de trabalho. É a partir dessa lente que observamos a realidade dos trabalhadores do SUS.

Cabe destacar que essa frente de trabalho surgiu quando, ao estudar textos sobre a TMD e o conceito de superexploração, percebemos o quanto aquelas observações pareciam descrever a realidade da enfermagem brasileira. Esse, então, foi nosso ponto de partida: buscar “sinais” de superexploração na enfermagem. E cada vez mais fomos nos convencendo de que essa interpretação se mostrava bastante interessante para analisar a realidade do trabalho no país. Atualmente, estamos desenvolvendo uma pesquisa mais ampla sobre o tema, agregando outros profissionais, mas começamos essa trajetória observando resultados de outras pesquisas sobre as nossas lentes.

Em termos bastante gerais, os trabalhadores dos países dependentes estão relegados a condições de trabalho muito precárias, porque carregam em seus ombros a necessidade de transferir valor da periferia para o centro do capitalismo. É esse olhar, que considera uma perspectiva ampliada sobre a economia política, que nós trazemos para o trabalho em saúde e a partir do qual pensamos nossa práxis. 

Passando então para uma aproximação da realidade do trabalho, são três os principais mecanismos pelos quais a superexploração ocorre: baixa remuneraçãolongas jornadas; e alta intensidade do trabalho. O que temos observado?

A baixa remuneração das enfermeiras no Brasil

Para entendermos se um salário é alto ou baixo, temos que definir algum parâmetro. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) realiza um estudo atualizado mensalmente que calcula o salário mínimo necessário (SMN)1, considerando o que a Constituição Federal de 1988 (Art. 7º, IV) determina como essencial para o trabalhador e sua família. Para abril de 2026, o SMN foi de 7.612 reais, enquanto o salário mínimo realmente em vigor é de 1.621 reais, ou seja, 4 vezes menor.

E o Piso da Enfermagem? A Lei 14.434/2022 determinou um piso de 4.750 reais para enfermeiras, 70% desse valor para técnicas e 50% para auxiliares. A recente pesquisa da Demografia da Enfermagem2 mostrou que desde 2015, a maior parte das enfermeiras ganha entre 3 e 4 salários mínimos, ou seja, abaixo do SMN, com piora acentuada desde 2021. Isso significa que, durante a pandemia, enquanto a enfermagem lidava com os horrores da covid-19, sua média salarial caía. 

Os efeitos do piso ainda precisam ser avaliados, porque sua implementação é recente e ainda não temos dados disponíveis em todas as bases que utilizamos. Mas cabe ressaltar que, mesmo em uma conjuntura muito adversa, com pandemia e Bolsonaro, a enfermagem conseguiu aprovar uma lei de piso nacional — e isso não é pouca coisa. Isso mostra a força dessas trabalhadoras, que são 87% de mulheres dentre os 3 milhões de registros profissionais no COFEN.3

Entretanto, para o piso ser capaz de mudar substancialmente a realidade das enfermeiras, ele deve ser associado a uma jornada de trabalho de 30 horas semanais – além de possuir um mecanismo de reajuste, é claro. Porém, o STF determinou que o piso é referente à jornada de 44 horas. Isso nos leva ao segundo mecanismo da superexploração: a jornada de trabalho prolongada.

As intermináveis jornadas de trabalho na saúde

Por definição, as profissões de saúde lidam com a insalubridade – ela é parte da atividade profissional. Sendo assim, é fundamental a redução da jornada. E o que acontece com o trabalhador que ultrapassa os limites que deveriam ser estabelecidos na jornada? O consumo do seu fundo de vida. Por isso, a remuneração deve estar atrelada à jornada, não podemos pensar as duas coisas separadamente. A redução da jornada sem aumento salarial leva à multiplicidade de vínculos, que por sua vez resulta em… longas jornadas.

E será que a alta remuneração pode compensar as longas jornadas? Para responder a essa pergunta, podemos observar o cenário da medicina. Os médicos possuem uma média de remuneração dentre as maiores das profissões de nível superior no país. Mas, se considerarmos que o baixo salário não é um problema para esta categoria, poderíamos ainda assim dizer que os médicos são superexplorados? O estudo Demografia Médica de 20254 aponta para uma redução importante dos vínculos formais. Além disso, recentemente, a pesquisadora Fernanda Rodrigues defendeu uma dissertação no IMS sobre a plataformização do trabalho médico por empresas de telemedicina.5 Ou seja, o modelo de plataformas como iFood e Uber já chegou na área médica.

Antes, a Demografia Médica de 20206 já havia trazido alguns dados alarmantes sobre as jornadas da categoria: em uma comparação dos anos de 2014 e 2019, os médicos que relataram ter 6 vínculos ou mais subiram de 5% para 18%. E em relação à duração da jornada semanal, em 2019, 46% dos médicos relataram trabalhar mais de 60h semanais, sendo quase 30% mais de 80 horas.

Há remuneração que compense essas jornadas? Existem estudos de conselhos regionais de medicina que mostram que médicos têm expectativa de vida inferior à população geral.Novamente, é isso que faz ser fundamental considerar a redução da jornada de trabalho junto à questão salarial. 

Voltando à enfermagem, por isso é tão relevante aprovar a PEC 19/2024, que visa associar o piso à redução da jornada e incluir o reajuste anual. A demografia da enfermagem mostra que um percentual muito pequeno das profissionais trabalha até 30 horas.

Quando se observam os vínculos da enfermagem no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), como foi feito pela pesquisadora Thaís Brasil, que defendeu uma tese no IMS/UERJ sobre a precarização do trabalho da enfermagem na Estratégia de Saúde da Família8, encontramos algo interessante.

Em relação ao tipo de vínculo de enfermeiras e técnicas em 2023, observamos um percentual em torno de 20% de estatutários, 20% a 30% celetistas e 20% de contrato por tempo determinado. Por sua vez, quando vemos os dados das auxiliares de enfermagem, 45% são estatutárias, 26% celetistas e 7% têm contrato por tempo determinado. Nota-se então, uma piora progressiva dos tipos de vínculos com a diminuição do funcionalismo público, visto que, desde 2003, a formação de auxiliares vem sendo substituída pela de técnicas de enfermagem – o que significa que os vínculos desses primeiros são mais antigos. 

Um trabalho intenso e extenuante

Por fim, o terceiro mecanismo da superexploração é o aumento da intensidade do trabalho, o que a longo prazo resulta em doenças laborais, acidentes de trabalho e efeitos danosos para a segurança do paciente. 

A Demografia da Enfermagem mostra o aumento progressivo dos afastamentos do trabalho, acentuados desde a pandemia.2 Além disso, as técnicas e auxiliares de enfermagem lideram as estatísticas de acidentes de trabalho no Brasil.9,10

Para além dessa categorização que temos feito, há muitos pontos que carecem de ser abordados. Um deles é que a enfermagem, ao lado da nutrição e do serviço social, é uma das profissões de ensino superior com maior taxa de desemprego entre os recém formados, em torno de 25%, de acordo com uma pesquisa de 2024.11 Mas o desemprego na enfermagem vem sendo notado como um problema longínquo. Na pesquisa Perfil da Enfermagem Brasileira, publicada em 201712, 10% dos profissionais relataram terem enfrentado desemprego nos últimos 12 meses, compondo um montante de 182 mil profissionais.

Todas essas condições, junto com a difusão cada vez mais intensa da ideologia neoliberal no trabalho, gera uma pressão grande sobre os jovens profissionais e estudantes, que passam a acreditar que a saída para nossos problemas coletivos, pode ser individual. Muitos passam a buscar a emigração e o empreendedorismo como alternativa.

Um futuro para os trabalhadores do SUS

Por fim, eu queria trazer um pouco da minha experiência pessoal com o desalento das enfermeiras. Reli recentemente o documento “A questão democrática na área da saúde” 13 e me deparei com o seguinte trecho: “a grande maioria dos profissionais de saúde encontra-se, hoje, colocada na trincheira de uma batalha inglória a tentar remediar os males de um planejamento ineficaz para uma população carente”. 

À época, é claro, tratava-se do “planejamento ineficaz” da saúde antes do SUS. Contudo, esse trecho me marcou porque vejo isso nos olhares das enfermeiras que tenho como alunas. 

Eu poderia reescrever esse trecho dizendo que: a grande maioria dos profissionais de saúde encontra-se, hoje, colocada na trincheira inglória de tentar remediar os males das condições sociais de uma população superexplorada. O SUS é feito de trabalhadores precarizados cuidando de trabalhadores precarizados.

Há alguns anos, dou aula como convidada na graduação em enfermagem e na residência de enfermagem em saúde da família na UERJ e sempre busco abordar o tema das condições de trabalho. Só que as últimas aulas que dei este ano tomaram um rumo diferente do planejado. As enfermeiras ou técnicas que cursam enfermagem estavam muito angustiadas com sua prática e a aula virou um espaço de desabafo.

A residência é um caso bastante relevante no que se refere a problemas de sobrecarga de trabalho e fragilidade de vínculos, ao mesmo tempo que é uma ferramenta estratégica para superar problemas existentes no SUS, como a falta de especialistas.

Assim, em uma aula recente da residência, a greve da atenção básica do Rio de Janeiro, que permanece denunciando as condições precárias de trabalho e assistência, tornou-se um ponto sensível e necessário a ser tratado. Essa aula foi bastante difícil e a fragilidade dos vínculos das residentes as deixou sentindo-se sem saída.

Depois da aula, a coordenadora da disciplina, professora Amanda Xavier, me perguntou: será que deveríamos parar de falar sobre isso? As alunas saíram tristes e não é esse o nosso objetivo.

Depois de pensar por algum tempo, entendi que não. Não dá para jogar os problemas para baixo do tapete. No entanto, temos que passar a abordá-los trazendo ideias sobre como mitigá-los ou até superá-los. 

Essa é a importância de participar de momentos de reflexão que remetem aos 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde: pensar ideias para “adiar o fim do mundo” na Saúde Coletiva. Apesar dos muitos ataques aos direitos dos trabalhadores, ainda existem condições de luta nesse aspecto no país. 

O futuro do SUS só será, se o SUS oferecer um futuro a seus trabalhadores.


REFERÊNCIAS

1. DIEESE. Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos [Internet]. 2026 [citado 27 de maio de 2026]. DIEESE – análise cesta básica – Salário mínimo nominal e necessário. Disponível em: https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html 

2. Brasil. Demografia e mercado de trabalho em enfermagem no Brasil [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2025 [citado 11 de maio de 2026]. (Demografia da Enfermagem no Brasil 2025). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_enfermagem_mercado_trabalho_v1.pdf 

3. Cofen. Cofen – Conselho Federal de Enfermagem [Internet]. 2026 [citado 30 de janeiro de 2023]. Enfermagem em Números. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/enfermagem-em-numeros/ 

4. Scheffer et. al M. Demografia Médica no Brasil 2025 [Internet]. Brasília : Ministério da Saúde: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Associação Médica Brasileira; 2025. 446 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_medica_brasil_2025.pdf 

5. Rodrigues FSM. Plataformização do trabalho médico e a mercantilização da saúde: um estudo sobre plataformas de telemedicina no Brasil [Dissertação de mestrado] [Internet]. [Rio de Janeiro]: Instituto de Medicina Social (IMS), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); 2026. Disponível em: Ainda não publicada. 

6. Scheffer et. al M. Demografia Médica no Brasil 2020 [Internet]. São Paulo: Faculdade de Medicina da USP e Conselho Federal de Medicina; 2020. 312 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sgtes/acoes-em-educacao-em-saude/cfm-e-usp/07-relatorio-demografia-medica-no-brasil_2020-5.pdf 

7. Grupo de Trabalho “Mortalidade dos Médicos”. Estudo da mortalidade dos médicos no estado de São Paulo: tendências de uma década (2000-2009) [Internet]. março de 2012 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://www.cremesp.org.br/pdfs/Mortalidade%20v%20220312.pdf 

8. Brasil T de A. Expressões da precarização do trabalho: um estudo sobre a enfermagem da Estratégia Saúde da Família [Tese (Doutorado em Saúde Coletiva)] [Internet]. [Rio de Janeiro]: Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2025 [citado 30 de janeiro de 2026]. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/24451 

9. Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego [Internet]. 2025 [citado 27 de maio de 2026]. Ministério do Trabalho e Emprego identifica aumento de acidentes de trabalho no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/julho/ministerio-do-trabalho-e-emprego-identifica-aumento-de-acidentes-de-trabalho-no-brasil 

10. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiologico -v. 54, n.17 – Acidentes de trabalho com exposição a material biológico em profissionais da enfermagem, 2018-2022 [Internet]. 2023 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2023/boletim-epidemiologico-volume-54-no-17 

11. Instituto Semesp. 4a Pesquisa Empregabilidade [Internet]. 2024 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://revistaensinosuperior.com.br/wp-content/uploads/2024/09/Pesquisa-Empregabilidade-2024.pdf

12. Machado MH, et al., FIOCRUZ, COFEN. Relatório final da Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil. Rio de Janeiro, 28 volumes. Produzido em 2016, Publicado em 2017. Volume I – Brasil [Internet]. 2017 [citado 30 de janeiro de 2023]. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/perfilenfermagem/pdfs/relatoriofinal.pdf 

13. Cordeiro H, Fiori JL, Guimarães R. A questão democrática na área da Saúde. Physis Rev Saúde Coletiva. 2021;31:e310302. doi:https://doi.org/10.1590/S0103-73312021310302

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