Estudos pré-clínicos apontam que fármacos podem ressensibilizar as células tumorais, permitindo a retomada do tratamento
Texto: Eduarda Antunes Moreira* Arte: Heloisa Falaschi**
Sábado, 6 de junho de 2026
Pesquisadores brasileiros propõem uma nova conduta que pode aprimorar o tratamento de leucemia mieloide aguda (LMA), subtipo agressivo e de rápida progressão do câncer que atinge as células sanguíneas. O uso clínico do quimioterápico mais moderno disponível atualmente para a doença, o venetoclax, tem demonstrado uma tendência: após cerca de dois anos, muitos pacientes desenvolvem resistência e param de responder ao tratamento. Observando os resultados de diferentes estudos desenvolvidos de forma independente em diferentes países, além de suas próprias pesquisas, os cientistas perceberam que essa resistência pode ser revertida, o que tornaria os pacientes novamente sensíveis ao medicamento e permitiria a retomada do tratamento.
Este achado foi publicado recentemente na forma de um editorial científico que ganhou destaque na capa da edição de abril da revista científica Translational Cancer Research. O artigo aponta que a resistência desenvolvida pelas células tumorais é consequência de reprogramação metabólica, e que este processo pode ser revertido com o uso de fármacos inibidores de uma enzima específica, a nicotinamida fosforibosiltransferase (Nampt), que age em mais de um mecanismo de produção de energia, sendo essencial para a sobrevivência das células de câncer. Um exemplo bastante conhecido de fármaco que impede a produção de energia celular através de um desses mecanismos é a metformina, medicamento amplamente utilizado para o tratamento de diabetes tipo 2.
De acordo com o pesquisador João Agostinho Machado Neto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e responsável pela publicação, o editorial tem como principal objetivo informar aos pesquisadores da área que existe um novo paradigma científico sendo construído. A afirmação é baseada em estudos desenvolvidos por cientistas da USP, no Brasil, de Groningen, na Holanda, e do Texas, nos Estado Unidos, que chegaram a conclusões semelhantes mesmo trabalhando de maneira independente. “O artigo teve o intuito de mostrar que estamos convergindo para um conhecimento que merece um olhar mais cuidadoso e crítico, porque pode ter aplicação clínica em breve”, ressalta o pesquisador.

O estudo desenvolvido na USP mostra que tanto a metformina quanto um fármaco inibidor de Nampt, chamado de KPT-9274, foram capazes de reverter a resistência adquirida, ou seja, desencadeada em laboratório, de células tumorais contra o quimioterápico venetoclax. Enquanto isso, os pesquisadores de Groningen trabalharam com linhagens celulares tumorais com resistência intrínseca, desenvolvida naturalmente, e concluíram que as células foram ressensibilizadas ao venetoclax diante do tratamento com metformina, além de observarem um efeito ainda mais intenso com a administração combinada ao KPT-9274. Por fim, o grupo de pesquisadores do Texas utilizou células resistentes à quimioterapia padrão, que utiliza o medicamento citarabina, e observou que a administração do fármaco inibidor de Nampt também ressensibilizou as células tumorais ao tratamento quimioterápico.
De acordo com os pesquisadores, a questão fundamental agora é definir a melhor forma de converter esses resultados pré-clínicos em estratégias clinicamente viáveis. O professor João Agostinho Machado Neto conta que um grupo de pesquisa no Brasil já deu início a um estudo clínico com o uso de metformina em pacientes de leucemia mieloide aguda que desenvolvem resistência à quimioterapia. “A metformina pode ter aplicação imediata, porque ela já é aprovada, bastante conhecida e usada há mais de 50 anos na clínica. Mas certamente esses novos fármacos inibidores de Nampt têm potencial de serem ainda mais eficientes”, afirma.
* Bolsista Mídia Ciência – Jornalismo Científico/Fapesp no LarFarMar
**Estagiária sob orientação de Simone Gomes
Fonte: Jornal USP / Estudos em laboratório fundamentam proposta de uso clínico de medicamentos que podem reverter resistência a quimioterápicos – Foto: Thirdman/Pexels