*Prosear… sobre a ascensão social vendida ao público masculino*

Bahia Brasil colunistas

Por Maria Clara Fernandes Silva – Terça, 14 de julho de 2026

  • todos os caminhos levam ao futebol e às casas de apostas, por quê? 

     Em sua conhecida música, ‘‘País do Futebol’’, MC Guimê e Emicida retratam, de forma ímpar, o sonho de enriquecer por meio do futebol. Treze anos depois, percebe-se que o anseio permanece o mesmo: ascensão social. É claro que, atualmente, diversos outros meios surgiram como mantenedores desse desejo, porém, o que não surgiu de maneiras diversas foram as oportunidades ordinárias de crescimento. 

      Todo menino quer ser o novo Neymar, ‘‘jogar bonito’’, deixar a pobreza para trás. Ter o ‘‘frio da Europa’’ como dissipador do calor – de dificuldades – já vivenciado. Triste é saber que sonhar cansa, exige esforço físico, econômico e psicológico na busca de tornar-se o ‘‘predestinado’’. No país do futebol, difícil é crer em outra alternativa, difícil é valorizar outros meios, quando o que é vendido é a vida de luxo obtida através do esporte e, nessa partida, apenas o sistema marca o gol, porque indivíduos sem perspectiva servem melhor ao mercado do que quem pensa grande.

      Esse cenário de ilusão não é isolado; pesquisas apontam que cerca de 47% dos meninos e jovens brasileiros sonham ou apontam que teriam condições de ser jogadores de futebol profissionais. No entanto, a realidade do esporte é um “funil” extremo: a probabilidade de um jovem que almeja a carreira realmente se tornar um profissional de alto nível gira em torno de 1%. O problema, em si, não gira em torno do sonho, mas de ter apenas o futebol como objetivo de vida. Isso gera o abandono da vida estudantil, a frustração, muitas vezes, incompreendida, e a perpetuação da miséria tão comum àqueles que só chegaram a acertar a bola na trave. 

       E se não é possível alcançar a ascensão social no campo, que seja de uma maneira mais cômoda e, claro, sem precisar contar com os 1% das estatísticas. É aí que surgem as casas de apostas em sua maneira mais cruel: como preenchedora de sonhos não realizados. 

      No Brasil, as bets – ou os jogos de cassino online como o famoso ‘‘tigrinho’’ – até viram música, mas não há melodia existente que possa romantizar esse vício destruidor de tantas realidades. É certo que a ludopatia – transtorno mental caracterizado pela incapacidade incontrolável de parar de jogar -, tem tirado o ‘‘pão de cada dia’’ da boca de diversos brasileiros, mas o que não se fala, é que o futebol se tornou porta de entrada principal para esse vício. 

     Estampadas nos uniformes dos times, anunciadas nos intervalos das partidas e impulsionadas por ex-jogadores nas redes, as bets transformam o amor pelo esporte em desejo de ganho fácil. Dessa forma, o comum e prazeroso futebol – tido como entretenimento principal dentro dos lares brasileiros – transforma-se em uma armadilha que atrai, principalmente, os telespectadores mais vulneráveis economicamente. 

      As bets possuem tanta influência no país que são vistas quase como um símbolo pertencente aos indivíduos. Além disso, as redes sociais são as principais redes de propagação das casas de apostas, uma vez que é amplamente divulgado que ‘‘a plataforma está pagando muito’’. Entretanto, o lucro principal reside no roubo da sanidade mental do cidadão e do suado ‘‘tostão’’ conseguido com tanto esforço – e gasto tão facilmente. A realidade é que o Brasil ainda não descobriu o antídoto para essa nova doença nacional, da qual grande parte da população só recebe o diagnóstico no túmulo.

       Na crença da predestinação, para tentar assumir o controle e fugir da raridade, é preciso se entregar ao comum. Assim, a máfia das apostas trabalha com sonhos e anseios, onde se criam cenários em que o indivíduo pensa que chuta, mas quem comemora são outros.

Foto: Gerada no Chat GPT

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