O novo papel da radioterapia no combate ao câncer de mama

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Uma das pesquisas que mais chamaram a atenção durante a ASCO 2026, maior congresso mundial de oncologia, trouxe uma nova perspectiva sobre o papel da radioterapia no tratamento do câncer de mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos da doença.

O estudo TBCRC-053 (P-RAD) mostrou que a radioterapia aplicada antes da cirurgia, em combinação com a imunoterapia, pode fazer mais do que destruir o tumor localmente. Os resultados sugerem que ela também é capaz de estimular o sistema imunológico a reconhecer e atacar células cancerígenas em outras regiões do corpo.

A descoberta reforça um conceito que vem ganhando força na oncologia: o de que a radioterapia pode funcionar como uma espécie de “vacina tumoral”, ajudando o próprio organismo a combater o câncer.

“Tradicionalmente, enxergamos a radioterapia como um tratamento local, voltado para destruir células tumorais na região irradiada. O que este estudo sugere é algo muito interessante: ao atingir o tumor, a radiação pode despertar o sistema imunológico e fazê-lo reconhecer melhor o câncer, ampliando a resposta do organismo para além da área tratada”, explica o oncologista Daniel Gimenes, especialista em câncer de mama da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

O estudo avaliou pacientes com câncer de mama triplo-negativo localmente avançado, que receberam imunoterapia com pembrolizumabe associada ou não à radioterapia antes do tratamento convencional. Os pesquisadores observaram que as pacientes que receberam radioterapia apresentaram uma ativação significativamente maior das células de defesa responsáveis por combater o tumor.

Um dos achados mais relevantes foi a resposta observada nos linfonodos, estruturas do sistema linfático frequentemente afetadas pelo câncer de mama. Mesmo estando fora da área irradiada, esses linfonodos apresentaram maior taxa de eliminação das células tumorais, sugerindo que o benefício foi mediado pelo sistema imunológico e não apenas pela ação direta da radiação.

“Esse fenômeno é conhecido como efeito abscopal e é considerado um dos grandes desafios da pesquisa em imunoterapia. Ver sinais tão claros desse mecanismo em pacientes com câncer de mama é extremamente promissor, porque abre caminho para estratégias capazes de potencializar a resposta aos tratamentos atuais”, afirma Gimenes.

Outro resultado que chamou atenção dos especialistas foi que a menor dose de radioterapia testada apresentou resultados tão bons quanto — e em alguns aspectos até melhores que — a dose mais alta utilizada no estudo. Segundo os pesquisadores, isso pode indicar que doses mais baixas sejam suficientes para ativar o sistema imunológico, reduzindo potencialmente os efeitos colaterais do tratamento.

Embora os resultados ainda precisem ser confirmados em estudos maiores antes de mudarem a prática clínica, os dados apresentados na ASCO 2026 são considerados uma importante prova de conceito para uma nova forma de utilizar a radioterapia no câncer de mama.

“Se esses resultados forem confirmados em pesquisas futuras, poderemos estar diante de uma mudança importante de paradigma. A radioterapia deixaria de ser vista apenas como uma ferramenta de controle local e passaria a ser utilizada também como uma estratégia para potencializar a ação da imunoterapia e mobilizar o sistema imunológico contra o câncer”, conclui o especialista.

O estudo

O TBCRC-053 (P-RAD) é um estudo randomizado multicêntrico que avaliou 55 pacientes com câncer de mama triplo-negativo localmente avançado e comprometimento linfonodal. O objetivo foi investigar se a radioterapia pré-operatória poderia potencializar a resposta imunológica induzida pelo pembrolizumabe. Os resultados foram apresentados na ASCO 2026 por Alice Y. Ho, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center.

Fonte: Medicina SA

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