De olho no apoio de Jerônimo no segundo turno, presidente rejeita voto Lula-Neto pela primeira vez na Bahia, por Raul Monteiro

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Pela primeira vez na Bahia nesta campanha o presidente Lula (PT) resolveu atacar o candidato a governador das oposições, ACM Neto (União Brasil). Além de chamá-lo de ‘mentiroso’, criticou a possibilidade de uma aproximação com o líder oposicionista. Os petardos foram lançados de um trio-elétrico no circuito entre a Barra e a Ondina, que Lula percorreu ontem com a chapa majoritária petista à sucessão estadual, marcando o encerramento da campanha de rua do governador Jerônimo Rodrigues (PT) no Estado. Lula tinha um alvo: impedir a consolidação do chamado voto Lula-Neto, escolha crescente do baiano para estas eleições, detectada nas ruas e em pesquisas.

Trata-se de um fenômeno pelo qual, como diz a expressão, o eleitor escolhe Lula para presidente mas pretere seu candidato a governador na Bahia em favor do representante oposicionista. Mas o presidente pode ter feito a admoestação aos baianos tarde demais, faltando apenas quatro dias para as eleições, quando a ideia da chapa montada livremente pelo eleitor já ganhou densidade. De fato, algo mudou na avaliação do presidente na reta final da campanha em relação ao correligionário Jerônimo. Afinal, nas oito vezes em que esteve na Bahia – um recorde em relação à campanha passada, de 2022 – ontem foi a única em que atacou Neto.

Até este momento, portanto, ele se comportou como um político que parecia querer se beneficiar da ‘aproximação’ com o eleitor de Neto, que já se aproveita desta operação desde a última campanha. Com efeito, Lula pode ter alterado a estratégia apenas de última hora por ardil. Neste momento, sua mensagem teria impacto pequeno por falta de tempo para alcançar o eleitorado, sem promover mudança significativa na decisão de voto, o que continuaria lhe agregando apoios do lado da oposição. Mas ele pode ter julgado também que era hora de mudar a chave e passar a focar diretamente na ajuda a Jerônimo por uma razão simples.

Com o acirramento da disputa nacional entre ele e o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, e a consolidação da ideia de que a eleição nacional será decidida não no próximo dia 4, mas em 25 de outubro, Lula ficará infinitamente mais confortável para enfrentar o segundo turno na Bahia tendo um governador aliado e empoderado pela reeleição. Não será o caso, por exemplo, se Neto se eleger no próximo domingo – já que a existência de duas candidaturas fortes torna praticamente impossível um segundo turno na disputa estadual. Pelo contrário, por razões óbvias, o candidato do União Brasil deve vestir a camisa de Flávio, jogando todo seu novo peso político em seu favor.

Há pelo menos uma figura a quem se atribui o convencimento de Lula neste sentido. Trata-se do seu ex-chefe da Casa Civil, Rui Costa, responsável também pela mudança na agenda do presidente na Bahia da sexta-feira passada (25) para ontem, operação que deu ao governador a justificativa perfeita para faltar ao segundo e mais importante debate televisivo do Estado, promovido pela TV Bahia. Rui havia se posicionado contra a participação de Jerônimo no debate realizado pela Band, ao qual o governador foi, e intensificou a carga contra sua ida ao segundo confronto por medo de desempenho do chefe do executivo estadual, arranjando-lhe uma desculpa e tanto para sua ausência. 
 
*Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

Foto: Lucas Santa Bárbara/Divulgação

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