Estudo comparativo do Insper analisa desempenho de escolas de educação integral e regulares; educadores avaliam que instrumento é limitado
Em fevereiro deste ano, após a divulgação dos resultados do Censo da Educação Básica de 2025, muitos veículos e entidades destacaram o fato de que a meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE) 2026-2036, sobre as matrículas em tempo integral, havia sido ligeiramente superada. Em relação ao Censo de 2024, registraram-se 900 mil novas ocorrências de estudantes com permanência de pelo menos 35 horas semanais nas escolas públicas de educação básica.
Esse crescimento significou um salto de 22,9% para 25,8% do total de matrículas, 0,8 ponto percentual acima da meta. O cumprimento do objetivo foi celebrado por muitos, principalmente quando se tem em retrospectiva os percalços que marcaram o PNE anterior.
Chegar à meta parcial de um dos pilares da estratégia para a melhoria da qualidade da educação representa, sim, evolução considerável. As boas notícias, porém, não escapam de seus senões, ainda que estes possam ser postos em questão. Foi o caso do estudo Decifrando a evolução do Ideb da educação em tempo integral, divulgado por pesquisadores do Centro de Evidências da Educação, do Insper, pesquisa capitaneada pelos economistas Ricardo Paes de Barros e Laura Müller Machado.

Laura Machado é uma das coordenadoras do estudo do Insper (Foto: divulgação)
No levantamento, divulgado em agosto, eles compararam o desempenho de escolas de ensino médio em tempo integral com escolas regulares, todas elas de redes públicas, controlando aspectos como nível socioeconômico, para que representassem universos similares e, assim, pudessem fazer o paralelo sobre os índices alcançados no Ideb no intervalo entre 2019 e 2023.
O resultado mais expressivo, segundo a pesquisa, foi a queda da diferença no desempenho das escolas em tempo integral em relação a elas próprias e às de ensino regular. Houve uma pequena queda no Ideb das primeiras (de 0,07 ponto) e aumento no resultado das segundas (0,08), fazendo com que a distância entre elas caísse. A isso se acresce o fato, segundo a pesquisa, de que o ensino médio regular tende a acrescentar um aumento de 12 pontos na escala do Saeb, enquanto o impacto da educação integral deveria ser o dobro disso.
A análise como um todo é mais complexa do que o acima exposto, mas o resumo é que a perda apurada no Ideb representa 1/3 do aprendizado que a exposição à educação em tempo integral deveria significar aos estudantes. Resultado que, segundo os pesquisadores, se repetiu em 2025, com a diminuição de outro terço na diferença entre alunos da educação integral e do ensino regular, ainda que a avaliação deste segundo momento não tenha contemplado os controles socioeconômicos.
Ou seja, do ponto de vista da aprendizagem nas duas disciplinas do Saeb, a educação integral não estaria entregando o incremento esperado, ficando próxima de nivelar-se às escolas regulares. “A magnitude da redução da diferença é relevante. Precisamos fazer avaliação de impacto da educação integral. Estudar mais e descobrir as causas. Partimos do princípio de que o Ideb é um instrumento que podemos usar para avaliar a educação”, diz Laura Machado, uma das coordenadoras do estudo.
O fôlego do Ideb
Quando foi lançado, em 2007, o Ideb, que é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, foi bem-visto por grande parte de estudiosos da educação brasileira, sobretudo aqueles envolvidos com políticas públicas que professavam a necessidade de um instrumento que balizasse a aprendizagem dos estudantes. Construído a partir da conjugação de uma nota de desempenho, aferida a partir de provas de larga escala (primeiro a Prova Brasil, agora o Saeb, em língua portuguesa e matemática) e um indicador de fluxo (o percentual de aprovação), foi pensado como algo que pudesse traduzir de maneira simples a aprendizagem dos alunos.

Tereza Perez, da Roda Educativa: “Toda política nasce como experiência” (Foto: Arquivo pessoal)
Simples ele é. Em todos os sentidos. Uma nota de 1 a 10 é algo de compreensão universal. Porém, dizer que ela traduz a qualidade do ensino como um todo é algo que extrapola até mesmo seu intuito inicial. E que, em relação à educação integral, mas não só a ela, mostra apenas uma face de um todo expressivamente mais complexo.
Educadores que trabalham próximos ao chão de escolas fazem algumas ponderações em relação ao estudo do Insper. A primeira delas é a considerável expansão no número de escolas que ofereciam educação integral entre 2019 e 2023.
“Em 2019, eram em torno de 1,6 mil escolas, contra cerca de 7 mil escolas em 2023, ou seja, mais do que quadruplicou o número total. Toda política nasce como experiência, depois, quando ganha escala, deixa de ser algo no plano ideal. A expansão tem de incorporar mais gente, preparar melhor os profissionais. Apenas um dado isolado não dá conta da realidade”, diz Tereza Perez, diretora-presidente da Roda Educativa, entidade que faz processos de formação de gestores e docentes Brasil afora.
Pontos a serem considerados
O próprio estudo do Insper aventa um fator que poderia ajudar a explicar a questão da expansão. É a chamada ‘redução do viés de seleção’, em relação a fatores não observáveis: isso pode se traduzir tanto em seleção de profissionais mais qualificados como de alunos com melhor aproveitamento escolar prévio, fatos que podem ter ocorrido quando a oferta era mais limitada.
Outro fator citado pelo estudo é que boa parte do intervalo temporal que ele contempla ocorreu durante a pandemia de Covid-19. Em boa parte desse período, os efeitos dos benefícios adicionais do tempo integral podem não ter ocorrido em função da não presencialidade. E, como indicam muitos relatos, no momento imediatamente posterior a ela, muitos jovens se ressentiram pelo isolamento anterior e tiveram dificuldades emocionais e cognitivas.
O currículo do ensino médio também foi objeto de duas reformas a partir de 2017. Ou melhor, de uma reforma e uma contrarreforma. A reforma aprovada no governo Temer, em 2017, ainda não havia terminado seu ciclo de implementação quando foi posta em xeque pelo novo governo federal que assumiu em 2023. Nesse vaivém, conteúdos foram deixados para trás e depois retomados.
Para Natacha Costa, uma das coordenadoras de outro estudo sobre o tema, este realizado pelo Centro de Referências em Educação Integral (CREI), entidade que desde 2013 desenvolve metodologias e parâmetros para análise e desenvolvimento da modalidade, o Ideb, tal como usado, entra num rol de ações que concorre para uma série de padronizações da educação brasileira.
Avaliações de larga escala e uso de plataformas digitais estão entre as pontas de lança desse processo. “É preciso equilibrar avaliação quantitativa e qualitativa para não reduzir a noção de qualidade a provas externas. Dessa maneira, os profissionais da educação desaparecem como agentes do próprio trabalho; os sujeitos reais somem”, defende Natacha Costa.

“É hora de qualificar o debate”, diz a gestora Natacha Costa (Foto: arquivo pessoal)
Mencionando o levantamento do CREI que analisa aspectos de 10 escolas de educação integral, a pesquisadora, que é diretora do Colégio Vera Cruz, em São Paulo, conta que no caso da EMEF Prof. Waldir Garcia, de Manaus, terceira mais bem-colocada dos anos iniciais do estado do Amazonas no Ideb, as exigências e demandas burocráticas dos órgãos governamentais não só não ajudam, como atrapalham o trabalho. “O que favorece são processos formativos permanentes, produção do próprio material didático e avaliação participativa feita pela própria escola.”
Outra escola presente no levantamento, a EMEF Espaço de Bitiba, no bairro do Canindé, em São Paulo, mostra como os números frios podem ser enganosos. Por receber muitos migrantes e refugiados, a escola tem uma população flutuante grande, com muitos alunos que ficam ali menos de dois anos. O Ideb de 5,8 nos anos iniciais e 5,2 nos finais cresce de forma expressiva quando se isolam os dados daqueles com permanência superior a dois anos.
Um dos trabalhos realizados pela escola é contar a história de seu território, local que tem uma particularidade que ecoa forte na autoconfiança dos alunos: foi naquele espaço da cidade que viveu Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo, obra literária em forma de diário traduzida para 13 línguas.
Mais do mesmo
Outro aspecto que chama a atenção na pesquisa do Insper é que ela contemplou apenas o ensino médio, e não educação infantil e ensino fundamental. Essa mudança no início do processo de escolarização, se acompanhada, dará elementos para olhar a trajetória dos alunos como um todo e o quanto a educação integral é capaz de impactá-la.
Muitas comunidades escolares que passaram a ter educação em tempo integral revelam insatisfação em relação à preocupação com as avaliações. “Fizemos entrevista com alunos e famílias e muitos não gostam. Dizem que é mais do mesmo em busca de resultados no Saeb. Como disse uma professora do Maranhão: ‘Ideb é voto’”, conta Tereza Perez, da Roda Educativa.
Essa percepção vem ao encontro do que a professora da rede pública aposentada, hoje consultora e formadora Gina Vieira Ponte, passou em sua única vivência com educação integral, tempos atrás. Foi em Ceilândia, cidade-satélite de Brasília. “Nesse período, a escola virou uma prisão que ia das 7h às 17h”, relembra. Para ela, fala-se muito de educação integral, mas é preciso avançar no que ela significa.

A professora aposentada Gina Vieira Ponte critica a perspectiva de investir o mínimo para obter o máximo (Foto: arquivo pessoal)
“É preciso sair da ideologia da aprendizagem, da perspectiva de investir o mínimo para obter o máximo. A EI requer recursos, é a possibilidade de reinvenção da escola. É preciso investir na multidimensionalidade, oferecer literatura, arte, música, formar sujeitos políticos e estéticos”, defende. Gina reafirma também a questão do diálogo com o território como essencial para que os estudantes se vejam representados no processo educacional.
Rumos possíveis
Investir na capacidade de resolução de problemas, na criatividade, na inserção social do aluno ante as demandas da comunidade, pensar um currículo integrado entre as disciplinas tradicionais e as formas artísticas de expressão, apostar na gestão democrática e colaborativa, trabalhar com grupos heterogêneos para valorizar a diversidade, ter uma perspectiva de formação contínua e articular-se com o território e com os equipamentos públicos ao alcance da escola.
Esses são alguns dos aspectos mencionados pelas educadoras para que a educação integral atinja a potência que dela se espera. Tereza Perez acrescenta que é importante a sociedade refletir: “Que sujeitos queremos formar, quais cidades queremos ter, que futuro a gente quer? Sem esse ideário, ficaremos apenas com o resultado, como se a educação só importasse de dois em dois anos”.
Fonte: Revista Educação