“Padrão Einstein”: como Bolsonaro mistifica a saúde

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No debate da Band, Flávio volta a falar de um suposto “SUS padrão Einstein”. Mas qual o histórico do hospital de elite e o sistema público de saúde? E quem é Claudio Lottenberg, grande lobista da medicina privada que empresta sua credibilidade ao ultradireitista?

Por Bruno Cesar Dias

O SUS, a saúde pública e a pandemia de covid-19 marcaram presença no debate presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, exibido neste último domingo, 18 de outubro, pelo grupo Bandeirantes. Se não foi reveladora de todo, posto que há muito se sabe o que pensam as candidaturas sobre a temática, a presença da pauta sanitária e, principalmente, os encadeamentos discursivos dados a ela no confronto, trouxeram às claras as mistificações que embasam o discurso bolsonarista e escondem seus reais interesses.

Para isso, a mistificação conota o setor privado como promotor de benesses e detentor de uma eficácia superior ao Estado – tanto na gestão como no cuidado, este último travestido no neopentecostal discurso da prosperidade. O objetivo final é o ganho de corações e mentes e a ampliação da apropriação privada do fundo público. 

Foram dois os momentos em que a saúde adentrou o estúdio da Band no segundo bloco do debate. Para organizar essa nossa conversa, não vamos nos ater à ordem dos fatos, mas nos ganchos discursivos empregados, começando com a primeira mistificação: a de que o problema do SUS é apenas de gestão e que a sua entrega ao setor privado seria a solução, agora batizada de “padrão Einstein”.

A menção apareceu na resposta à pergunta sobre ampliação de consultas a especialistas, exames e cirurgias, bem como o necessário financiamento para tais demandas, apresentada pela jornalista e mediadora Adriana Araújo. Primeiro a responder, Flávio Bolsonaro sacou, mais uma vez, o nome de Claudio Lottenberg para a direção do Ministério da Saúde. 

A informação não é nova. Vem sendo repetida e badalada bastante pela campanha, e apareceu  também na resposta dada pelo candidato à sabatina na TV Globo. “Eu quero colocar padrão Einstein no SUS”, sintetizou ele, destacando as credenciais de Lottenberg.

O médico oftalmologista e empresário é um grande mercador da saúde, como mostra o cientista político e professor Ronaldo Teodoro na coluna “Flávio Bolsonaro quer entregar o SUS aos empresários”, publicada no Brasil de Fato. Além de ser presidente licenciado do conselho deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Lottenberg é uma das figuras de proa do Instituto Coalizão Saúde (Icos), mega entidade criada em 2014 que aglutina o lobby de diversos segmentos, como hospitais, indústria farmacêutica, seguradoras e planos privados.

Assim como Paulo Guedes serviu de “Posto Ipiranga” à campanha do pai Jair, Flávio se vale do nome de Lottenberg como uma grife, um nome forte para se desresponsabilizar das suas visíveis limitações acerca do conhecimento setorial e sinalizar ao mercado os seus verdadeiras intenções.  

Isso ficou bem claro na sua resposta. A estratégia discursiva mistificadora da cópia 01 fez uma oposição rasa relacionando o uso de tecnologia de ponta, integração de prontuários e telemedicina  às filas e à falta de medicamento nos postos de saúde, explorando o fetichismo da iniciativa privada sobre o serviço público e se valendo da complexidade do Sistema. O final da resposta fechou com uma imagética de forte apelo emocional: por meio da tecnologia e Inteligência Artificial, pais e mães vão saber imediatamente, “na palma da mão”, a qual hospital levar uma criança com febre na madrugada. “Eu vou entregar dignidade a você. O SUS vai ser padrão Einstein porque você merece.”

Na candidatura do tesouraço não explicado, o que significaria esse padrão Einstein? Lula fez questão de marcar a possibilidade de privatização do sistema de saúde por dentro para e pelas organizações sociais e filantrópicas, o que o Flávio negou balançando o dedo atrás de Lula, num ato desrespeitoso e que gerou mais um dos diversos atritos e bate-bocas que marcaram a transmissão.  

A leitura de Lula está longe de ser errada e está ancorada em dados divulgados pela própria Organização, numa campanha de marketing batizada “Tem Einstein no SUS”, planejada para marcar os 25 anos da presença do grupo no serviço público, com ações nas mídias sociais e em veículos jornalísticos. 

A presença do Einstein no SUS começou em 2001 com a administração de oito Unidades Básicas de Saúde (UBS) na zona sul da cidade de São Paulo. Atualmente, seus tentáculos alcançam a gestão de 34 unidades do SUS, incluindo 9 hospitais em diferentes estados do Brasil, entre São Paulo, Goiás, Bahia e Mato Grosso, sendo responsável pela operação de 2,1 mil leitos e 14 milhões de atendimentos por ano na rede pública, além de 200 projetos via Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). Segundo os textos das peças publicitárias, o Einstein tem uma maior presença pública do que privada. As posições de Lottenberg sobre cortes de investimento e aposta no crescimento do setor privado como estratégia para o SUS foram resgatadas por uma matéria do ICL.

O SUS é trazido pela segunda vez na pergunta de Lula, que confronta Flávio sobre a responsabilidade frente às 700 mil mortes por inação e erros deliberados do governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. O 01 fez uma inédita e curta mea culpa da familícia pela necropolítica bolsonarista, num arremedo de desculpa ensaiada com piada e fuga do debate, no qual gastou 40 segundos.

Após a réplica de Lula, que questiona a gestão dos hospitais federais do Rio de Janeiro, área de influência de Flávio durante o governo Claudio Castro, o candidato do PL centra 3 minutos na segunda mistificação: o “Ministério da Prosperidade”.  

Numa análise discursiva, as formas de cuidado e investimentos em saúde, temas que deveriam ser abordados pelo candidato, foram totalmente substituídas por uma proposta genérica, que junta empreendedorismo com uma roupagem neopentecostal sem detalhar quais políticas públicas seriam implementadas, de onde viriam os recursos ou quais ministérios atuais seriam fundidos ou extintos para acomodar a nova estrutura. 

A retórica vazia do candidato valoriza mais uma vez uma “cultura de coach” aplicada à administração pública, tomando como valor marcas privadas – dessa vez do sistema bancário. No discurso, a Caixa Econômica Federal é apresentada como “o Banco da Prosperidade”, o “Itaú das Favelas” e o “Bradesco das Periferias”. E o SUS é reduzido a hospitais, numa visão limitada de sua missão: garantir saúde como direito de cidadania.  

Não poderia fechar essa coluna e passar batido pelas falas de Lula, que dizem e expõem os acertos e das contradições do SUS em 17 anos de gestões petistas. Lula fez uma defesa enfática do caráter civilizacional do SUS, do cenário de terra arrasada encontrado no Ministério da Saúde em 2023 e de todos os esforços feitos pela sua gestão na recuperação do Sistema, com a ampliação de profissionais no Programa Mais Médicos, a criação do Programa Agora Tem Especialistas e o aumento do número de medicamentos de uso contínuo aprovados pela Rename e disponibilizados pela Farmácia Popular. 

Contudo, sabemos que os interesses privados, de diferentes e diversas naturezas e vertentes, já corroem o caráter público do SUS há bastante tempo, ou então o Einsten e outras Organizações Sociais não estariam tão presentes nos três níveis federativos, atuando diretamente na gestão, na formação de profissionais e em atravessamentos para a formulação de programas e políticas de saúde. Foram e são as próprias contradições dos governos petistas e do nosso campo político que permitiram que marcas privadas de hospitais e planos de saúde tivessem essa identificação aspiracional junto à população, fruto das próprias limitações impostas ao SUS pelas concessões ao mercado no cenário econômico neoliberal. 

Nesse momento histórico em que a discussão de propostas cedeu ao duelo da lacração no ringue digital das redes, reinventar a política passará, necessariamente, por um aprofundamento da disputa de ideias nos territórios e na ponta dos serviços, tanto junto aos profissionais como à população, com ações de Comunicação e Saúde, formação crítica e Educação Popular em Saúde em todos os postos e programas do nosso SUS. Ou sucumbiremos à barbárie velada pela mistificação.

Fonte: Outra Saúde / Imagem do debate da Band no dia 18 de outubro. Créditos: TV Band



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