Pacientes com enxaqueca frequentemente recorrem a tratamentos conservadores, como a aplicação de toxina botulínica e bloqueios nervosos com anestésicos, para reduzir as crises. Mas esse tipo de procedimento tem efeito temporário e frequentemente precisa ser repetido ao longo do ano. Nesse contexto, a cirurgia de enxaqueca se destaca como uma alternativa, principalmente quando existe suspeita de compressão de nervos periféricos.
Um estudo publicado no Journal of Plastic, Reconstructive & Aesthetic Surgery, realizado com 84 pacientes com neuralgias de cabeça e pescoço submetidos à cirurgia de descompressão de nervos, mostrou que, após o procedimento, o uso de toxina botulínica caiu de 74% para 36%, enquanto a realização de bloqueios de nervos periféricos passou de 87% para 27%. Além disso, entre os 84 pacientes avaliados, os pesquisadores projetaram uma economia anual de US$ 365,8 mil com a redução desses tratamentos.

“A toxina botulínica e os bloqueios precisam ser realizados periodicamente, enquanto a cirurgia é definitiva. Então, além da possibilidade de reduzir as crises, existe também o potencial de diminuir a dependência desses tratamentos repetitivos e, consequentemente, os custos. Quando colocamos isso na ponta do lápis, o impacto pode ser significativo”, explica o cirurgião plástico Paolo Rubez, membro da Sociedade de Cirurgia de Enxaqueca (Migraine Surgery Society) dos EUA.
No estudo, antes da cirurgia, 62 pacientes utilizavam toxina botulínica. Entre eles, 30% relataram não obter qualquer alívio com a toxina e 46% apresentaram melhora inferior a 50%. Apenas 3% relataram alívio completo. Entre aqueles que responderam ao tratamento, 86% disseram que o efeito durava menos de três meses. “A toxina botulínica age impedindo a contração muscular e, consequentemente, diminuindo a compressão dos ramos dos nervos trigêmeo ou occipital, uma das causas da enxaqueca”, detalha o médico. Já os bloqueios nervosos haviam sido realizados por 73 pacientes. E apesar de proporcionarem, em média, maior alívio do que a toxina botulínica entre aqueles que receberam os dois tratamentos, mais da metade dos pacientes que apresentaram alguma resposta relatou duração inferior a uma semana. “Os bloqueios consistem na aplicação de anestésicos locais próximos aos nervos, podendo proporcionar alívio temporário”, explica o cirurgião.
Após a cirurgia, 33 pacientes deixaram de utilizar toxina botulínica e 52 interromperam os bloqueios nervosos. Entre aqueles que continuaram utilizando a toxina botulínica, metade afirmou que as aplicações passaram a proporcionar maior benefício. O mesmo ocorreu com 39% dos pacientes que ainda necessitaram de bloqueios. “A cirurgia tem como objetivo descomprimir e liberar ramos de nervos periféricos da cabeça e do pescoço que podem estar sendo comprimidos por músculos, vasos ou outras estruturas. Com isso, observamos uma redução duradoura da frequência, intensidade e duração das dores provocadas pela enxaqueca. Com a cirurgia, muitos pacientes ficam totalmente livres das dores ou diminuem drasticamente a necessidade de medicamentos”, diz o especialista.
Assim, os pesquisadores estimaram uma economia de US$ 331,4 mil por ano com a redução do uso de toxina botulínica e US$ 34,4 mil com a diminuição dos bloqueios, totalizando US$ 365,8 mil de economia na amostra, considerando quatro aplicações anuais e os valores praticados por planos de saúde nos Estados Unidos. “Para dimensionar esse impacto, se dividirmos a economia total projetada pelo número de pacientes avaliados na amostra, isso corresponderia a cerca de US$ 4,3 mil por pessoa ao ano”, diz Paolo. Os autores também realizaram simulações para verificar se a economia permaneceria com variações na frequência das aplicações ou no número de nervos bloqueados, por exemplo. Em todos os cenários, a redução projetada nos custos continuou significativa.
O estudo ainda inclui uma estimativa do possível impacto em uma população maior. Considerando dados norte-americanos sobre enxaqueca crônica associada à neuralgia occipital e supondo que 10% dos pacientes elegíveis fossem submetidos à cirurgia, a redução do uso de toxina botulínica poderia representar uma economia próxima de US$ 434 milhões por ano nos Estados Unidos. “Para quem precisa receber aplicações a cada poucos meses durante muitos anos, os custos acabam se acumulando. Mas a questão financeira é apenas uma parte do problema. Existe também o impacto de viver dependendo continuamente de consultas, procedimentos e medicamentos para conseguir controlar as crises”, diz Paolo Rubez.
Apesar das limitações do estudo, como o tamanho da amostra, a utilização de informações relatadas pelos próprios pacientes e o acompanhamento mediano de apenas 12 meses, os resultados reforçam o potencial da cirurgia de enxaqueca. “A grande mensagem é que, para determinados pacientes, pode existir uma alternativa eficaz na redução das dores, capaz de quebrar os ciclos intermináveis de tratamentos temporários”, diz Paolo Rubez. Mas ele ressalta que a indicação precisa ser individualizada e baseada em uma avaliação criteriosa, pois a cirurgia não é recomendada para todas as pessoas com enxaqueca. “É fundamental que exista um diagnóstico adequado e que o paciente seja cuidadosamente selecionado. É uma possibilidade para casos específicos, principalmente quando há suspeita de compressão de nervos periféricos e o tratamento conservador não consegue controlar adequadamente as crises”, conclui.
Com Informações do Site Medicina SA