por Angela Monize – Terça, 10 de março de 2026
acordar de manhã para ver o sol levantando-se pela estrada. a luz ainda indecisa tocando o chão como quem testa a própria existência.
as cores de uma vida, que acredito ser minha, espalhadas nas margens do caminho.
não há para onde correr do amor.
ele chega antes do pensamento,
antes da escolha,
antes de qualquer tentativa.
ele me encontra no gesto simples de respirar. é o abrigo que cresce por dentro, como raiz silenciosa sob a terra úmida.
almejo a folha que cai. o instante em que tudo toca o solo e ainda assim permanece suspenso por uma fração invisível de tempo.
terra forte.
solução.
o sol aberto no céu, descansando sob chapéu de palha.
o vento atravessa o rosto com a delicadeza de quem conhece a pele.
cara branda.
mansa.
feito mulher que balança, na balança de um mundo clichê. e ainda assim encontra o próprio ritmo entre o peso e o ar.
há uma praia vazia dentro de mim. um horizonte comprido. cheio de histórias esperando a coragem do primeiro passo.
a areia guarda passos que ainda não dei.
e como isso termina?
uma poeta como eu não saberia explicar.
é como ter suas asas abrindo devagar no silêncio do próprio corpo.
é uma vontade de voar.
voar sem medir a distância do céu.
há dias em que o mundo inteiro parece caber na palma de minhas mãos.
e então caminho.
com o sol atravessando os ombros, com a pele morna de manhã recém-nascida, com essa certeza tranquila de quem aprendeu a gostar da vida como ela é.
e a estrada continuará brilhando diante de mim, a sina de um caminho que conhece o próprio destino.
sem pressa de chegar. o mundo respira largo.
há espaço para o passo solitário e também para o encontro.
como dois ritmos que aprendem o mesmo compasso.
um a um.
coração leve.
horizonte aberto.
reflito:
quem sabe caminhar sozinho
não impede
que outro passo
um dia
se alinhe ao meu.
Ângela Monize – Fenômenos Poéticos