Dirigentes da Ufba, médicos e especialistas em patrimônio travam batalha para evitar que sede histórica da antiga Faculdade de Medicina da Bahia vire ruína
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 12 de março de 2026
Durante mais de dois séculos, gerações de alunos atravessaram o Terreiro de Jesus para estudar no lugar onde nasceu o ensino médico do Brasil. Hoje, no entanto, quem entra na antiga Faculdade de Medicina da Bahia encontra um retrato incômodo de algo que Salvador conhece bem: patrimônios centenários deixados à própria sorte. Entre infiltrações, áreas interditadas e risco de fechamento, um dos edifícios mais simbólicos da ciência brasileira parece ter sido empurrado para a mesma prateleira de tantos outros marcos históricos da cidade — admirados no discurso oficial, mas esquecidos na prática.
O prédio atual, reconstruído em 1905 após um incêndio destruir a antiga sede e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), está localizado no Centro Histórico de Salvador — área reconhecida pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Longe de ser apenas outra construção antiga, foi ali a semente do ensino em Ciências Médicas no Brasil, em 1808. Mais que um edifício, trata-se de um símbolo acadêmico e cultural que ajudou a moldar parte da história científica do país.
Pedido de socorro
“Estou aqui para pedir socorro”, afirmou o diretor da faculdade, Antônio Alberto da Silva Lopes, primeiro negro a assumir o comando da instituição em mais de dois séculos de existência. O apelo não é retórico. Segundo ele, a situação estrutural do edifício é grave e já compromete o funcionamento da unidade.
Diversas áreas do complexo foram interditadas. O histórico Salão Nobre está fechado, assim como o Anfiteatro Alfredo Britto. O curso de Terapia Ocupacional precisou deixar o prédio às pressas por questões de segurança. “A situação é muito grave”, acrescentou o diretor.
Além das paredes
O alerta não vem apenas da direção da faculdade. Representantes do próprio Iphan já indicaram que existe risco no prédio — um cenário que poderia paralisar parte significativa das atividades acadêmicas e assistenciais que ainda resistem no local depois da mudança da faculdade para o campus da Universidade Federal da Bahia (Ufba) no Canela. E não se trata apenas de salas de aula.
O presidente da Associação de Ex-Alunos da Faculdade, Antonio Natalino Manta Dantas, relatou ao Jornal Metropole que os problemas vão muito além das áreas já interditadas. Segundo ele, o prédio histórico convive há anos com infiltrações, rachaduras, portas e janelas apodrecidas. “O anfiteatro maior, que é o Alfredo Britto, está com uma goteira imensa. Em uma certa ocasião, parte da estrutura chegou a desabar”, afirmou.
Abandono constatado
Parte dessas precariedades já foi apontada em vistorias realizadas pela Defesa Civil de Salvador (Codesal). Em relatório, técnicos do órgão identificaram infiltrações generalizadas nas fachadas internas do prédio principal, fissuras em paredes e estruturas, além de danos em elementos ornamentais da construção histórica.
O documento também registra manchas escuras e vegetação nas balaustradas, ausência de sinalização adequada de saídas de emergência e corrimãos fora das normas de acessibilidade. Ainda segundo a Codesal, foram encontrados hidrantes danificados ou desativados, tubulações do sistema de combate a incêndio com sinais de oxidação e possíveis vazamentos, além de quadros de energia instalados em paredes com infiltrações.
No anexo de dois pavimentos onde funcionava o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), o cenário é ainda mais crítico. A vistoria apontou que a estrutura está isolada por tapumes metálicos e sem lajes internas, restando apenas as paredes externas — que apresentam fissuras, trincas e rachaduras, perda de reboco, manchas escuras, vegetação na alvenaria e piso danificado.
É uma dificuldade enfrentada por muitas universidades do país, diz reitor
Segundo o reitor da Ufba, Paulo Miguez, muitas universidades administram prédios históricos e museus que fazem parte do patrimônio cultural e científico brasileiro. No entanto, convivem com limitações orçamentárias para garantir a conservação permanente desses espaços.
“Trata-se, de um lado, de prédios históricos que exigem manutenção permanente e especializada; de outro, de museus que demandam investimentos contínuos em infraestrutura, preservação de acervos e condições adequadas de funcionamento”, destacou
“A universidade tem mobilizado seus melhores esforços para enfrentar essa situação. No momento, aguardamos a elaboração de um conjunto de projetos executivos e de laudos periciais sobre diferentes espaços do edifício. Uma vez concluídos esses estudos, teremos condições de estimar o volume de recursos necessários — certamente expressivo — para avançar na recuperação definitiva do espaço”, emendou.
Luz no fim do túnel
Em nota aoJornal Metropole, a Ufba informou que já iniciou os primeiros passos para viabilizar a recuperação do prédio histórico. Segundo a instituição, foi aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o financiamento de R$ 1 milhão para a elaboração de todos os projetos executivos necessários à reforma integral da antiga Faculdade de Medicina, com contrapartida de cerca de R$ 700 mil da própria universidade.
A situação também preocupa o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb). Tamabém em nota, a entidade afirmou que acompanha com atenção as promessas de recuperação do prédio histórico, mas alertou para a necessidade de uma política permanente de conservação.
Promessa do governador
No último dia 5, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) disse que já autorizou abertura de licitação para iniciar o processo de recuperação do edifício, dentro de um pacote bancado pelo Novo PAC. De acordo com o Ipac, os recursos são voltados à elaboração de planos de restauro e requalificação de patrimônios históricos em Salvador e no Recôncavo. Basicamente, realização de estudos técnicos e projetos de arquitetura e engenharia que vão orientar a futura recuperação do edifício histórico.
Valor histórico inestimável
A história da Faculdade de Medicina da Bahia começa antes mesmo da criação formal do ensino médico no Brasil. No local onde hoje está o prédio da instituição, no Terreiro de Jesus, funcionava desde o século XVI o antigo colégio dos jesuítas, um dos centros mais importantes da formação intelectual na Salvador colonial. Após a expulsão da ordem religiosa do território português, em 1759, o espaço passou por diferentes usos até ganhar um novo papel na história do país.
Foi ali que, em 1808, com a chegada da corte portuguesa liderada pelo rei D. João VI ao Brasil, surgiu a primeira escola de Medicina do país. A instituição rapidamente se tornou um dos polos intelectuais mais influentes do Império e da República, formando gerações de médicos, cientistas e pensadores. Ao longo de mais de dois séculos, a instituição formou nomes que marcaram a ciência brasileira.
Entre seus ex-alunos estão o psiquiatra Juliano Moreira, referência internacional na área; o médico e pesquisador Pirajá da Silva, responsável por importantes estudos sobre a esquistossomose; o médico e político Manuel Vitorino, que chegou a ocupar a vice-presidência da República; o escritor e médico Afrânio Peixoto, figura influente na literatura e na medicina legal; e a médica Maria Odília Teixeira, primeira professora da Faculdade de Medicina da Bahia e uma das pioneiras da presença feminina na medicina brasileira.
Fonte: Metro1 / Foto: Marcelle Bittencourt/Metropress