Estudo quantifica perdas causadas pela remoção da vegetação nativa e aponta agricultura sustentável como resposta às mudanças climáticas
Texto: Redação*
Arte: Simone Gomes – Terça, 17 de fevereiro de 2026
Pesquisadores da USP e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) analisaram 4.290 registros de solos brasileiros e calcularam as perdas de carbono causadas pela conversão da vegetação nativa em áreas agrícolas em cada bioma do País. Ao revelar a “dívida de carbono” do Brasil, o estudo mostra que o manejo sustentável pode diminuir emissões e repor de modo significativo as perdas do solo, honrando compromissos climáticos internacionais e avançando na produção de alimentos, sem novos desmatamentos.
O trabalho foi realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da USP (CCARBON), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e da Embrapa Agricultura Digital. As conclusões do estudo são apresentadas em artigo publicado no site Nature Communications.
“A principal contribuição deste trabalho foi a estimativa da dívida de carbono no solo, interpretada como o potencial teórico de recarbonização dos solos agrícolas e como um indicativo do potencial para o mercado de carbono”, conta João Marcos Villela, primeiro autor do artigo elaborado durante estudo de pós-doutorado na Esalq, com bolsa da Fapesp. “Além disso, foi feito o estabelecimento da linha de base dos estoques de carbono orgânico em áreas nativas e agrícolas.”
“Com base na elaboração de um banco de dados inédito sobre carbono orgânico no solo nos biomas brasileiros, o trabalho também evidenciou o potencial de práticas conservacionistas na recomposição do carbono perdido”, relata Villela. “Espera-se que esses resultados subsidiem a formulação de políticas públicas de mitigação climática no Brasil e orientem ações do setor privado, contribuindo para o direcionamento de estratégias de intervenção adaptadas às realidades regionais e para o cumprimento das metas climáticas do setor agropecuário.”
O estudo é baseado em uma metanálise que reuniu 4.290 registros sobre estoques de carbono orgânico do solo nos seis biomas brasileiros. O trabalho estima que a conversão de áreas naturais para a agricultura provocou uma perda acumulada de 1,40 ± 0,1 petagrama de carbono (Pg C) na camada de 0 a 30 centímetros do solo. A massa de um petagrama equivale a 1.015 gramas. Esse valor expressa a chamada dívida de carbono, ou seja, a quantidade de carbono que deixou de ser armazenada no solo após a substituição da vegetação nativa.
Para chegar a essa estimativa os pesquisadores compararam áreas agrícolas e remanescentes de vegetação natural nos biomas do Brasil. A análise também levou em conta como diferentes sistemas de manejo, as características de formação dos solos e as condições climáticas regionais influenciam a perda, a manutenção ou a recuperação dos estoques de carbono ao longo do tempo.
“Dívida de carbono”
Um dos pontos centrais da pesquisa é a explicação de como a “dívida de carbono” se acumula. O estudo destaca que o clima e as características pedogenéticas (da formação dos solos) são fatores determinantes. Solos que possuem naturalmente maiores estoques de carbono — geralmente localizados em regiões mais frias, úmidas ou com alta presença de argila e minerais que protegem a matéria orgânica — são os que sofrem as maiores perdas quando convertidos.
Isso ocorre quando práticas de manejo que envolvem o revolvimento mecânico (como a aragem e a gradagem) quebram os agregados do solo que protegiam o carbono. Com a ruptura dessas estruturas, o oxigênio penetra nas camadas internas e acelera a oxidação da matéria orgânica por microrganismos.
O resultado é a rápida degradação do carbono que é liberado para a atmosfera. O tempo desde a conversão é uma variável crítica. Os primeiros 15 anos após a substituição da vegetação nativa pela agricultura são os mais graves. É nesse período que ocorre a perda mais drástica e acelerada de carbono.
Segundo os pesquisadores, o trabalho fez uma avaliação individualizada por biomas, o que permitiu revelar que a dívida de carbono no solo não se distribui de maneira homogênea pelo território brasileiro, refletindo a grande diversidade de solos, climas e formações vegetais do País. Biomas como a Mata Atlântica, por exemplo, apresentam elevado aporte de matéria orgânica ao solo, resultado da alta produtividade vegetal, e grande parte desse carbono é estocado. Ao contrário da Amazônia, que mesmo com o grande aporte de matéria orgânica, o clima favorece a decomposição, reduzindo a capacidade de estocagem. Já em outros biomas, como o Cerrado ou a Caatinga, a dinâmica do carbono no solo responde a combinações distintas de clima, textura do solo e histórico de uso da terra.
Potencial de recarbonização
Os resultados indicam que a área agrícola brasileira concentra um elevado potencial de recarbonização do solo. De acordo com um artigo de 2022 citado no estudo, a recuperação de pastagens degradadas, por exemplo, apresenta potencial para recompor entre 14% e 23% dos estoques de carbono orgânico perdidos. Já sistemas mais diversificados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), além do uso de plantas de cobertura e do plantio direto, mostraram-se capazes de reproduzir parte da dinâmica dos ecossistemas naturais, aumentando o aporte de resíduos vegetais e favorecendo o acúmulo de carbono no solo.
De acordo com as estimativas do estudo, a recarbonização de cerca de um terço do potencial total identificado seria suficiente para que o Brasil atingisse a meta de redução de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, estabelecida em sua nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). Na prática, esse objetivo poderia ser alcançado ao se aproveitar aproximadamente 40% a 45% do potencial de recuperação da Mata Atlântica e do Cerrado, estimado em 3,8 Pg de CO₂ equivalente.
“A principal contribuição do estudo foi revelar a oportunidade que existe na agricultura”, diz Maurício Cherubin, diretor de pesquisa do CCARBON da USP. “Ao quantificar a dívida de carbono dos solos, conseguimos enxergar com mais clareza o potencial de recarbonização dos biomas brasileiros e as possibilidades reais de recuperação de áreas degradadas, mostrando que práticas sustentáveis podem transformar o solo em um aliado da produção e da mitigação climática.”
Esses resultados ganham ainda mais relevância quando consideramos a área total agrícola do País. Segundo dados do MapBiomas, cerca de 282,5 milhões de hectares – aproximadamente um terço do território nacional – são, atualmente, destinados à agricultura e à pecuária. O estudo mostra que, ao adotar práticas de manejo sustentável nessas áreas já convertidas, o Brasil pode avançar simultaneamente na produção de alimentos, na recuperação dos solos e no cumprimento de seus compromissos climáticos internacionais, sem necessidade de novos desmatamentos.
Para o diretor do CCARBON, professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, os resultados reforçam o papel da pesquisa para o desenvolvimento de políticas públicas. “Quando a gente mapeia a lacuna de carbono no solo, fica mais fácil fortalecer programas como o ABC+, hoje RenovAgro”, enfatiza. “A informação ajuda a dar mais credibilidade aos créditos de carbono baseados no solo e identificar onde estão as melhores oportunidades de sequestro e restauração. Isso conecta a ciência às políticas públicas e ao mercado, e coloca o solo no centro da ação climática.”
Nesse cenário, o estudo reforça que não é necessário avançar sobre novas áreas de vegetação nativa para aumentar a produção agropecuária. O caminho apontado pelos pesquisadores é a intensificação das áreas já convertidas, por meio de práticas de manejo que recuperem o carbono do solo, aumentem a eficiência produtiva e ampliem a resiliência dos sistemas agrícolas frente às mudanças climáticas. O artigo Soil carbon debt from land use change in Brazil está disponível neste link.
Mais informações: [email protected], com o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri
* Escrito pela equipe de Disseminação Científica do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON) da USP. Revisado por Júlio Bernardes
Fonte: Jornal USP / Manejo quebra agregados do solo que protegiam o carbono, fazendo o oxigênio penetrar nas camadas internas e acelerar oxidação da matéria orgânica por microrganismos, levando à rápida degradação do carbono que é liberado para a atmosfera – Foto: George Campos / USP Imagens