Em carta, figuras como Javier Bardem, Tilda Swinton e Fernando Meirelles condenam a postura do Júri da Berlinale, comandado pelo diretor Wim Wenders
Um dos festivais de cinema mais politizados do mundo tem sido amplamente criticado pelo “silêncio institucional” em relação ao genocídio em Gaza, praticado por Israel. Contrariando sua vocação crítica, o Festival de Berlim (Berlinale) 2026, com o Júri presidido pelo diretor alemão Wim Wenders, decepciona com uma postura covarde e de censura.
Após Wenders afirmar que o cinema deve se manter “fora da política”, uma carta assinada por mais de 80 artistas da indústria cinematográfica manifestou contrariedade à declaração. Os signatários condenaram “o silêncio institucional da Berlinale sobre o genocídio dos palestinos”.
Entre os que assinaram o documento, divulgado na terça-feira (17), estão figuras como Javier Bardem, Tilda Swinton e o diretor brasileiro Fernando Meirelles, responsável pelos filmes “Cidade de Deus” (2002) e “Dois Papas” (2019).
Controvérsia
O premiado diretor alemão de clássicos como “Paris, Texas” (1984) e “Asas do Desejo” (1987) tentou esvaziar o sentido político da Berlinale ao responder um questionamento de um jornalista na semana anterior.
Perguntado sobre a hipocrisia do Júri do Festival, patrocinado pelo governo alemão, por se solidarizar com a Ucrânia enquanto a autoridade nacional apoia o genocídio em Gaza, Wenders se saiu de forma lamentável: “Temos que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que sejam dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o contrapeso da política”, disse o presidente do Júri.

Para completar a polêmica, a diretora da 76ª Berlinale, Tricia Tuttle, ainda foi em defesa de Wenders e dos cineastas do Júri, ao dizer que eles têm direito à livre expressão e não devem ser obrigados a se manifestar sobre todas as questões, a não ser que queiram.
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A situação causou uma avalanche de críticas e fez com que a escritora indiana Arundhati Roy cancelasse sua participação. Ela afirmou à mídia indiana que está chocada ao ouvir que a “arte não deve ser política”, sendo esta uma forma de silenciar um “crime contra a humanidade”.
À Folha, o diretor brasileiro Karim Aïnouz afirmou que “fazer cinema sempre foi um ato político”. Ele está na direção do filme “Rosebush Pruning”, que concorre ao Urso de Ouro em Berlim.
Ainda segundo o cineasta, a declaração de Wenders foi infeliz, sendo que o alemão é responsável por “um cinema profundamente político e transformador”.
Carta ao Festival
Na carta pública ao Festival, os mais de 80 profissionais de cinema pedem que as instituições do cinema “se recusem a ser cúmplices da terrível violência que continua a ser perpetrada contra os palestinos”.
Conforme afirmam no documento, os signatários se dizem “consternados com o envolvimento da Berlinale na censura de artistas que se opõem ao genocídio israelense contra os palestinos em Gaza e com o papel fundamental do Estado alemão ao permiti-lo”.
Eles também lembram que, na edição anterior, os cineastas que se manifestaram em apoio à Palestina foram repreendidos agressivamente, com um episódio em que um colega chegou a ser investigado pela polícia alemã e atacado falsamente pela direção do Festival.
Também foi ressaltada contrariedade à fala de Wenders de que o cinema é o oposto da política: “Não se pode separar uma coisa da outra.”
Além disso, o texto destaca que “apesar das inúmeras evidências das intenções genocidas de Israel, dos crimes e atrocidades sistemáticas e da limpeza étnica, a Alemanha continua a fornecer a Israel armas usadas para exterminar palestinos em Gaza”.
O texto indica ainda que, ao contrário da Berlinale, outros festivais internacionais têm endossado “o boicote cultural ao apartheid israelense”.
Para completar, a carta evidencia que o Festival de Berlim ainda não atendeu aos pedidos de sua comunidade cinematográfica para que faça uma declaração que afirme o direito dos palestinos à vida, à dignidade e à liberdade e condene o genocídio israelense, assim como fez em outras oportunidades, em situações envolvendo Irã e Ucrânia.
Por fim, ao citar o Instituto de Cinema Palestino, os profissionais foram enfáticos ao dizer que estão consternados “com o silêncio institucional da Berlinale sobre o genocídio dos palestinos e com sua relutância em defender a liberdade de expressão dos cineastas”.
Fonte: Portal Vermelho / Cartaz do Festival. Foto: Berlinale