CNE vota proibição do uso de IA para correções de questões dissertativas sem o “olhar” de um professor

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Daniel Cara comenta a respeito do projeto de regulamentação e a situação atual da inteligência artificial no Brasil no campo educacional

O Conselho Nacional de Educação (CNE) votará, nesta segunda-feira (16), a regulamentação do uso da inteligência artificial (IA) na educação brasileira, com regras e medidas que abrangem desde a educação básica até o ensino superior. O documento começou a ser discutido no último dia 23, em conjunto com o Ministério da Educação (MEC), e inclui a proibição do uso da tecnologia para correções de questões dissertativas sem o acompanhamento de um professor. Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da USP, comenta a respeito dos principais pontos do projeto.

Daniel Tojeira Cara – Foto: Jane de Araújo/Agência Senado via Flickr

“A proposta é tentar determinar um uso regulado da IA em relação aos dois atores do processo educacional, que são os professores e estudantes, essa foi a preocupação de início. Na sequência, existe uma preocupação sobre os procedimentos de trabalho, tanto de professores como de alunos, como a elaboração de trabalhos ou correções de provas, por exemplo. Acontece que tanto a iniciativa no Congresso Nacional quanto no Conselho Nacional de Educação são duas iniciativas que não atingem o problema maior: o Brasil não tem pensado sobre a soberania em relação à criação de uma inteligência artificial própria. Essa questão não está sendo debatida na regulamentação e eu considero a mais importante, trata-se de uma regulamentação fraca, que não chega próxima do que os países escandinavos e a União Europeia têm discutido e não chega nem perto do que a China tem feito com suas inteligências artificiais próprias.”

“A inteligência artificial deve ser tratada como uma ferramenta de trabalho que deve ser controlada e comandada pelos seres humanos. No caso brasileiro, considerando que as inteligências artificiais têm que produzir respostas em língua portuguesa, deveria ser discutida uma forma de garantir com que a informação sobre o algoritmo e o banco de dados das inteligências artificiais tivessem um equilíbrio em relação ao viés, por exemplo, além de uma Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, ou seja, a produção autóctone, construir modelos de inteligência artificial que são próprios do Brasil. Isso é algo que nós temos condição, a USP, muito provavelmente nos próximos anos, tem intenção de trabalhar em conjunto com o Instituto Militar de Engenharia (IME). Isso assusta muita gente, eu entendo até se assustarem por isso, mas, em termos de estratégia, é necessário”, explica o professor.

Uso inadequado da IA nas escolas

Cara ressalta que, atualmente, existem muitas escolas que utilizam a inteligência artificial de forma inadequada, que reforçam o que ele chama de ‘viés de alucinação’. “A Rede Estadual de São Paulo, por exemplo, faz um uso inadequado que pode ser limitado pelas regulamentações nacionais. A forma atual como se opera a IA é na produção de material didático, então todo esse problema de viés de alucinação acaba acontecendo no trabalho com os alunos. O viés de alucinação não é uma alucinação em relação à qualidade da resposta, não se trata da IA inventando dados ou criando fontes, mas ela cria interpretações que não são verdadeiras. Um exemplo é a Guerra dos Cem Anos, que é relatada como um épico e vitorioso inglês, ou a questão da Revolução Industrial, também é tratada como se o Reino Unido tivesse praticamente realizado tudo. Se você for analisar em termos curriculares, você vai encontrar uma coincidência com a forma como o material didático é operacionalizado nos Estados Unidos.”

“Uma aula criada por inteligência artificial, que é o que está sendo feito no Estado de São Paulo, é uma aula que não tem solidez efetiva para o processo de ensino-aprendizado. O professor não pode ser submetido ao material didático, ainda mais um material didático frágil, como a inteligência artificial. Se for esse caminho, o livro didático é melhor do que a inteligência artificial, tanto para o aluno como para o professor poder trabalhar, isso é o que a Suécia tem feito, por exemplo. A Suécia retrocedeu o modelo de utilização de tecnologias ao perceber que utilizar somente as tecnologias não funcionava, eles voltaram até para métodos da primeira metade do século 20, com livros didáticos e exercícios escritos à mão para desenvolvimento cerebral. Há evidências que comprovam que eles estão em um caminho que é sólido, ainda que assustadoramente saudosista, mas que tem sido sólido.”

De acordo com Cara, a correção de questões dissertativas e provas feita por professores é fundamental para o aprendizado dos alunos. “Toda vez que o professor entra em uma sala de aula, ele faz uma aposta. Uma aposta de que ele vai ensinar, que é o que ele pode fazer, e de que os alunos vão aprender, que é o que eles podem fazer. Esses são os dois esforços, o do ensino e o do aprendizado. A única forma de você checar se isso está indo bem, da forma mais objetiva possível, é a correção das atividades avaliativas, que devem servir ao aprendizado e à melhoria do ensino e não à atribuição de nota. A atribuição de nota é uma consequência do processo necessária para criar um diálogo comum entre quem ensinou e quem fez o esforço de aprender. Se eu utilizar inteligência artificial para me auxiliar na correção do trabalho, eu nunca vou ter uma ideia real de como a turma aprendeu, porque eu não sei exatamente o que a inteligência artificial, com todos os vieses que ela tem, vai considerar o que é uma resposta correta ou não. A resposta correta passa a ser uma resposta reprodutiva do trabalho feito pelo professor em sala de aula, e a resposta reprodutiva mata uma característica essencial que o Brasil deveria investir: a criatividade do aluno, esse é um problema de uma cultura pedagógica, o que torna a situação mais dramática.”

O Observatório Nacional de IA na Educação

O professor acredita que a ideia de um Observatório Nacional de IA voltado para a educação, como previsto na regulamentação, não parece estar próxima de se tornar realidade. “Essas são aquelas ideias institucionalistas que o Congresso Nacional cria para fingir que está resolvendo um problema e não resolve problema nenhum. É importante observar que existem processos paralelos tanto no Conselho Nacional de Educação como no Congresso Nacional, e o Ministério da Educação vai se pronunciar e, sendo honesto, de maneira completamente insuficiente nos dois casos. O Conselho está para homologar o parecer e o Congresso Nacional tem participado das audiências públicas, mas eu considero que tem feito uma intervenção vergonhosa no Congresso, porque simplesmente enaltece tecnologia sem pensar criticamente na tecnologia. A tecnologia não precisa ser enaltecida, porque os seres humanos, homens e mulheres, nunca negam a tecnologia, porque a tecnologia é inerente à produção humana e a gente vai fazer uso da tecnologia. É possível ver isso com a maravilha que são os smartphones e o uso franco até mesmo de crianças que não sabem ler e conseguem utilizar”, finaliza o professor.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira

Fonte: Jornal da USP / A inteligência artificial deve ser tratada como uma ferramenta de trabalho que deve ser controlada e comandada pelos seres humanos – Foto: José Cruz/Agência Brasil


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