Combinação inédita em terapia fotodinâmica pode tratar infecção grave nos olhos

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Em testes laboratoriais, uso de corante e de luz verde inibiu o crescimento de fungos isolados da ceratite infecciosa, doença grave que afeta a córnea

Texto: Redação*
Arte: Thiago Quadros


Sexta, 3 de abril de 2026

Uma técnica desenvolvida por cientistas brasileiros combinou um corante especial à luz verde para ajudar a combater a ceratite, um tipo grave de infecção fúngica que atinge a córnea, camada externa e transparente dos olhos. A doença pode surgir após traumas no olho, uso inadequado de lentes de contato ou contato com água e objetos contaminados. Em situações mais graves, a ceratite pode provocar cicatrizes na córnea, dor intensa e até cegueira.

No trabalho, os pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP aplicaram o corante sintético rosa bengala na terapia fotodinâmica com luz verde. O método mostrou resultados promissores contra cinco de oito tipos de fungos mais comuns encontrados em casos de ceratite infecciosa. Além disso, esse é o primeiro estudo a testar a atividade da combinação em fungos dematiáceos – microfungos com pigmentação escura e altamente resistentes a pressões ambientais.

O procedimento funciona de maneira relativamente simples: primeiro o corante entra em contato com o microrganismo – no caso, os fungos isolados de ceratite infecciosa. Depois de potencializado pela luz verde, o corante age como um fotossensibilizador e danifica as células dos fungos, impedindo sua multiplicação. Esse processo é conhecido como terapia fotodinâmica, uma forma não invasiva de tratamento que permite destruição seletiva de células afetadas por bactérias, lesões, fungos ou células cancerígenas.

Para realizar o experimento, os cientistas desenvolveram um equipamento personalizado que emite luz verde e aplicaram a técnica em amostras de fungos isolados de pacientes com infecções na córnea. Os resultados indicaram que a combinação entre o corante e a luz conseguiu inibir o crescimento do complexo F. solaniP. lilacinumC. albicans, complexo C. parapsilosis e E. oligosperma, mas não foi capaz de agir na inibição de S. apiospermum, do complexo A. niger e de C. geniculata, mesmo quando combinada ao antibiótico antifúngico Anfotericina B (Amphobactina).

“O tratamento padrão para ceratite fúngica infecciosa geralmente é desafiador, pois esses microrganismos podem ser resistentes aos agentes convencionais”, informam os pesquisadores no artigo. “Mesmo combinando ambos os tratamentos in vitro, não houve inibição do crescimento nessas amostras. Felizmente, a concentração de Anfotericina B usada na clínica é muito maior do que a usada em nosso experimento”, comentam.

Por isso, ainda serão necessários novos estudos para entender quais casos podem se beneficiar mais dessa abordagem.

Avaliação da terapia fotodinâmica com rosa bengala para a inibição do crescimento de isolados de fungos causadores de ceratite. Para cada placa, uma zona central foi selecionada para medição (círculo vermelho). Os resultados mostraram inibição do crescimento no tratamento com rosa bengala a 0,1%/luz verde para o complexo Fusarium solani , Purpureocillium lilacinum, Candida albicans, complexo Candida parapsilosis e Exophiala oligosperma (grupo IV) – Imagem: Extraída do artigo

Um caminho para novos tratamentos

Embora o estudo tenha sido realizado em laboratório, os resultados reforçam o potencial da terapia baseada em luz como uma nova ferramenta no tratamento de doenças oculares infecciosas. Se pesquisas futuras confirmarem sua eficácia em pacientes, a técnica poderá ajudar a reduzir complicações graves, evitar cirurgias e preservar a visão de pessoas afetadas por infecções na córnea. Especialistas destacam que, em doenças oculares, o diagnóstico precoce e o tratamento rápido são essenciais para evitar danos permanentes à visão. Assim, novas alternativas terapêuticas podem representar um avanço importante para a oftalmologia.

Jarbas Caiado Neto é professor e pesquisador do Instituto de Física da USP em São Carlos – Foto: Arquivo pessoal

Para o docente e pesquisador da USP Jarbas Caiado Neto, esta pesquisa tem potencial para ajudar a visão de milhares de brasileiros. “O nosso laboratório no IFSC vem perseguindo técnicas ópticas para curar doenças na córnea antes não curadas. No passado, desenvolvemos de forma inédita a técnica de CrossLink para curar problemas de bioelasticidade da córnea, que resulta na doença do ceratocone. A técnica que desenvolvemos tornou-se padrão mundial nesse tipo de tratamento”, afirma o professor.

Essa técnica com rosa bengala, que agora estamos desenvolvendo, também tem potencial para se tornar um padrão mundial no tratamento de ceratites, doença essa que facilmente leva à cegueira” – Jarbas Caiado Neto

A expectativa dos pesquisadores é que, com o avanço dos estudos clínicos, tecnologias semelhantes possam integrar o arsenal de tratamentos disponíveis para combater infecções oculares que hoje ainda representam um grande desafio para a medicina.

O artigo In Vitro Evaluation of Photoactivated Rose Bengal for Growth Inhibition of Fungi Isolated From Keratitis foi publicado na revista internacional The Journal of Cornea and External Disease.

* Por Rui Jorge Sintra, da Assessoria de Comunicação do IFSC. Adaptado por Tabita Said

Fonte: Jornal USP / A ceratite microbiana é uma das principais causas de cegueira em países desenvolvidos e em desenvolvimento – Foto: Kevin Harber/Flickr

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