Como nasce um músico de frevo? Conheça os caminhos na mais antiga escola do ritmo em Olinda

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O Grêmio Musical Henrique Dias transmite os saberes e fazeres do frevo desde 1954, formando diversas gerações de músicos

Para que o frevo seja o coração da festa na rua e faça pulsar vida no Carnaval de Pernambuco é preciso que suas principais artérias, os músicos das orquestras, tenham um completo domínio do ritmo que guia as multidões ao êxtase. O frevo, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, é celebrado em Pernambuco com uma data só sua neste 9 de fevereiro. Mas quais são os caminhos que tornam alguém apto para fazer ecoar pelas ladeiras e becos os sons que são as pulsações vitais da folia de Momo?

A resposta pode estar no encontro entre as ruas do Amparo e Treze de Maio, mais especificamente no Grêmio Musical Henrique Dias, a primeira escola profissionalizante para músicos de orquestra de Olinda. Em atividade há 72 anos, a Henrique Dias foi o local onde diversas gerações de músicos e maestros que fazem hoje o carnaval da cidade deram seus primeiros passos – ou tocaram os seus primeiros acordes. 

Foi assim com Lúcio Henrique, que chegou naquela escola em 1988, aos 10 anos de idade, para aprender os caminhos do frevo e hoje é diretor musical e professor do grêmio. Lúcio dá aulas de teoria musical e solfejo, o primeiro passo para quem quer ser um músico de frevo na Henrique Dias, junto com uma imersão nos ritmos da cultura popular pernambucana. 

“O início é semelhante a qualquer formação musical: você vai aprender valores musicais, melódicos, rítmicos, solfejo. Mas aqui também já vai aprendendo os contextos culturais do próprio frevo, da ciranda, do maracatu”, explica o diretor musical. “Antes de ser designado para qualquer instrumento, todos os alunos passam primeiro pela flauta doce, para consolidar essas primeiras noções”, complementa. 

O diretor musical e professor Lúcio Henrique chegou na Henrique Dias aos 10 anos
O diretor musical e professor Lúcio Henrique chegou na Henrique Dias aos 10 anos | Crédito: Arquivo Pessoal

Após dois meses desses estudos, os alunos passam para os instrumentos específicos, sejam de sopro ou percussão, aprendendo as lições técnicas e o domínio de cada um. O frevo continua como uma grande diretriz do aprendizado e estudantes têm contato também as principais músicas do ritmo. Com um ano, eles já estão aptos para compor a Orquestra Experimental Henrique Dias, também conhecida como Orquestra Jovem, uma espécie de estágio do grêmio, que faz suas primeiras apresentações em eventos menores. 

Com o bom desempenho na Orquestra Experimental, os alunos passam a integrar a orquestra principal do grêmio, que embala os mais grandiosos cortejos das agremiações da cidade. É uma responsabilidade que o jovem Guilherme Roberto, de 15 anos, já carrega no bojo de seu saxofone, quando passou a fazer parte  do grupo oficial no carnaval do ano passado. 

“Eu lembro que fiquei muito nervoso quando passei para a orquestra maior, com blocos maiores e muito mais músicos. Tinha medo de errar nos ensaios e nas ruas, mas contei com muita motivação dos meus amigos da Orquestra Experimental e dos meus pais, que sempre me acompanham”, conta Guilherme. O apoio também veio da acolhida dos músicos mais experientes. O jovem músico fez parte de cortejos dos maiores que circulam na cidade durante o carnaval, como o Eu Acho é Pouco e o Cariri Olindense

Entre os desafios desse aprendizado, Guilherme elenca dois como dos principais que precisou superar. O primeiro é de ordem corporal, do fôlego para conseguir soprar adequadamente o instrumento, sendo um dos seus primeiros receios nos ensaios, mas logo dominado. O segundo vem da memória, de conseguir decorar os frevos e todas as suas complexidades rítmicas e harmônicas para tocá-los nas ruas. Seu primeiro foi Canhão 75, de Nino Galvão. “Mas não adianta decorar e não praticar, porque se esquece fácil. Eu passei por isso. Terminou Carnaval e deu um branco nos ensaios, meses depois. Tive que reaprender”, alerta o músico. 

O jovem Guilherme Roberto já faz parte da orquestra principal do grêmio
O jovem Guilherme Roberto já faz parte da orquestra principal do grêmio | Crédito: Arquivo Pessoal

As aulas para novos alunos na Henrique Dias começam imediatamente após o Carnaval. O grêmio recebe estudantes de 9 a 17 anos, promovendo uma imersão que incute não só sabedoria musical, mas uma paixão pela cultura popular. Guilherme, por exemplo, não era muito próximo do frevo e da cultura de Carnaval como um todo. Seu amor pelo ritmo, que hoje é parte do seu dia a dia, nasceu na Henrique Dias. 

O perfil dos alunos costuma ser de jovens residentes do Sítio Histórico de Olinda e das periferias do entorno. Diante de um cenário de dificuldades de ordem social, a escola precisa se empenhar para manter a constância desse processo de aprendizado, chegando junto também das famílias dos estudantes. 

“Temos uma grande parte de alunos que vêm de um contexto de vulnerabilidade social. A maioria não possui os instrumentos, por exemplo. Quando temos alguns à disposição, cedemos, mas também chegamos junto aos pais para ver possibilidades de conseguirmos algum usado ou que possamos reformar para que eles possam treinar”, relata o diretor Lúcio Henrique.

Agora é chegada a hora de mais uma maratona para os músicos jovens e veteranos da Henrique Dias – apesar de já estarem num ritmo intenso de trabalho nos últimos meses, desde o início das prévias. O preparo já está consolidado para Guilherme e os demais músicos: um bom descanso no dia anterior, uma boa refeição antes de sair de casa – evitando alimentação nas ruas -, beber muita água, protetor solar, chapéu na cabeça e o fôlego necessário para ser parte do que torna o Carnaval de Olinda, uma das maiores e mais bonitas festas do planeta.

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Editado por: Vinicius Sobreira

Fonte: Brasil de Fato / Foto: O Grêmio Musical Henrique Dias forma músicos desde 1954


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