Contos de fadas ajudam na educação das crianças. E na percepção dos adultos

cultura

Katia Canton traz o encanto das narrativas mágicas para os pais e filhos na arte de viver

“Contos de fadas são obras de arte, heranças vivas da humanidade que foram criadas e recriadas, na voz e na escrita, por milhares de pessoas reconhecidas ou anônimas. É importante lembrar que, desde a época das cavernas, os contos de magia foram criados e materializados para diferentes necessidades humanas, como amenizar dores e medos, dar exemplos de condutas, viajar na imaginação. Suas narrativas são construções simbólicas inventadas como formas estéticas. São as histórias que nos fazem humanos…”

Com essa convicção, a escritora, artista visual, psicanalista e professora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, Katia Canton, leva os leitores a mergulhar em seu novo livro, Contos de Fadas, Modos de Ser e de Usar: Educação, Arte e Psicanálise, lançamento da editora Panda Educação. Uma edição que integra a pesquisa, arte, ciência e educação. Com sensibilidade, a autora consegue despertar a percepção dos pais e filhos leitores. Sai na defesa dos contos de fadas na educação das crianças, reunindo pesquisas e estudos de diversos autores como Jack Zipes, Maria Tatar, Angela Carter, Nelly Novaes Coelho e conceitos de Sigmund Freud, Carl Jung, Jacques Lacan, além de poetas e artistas.

“Este livro foi pensado para todos aqueles que amam histórias e acreditam nas narrativas mágicas”, argumenta Katia. “As narrativas dos contos de magia e dos contos de fadas são de fato potentes ferramentas formativas. Constroem formas alargadas de legitimar nossas vidas e heranças humanas; portanto, são imprescindíveis para todos nós.”

 Os contos se alastraram e foram ganhando jeitos próprios e características singulares à medida que eram recontados.

A autora Katia Canton também conta a sua história. “Os contos de fadas compõem a cartografia da minha vida desde que eu era muito pequena. Narram a trajetória de uma menina muito tímida e sonhadora que passava as tardes ouvindo histórias de uma tia-avó”, lembra.

Katia Canton: “Este livro foi pensado para todos aqueles que amam histórias e acreditam nas narrativas mágicas” – Foto: Cecília Bastos

Os contos de fadas foram seguindo Kátia como artista e crítica de arte, despertando o seu olhar para além das paisagens. E hoje estão, como ela define, nas várias linguagens da arte, nas produções e oficinas de arte-educação, tornando-se lema de toda a sua carreira acadêmica, do mestrado ao pós-doutorado, como professora e curadora no Museu de Arte Contemporânea da USP e também na sua sensibilidade como psicanalista. “Para mim, desde criança, o lado mais belo e significativo do conto de fadas sempre esteve associado à sua capacidade de produzir esperança. Mas não se trata de uma esperança plena, lisa, a priori, ou mesmo transcendente, ligada a algum tipo de religiosidade. A esperança alavancada pelas histórias incita um modo de pensar como potência ativa dos personagens que se lançam em uma luta, muitas vezes desesperada, por uma vida melhor.”

Com a certeza da importância das narrativas mágicas na educação e no desenvolvimento de crianças e adultos, Katia Canton tem se dedicado a uma pesquisa multidisciplinar. No livro Contos de Fadas, Modos de Ser e de Usar: Educação, Arte e Psicanálise, a autora busca a origem dessas histórias que aliam sonhos e fantasias ao cotidiano da realidade. “Sabemos que é muito difícil precisar com exatidão onde e como os Homo sapiens começaram a criar contos de magia”, explica Katia. “Na verdade, há opiniões divergentes sobre a origem dessas histórias, muitas delas incrivelmente semelhantes, ainda que contadas por povos distantes entre si física e culturalmente.”

A autora argumenta que alguns pesquisadores atribuem as similaridades nos enredos por abordarem questões comuns à condição humana, como a luta do bem e do mal, o certo e o errado, o humano e o não humano. “Outros defendem que as narrativas surgiram num momento e cultura específicos, se espalhando pelo planeta como a própria expansão do Homo sapiens sobre a Terra. Nesse sentido, os contos se alastraram e foram ganhando jeitos próprios e características singulares à medida que eram recontados.”

Das obras pioneiras de Marie de France, das fadas de Madame D’Aulnoy, dos contos dos Irmãos Grimm até a ‘Branca de Neve e os Sete Anões’ de Walt Disney.

Katia Canton apresenta uma perspectiva histórica cuidadosa. “Se pudermos pensar as histórias dos contos desde o início, no momento em que criamos narrativas orais, percebemos que esse é um carretel muito grande, com fios que não param de passar”, argumenta. “Se pontuarmos a literatura, desde os manuscritos medievais, percebemos que ela vai em direção à sofisticação dessas histórias, que já não estão mais na linguagem oral, na boca do povo, mas passam também a ser registradas pelas pessoas que tinham domínio da escrita.”

Foto: Reprodução/Livro Contos de Fadas

Nesta perspectiva histórica, Katia observa que os estudos sobre os contos de fadas vêm sendo o foco de pesquisadores contemporâneos. Aponta um estudo realizado em 2015 pela pesquisadora Sara Graça da Silva, da Universidade Nova de Lisboa, Portugal, e por Jamie Tehrani, antropólogo da Universidade de Durham, no Reino Unido. “Essa pesquisa atesta que algumas das histórias por trás dos contos de fadas teriam até seis mil anos, ou seja, da Idade do Bronze, datando de 3.000 a.C. Ou seja, numa cronologia mais antiga do que aquela atribuída à mitologia grega.”

O livro desperta a atenção dos leitores, especialmente porque a autora investiga os contos milenares árabes e as obras pioneiras da poetisa Marie de France. Conta que a inventora do termo “conto de fadas” foi Marie-Catherine Le Jumel de Barneville, a Madame D’Aulnoy, que, no reinado de Luís XIV, levava para os salões literários da época a moda dos contos de fadas e seres mágicos. Katia vai pontuando o caminho dessa narrativa entre autores clássicos como o poeta francês Charles Perrault, os Irmãos Grimm, Jacob Ludwig e Wilhelm, na Alemanha. E chega à apropriação dos contos pelo cinema de animação. “Em 1937, Walt Disney concretizava o sonho de realizar seu primeiro longa-metragem de animação, Branca de Neve e os Sete Anões, um estrondoso sucesso que retirou os estúdios de uma grave crise financeira que assolava os Estados Unidos e o mundo”, explica Katia Canton. “Alguns anos depois, foi a vez de Cinderela, em 1950, A Bela Adormecida, em 1951…” Um movimento criativo que atravessou o milênio. Uma viagem entre histórias que o leitor vai reconhecer na sua própria história.

Foto: Reprodução/Livro Contos de Fadas

“Os contos de fadas não apenas ensinam às crianças lições sobre a vida, o amor e si mesmas, mas também podem promover reflexões sobre a sociedade, seus valores, sua ética, seus modos de operar”, explica Katia. “Há toda uma gama de operações de sentido que expandem o valor do aprendizado de ouvir e ler histórias, dependendo das singularidades de cada vida que as recebe.”

Torço para que os livros, as histórias tenham vida longa…

Em Lisboa, onde vive e pesquisa, a professora Katia Canton envia um depoimento especial para o Jornal da USP neste mês dedicado às crianças. E homenageia os pais e filhos leitores dos contos de fadas:

“Hoje somos todos, em maior ou menor grau, afetados pelas redes sociais, pelas ramificações de notícias vorazes, muitas vezes difundidas sem nenhuma checagem, e pela introdução da inteligência artificial que, como diz o brilhante cientista Nicolelis, não é nem artificial, nem inteligente.

Diante de um panorama de estímulos acelerados, acredito que ler seja um ato político. Torço para que os livros, as histórias tenham vida longa, pois, como discuto neste recente livro, foi a capacidade narrativa que nos fez humanos. É a capacidade de continuar contando e inventando histórias que garantirá que nossa humanidade continue existindo, mesmo diante de um mundo repleto de dificuldades.

Katia Canton e seu filho, João Roberto: “Muitas histórias para contar…” – Foto: João Monteiro/ Arquivo pessoal

Vivia pedindo histórias para minha tia-avó Cecília. Depois que aprendi a ler, ficava horas no quarto, nesse delicioso exercício de virar as páginas, sonhar, visualizar…

Passo para todos os pais e crianças, os livros que ficaram gravados na minha mente e coração: As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato; Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak; O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon; O Touro Ferdinando, de Munro Leal; A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector; Ou Isso ou Aquilo, de Cecília Meireles, e Flicts, de Ziraldo. Mas há outros, muitos outros… Ler permite, entre outros prazeres, manter e alargar a capacidade de sonhar, de criar, de esperançar.”

Contos de Fadas, Modos de Ser e de Usar: Educação, Arte, Psicanálise, de Katia Canton, editora Panda Educação, 136 páginas. Preço: R$ 55,90.

Fonte: Jornal da USP / Livro integra a pesquisa, arte, ciência e educação – Foto: Reprodução/Livro Contos de Fadas


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