Para Eneas Carlos Pereira, da Fundação Padre Anchieta, instituições de comunicação públicas são fundamentais na formação de cidadãos
“A pós-verdade, a desinformação ou as fake news nascem do casamento perverso entre populismo e polarização. Ambos retroalimentam a pós-verdade. Nós temos que olhar isso não como um privilégio da esquerda ou direita política, mas sim como uma conduta humana para manutenção do poder.”

Foi com essa afirmação que Eneas Carlos Pereira, diretor de programação da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), iniciou sua fala durante o 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas, ocorrido de 21 a 22 de maio, na Universidade de São Paulo (USP). A afirmação foi feita durante a mesa sobre As contribuições e as estratégias das emissoras públicas para enfrentar o cenário de desinformação e promover a democracia.
Evolução tecnológica

Segundo Eneas, a desinformação aumentou drasticamente com o desenvolvimento de novas tecnologias e softwares, que intensificaram a repercussão de notícias falsas. “A partir disso, passamos a entender a ascendência das fake news nos anos 2010, com o nascimento das fazendas digitais na Rússia, que acabam se manifestando primeiro na eleição do Trump, depois na ascensão de governos autoritários na Polônia e na Hungria, por exemplo”, ressaltou.
De acordo com o diretor, a comunicação pública não tem acompanhado essas transformações nas mídias. “Existe uma nova forma de fruir conteúdo. As pessoas hoje absorvem conteúdo de uma forma distinta. Os programas de uma hora já não têm a mesma funcionalidade”, disse.
Importância da comunicação
Os espectadores e o público das rádios e televisões são fundamentais na área da comunicação. Para o diretor, a audiência não é premissa, mas sim uma consequência. “Se não estamos comunicando direito, estamos fazendo errado. Nós lidamos com um bem de espírito, com a formação dos cidadãos. Não estamos lidando com um bem de mercado.” Eneas Pereira complementou, ainda, que o ambiente acadêmico, com um elevado número de laboratórios e pesquisas, é essencial na elaboração de métodos eficazes de comunicação popular.
Ao final de sua fala durante o painel no congresso, o diretor realçou o jornalismo como figura independente. “Se não for independente, não é jornalismo, é assessoria de imprensa. Como somos emissoras públicas, demanda-se uma relação com o governo. O que não significa ser subserviente. Nós temos que estar abertos a todos os movimentos e pulsações da sociedade”, completou.
*Estagiário sob supervisão de Marcello Rollemberg / Fonte: Jornal da USP / Foto: Marcos Santos/USP