Alfabetizada apenas aos 11 anos de idade e moradora da zona rural de Biritinga, no interior da Bahia, Gabriele Souza Costa, hoje com 21, acaba de conquistar uma vaga no curso de Agronomia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2026. Egressa do Colégio Estadual de Tempo Integral de Biritinga, ela fez história ao se tornar a primeira pessoa da família a ingressar em uma universidade, resultado que carrega o peso da superação e da esperança.
A alegria pela aprovação também levou Gabriele a relembrar uma infância marcada por dificuldades e silêncio. “Eu não sabia ler, escrever, nem soletrar meu próprio nome. Não sabia nada”, conta. A convivência com colegas da mesma idade gerava vergonha, até o momento em que decidiu admitir que precisava aprender. “Quando eu entendi que não era culpa minha, que eu precisava aprender, eu corri atrás e com a ajuda de professores eu aprendi. E foi algo mágico”, relata.
A partir desse despertar, a leitura passou a ocupar um lugar central em sua vida. “Eu comecei a ler vários livros, eu lia um livro por dia”, afirma. Obras de autores como Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e Graciliano Ramos ajudaram a ampliar horizontes e fortalecer sonhos. “Mesmo agora, com a rotina dos estudos, eu continuo lendo. A leitura me transformou”.
Gabriele destaca que a escola estadual foi essencial para a sua aprovação. “Os professores do colégio são excelentes e me ajudaram bastante durante esse ano de preparação. Os gestores, o diretor, o pessoal da secretaria, todos são profissionais de qualidade”, afirma. Segundo ela, as aulas preparatórias para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aliadas ao trabalho desenvolvido em sala de aula, especialmente na disciplina de Redação, foram decisivas. “Tivemos esse contato com os assuntos que poderiam cair no Enem, e isso ajudou muito”, completa.
O momento da aprovação foi vivido com emoção intensa. “Foi como se eu entrasse em estado de choque. Eu fiquei parada, relembrando tudo que aconteceu na minha vida. Eu não conseguia acreditar. Foi o meu primeiro Enem, e foi muito significativo para mim”, conta. Para ela, a conquista representa também um ato de honra à própria história familiar. Meus bisavós eram negros e analfabetos. Isso é para honrar eles”.
Para a direção do colégio, o resultado é motivo de alegria e orgulho. Segundo o diretor da unidade, Mário Tierres, a escola já esperava que Gabriele alcançasse esse êxito. “Ela sempre foi uma estudante muito dedicada, comprometida com os estudos. A aprovação não nos surpreendeu, mas nos deixou extremamente felizes, porque confirma o esforço dela e o trabalho pedagógico desenvolvido na escola”, afirma.
Fonte: Elisabeth Guerra Ascom/SEC / Crédito: Gabriele Costa